UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO MARCELO CALDERARI MIGUEL Formação e preservação do acervo fotográfico do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV): memórias, testemunhos e o patrimônio canela-verde VITÓRIA 2024 MARCELO CALDERARI MIGUEL Formação e preservação do acervo fotográfico do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV): memórias, testemunhos e o patrimônio canela-verde Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciência da Informação. Linha de pesquisa: Memória, Representação e Informação. Orientadora: Professora Dra. Rosa da Penha Ferreira da Costa. VITÓRIA 2024 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Espírito Santo - UFES Sistema Integrado de Bibliotecas - SIB/Ufes (campus de Goiabeiras) Gerada automaticamente pelo módulo Catalog, mediante os dados fornecidos pelo(a) autor(a) ___________________________________________________________________________ M577f Miguel, Marcelo Calderari. —Formação e preservação do acervo fotográfico do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV) : memórias, testemunhos e o patrimônio canela-verde / Marcelo Calderari Miguel. – 2024. 147 f. : il. color. —Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Ciência da Informação, Vitória, 2024. —Orientação: Prof a . Dr a . Rosa da Penha Ferreira da Costa. 1. Fotografia. 2. Memória coletiva. 3. Patrimônio. 4. Preservação documental. I. Título. CDU 001 ___________________________________________________________________________ Formação e preservação do acervo fotográfico do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV): memórias, testemunhos e o patrimônio canela-verde Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciência da Informação. Aprovado em 23 de julho de 2024. COMISSÃO EXAMINADORA __________________________________ Profa. Dra. Rosa da Penha Ferreira da Costa Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) __________________________________ Profa. Dra. Lucileide Andrade de Lima do Nascimento Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) __________________________________ Prof. Dr. Gillian Leandro de Queiroga Lima Universidade Federal da Bahia (UFBA) A Deus. Aos meus pais, Regina Maria Calderari e Sebastião Aníbal (in memoriam). AGRADECIMENTOS Nesses anos iniciais da década de 2020, um período marcado por turbulências globais, como as tensões entre os Estados Unidos e o Irã, a pandemia de Covid-19, a guerra do Tigré na Etiópia, a queda de Cabul com a retomada do Talibã no Afeganistão, a invasão russa na Ucrânia em 2022 e o fim do reinado de Elizabeth II, minha jornada de mestrado e a descoberta do Transtorno do Espectro Autista (TEA) constituíram uma montanha-russa de sensações que culminaram no despertar da minha consciência imediata e a refletida. Em meio a essas tempestades, muitas pessoas foram meus companheiros e companheiras fiéis, compartilhando sua intimidade material e sensitiva com um completo desconhecido. Sem a generosidade e o apoio delas, eu nada teria alcançado. Expresso minha imensa gratidão aos profs. Drs. Anna Carla Almeida Mariz, Daniela Lucas da Silva Lemos, Gillian Leandro de Queiroga Lima, Gleice Pereira, Henrique Monteiro Cristovão, Lucileide Andrade de Lima do Nascimento, Luiz Carlos da Silva, Maira Cristina Grigoleto, Margarete Farias de Moraes, Marta Leandro da Mata, Meri Nadia Marques Gerlin, Rosa da Penha Ferreira da Costa (orientadora) e Taiguara Villela Aldabalde. Agradeço igualmente o apoio da diretoria 2023-2026 do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV), composta por Elder Ferreira Marques Nunes, Lauro Antônio Souza Rodrigues, Luiz Paulo Siqueira Rangel (Presidente), Luiza Celina Negrelli Valdetaro Rangel, Marco Antônio Rodrigues Feitosa, Maria Cristina Valdetaro Rangel, Murilo Gonçalves Coelho, Paulo Roberto Segatto Simões, Ricardo Coelho dos Santos, Roberto Brochado Abreu, Rogério Binda Constantino e Walter de Aguiar Filho, entre outros confrades. Meu reconhecimento e agradecimento são direcionados às amizades que, numa troca afetuosa de experiências e incentivos, me animaram ao longo dessa trajetória. De forma particular, agradeço a Alzinete Maria Rocon Biancardi, André Malverdes, Breno Emanoel Sundehus, Celso Adolfo Sales, Dulcinea Sarmento Rosemberg, Jonatan Lappa de Lima, Dra. Lara Giovanka Menezes, Maycon Douglas dos Santos da Silva, Philippe Peterle Modolo, Regina Maria Calderari Miguel, Rogério Zanon da Silveira, Sátia Marini e Sandra Maria Souza Carvalho. Minha profunda gratidão pela receptividade, incentivo e colaboração durante meus estudos, na privilegiada companhia de sua afetuosa, inteligente e bem-humorada humanidade. – Carlos, e se você pintasse essa árvore? [...] Ele começou a pintar navios e eu continuei na atitude que tinha escolhido tomar naquele dia: – Carlos, onde é que você está vendo navios às 10 horas da manhã, aqui nesse morro? Ele olhou para mim com estranheza e disse: – Ora, ora, são navios navegando entre as estrelas! [Nise da Silveira narra diálogo com Carlos Pertuis, artista, paciente interno do Engenho de Dentro] “É necessário se espantar, se indignar e se contagiar. Só assim é possível mudar a realidade”. (Silveira, 2007) RESUMO Investiga-se como o processo de formação e preservação do acervo fotográfico do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV) contribui para a preservação da memória coletiva de Vila Velha (ES). O objetivo geral deste estudo é analisar o processo de formação e preservação do acervo fotográfico do IHGVV para a preservação da memória coletiva do município. Especificamente, a pesquisa explora as relações entre memória coletiva e preservação de acervos fotográficos no campo da ciência da informação, descreve o processo de formação e consolidação desse acervo, diagnostica as estratégias de preservação utilizadas e avalia a atuação do IHGVV na preservação da memória coletiva, desde sua emergência até suas finalidades atuais. Fundamentado em teorias de memória coletiva e lugar de memória, como as de Maurice Halbwachs e Pierre Nora, que tratam a memória como um fenômeno social e coletivo, o estudo adota uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório-descritivo, centrada no estudo de caso do IHGVV. A metodologia combina revisão bibliográfica, análise documental de atas de reuniões, observação das diretrizes operacionais dos colaboradores e entrevistas para compreender as práticas de gestão do acervo iconográfico dessa instituição de utilidade pública. Os resultados revelam que o acervo imagético do IHGVV é crucial para preservar a memória coletiva e afetiva de Vila Velha (ES), de forma a fortalecer os laços culturais da comunidade e garantir que a população tenha acesso a um patrimônio que preserva a história e conecta diferentes gerações. A pesquisa destaca práticas eficazes de conservação que podem ser aplicadas em outras instituições museológicas e arquivísticas, e propõe ações concretas para a ampliação, difusão e mediação desse acervo. Para maximizar a preservação e o alcance do acervo imagético, recomenda-se a implementação de Sistemas Informatizados de Gestão Arquivística e Repositórios Arquivísticos Digitais Confiáveis (RDC-Arq), que não apenas asseguram autenticidade (identidade e integridade), confidencialidade, disponibilidade e preservação desses documentos, mas também ampliam o acesso à memória coletiva da cidade. Essa pesquisa sublinha a importância de estratégias integradas de gestão arquivística e políticas públicas que valorizem a história de instituições como o IHGVV, contribuindo para a continuidade da preservação cultural. Palavras-chave: Fotografia; Memória coletiva; Patrimônio; Preservação documental. ABSTRACT Our research focuses on how the development and maintenance of the photo archive at the Historical and Geographical Institute of Vila Velha (IHGVV) help safeguard the shared history of Vila Velha (ES). The main goal of this research is to examine how the IHGVV's photo collection was created and maintained to safeguard the town's shared history. The study focuses on how collective memory influences the maintenance of photo collections in information Science, describes the process of formation and consolidation of this collection, diagnoses the preservation strategies used and evaluates the IHGVV's performance in preserving collective memory, from their early stages to their current objectives. The foundation of this concept lies in the social and collective aspects of memory, as discussed by Maurice Halbwachs and Pierre Nora. The research utilizes a qualitative method, focusing on exploring and describing the IHGVV case study. The methodology involves examining the bibliographic review, making a documentary analysis of meeting minutes, observing employees' operational guidelines and interviews to understand the management practices of the iconographic collection of this public utility institution. It has been found that the IHGVV's visual repository is essential for protecting the shared and emotional memories of Vila Velha, with the intention of reinforcing the cultural ties within the society and securing intergenerational availability to a tradition that respects the past and unifies various age groups. The research highlights successful conservation methods that can be employed in other museum and archival organizations, and suggests specific actions for the expansion, dissemination and mediation of this collection. For optimal preservation and accessibility of the image collection, it is advised to introduce Computerized Archival Management Systems and Reliable Digital Archival Repositories (RDC-Arq). Their responsibility is to ensure the legitimacy, confidentiality, availability, and perpetuation of these documents, while also improving the public's access to the city's collective past. This research highlights the importance of integrated archival management strategies and public policies that value the history of institutions