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Title: Qorpo-Santo: um caso de fabricação de loucura no Brasil no século XIX.
metadata.dc.creator: PROENCA, E. L.
Issue Date: 14-Mar-2012
Publisher: Universidade Federal do Espírito Santo
Citation: PROENCA, E. L., Qorpo-Santo: um caso de fabricação de loucura no Brasil no século XIX.
Abstract: A relação entre Qorpo-Santo e loucura tornou-se tema desta pesquisa depois de despertado o interesse pela história de Qorpo-Santo que, à semelhança de outros importantes artistas, foi considerado louco e não obteve reconhecimento em vida pela sua produção literária. Qorpo-Santo era professor, escritor e dramaturgo, viveu ao sul do Brasil no século XIX e produziu uma obra cujo valor para a literatura e o teatro descobriu-se somente cem anos mais tarde. Tido como louco por alguns membros da sociedade, o professor foi afastado das atividades no magistério e interditado judicialmente. Porém, o processo de interdição, solicitado por sua esposa, foi conturbado e controverso; em diferentes momentos, os juízes solicitaram que Qorpo-Santo fosse examinado por médicos a fim de que emitissem pareceres sobre sua sanidade mental. Foram muitos os médicos que o avaliaram, Qorpo-Santo chegou inclusive a ser encaminhado ao Hospício Pedro II no Rio de Janeiro para ser observado pelos alienistas mais influentes da época. A grande maioria destes profissionais posicionou-se pela manutenção dos direitos do examinando de gerir a própria vida e os bens, tendo em vista que gozava de saúde mental. A resolução final da justiça, contudo, contrariando a opinião destes médicos, privou Qorpo-Santo desses direitos. Definiu-se, então, como proposta para este estudo discutir as concepções de loucura vigentes na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX e compreender o processo de fabricação da loucura em Qorpo-Santo, tendo em vista as características da sociedade e das políticas de saúde da época em que viveu. Primeiramente, a partir de uma revisão de trabalhos já publicados acerca da situação da loucura no Brasil dos oitocentos, apresentam-se as mudanças que ocorreram nesse período na forma como era entendida a loucura e com relação às práticas sociais que lhe eram dirigidas. De uma realidade na qual os loucos costumavam compor o cotidiano das cidades, passou-se para um contexto em que a loucura começava a ser vista como um problema social e era enviada com frequencia cada vez maior para as instituições; inicialmente, para as instituições de caridade ou para as cadeias públicas e, depois, para os hospícios que se espalharam pelo território nacional. A loucura acabou se tornando objeto da medicina que, pouco a pouco, alcançou hegemonia sobre esta problemática, embora esse processo tenha ocorrido de forma distinta nas diferentes regiões do País. Ao analisar a história de Qorpo-Santo e seus textos, percebeu-se que suas experiências com relação à loucura se deram justamente nesse momento de transição no que dizia respeito às concepções de loucura e das ações que se constituíam destinadas a este público. Havia, por exemplo, disputas entre as diferentes autoridades que procuravam se legitimar na definição dos destinos dos loucos. Num embate entre diferentes poderes, tais como a família, a justiça e a medicina, Qorpo-Santo acabou isolado na sua luta para demonstrar que não era louco e que não merecia ser usurpado de seus direitos. Sua escrita foi o principal instrumento nesse enfrentamento; pode-se compreendê-la como precioso relato de um sujeito que resistiu às ações que insistiam em lhe sobrepujar.
URI: http://repositorio.ufes.br/handle/10/5475
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