Please use this identifier to cite or link to this item: http://repositorio.ufes.br/handle/10/3135
Title: Ecos do Silêncio: Juízos de Surdos no Âmbito da Formação Superior sobre Projetos de Vida e Humilhação nas Perspectivas Moral e Ética
metadata.dc.creator: ANDRADE, A. N.
Keywords: moral;ética;humilhação;projeto de vida;identidade surda;
Issue Date: 30-Aug-2012
Publisher: Universidade Federal do Espírito Santo
Citation: ANDRADE, A. N., Ecos do Silêncio: Juízos de Surdos no Âmbito da Formação Superior sobre Projetos de Vida e Humilhação nas Perspectivas Moral e Ética
Abstract: Investigamos as perspectivas moral e ética de pessoas surdas por meio da análise da possível relação entre as características da vida presente, as projeções de si no futuro e a experiência pessoal de humilhação no passado. Participaram da pesquisa 16 surdos que haviam se matriculado no ensino superior, divididos igualmente quanto ao sexo, distribuídos nas seguintes faixas etárias: 21 25 anos (n=4); 26 30 anos (n=8); 31-35 anos (n=1); 36-40 anos (n=3). Realizamos entrevistas individuais por meio do método clínico piagetiano em língua de sinais, as quais foram filmadas na íntegra para posterior transcrição dos dados. A discussão dos resultados foi composta por cinco estudos interdependentes que dizem respeito a: 1) características que compõem a identidade surda; 2) opções morais e éticas sobre a atuação profissional e a formação acadêmica; 3) projeções de si no futuro; 4) exemplos de humilhação pessoal; 5) influência da humilhação nos projetos de vida. Cada um dos estudos apresentados nessa tese, com exceção do primeiro, contemplou o Grau de Consideração de Si e do Outro (GCSO), à medida que se verificavam explicações baseadas na conexão com o outro, na desconexão do outro e na inclusão de si, conforme a natureza do objeto investigado. Considerando as respostas e as justificativas mais frequentes, constatamos que, dentre as características dos participantes, todos são surdos pré-linguísticos, sendo que a maioria conhece a causa da surdez, referindo-se a doenças, hereditariedade e intervenção médica mal sucedida. Apenas uma entrevistada adquiriu a língua de sinais sem atraso por ser filha de pais surdos, enquanto para sete participantes houve atraso de 17 a 19 anos. Esta aquisição tardia foi beneficiada principalmente pelo contato com amigos surdos e com pessoas da comunidade surda, contribuindo para a constituição da identidade de transição. O relacionamento afetivo é, em especial, com pessoas surdas, posto que seis solteiros e três casadas estavam com um(a) parceiro(a) surdo(a). Em relação às opções morais e éticas sobre a atuação profissional e a formação acadêmica, a maior parte dos universitários atua na divulgação da língua de sinais como instrutores de LIBRAS e na educação como professores de surdos devido à conexão com a comunidade surda; no entanto, também foram apresentados argumentos do tipo autocentrado, com elementos de reconhecimento de si com valor positivo. Sobre os cursos em que ingressaram, há matrículas em mais de uma graduação por participante, prevalecendo escolhas em Letras-LIBRAS e em Pedagogia. Quanto à situação do primeiro curso, sete participantes concluíram, sete estavam cursando e dois participantes abandonaram a primeira graduação. A escolha por esse curso foi baseada em argumentos conectados com a comunidade surda e autocentrados com base no reconhecimento positivo de si. Esse tipo de argumento foi principalmente mencionado pelos entrevistados que cursavam a segunda graduação. A investigação sobre os projetos de vida revela que os participantes se interessam pela própria atividade profissional bem como pelo investimento na formação acadêmica, seguido pelo relacionamento afetivo e pela aquisição de bens materiais. Todavia, argumentos do tipo autocentrado são especialmente considerados em relação às próprias características, necessidades e potencialidades para atuar sobre o mundo, mas também há menção a conteúdos hedonistas. A conexão está presente, sobretudo em relação a uma coletividade, pois há argumentos conectados com a comunidade surda e com a sociedade. No estudo sobre as experiências de humilhação, constatamos que esta é tema reconhecido pelos participantes, sendo igualmente as experiências frequentes, exceto para uma universitária em cuja história de vida inexistem situações de rebaixamento. Os demais relatam situações de exclusão, com destaque para a educacional, injúria, calúnia e difamação e impossibilidade de comunicação, justificadas por meio de conteúdos de impotência e de condição. Dentre os argumentos, foi nítida a desconsideração do outro pelos participantes, sendo que o principal tipo diz respeito a pessoas próximas desconectadas de si e à sociedade desconectada de si. Os exemplos de humilhação considerados como os mais importantes pelos entrevistados são de exclusão, injúria, impossibilidade de comunicação, incompreensão e/ou intolerância e ausência de apoio. Para investigar a relação de influência entre humilhação e projetos de vida, primeiramente verificamos que o tema da influência vincula-se à ideia de algo positivo. Assim, para a maioria, a humilhação, cujo teor é negativo, não poderia influenciar os projetos de vida valorizados pelos participantes como planos de transformação positiva de si e de uma coletividade. Dentre os que não reconheceram tal influência, os argumentos foram principalmente autocentrados com aspectos do reconhecimento de si com valor positivo. Entretanto, nesses casos constatamos a influência ao comparar os tipos de humilhação e os tipos de projetos elencados. Quanto àqueles que identificaram relação entre a humilhação e os projetos de vida, há destaque para os planos de atividade profissional, inclusão social dos surdos e relacionamento afetivo como alvos de influência, sendo as principais justificativas de conexão. A análise do GCSO nos estudos em que se aplicou possibilita a constatação de que o mundo dos possíveis se revela vasto quando sondamos as projeções de si no futuro, pois é nesse âmbito que se encontra o número mais significativo de justificativas. Os argumentos conectados aparecem em maior número quando se trata de explicar a atuação profissional e a formação acadêmica no presente, e aparecem em segundo lugar entre os argumentos dos projetos de vida. Atuar no presente e projetar-se no futuro são formas de cooperar com os seus iguais, reforçando principalmente a educação de surdos e a divulgação da língua de sinais para a sociedade. Os argumentos autocentrados são imediatamente mencionados ao se tratar de atividade profissional e da formação superior em curso, ganhando destaque nas justificativas dos projetos de vida, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento de si como um ser capaz de agir no mundo. Os argumentos conectados, por sua vez, são menos expressivos na humilhação pessoal; no rebaixamento, as justificativas são principalmente caracterizadas pela desconexão de si. Os resultados indicam que os participantes elaboram projetos de vida em uma perspectiva ética, incluindo a si próprios como também o outro, com especial atenção para a comunidade surda, mas também com pretensão de inclusão da sociedade. Há ligação entre o presente, o passado e o futuro, considerando que a experiência humilhante de exclusão educacional ainda se reproduz no presente, quando os participantes investem na própria formação superior para futura atuação profissional, mas enfrentam o despreparo dos professores ouvintes quanto a adequar seu método de trabalho à inclusão de surdos no ensino superior. Esperamos que esse estudo seja útil à discussão sobre políticas públicas na área da educação especializada para surdos, como também contribua com a ampliação do conhecimento científico sobre a perspectiva moral e ética desse público.
URI: http://repositorio.ufes.br/handle/10/3135
Appears in Collections:PPGP - Teses de doutorado

Files in This Item:
File Description SizeFormat 
tese_3519_TESE_ALLINE N ANDRADE 2012.pdf2.64 MBAdobe PDFView/Open


Items in DSpace are protected by copyright, with all rights reserved, unless otherwise indicated.