such as IHGVV, which aid in the ongoing effort of cultural preservation. Keywords: Photography; Collective Memory; Heritage; Documentary Preservation. SIGLAS E ABREVIATURAS UTILIZADAS ANCIB Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação APEES Arquivo Público do Estado do Espírito Santo BDA Base de Dados em Arquivística BDTD Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações BRAPCI Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação CAAE Certificado de Apresentação de Apreciação Ética CEP/UFES Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo CI Ciência da Informação CNAE Classificação Nacional de Atividades Econômicas Conarq Conselho Nacional de Arquivos CRFB Constituição da República Federativa do Brasil CT&I Ciência, Tecnologia e Inovação DBTA Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística ENANCIB Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação ES Espírito Santo Ibram Instituto Brasileiro de Museus IGHs Institutos Históricos e Geográficos IHGB Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro IHGVV Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional LGPD Lei Geral de Proteção de Dados ODS Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ONU Organização das Nações Unidas OSCIP Organização da Sociedade Civil de Interesse Público PMVV Prefeitura Municipal de Vila Velha PPGCI Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação RNL Revisão Narrativa de Literatura TCLE Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UFES Universidade Federal do Espírito Santo UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO: BALUARTE DAS ORIGENS E O OÁSIS DE RECORDAÇÕES ...................................................................................................... 12 2 PELO JARDIM DAS HESPÉRIDES DA LITERATURA ACADÊMICA: UMA REVISÃO NARRATIVA DE LITERATURA –RNL ................................... 20 2.1 LENTES DO TEMPO: FOTOGRAFIAS COMO SUSTENTÁCULOS DA MEMÓRIA COLETIVA............................................................................................... 22 2.2 A MAGIA DO PATRIMÔNIO: COMO A FOTOGRAFIA REVIVE E RECRIA NOSSAS RAÍZES CULTURAIS ................................................................................ 28 2.3 LUGARES DE MEMÓRIA: O LABIRINTO DAS RECORDAÇÕES E A FORÇA DA IDENTIDADE ...................................................................................................... 33 2.4 PRESERVAÇÃO OU PERDA? O FUTURO DOS ACERVOS FOTOGRÁFICOS EM JOGO .................................................................................................................... 36 2.5 ENTRE ECOS E RELÍQUIAS: O GARIMPO DAS NARRATIVAS HISTÓRICAS PELOS INSTITUTOS HISTÓRICOS E GEOGRÁFICOS ........................................ 39 3 TECENDO MEMÓRIAS VIVAS: A FOTOGRAFIA E O IHGVV NA PRESERVAÇÃO DA CULTURA E PATRIMÔNIO COLETIVO ....................... 42 3.1 A MEMÓRIA COLETIVA NA FORMAÇÃO E PRESERVAÇÃO DA CULTURA LOCAL ........................................................................................................................ 42 3.2 GUARDIÃO DAS MEMÓRIAS: A FOTOGRAFIA COMO PILAR DO PATRIMÔNIO CULTURAL E DOS LEGADOS HISTÓRICOS .............................. 44 3.3 O IHGVV SOB O PRISMA E A INCUMBÊNCIA DE SE PRESERVAR O BEM CULTURAL ................................................................................................................ 46 4 TESSITURAS E MOSAICOS: A TRAMA METODOLÓGICA DA PESQUISA CIENTÍFICA ............................................................................................................. 49 4.1 DA NATUREZA E DA CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA ..................................... 49 4.2 DA ESTRATÉGIA QUE SITUA A REVISÃO DE LITERATURA ........................... 51 4.3 DO OLHAR SOBRE O CASO, SOBRE O CAMPO DE AÇÃO ............................... 51 4.4 DA PRODUÇÃO, OBTENÇÃO E INTERPRETAÇÃO DE DADOS ....................... 53 4.5 DOS PROCEDIMENTOS ÉTICOS DE PESQUISA ................................................. 56 4.6 DAS DIRETRIZES DE RISCOS E BENEFÍCIOS .................................................... 58 11 5 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS …..................................................... 59 5.1 MEMÓRIAS IMORTAIS: JORNADA E INTERVENÇÃO EM PROL DA AQUISIÇÃO E PRODUÇÃO ..................................................................................... 61 5.2 GUARDIÃS DO TEMPO: AVALIAÇÃO, CLASSIFICAÇÃO E CONSERVAÇÃO AO ENCONTRO DO LEGADO IMAGÉTICO ......................................................... 68 5.3 EXPLORAÇÃO DO PATRIMÔNIO VISUAL: A DESCRIÇÃO E O ACESSO ÀS MEMÓRIAS FOTOGRÁFICAS DO IHGVV ............................................................ 78 6 DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS ................................................... 88 6.1 PROCESSO DE FORMAÇÃO DO ACERVO FOTOGRÁFICO DO IHGVV........... 93 6.2 PROCESSO DE CONSOLIDAÇÃO DO ACERVO FOTOGRÁFICO DO IHGVV.......................................................................................................................... 98 6.3 O PRISMA DA PRESERVAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DO ACERVO NO IHGVV ........................................................................................................................ 104 6.4 AÇÕES ADIMPLIDAS QUE CONTRIBUEM PARA A PRESERVAÇÃO E DISSEMINAÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA DE VILA VELHA - ES ................. 115 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES ......................................... 121 REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 129 ANEXO – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)………………………………………………………………………………. 142 APÊNDICE – ROTEIRO DE ABORDAGENS E TÓPICOS SEMIESTRUTURADOS PARA A PESQUISA (RATS-P) ......................................... 145 12 1 INTRODUÇÃO: BALUARTE DAS ORIGENS E O OÁSIS DE RECORDAÇÕES O interesse nesta pesquisa emergiu durante o estágio supervisionado em 2022, no curso de bacharelado em Arquivologia na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Essa experiência prática e profissional despertou o desejo de investigar mais a fundo o Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha (IHGVV), conduzindo o estudo com uma base teórica fundamentada na Ciência da Informação (CI). Estruturada para desenvolver, em uma fase subsequente, estratégias de preservação fotográfica, esta pesquisa considera as particularidades da patrimonialização cultural de arquivos no Brasil e revisita princípios arquivísticos. As reflexões e contribuições deste trabalho mostram a importância dos documentos fotográficos na preservação da história e da memória coletiva, evidenciando como esses registros visuais são essenciais para a compreensão do passado e a construção das identidades de comunidades, cidades e indivíduos. O início deste estudo está vinculado à formação acadêmica e profissional na área da arquivologia, expandindo-se com o convite para integrar o conselho/diretoria do IHGVV, a partir de outubro de 2022. Com base nesse contato inicial e nas interações subsequentes ao longo deste percurso, espera-se que este projeto de mestrado contribua significativamente para a valorização da salvaguarda do patrimônio cultural do IHGVV. Ademais, apreender e registrar a memória, a fotografia 1 revela elementos indizíveis que podem gerar um impacto emocional comum entre seus observadores. Este trabalho tem ainda relevância científica ao ampliar o campo de pesquisa a um instituto histórico e geográfico regionalizado e, assim, expandir olhares acadêmicos sobre a temática: o patrimônio cultural, a preservação e a memória coletiva. Ao mesmo tempo, o estudo contribui para a construção de novos saberes na área da CI, ao alargar o debate sobre as maneiras de se preservar o patrimônio e o acervo fotográfico a partir da perspectiva memorialista aplicada a certa realidade e processo de urbanização. Segundo Rueda, Freitas e Valls (2011), foi a partir da década de 1970 que se intensificou no 1 Paul Otlet, em seu tratado de 1934, ressalta a importância da fotografia no campo da documentação. Ele observa que a fotografia não apenas replica documentos existentes, mas também possibilita a criação de novos registros documentais (Otlet, 2018). A fotografia pode capturar imagens em contextos inacessíveis por outros meios, como em fotografias aéreas ou submarinas, e permite ampliar detalhes que seriam imperceptíveis ao olho humano. Essas características tornam a fotografia indispensável para enriquecer e expandir o acervo documental, mostrando fenômenos, paisagens e detalhes que, de outra forma, não poderiam ser registrados. 13 Brasil um movimento memorialista, que rapidamente se estendeu às organizações e instituições, tanto privadas quanto públicas. Nesse contexto, destaca-se que as ações da CI, com sua natureza interdisciplinar, facilitaram a comunicação e a disseminação de documentos – que integram informação e memória – entre os diversos tipos de instituições e usuários da informação, e promoveram uma integração mais efetiva e significativa no campo da preservação documental (Moreira; Valentim; Sant’Ana, 2018). Pensar a fotografia como um artefato de apreensão de memória nos parece natural, uma vez que a cristalização, ainda que parcial, de determinado evento, nela se concretiza. Essa possibilidade de nomeá-la lugar de memória atravessa uma discussão bem maior acerca da intrínseca relação entre memória e história. Essa reflexão, levantada por Nora (1993), aponta a ‘aceleração da história’ como a responsável por estabelecer lugares ‘arquivos’ para que os seres humanos não esqueçam os eventos históricos individuais ou coletivos. Por conseguinte, a relevância desta pesquisa se justifica ainda por ser um tema contemporâneo, de interesse social, por incluir diversas indagações abrangendo conservação e restauração, reconstrução e preservação de locais históricos, artísticos e culturais. Isso reproduz a dimensão e complexidade informacional, institucional e histórica que vem comprometendo a preservação da memória e do acervo fotográfico. No entanto, a função da fotográfica, como elemento intrínseco e arraigado na tradição, sofre uma transformação, deixa de ser a única responsável por situar tanto a narrativa comum quanto a narrativa histórica. Em contrapartida, o acervo fotográfico passa a estabelecer e incorporar o papel de veicular o discurso da memória coletiva. Destarte, as coleções de fotografias expressam um artefato de valor (informacional) para pesquisadores e memorialistas, e colaboram para a compreensão de eventos históricos fundamentais e para a construção da identidade cultural de uma sociedade em acelerada transformação. Conforme o Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística (DBTA), o acesso documental é definido como uma função arquivística destinada a tornar os documentos acessíveis e promover a sua utilização (Brasil, 2005, p. 14). Persiste na análise uma esfera atinente a falta de políticas2, incentivos e investimentos voltados para o enfoque da preservação de acervos fotográficos. Compreende-se que a ausência de elementos de 2 A Resolução nº 41 do Conarq, datada de 9 de dezembro de 2014, recomenda a necessidade de instituir políticas de preservação da produção dos documentos, e ações tanto preventivas quanto curativas. O objetivo da resolução é garantir a preservação nas vias preventivas e curativas e reforçar a necessidade do zelo que abarca diferentes formas de expressão cultural, como áudio, imagem e música (Brasil, 2014). 14 salvaguarda em um sistema de gestão de acervos, a ausência de investimentos públicos, o pífio arcabouço legal e a fluidez das políticas públicas afetam a constituição de acervos fotográficos, no qual se reconhecem muitos pontos cruciais a serem abordados e corrigidos – visando assegurar o acesso e a difusão de recursos culturais e históricos valiosos. Visto assim, ao buscar informações e ampliar o conhecimento sobre patrimônio cultural, inclusive as categorias ‘memória coletiva’ e ‘preservação de acervos fotográficos’, demonstra-se sua relevância tanto para o âmbito acadêmico quanto para a sociedade em geral. Isso favorece o resgate da memória, promove a valorização do patrimônio cultural brasileiro e disponibiliza informações para as futuras gerações. Além disso, essas ações contribuem para a formação de uma identidade cultural mais robusta e consciente, promovendo o entendimento e a apreciação da diversidade cultural do Brasil. Entende-se que o acesso ao conhecimento gerado por essas iniciativas em prol da averiguação do patrimônio memorial, que soma artefatos iconográficos e audiovisuais, pode influenciar políticas públicas voltadas para a preservação do patrimônio, de forma a incentivar investimentos em infraestrutura e programas educacionais que visem a conservação e difusão dos acervos culturais. O estudo e a preservação do patrimônio cultural não apenas guardam a história de um povo, mas também fortalecem o vínculo das pessoas com o exercício da cidadania, cultura e tradições, criando um legado duradouro e significativo para todos. O município dos canela-verde 3 dispõe de amplos caminhos para a preservação de uma memória capixaba e congrega um rico patrimônio cultural que entrecruza a história e a formação do Brasil e não deve cair no esquecimento. Pollak (1989) argumenta que os lugares de memória remetem aos indicadores empíricos da memória coletiva de um grupo, fundamentando e reforçando os sentimentos de pertencimento e coesão social. Portanto, ao lançar olhares para a cidade de Vila Velha (ES) 4 , segundo município mais populoso do estado 3 Canela-verde, subtítulo e manifesto termo deste estudo, refere-se em especial aos moradores de Vila Velha – município localizado no litoral do estado do Espírito Santo, região Sudeste do Brasil. Repare que canela-verde (a alga marinha que gruda na perna) é o habitante do lugar e representa a entrada no território (desbravadores dos mares), a permanência no litoral (pesca nômade, indígenas), a tíbia que fixa pecúlios (patrimônio, divícia). Não obstante, o famoso apelido ‘canela-verde’ pode ter origem “[...] no costume dos portugueses de usar meias longas verdes” (Anafisco, 2022, p. 1). 4 Vila Velha, situada no litoral do Espírito Santo, é a maior e mais antiga cidade do estado, pertencente às regiões geográficas intermediária e imediata de Vitória. Conhecida por suas praias encantadoras e pontos históricos, como o Convento da Penha (séc. XVI), o Forte de São Francisco Xavier (séc. XVII) e o Farol de Santa Luzia (séc. XIX), a cidade é popularmente chamada de “Veneza Capixaba”. Fundada em 23 de maio de 1535 pelo português Vasco Fernandes Coutinho como Vila do Espírito Santo, Vila Velha foi a sede da capitania até 1549, quando a capital foi transferida para Vitória e a cidade recebeu seu nome atual. No século XVI, os primeiros colonizadores portugueses encontraram a área disputada por três grupos indígenas: goitacás, aimorés e 15 do Espírito Santo, buscou-se compreender, em parte, como a instituição privada, sem fins lucrativos, contribui para a preservação e construção da memória coletiva na região. No passado, o patrimônio cultural de Vila Velha foi palco de importantes movimentos históricos, políticos e sociais dos pioneiros colonizadores do Espírito Santo, com diversas ações sendo documentadas, preservadas e guardadas. A memória registrada e conservada constituiu e ainda constitui, como afirma Lodolini (1990, p. 157), a base “[...] de toda atividade humana: a existência de um grupo social seria impossível sem o registro da memória”. Diversos artefatos culturais vêm mobilizando memórias coletivas e articulam um sentimento de pertencimento local e, servem de “[...] apoio à salvaguarda da materialidade simbólica concebida como elemento de representação coletiva” (Silveira, 2007, p. 44). Dessa forma, o patrimônio cultural, em especial o fotográfico, exerce uma função social e simbólica – traz relações entre o passado e o presente de um grupo, enquanto sua função informacional e disseminativa da memória individual e coletiva – que se estabelece por meio de seus bens considerados patrimônio histórico-cultural. Desse modo, cada pessoa é parte de um todo e constrói, com as demais, a história dessa sociedade, legando às gerações futuras o conhecimento que carrega múltiplas possibilidades de visibilidades e significações. Em vista disso, Pistorello (2018) aponta que preservar o patrimônio cultural é uma forma de manter viva toda a história e o desenvolvimento de um povo, sua cultura e arquitetura, seus costumes e crenças. Entende-se, então, o patrimônio cultural como uma “[...] forma impositiva de legitimação das representações, por intermédio das fotografias, serve como um meio importante para a constituição da identidade, tanto individual quanto coletiva” (Canabarro, 2005, p. 32). Neste estudo, o IHGVV foi selecionado como o ambiente empírico para diagnosticar as estratégias de preservação de seu acervo fotográfico e analisar a atuação da instituição na preservação da memória coletiva de Vila Velha (ES), desde sua fundação até as suas atuais finalidades. A escolha do IHGVV considera sua localização de fácil acesso e ressalta Vila Velha como o berço da colonização do solo espírito-santense, devido ao seu valor histórico, arquitetônico, artístico e cultural. O IHGVV, como baluarte da história do estado do Espírito Santo, é uma parte integral da tupiniquins (Anafisco, 2022). https://anafisco.org.br/category/anafisco/ 16 história da cidade e atua na preservação do patrimônio cultural material e imaterial da localidade. A partir do aporte teórico desta pesquisa, busca-se suprir a lacuna existente sobre a formação e preservação do acervo fotográfico em entidades de utilidade pública (municipal, estadual ou federal). A investigação visa identificar elementos relevantes para a defesa da memória coletiva, do patrimônio cultural e da preservação fotográfica de acervos no âmbito da CI. Destaca-se a importância do patrimônio fotográfico do IHGVV, o que demanda a contextualização da criação do instituto e das ações adotadas para a preservação e construção da memória e do patrimônio da região. A pesquisa examina as políticas, normas e procedimentos institucionais do IHGVV para verificar quais ações relacionadas ao acervo fotográfico contribuem para a preservação e a disseminação da memória coletiva de Vila Velha. Nessa via, o desenvolvimento econômico da região de Vila Velha 5 abrange núcleos de atividades agropecuárias, artesanato e exploração turística (Effgen; Mozine, 2022). O turismo, em particular, é de grande importância por explorar bens naturais e culturais, e se beneficia de um rico patrimônio material e imaterial do período colonial do Brasil. Preservar o patrimônio cultural material dessa região histórica e secular, por meio das ações empregadas pelo IHGVV, pode significar manter viva a memória coletiva – e assim, desenvolver um processo de (re)construção de pertencimento desses sujeitos envolvidos, pois “[...] o passado só permanece vivo através de trabalhos de síntese da memória, que nos dão a oportunidade de revivê-lo a partir do momento em que o indivíduo passa a compartilhar suas experiências, tornando com isso a memória viva” (Alberti, 2004, p. 15). Considerando a contextualização de uma região com um rico patrimônio cultural material e os desdobramentos da importância do acervo fotográfico para a memória coletiva, é essencial indicar os aspectos cruciais que evidenciam a relevância histórica, cultural e social desses registros. Esses acervos fotográficos tanto preservam a história e a cultura local, quanto são fundamentais para a valorização da identidade de um povo e de sua região. Além disso, é vital na divulgação das tradições locais e no fomento ao turismo cultural, contribuindo para o desenvolvimento econômico ao gerar empregos e renda, e fortalecer as comunidades locais. 5 A Capixapédia esclarece que antes mesmo da ilha de Vitória ser a capital de todos os capixabas, Vila Velha foi sede do governo durante 14 anos (Zagoto, 2022). Hodiernamente o município de Vila Velha é formado por cinco distritos: Centro, Argolas, Ibes, São Torquato e Jucu (Carvalho, 2014). 17 Ao zelar pela preservação desses registros fotográficos, o IHGVV contribui para a proteção do ecossistema — ambiental, social, cultural e informacional —, uma vez que muitos desses registros estão associados às paisagens e à natureza da região. Portanto, deve-se desenvolver políticas públicas e ações que visem a proteção e a difusão desse acervo, promovendo o interesse e a curiosidade, e aumentando o engajamento da população local na preservação e valorização do patrimônio cultural material e imaterial da região. A divulgação desses registros pode estimular a pesquisa e a produção de novos conhecimentos sobre a história e a cultura local, contribuindo para o desenvolvimento cultural, educacional e turístico da região. Visto assim, o acervo fotográfico do IHGVV, como lugar de memória, desempenha uma “[...] função informacional, no sentido de lembrar os acontecimentos, pessoas e lugares que realmente existiram e cujas provas podemos encontrar nesses lugares” (Murguia, 2010, p. 8). Ao traçar o processo de busca de informações sobre um passado histórico avalia como as ações de resgate da memória, por meio do acervo fotográfico do IHGVV, têm contribuído para a valorização e a preservação do patrimônio fotográfico tanto para as atuais quanto para as futuras gerações. Nosso objeto de estudo fundamenta-se na premissa de que as ações propostas e executadas pelo IHGVV, relacionadas ao seu acervo fotográfico, representam uma alternativa significativa para a preservação da cultura material e imaterial de Vila Velha e contribuem para a projeção da memória coletiva para as futuras gerações. Nessa perspectiva, destaca-se que patrimônio cultura está ligado à memória coletiva, ao passado e à cultura, sendo necessária sua preservação de forma ampla a fim de reconhecer um passado como representativo da cidadania (Prado; Carvalho; Armelin, 2006, p. 1). Percebe-se a relevância do patrimônio cultural na vida da sociedade, pois serve de lembrança à memória coletiva que com ele se identifica. Sua perda acarreta a perda desta identidade às futuras gerações. A destruição do patrimônio cultural priva a geração presente e as futuras de dados importantes para sua própria compreensão e constitui um empobrecimento do patrimônio dos povos (Prado; Carvalho; Armelin, 2006, p. 1). À luz dessa conjectura, levanta-se o seguinte problema de pesquisa: como o processo de formação e preservação do acervo fotográfico do IHGVV tem contribuído para a preservação da memória coletiva do município de Vila Velha? A partir desse problema, foram delineados os objetivos geral e específicos que guiaram a investigação, direcionando o foco para a compreensão das ações de constituição do acervo fotográfico do IHGVV, com destaque para potenciais lacunas e desafios. Este estudo tem como objetivo geral analisar o processo de 18 formação e cuidado do acervo fotográfico do IHGVV para a preservação da memória coletiva do município de Vila Velha. Especificamente, busca-se discutir as relações entre memória coletiva e preservação de acervos fotográficos no campo da CI 6 . Pretende-se descrever o processo de formação e consolidação do acervo fotográfico do IHGVV. Outro objetivo é diagnosticar as estratégias de preservação utilizadas no acervo fotográfico do IHGVV e analisar sua atuação na preservação da memória coletiva de Vila Velha, desde sua emergência até suas finalidades atuais. Essa abordagem permite uma análise aprofundada e estruturada. Ela proporciona uma compreensão ampla do papel do acervo fotográfico do IHGVV na construção e preservação da identidade histórica e cultural de Vila Velha. Ao reconhecer os desafios e oportunidades no processo de formação e preservação do acervo, este estudo contribui para o aprimoramento das estratégias de gestão documental e preservação da memória coletiva, fortalecendo a importância do IHGVV como guardião da história e cultura do município. Delimitada a premissa, o problema de pesquisa, o objetivo geral e os objetivos específicos, o capítulo seguinte apresenta a Revisão Narrativa de Literatura (RNL), que fundamenta a redação científica. Segundo Rother (2007) e Brum et al. (2015), a RNL é caracterizada por seu escopo amplo e busca descrever o desenvolvimento de um assunto sob a perspectiva teórica ou contextual, por meio da análise e interpretação da produção científica existente. Essa abordagem, conforme os autores mencionados, visa identificar lacunas de conhecimento pela abrangência temática, sem a necessidade de esgotar todas as fontes de informação ou aplicar estratégias de busca exaustivas. A seleção e a interpretação dos estudos podem refletir a subjetividade do contexto informacional dinâmico. Em seguida, o referencial teórico e a caracterização do campo de ação serão desenvolvidos com o objetivo de contextualizar brevemente a identidade sócio-existencial e constitutiva do IHGVV, uma entidade privada de fins não lucrativos, reconhecida como de utilidade pública e interesse social pelas autoridades municipais e estaduais do Espírito Santo (Miguel; Furtado; 6 Esta pesquisa está integrada ao campo da CI no PPGCI/Ufes, considerando as particularidades no tratamento das fotografias como documentos arquivísticos. No contexto da linha de pesquisa 'Memória, Representação e Informação', este estudo aborda amemória coletiva, gestão do patrimônio cultural e informacional. Como abordagem interdisciplinar da CI, incorpora a seara patrimonial, as linguagens artísticas e a tecnologia – ampliam o escopo acadêmico da arquivologia. A conexão da pesquisa com a CI no PPGCI/Ufes fortalece a base ao ofertar perspectivas enriquecedoras sobre o papel da fotografia em acervos e a valorização da memória institucional e coletiva – o que torna o patrimônio documental fotográfico crucial para as Casas e Centros de Memória no Brasil. 19 Silva, 2022). Assim sendo, esta pesquisa está alinhada com o Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGCI/UFES), na área de concentração Informação, Sociedade e Cultura, e em conformidade com a Linha 2 – Memória, Representação e Informação. Essa linha promove o desenvolvimento de estudos que exploram aspectos como cultura, preservação, memória, patrimônio e documento, considerando diversas abordagens teóricas e epistemológicas nas ciências sociais aplicadas. Destaca-se que a preservação da memória e do patrimônio está intrinsecamente ligada à ciência da informação, que enfatiza a importância da formação e preservação do documento fotográfico para a construção do patrimônio e da memória coletiva. A relevância do acervo fotográfico se reflete na crescente arquitetura da preservação e na gestão arquivística do processo de organização de documentos e informações. A pesquisa vai ao encontro de uma concepção de compreensão e valorização do patrimônio e da memória coletiva. Além disso, ela contribui para a criação de políticas públicas e estratégias institucionais que asseguram a preservação e o acesso aos bens culturais, promovendo a educação patrimonial e o fortalecimento da identidade comunitária. Em síntese, a fotografia é culturalmente significativa devido à sua capacidade de informar e desinformar, emocionar e transformar, bem como denunciar e manipular. Esse artefato complexo e ambíguo fascina continuamente a humanidade, pois preserva referências e lembranças individuais e documenta os feitos cotidianos das pessoas e sociedades em suas diversas ações. Ao fixar a memória histórica, a fotografia também pode ser utilizada para fins ideológicos e direcionados. As imagens têm um papel cultural e se equiparam às palavras na comunicação e na formação de percepções. 20 2 PELO JARDIM DAS HESPÉRIDES DA LITERATURA ACADÊMICA: UMA REVISÃO NARRATIVA DE LITERATURA – RNL A Revisão Narrativa de Literatura (RNL), essa etapa reúne as fontes de pesquisa, fornece o embasamento teórico necessário para esta investigação. Nesse contexto, conceitos como memória coletiva, patrimônio cultural e acervo fotográfico são categorias essenciais para atingir os objetivos propostos, que envolvem preservação, formação e papel social e institucional desempenhados pelo IHGVV no Espírito Santo. Assim, a fundamentação teórica é alicerçada na análise da configuração memorialista e patrimonialista, e explora a interrelação dessas categorias dentro da dinâmica das ciências sociais aplicadas. Em linhas gerais, a RNL representa um procedimento essencial que integra a pesquisa qualitativa com a avaliação da produção e o uso de literatura acadêmica voltada para uma temática específica. Seu propósito é construir um corpo robusto de conhecimento sobre os principais aspectos que orientam a análise do tema. Em vez de esgotar todo o material relevante, a RNL visa identificar referências significativas em uma variedade de fontes, como livros, artigos de revistas, jornais, teses e dissertações, entre outros. Rother (2007) reporta que a RNL é uma ferramenta ampla que permite descrever e discutir o desenvolvimento ou o estado da arte de um tópico específico, sob uma perspectiva teórica ou conceitual. Por meio da RNL examinam-se os textos que representam as análises críticas, confiantes à integridade de saberes e confabulações, embora a força de evidência científica não siga um formato rigorosamente quantitativo. A RNL pode ser conduzida de maneira sistemática e rigorosa em termos metodológicos, como sugerido por Brum et al. (2015). Segundo Rother (2007) e Brum et al. (2015), a RNL oferece a capacidade de construir, em um curto espaço de tempo, uma narrativa fluente e uma análise crítica e precisa dos itens documentais recuperados. Isso possibilita ao pesquisador contextualizar o problema e identificar tendências, divergências, lacunas e desenvolvimentos emergentes no campo de estudo, estabelecendo uma progressão gradual e lógica de ideias. No entanto, é salutar expor que o centro da RNL reside em uma análise da literatura apresentada em bases de dados nacionais e internacionais, bem como em bancos, catálogos e repositórios de teses e dissertações. A austeridade na realização da RNL tem suas raízes na definição explícita do escopo temático. 21 A seleção das bases de dados está associada ao fato de essas se constituírem em instrumentos referenciais na área da CI e que contemplam um conjunto de publicações nacionais e internacionais (além de normas correlatas e acordos internacionais, a depender do assunto). Estabelecido o núcleo temático para a RNL (II) recorre-se a cinco sítios: i) Base de Dados em Arquivística (BDA); ii) Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (Brapci); iii) Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD); iv) Encontros do Grupo de Trabalho GT 09 (Museu, Patrimônio e Informação) e GT 10 (Informação e Memória) da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação (ANCIB); e, v) Web of Science (WoS), Coleção Principal (Clarivate Analytics, categoria Information Science, Library Science). A busca, localização e recuperação de informações compreende a etapa de estratégia de busca (III). Todavia, a estratégia consiste na combinação dos descritores “acervo fotográfico” e “memória” nos campos ‘busca’ e/ou ‘pesquisar’ (todos os campos), tomando os termos em português e a sua equivalente tradução nos idiomas espanhol e inglês. O recorte temporal prioriza o período de 1º de janeiro de 2010 a 31 de dezembro de 2022, e engloba toda a década de 2010 além dos três primeiros anos da década subsequente, a de 2020. Além dos itens acima, mais intrínsecos às especificidades de delimitar a RNL, agrega-se ao processo de seleção das fontes a aplicação de critérios de inclusão e exclusão de itens documentais. Os critérios de inclusão englobam: 1) a presença de descritores nos campos: título, resumo e/ou palavras-chave e; 2) a disponibilidade do texto completo. Por outro lado, os critérios de exclusão são os seguintes: 3) artigos com entradas duplicadas; 4) artigos que não abordavam o contexto da formação e preservação de acervos fotográficos e; 5) a indisponibilidade do texto completo. Ao seguir esses critérios, foi possível identificar 80 itens documentais indexados nas plataformas da WoS, BRAPCI, BDTD, BDA e do Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação (Enancib). Esses itens são eleitos de acordo com os critérios apontados e, a composição contou com 40 artigos, 13 livros, 10 teses e 17 dissertações. 22 A pesquisa nessas cinco plataformas concentra-se nas publicações que surgiram a partir da de 2020. Os resultados das 80 publicações derivam da associação dos descritores e exploram a discussão da comunicação científica vinculada a formação e preservação do acervo fotográfico, levando em consideração a intersecção com a memória coletiva. Na etapa final de seleção, os títulos e resumos de todos os artigos obtidos na busca eletrônica foram examinados, escolhendo-se os itens documentais que cumpriram os critérios de inclusão e exclusão, com a verificação da consistência temática (IV). Ao final, alinhados na proposta de Braun e Clarke (2006), esses itens documentais foram lidos integralmente, classificados e aprovados sob a ótica da análise temática (V). A seguir, tratamos da base teórica que sustenta a RNL. 2.1 LENTES DO TEMPO: FOTOGRAFIAS COMO SUSTENTÁCULOS DA MEMÓRIA COLETIVA Segundo Pollak (1989, 1992), a memória pode ser considerada um fenômeno construído, resultante de diversos fatores. O pesquisador esclarece que a memória é fortemente influenciada pelo contexto em que é articulada, e essa dinâmica se aplica à memória individual, e se estende à memória coletiva. Apesar da maior organização da memória coletiva, essa estrutura não está imune a flutuações e influências contextuais (do ponto de vista político), pois são moldadas no âmbito em que são evocadas, disputadas ou imbricadas (Pollak, 1992). Sob a perspectiva da valorização dos acervos fotográficos, observa-se que eventos históricos e sua emergência oferecem uma oportunidade valiosa para o registro e resgate da memória coletiva. Nesse contexto, Pollak (1989, p. 8) destaca que “o trabalho de enquadramento da memória se alimenta do material fornecido pela história”. Isso sugere que a memória tem um papel fundamental na formação da identidade individual e grupal. Segundo Pollak (1989), a memória pode ser compreendida como uma estrutura que oferece ao sujeito ou ao grupo um sentimento de pertencimento, fortalecendo suas fronteiras socioculturais. Halbwachs (apud Pollak, 1989, p. 3) contribui para essa perspectiva ao afirmar que a memória coletiva não deve ser vista como uma imposição ou uma forma de dominação simbólica. Em vez disso, ele evidencia as funções positivas da memória comum, que fortalece a coesão social não pela coerção, mas pelo envolvimento emocional e adesão afetiva ao grupo. Esse 23 conceito é encapsulado pelo termo ‘comunidade afetiva’, que ilustra como a memória compartilhada promove a união e o sentimento de pertencimento entre os membros do grupo, sustentando a coesão social por meio de uma conexão emocional. Pollak (1992) inicialmente destacou que a memória tende a ser vista como um fenômeno individual, intrinsecamente ligado à pessoa. Em contraste, Halbwachs (2013) argumenta que a memória deve ser entendida como um fenômeno coletivo e social, construído em conjunto e sujeito a flutuações, transformações e mudanças constantes. Esse autor afirma que, embora a memória seja construída coletivamente, ela é um trabalho individual. No entanto, os sujeitos só se lembram na medida em que são reconhecidos pela sociedade, o que transforma eventos passados em memórias coletivas. Ademais, reconhece-se que a memória humana tem limitações, e a materialidade dos lugares previne a entropia negativa da reminiscência coletiva, reforçando a importância da preservação dos contextos físicos relacionados às memórias. Segundo Halbwachs (2013), depoimentos não são suficientes para que uma memória ajuda a de outros, pois é preciso confirmar a memória e suas conexões e relações sem comum; não é necessária uma reconstrução total para que ocorra uma lembrança. É necessário que esta reconstrução se opere a partir de dados ou de noções comuns que se encontram tanto no nosso espírito como no dos outros, porque elas passam incessantemente desses para aquele, e reciprocamente, o que só é possível se fizeram e continuam a fazer parte de uma mesma sociedade (Halbwachs, 2013, p. 34). Esses apontamentos (processo de reverter o esquecimento) garantem as suficiências íntimas 7 (forma de resistência que inclui re-existência) que “[...] são um conjunto de recursos intrínsecos que se encontram na memória coletiva”, ou seja, expressam uma “reserva de sentidos [acumulados] a que se pode recorrer em momentos críticos para a construção de estratégias de vida” argui Arboleda (2002, p. 417, tradução nossa). O retorno à memória não requer uma volta ao passado, mas promove a libertação de pensamentos, ações e denominações com vista a desbastar, sulcar e, por fim, abrir caminhos alternativos aos das instituições oficiais, o que é uma forma válida de repensar o relançamento e o movimento social (Arboleda, 2002). 7 A noção de “suficiências íntimas” implica que as comunidades detêm conhecimentos e práticas transmitidas entre gerações, fundamentais para sua identidade cultural, constituindo um patrimônio imaterial valioso (Arboleda, 2002). Ao se conceder voz e autonomia às comunidades na gestão de seus acervos, respeitando e valorizando essas ‘suficiências íntimas’, consiste em preservar a memória coletiva e a identidade cultural. Nessa via, a tradição sólida das comunidades é eloquentemente expressa por Santiago Arboleda, que, em seu estudo dos povos afrodescendentes da Colômbia, utiliza a expressão “suficiências íntimas” para explicar como as comunidades afrocolombianas na costa do Pacífico persistem em fortalecer a resistência e mobilizar para a ação coletiva da memória (Arboleda, 2002; Santos, 2019). 24 Em suma, as memórias funcionam “[...] como esteio [de] um grupo ao qual elas se relacionam” (Nascimento, 2004, p. 26), são um dos principais elementos constituintes do sentimento de identidade, tanto individual quanto coletiva, pois possibilitam a noção de perpetuidade e coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si (Pollak, 1989). Portanto, sobre a memória coletiva compreende-se que uma lembrança de alguém sobre um grupo é um patrimônio dessa comunidade. Segundo Miranda (2019), o que é relevante é passado adiante e fica preservado na história oral do local ou comunidade; com isso, idealiza-se o passado e pode estar relacionado a algo pontual, mas muito saliente. [...] a memória coletiva é formada por fatos e aspectos julgados importantes e que são guardados como a memória oficial da sociedade mais ampla. Se expressa no que chamamos de lugares de memória. Eles são os memoriais, os monumentos mais importantes, os hinos oficiais, quadros célebres, obras literárias e artísticas que expressam a versão consolidada de um passado coletivo de uma dada sociedade (Von Simson, 2003) [...]. Dessa maneira, compreendemos que há uma memória coletiva. Ela representa um repositório abstrato de informações referentes a uma comunidade, se constitui a partir de memórias individuais, se expressa materialmente, ancora-se nos lugares de memória e tem como caminho espontâneo o seu desaparecimento (Miranda, 2019, p. 1). Com a revisão de literatura se objetivou recuperar dados sobre os principais teóricos que fazem conexão entre memória coletiva e a questão da preservação, e as citações localizadas nos artigos de periódicos e eventos científicos situam principalmente as seguintes autoridades: ▪ Aleida Assmann, antropóloga alemã, alega que a memória coletiva é moldada por vários níveis de memória, incluindo memória individual, memória cultural e memória histórica, e que cada nível influencia os outros. ▪ Alejandro Baer Mieses, defende a memória coletiva como uma construção social e que é influenciada por vários fatores, incluindo poder, conflito e interesses políticos. ▪ Barbara Misztal, realça a importância da memória coletiva para a construção da solidariedade social e para a preservação da história cultural e política. ▪ Jan e Aleida Assmann compreenderam que a memória coletiva é moldada por diferentes formas de comunicação, incluindo meios culturais, políticos e tecnológicos, e que pode ser usada para reforçar ou desafiar a hegemonia política e cultural. ▪ Maurice Halbwachs, sociólogo francês, pioneiro ao desenvolver o conceito de memória coletiva, argumenta que a memória é moldada pelo contexto social e que a memória coletiva é aquela compartilhada por um grupo social. ▪ Michael Pollak, historiador austríaco, apontou que a memória coletiva expressa uma fonte de conforto e consolo para as pessoas sendo uma construção coletiva, organizada 25 a partir do presente, e em parte herdada. ▪ Paul James Connerton, antropólogo britânico destacou a importância da preservação dos materiais culturais e da memória para a perpetuação de uma cultura e de uma sociedade. ▪ Paul Ricœur, filósofo francês, expõe que a memória é válida para a compreensão da identidade pessoal e coletiva, sendo que a memória coletiva é uma forma de transmitir valores, crenças e histórias de geração em geração. ▪ Pierre Nora, historiador francês, desenvolveu a noção de lieux de mémoire, ou lugares de memória que, em síntese, são os símbolos, monumentos 8 e acervos que representam (como vértices) e perpetuam a memória coletiva. ▪ Le Goff, historiador francês, apontou que as relações entre memória e história são intrínsecas e, a história encontra seu significado na materialidade dos documentos. Em concordância com as ideias de Nora, Le Goff (2012, p. 111) enfatiza que “[...] devemos fazer o inventário dos arquivos do silêncio e construir a história a partir dos documentos e da ausência de documentos”. Esses teóricos contribuem para a compreensão da memória coletiva e auxiliam na produção de novos discursos científicos sobre a memória coletiva na atualidade, e enriquecem a compreensão de uma natureza histórica e social para a memória coletiva. Além desses teóricos, outros autores na área da memória coletiva incluem: ▪ Alastair Pennycook, professor de estudos da linguagem e da cultura que tem estudado a memória coletiva e sua relação com a globalização e a diversidade cultural. ▪ Luciano Floridi, filósofo e professor de ética da informação que tem estudado a memória coletiva e sua relação com a informação e a tecnologia. ▪ Michael Rothberg, professor de literatura comparada e estudos culturais que tem estudado a multidirecionalidade da memória e sua relação com a história, a cultura e a identidade coletiva. ▪ Walter Benjamin, que descreveu a importância da tecnologia e da modernidade para a memória coletiva e a preservação do passado, defendeu que a fotografia é intrinsecamente reprodutível. ▪ Yvonne Spielmann, que examinou a relação entre memória e tecnologia, incluindo a fotografia e a preservação de acervos fotográficos. 8 Destaca-se que “[...] Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa” (Le Goff, 2013, não paginado). 26 Esses teóricos contribuíram para a compreensão da memória coletiva e sua relação com a informação e a tecnologia. Outros expoentes também surgiram para aprofundar o debate com o pilar da preservação, estabelecendo perspectivas e abordagens na esfera social e digital para a memória coletiva. Elementos que envolvem a inovação e a tecnologia estão presentes em: Carl Rothenberg, Danah Boyd, Fionnuala Dillane, Jean Burgess, Jeffrey Pomerantz, John Tagg, Jöel Candau, Julie Cohen, Katherine Hayles, Lev Manovich, Lorcan Dempsey, Lucia Ruedenberg, Marcy Brossard, Mary Carruther, Michael Buckland, Richard D. Johnson, Richard Grusin, Stuart Cunningham, Susan Leigh Star, Susan Sontag, Tarleton Gillespie, Thomas Robb, Tim O'Reilly, Virginia Dignum. A compor esse panorama de análise, igualmente cabe destacar os expoentes da língua espanhola que adquirem destaque no debate atual sobre a memória coletiva. Citações localizadas em obras da RNL revelam autores como: Ana Maria Díaz-Stevens, Enrique Valdés, Guillermo Orozco Gómez, Javier Sanjines, Jorge Luís Borges, José Luís González Sánchez, Leopoldo Gascón, Manuel Castells, María Teresa Rivas, Néstor García Canclini, Pablo Calderón, Rafael Capurro, Raúl Rojas, Santiago Castro-Gómez. Cada um desses teóricos trouxe uma perspectiva valiosa, singular ou multiplicadora para o campo da CI e continua a influenciar a teoria e a prática informacional contemporâneas. Argumenta-se, ainda, nessa RNL, que a memória coletiva pode ser influenciada positiva ou negativamente por eventos e por aqueles que detêm o poder de controlar o relato da história. Outro ponto a ser levantado na literatura, em chave interdisciplinar, parte dos discursos teóricos dos pesquisadores brasileiros que vêm contribuindo para o estudo da memória coletiva, dentre os quais se destacam: ▪ Anne Knowles: historiadora e professora de arquivologia que estuda a memória coletiva e sua preservação em arquivos e museus. ▪ Erica Avrami: historiadora e professora de conservação que estuda a memória coletiva e sua preservação em monumentos históricos e patrimônios culturais. ▪ Flora Sussekind: socióloga que estuda a memória coletiva e sua relação com a cultura e a política no Brasil. ▪ Keir Reeves: historiador e professor de museologia que estuda a memória coletiva e sua preservação em museus e patrimônios culturais. ▪ Marcos Napolitano: sociólogo brasileiro que estuda a memória coletiva e sua relação com a cultura e a política no Brasil. 27 ▪ Nise da Silveira: psiquiatra e artista brasileira, fundadora do Museu do Inconsciente, estudou a memória coletiva e sua relação com a cultura e a arte no Brasil, sob a égide de apoio ao campo da saúde mental. ▪ Paulo Venâncio Filho: curador, crítico de arte contemporânea e professor de história da arte, o qual atua em diferentes frentes da produção de conhecimento sobre artes visuais, observando a fotografia como documento e memória coletiva. Esses teóricos e outros continuam a contribuir para a compreensão da memória coletiva e da sua importância para a cultura e a sociedade global. Levando-se em conta que a memória coletiva é estudada por uma série de teóricos e disciplinas, infere-se que a preservação de acervos serve para a manutenção da memória coletiva e para a valorização da história e da cultura de uma sociedade. Considerando-se a proposta apresentada, entende-se que, a memória coletiva é moldada por vários vértices e sentidos, incluindo história, política, mídia e tecnologias. Por último, compreende-se que a discussão sobre a preservação da memória, sobretudo da memória social como patrimônio dos grupos sociais, é própria do final do século XX, dado o caráter caótico e instável da contemporaneidade (Dodebei; Gouveia, 2008; França, 2020). Nessa linha de pesquisa, a memória coletiva pode ser entendida como a memória compartilhada por uma sociedade, grupo ou comunidade, e é formada por eventos, tradições, crenças, mitos e representações simbólicas. Prontamente, Kossoy (2007) sublinha que, enquanto o evento histórico já aconteceu (foi), o documento permanece vivo (é), mantendo sua relevância e presença ao longo do tempo. Alega ainda que a imagem, que comprova a memória, e revela o tempo é uma máquina que se mantem funcionando na existência. A história passou, o documento, tanto escrito quanto visual, permanece vivo. “Estes esforços continuados, investigativos e reflexivos em desvendar o que foi, e compreender o que é a imagem fotográfica naquilo que ela tem de aparente e oculto, no que ela revela e silencia, segue sendo um dos intrigantes desafios do nosso ofício (Kossoy, 2007, p. 158). As fotografias do acervo do IHGVV não são meros registros estáticos; elas são produtos da “máquina do tempo que perpetuam a memória de Vila Velha. Cada imagem é um documento vivo, carregando consigo o poder de manter ativa a história e a identidade cultural da comunidade. Nesse contexto, Silveira (2015, p. 208) afirma que “[...] ser cariaciquense, canela-verde, como são chamados os nascidos em Cariacica ou Vila Velha, ou serrano, na Serra, é sentimento forte nos habitantes dessas cidades”. Cabe destacar que a memória coletiva vai além de registros arquivados, sendo um processo dinâmico no qual o passado é constantemente moldado pelos valores do presente, conforme indicado por Baer (2010). Essa perspectiva contribui para a formação da identidade coletiva e 28 na elaboração de políticas públicas e, contundentemente, reforça os paramentos de preservação e salvaguarda do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Além disso, o passado se atualiza a partir do presente, e nele encontra seus princípios de seleção, descrição e interpretação (ibid.). Passamos, portanto, de um modelo de memória como arquivo – no qual o passado é inalterável – para um modelo de construção ativa em que o passado está sendo permanentemente modificado por valores, crenças e as restrições do Presente (ibid.). 2.2 A MAGIA DO PATRIMÔNIO: COMO A FOTOGRAFIA REVIVE E RECRIA NOSSAS RAÍZES CULTURAIS O termo patrimônio, segundo Choay (2006, p. 11), direciona olhares em volta de um grupo social e seus antepassados e, argumenta que o patrimônio é ancestral, admirável palavra que tem a origem vinculada às composições “[...] familiares, econômicas e jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo. Requalificada por diversos adjetivos (genético, natural, históricos, etc.) que fizeram dela um conceito ‘nômade’, ela segue hoje uma trajetória diferente e retumbante”. Para Dodebei (2008, p. 2), o conceito de patrimônio refere-se “[...] às ideias de: herança, tradição, conhecimento, experiência, legado, vivência, entre outras expressões que denotam a ideia de transmissão natural da cultura, de uma geração à outra”. De acordo com Gonçalves (2003), patrimônio é uma das palavras mais usadas no dia a dia para se referir a economia, finanças, imóveis, seja em relação a um país, a uma família ou a uma única pessoa, bem como à ideia de “patrimônios culturais, arquitetônicos, históricos, artísticos, etnográficos, ecológicos, genéticos; sem falar nos chamados patrimônios intangíveis, de recente e oportuna formulação no Brasil. Parece não haver limite para o processo de qualificação dessa palavra” (Gonçalves, 2003, p. 22). Devido a essa trajetória ao longo dos séculos, a palavra patrimônio foi sendo requalificada, e passou a possuir diversos significados na literatura. Admitindo que é preciso ponderar sobre o que é ou não patrimônio cultural, argumenta-se que tal ponderação vai depender da forma de ser de cada sociedade. Nesse sentido, pode-se afirmar: Nós preservamos o patrimônio a fim de preservarmos a memória, a ”faculdade pela qual as coisas são relembradas” e a partir da qual a história pode ser registrada. Memória é processo e os documentos são seus produtos. Dito de outra maneira, a memória habita os documentos escritos, as artes, as construções e todas as formas de patrimônio (Cloonan, 2016, p. 111). 29 Candau (2021, p. 16) reflete que “[...] o patrimônio é uma dimensão da memória” e que “[...] é menos um conteúdo que uma prática da memória obedecendo a um projeto de afirmação de si mesma” (ibid. p. 163). Dessa forma, o patrimônio se torna um meio pelo qual as comunidades reafirmam suas identidades, valores e histórias. Essa visão holística e dinâmica da preservação do patrimônio nos desafia a compensar nossas estratégias de conservação, enfatizando a necessidade de incluir e valorizar as práticas culturais vivas que dão significado aos objetos e locais históricos. Diante disso, busca-se contemplar o conceito peculiar de patrimônio cultural, que sofre variações conforme o contexto em que é empregado. Entretanto, reconhece-se que a cultura é uma memória não genética, entendida como um conjunto de informações acumuladas e transmitidas pelos grupos sociais (Velho, 2009). As pessoas, enquanto seres históricos, continuamente geram novos elementos e valores culturais, estabelecendo um processo contínuo de transmissão. Essa transmissão, como alega Velho (ibid.), ocorre por meio de várias manifestações, tais como as artísticas, religiosas, educativas, morais, entre outras, que compõem um continuum semiótico. A cultura, descrita como inteligência coletiva, engloba não apenas aspectos sociais, mas todos os fenômenos que permeiam o cotidiano, conforme apontam os semioticistas da Escola de Tártu-Moscou (ETM). A cultura é um mecanismo dinâmico de organização, conservação e transmissão de informações, e não um mero depósito (Velho, 2009). Por esse motivo, o significado de patrimônio depende do contexto dado à simbolização que é realizada, como também às influências territoriais e temporais, sendo uma construção histórica e culturalmente determinada. Quando se classifica esses objetos materiais em patrimônio cultural, eles criam teias de significações — vista de forma individual ou coletiva, ou seja, o patrimônio cultural — refere-se “[...] ao conjunto de tudo que tem significação, aquilo que tem sentido social, não importando se esse patrimônio é algo materializado ou simplesmente manifestações da cultura” (Nativa; Reis, 2017, p. 5). Souza (2008) descreve que a concepção de patrimônio, ao longo da história, adquiriu novos elementos e vinculou-se à ideia de nação e cultura. Segundo a autora, esse vínculo ocorreu a partir do momento em que “[...] se passou a trabalhar com a noção de herança nacional, com a formação de grupos mais organizados social e politicamente e, efetivamente, com o surgimento dos Estados nações” (Souza, 2008, p. 38). 30 Para Souza (2008), o conceito de patrimônio cultural evolui ao longo do tempo, incorporando novos valores e dimensões que vão além das históricas e artísticas. A ideia de patrimônio não é estática, mas reflete as interações dinâmicas e a diversidade cultural dos grupos sociais. Em vez de ser um conceito fixo, o patrimônio é um processo contínuo de construção e transformação. A modernidade reconheceu que o patrimônio cultural é variado e está em constante mudança, incorporando todas as manifestações da vida humana, como criações artísticas, objetos históricos, edificações, crenças, costumes, entre outros. Na conjuntura da memória coletiva, como destaca Baer (2010), o passado assume uma relação dinâmica com o presente, superando a visão de um mero arquivo estático. Nesse contexto, Portella (2012, p. 20) explicita que o “elo entre o passado e o presente de um grupo ou de uma nação permite a identificação e a continuidade de sua história”. Essa interconexão entre memória e patrimônio, bem como o constante redesenho do passado pelos valores, crenças e circunstâncias atuais, ressalta a importância de entender a herança cultural como um processo vivo. Esse entendimento é fundamental tanto para a construção da identidade coletiva quanto para a formulação de políticas públicas voltadas à preservação patrimonial. De acordo com Martins (2011), o patrimônio cultural consiste no conjunto de bens, tanto materiais quanto imateriais, que são considerados de interesse coletivo, notavelmente proeminentes para a sua preservação ao longo do tempo. O patrimônio faz rememorar o passado, é uma manifestação, um testemunho, uma invocação, ou melhor, um chamamento de memória. O patrimônio, possui uma função de presença de (re)memorar os acontecimentos mais relevantes, estabelecendo uma relação intrínseca com a memória social (idib.). A perspectiva de que o patrimônio cultural atue como um elo entre o passado e o presente, rememorando eventos e estabelecendo uma conexão intrínseca com a memória social, observa a sua dinâmica na preservação da história e no contexto da CI. Isso implica que o patrimônio transcende a mera estática, revelando-se como um mecanismo ativo que resgata e conserva momentos históricos. Ao fazer isso, ele promove a construção da identidade coletiva e na extensão da compreensão do passado no contexto presente. A relação entre patrimônio e memória não se restringe a elementos físicos, mas inclui a dimensão social e coletiva, que confere à memória a condição de “elemento da identidade de um lugar”, bem como a função de preservar a memória urbana (Jayo; Vargas, 2019). De acordo com Flores e Santos (2017, p. 3), o patrimônio cultural é definido como “[...] o 31 conjunto de bens materiais e imateriais, que representam a memória, a identidade e a história dos costumes de uma sociedade”. Oliveira (2016, p. 2), por sua vez, defende que: O patrimônio cultural procura se basear na construção cultural e social idealizada em determinado espaço de tempo presente, no seu legado deixado como fonte de informação a ser parte considerável para gerações futuras, representadas através de características peculiares que formarão a identidade cultural de um povo garantindo a sua legitimação social e indenitária. Dentro dessa perspectiva, os estudos de Choay (2006, p. 11), constatam que a expressão patrimônio cultural é um bem “[...] que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos produtos de todos”. Diante dessa acepção, a autora alerta para o fato de que qualquer objeto do passado pode ser transformado em um testemunho histórico, mesmo que não tenha sido inicialmente criado com essa finalidade, o que gera o fenômeno da “inflação patrimonial” (Choay, 2006). Além disso, acrescenta-se que a função de memória é um aspecto intrínseco do patrimônio, sendo central para a sua compreensão e preservação. No contexto contemporâneo, a fotografia assume uma presença impreterível como dispositivo participante na promoção da memória, especialmente na disseminação da arte e da cultura. Isso realçar a dimensão da memória, do patrimônio e da fotografia como elementos interconectados que enriquecem a herança histórica e a identidade cultural. Outra esfera a ser mencionada remete à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, 2017, não paginado) que conceitua o patrimônio como um “[...] legado que recebemos do passado, vivemos no presente e transmitimos às futuras gerações. Nosso patrimônio cultural e natural é fonte insubstituível de vida e inspiração, nossa pedra de toque, nosso ponto de referência, nossa identidade”. Dessa forma, a Unesco ampliou e enriqueceu o conceito entendendo patrimônio cultural como algo intrinsecamente relacionado ao conjunto de bens que possuem significado com sentido social, podendo ser materializado ou ser representado por representações culturais. Araripe (2004, p. 114-122) argumenta que o patrimônio vai além dos bens materiais, pois está profundamente integrado nas práticas diárias 9 e necessita de preservação e valorização social. 9 Um exemplo dessa relevância é a miniatura em balata de Monte Alegre (PA), que destaca a importância do patrimônio imaterial nas práticas diárias da comunidade (Carvalho; Souza; Cunha, 2018). Esse ofício tradicional, que abrange desde a extração do látex da balateira até a confecção de peças, evidencia a conexão entre o passado e o presente, sendo necessárias para a identidade local. A miniatura em balata atua como um meio de evocação e memória, moldando as percepções sobre a cidade, o povo e a cultura. 32 A transição do conceito de “patrimônio histórico e artístico” para “patrimônio cultural” reflete sua crescente importância na construção da identidade nacional e na interpretação histórica. De acordo com a pesquisadora, o patrimônio atua como um elo entre o passado e o presente, moldando nossa percepção da cidade, do povo e da cultura. Araripe (2004) destaca que o patrimônio cultural, como memória coletiva, é uma fonte valiosa para pesquisa e educação, e contribui para a formação de indivíduos mais conscientes e engajados na preservação e valorização de sua herança cultural. Nesse contexto, a fotografia assume um papel na preservação e interpretação do patrimônio cultural (Lima; Melhem; Cunha, 2008). Ao documentar a realidade de uma época ou local específico, a fotografia torna-se uma ferramenta indispensável para a conservação da memória coletiva, oferecendo uma visão concreta das práticas e tradições que moldam a identidade cultural. Assim, a fotografia não apenas preserva a memória visual, mas sua valorização e conservação promovem o ensino e a reflexão sobre o passado, aprofundando a compreensão da herança cultural (Lima; Melhem; Cunha, 2008). A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB) ampliou o conceito de patrimônio ao substituir a denominação “Patrimônio Histórico e Artístico” por “Patrimônio Cultural Brasileiro”. De acordo com a CRFB, “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira” (Brasil, 1988, p. 1). A Constituição, conhecida como Constituição Cidadã, estabelece a colaboração entre o poder público e as comunidades para a promoção e proteção do patrimônio cultural brasileiro, somando acervos fotográficos essenciais para a preservação da memória e da história visual do país. Para este estudo, adotam-se as definições de patrimônio cultural material conforme estabelecido pela Constituição e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A pesquisa também se fundamenta em teóricos como Pollak (1989, 1992), Nora (1993), Kossoy (2001), Fillipi, Lima e Carvalho (2002), Cerávolo (2010), Le Goff (2012), Halbwachs (2013), Biondo (2016), Barros (2022), Chaves (2023) e Moura (2023), entre outros. 33 2.3 LUGARES DE MEMÓRIA: O LABIRINTO DAS RECORDAÇÕES E A FORÇA DA IDENTIDADE Segundo Pollak (1989), existe uma crítica às fontes que defendem que a memória e a história são, por si só, a “identidade de um povo”. Esse sociólogo e historiador austríaco argumenta que a memória é, em parte, herdada de um fenômeno construído que está sujeito a mudanças que surgem das circunstâncias em que ela é expressa e articulada. Entende-se que as preocupações do momento expressam um constitutivo respeitável na estruturação da memória e há distintos “[...] elementos da memória, bem como os fenômenos de projeção e transferência que podem ocorrer dentro da organização da memória individual ou coletiva” (Pollak, 1989, p. 4). Os acervos, em especial, são coleções de objetos, documentos e registros que foram reunidos ao longo do tempo com a finalidade de preservar a memória de um lugar, uma instituição ou uma pessoa. Esses acervos são importantes porque permitem a pesquisa e a investigação histórica, além de servirem como fonte de informação para as futuras gerações (Filippi; Lima; Carvalho, 2002). Soares e Quinalha (2010) fazem referência à noção dos lugares de memória que, por sua vez, são espaços físicos que remetem a determinados eventos históricos, como museus, memoriais, monumentos, sítios arqueológicos, entre outros. Os pesquisadores entendem que esses lugares funcionam como pontos de encontro entre a memória e a história, e são capazes de despertar o sentimento de pertencimento e identidade. Sem perder a respectiva identidade, a fotografia- em-diálogo ganha novos elementos e, sugere que ela tem ‘rastros memoriais’ que retratam um evento para ser recordado, carregando o simbolismo de lembrar e ensina: […] a fotografia nesta relação entre história-memória-lugar de memória, contém nela mesma, rastros memoriais que cristalizam um evento histórico e constitui a sobredeterminação de recordar e estimular o não esquecimento. Na fotografia “o jogo de interação recíproca” entre história e memória também acontece. Primeiro porque há “vontade de memória”, quando nela é depositada a intencionalidade dela servir como testemunho para o futura. E por último, a fotografia carrega em si seu próprio sentido simbólico (Sarmento-Pantoja; Silva, 2022, p. 142). No Brasil, temos diversas expectativas de lugares de memória e acervos que merecem destaque. O Museu Nacional do Rio de Janeiro (MNRJ) é um dos mais egrégios acervos do país, com mais de 20 milhões de itens, que vão desde registros arqueológicos até obras de arte (Museu Nacional, 2024). Já o Memorial da América Latina, em São Paulo, é um lugar que representa a diversidade cultural e a identidade latino-americana. Além desses, há lugares de memória que representam momentos da história do país, como o Memorial dos Direitos 34 Humanos – Casa da Liberdade, localizado em Belo Horizonte – cujo objetivo é homenagear e relembrar as vítimas da ditadura militar no Brasil, em especial aquelas que foram perseguidas e presas pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Esses lugares de memória têm como propósito manter viva a memória desses acontecimentos históricos e contribuem para a reflexão sobre a importância dos direitos humanos e a democracia no Brasil. Nessa via, esses lugares são capazes de despertar nos visitantes sentimentos de pertencimento e identidade, e de fortalecer a memória coletiva de uma sociedade. Além disso, entende-se que os acervos fotográficos são essenciais para a preservação da história e da cultura de um povo ao reunir documentos, registros e objetos que contam a história de uma época, e que permitem a pesquisa e a investigação histórica (Soares; Quinalha, 2010). O conceito de lugares de memória se destaca como testemunho do patrimônio cultural, material e imaterial, na construção da identidade coletiva, valorizando a diversidade e fomentando a educação patrimonial e o turismo cultural. Conforme Nora (1993), a noção de lugares de memória surge nas sociedades contemporâneas como um mecanismo para prevenir a perda de identidade de grupos sociais e a falta de rituais mnemônicos. Esses lugares de memória são portadores de uma memória duradoura, graças à preservação de seus elementos materiais. Essa característica é a razão subjacente para a frequente institucionalização desses lugares de memória. Nora (1993, p. 13), acrescenta que “eles nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea, de que é preciso criar arquivos, de que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais”. Para esta autora, as minorias defendem suas memórias para mostrar a sua verdade que, sem essas memórias seriam suplantadas pela história. Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que eles envolvem, eles seriam inúteis. E se, em compensação, a história não se apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificá-los, eles não se tornariam lugares de memória. É esse vai-e-vem que os constitui: momentos de história arrancados do movimento da história, mas que lhe são devolvidos. Não mais inteiramente a vida, nem mais inteiramente a morte, como as conchas na praia quando o mar se retira da memória viva [...] (Nora, 1993, p. 13). Para Nora (1993), a percepção de uma ruptura no equilíbrio entre o passado e o presente evidencia a importância de acessar registros acumulados ao longo do tempo, o que levou à criação dos lugares de memória. Esses espaços preservam e organizam o conhecimento histórico, servindo como pontos de referência para a compreensão das transformações sociais e culturais. Ao permitir que as gerações futuras tenham acesso a essas referências, os lugares de memória conservam a identidade cultural, e fornecem o contexto necessário para 35 interpretar e construir novos entendimentos sobre o passado, influenciando diretamente a continuidade e a renovação da herança cultural. Nora (1993, p. 21) ressalta que “[...] não existe mais um homem memória, em si mesmo, mas um lugar de memória”. Além disso, a memória “[...] tem necessidade de suportes exteriores e de referências tangíveis de uma existência que só vive através dela” (Nora, 1993, p. 14). Portanto, a urgência de transmitir o acesso aos registros acumulados ao longo do tempo torna imperativa a criação de lugares de memória (Soares; Quinalha, 2010). Esses locais desservem para preservar o conhecimento humano, bem como para assegurar a memória e a identidade de um povo para as gerações vindouras. Murguia (2010, p. 8-9) alega que a identidade também se associa aos espaços onde está fixada a lembrança de lugares e objetos (referenciais identitários) presentes nas memórias. Esses lugares de memória assumem funções simbólicas, pois são dedicados a uma recordação social, ou físicas, por terem essa característica informacional de armazenar provas de acontecimentos, ligares, pessoas. Félix (2004, p. 39) revela que a “[...] identidade associa-se também aos espaços, onde está fixada a lembrança de lugares e objetos presentes nas memórias, como organizadores de referenciais identitários”. Esses arquivos, bibliotecas e museus são lugares de memória “mas consideramos também que o entendimento de cada um deles a respeito da memória deve ser aproximado, num encontro no qual, múltiplos olhares sobre o tema fossem apresentados” (Murguia, 2010, p. 8-9). No contexto do acervo fotográfico do IHGVV, entende-se que a expressão ‘espaços da memória’ se associa ao seu acervo fotográfico e não se limita a aspectos físicos, mas assume uma dimensão corporal. Todavia, deve-se frisar que esses locais são vulneráveis perante os aspectos conjunturais da sociedade moderna, especialmente após a globalização, cujos avanços tecnológicos e fluidez do tempo atual muitas vezes ameaçam sua própria preservação (Oliveira; Rodrigues, 2011; Franco, 2016). Dentro da perspectiva de coordenar o Museu Casa da Memória (Vila Velha), o instituto atua como um sustentáculo, e multiplica abordagens que enriquecem a compreensão coletiva do tema da memória. Por meio de uma abordagem estratégica, Miguel, Silva e Aldabalde (2022) arguem que o IHGVV vem potencializando ininterruptamente o acervo documental, em consonância com sua missão fundamental de promover a disseminação da mediação 36 informacional e patrimonial, bem como a instituição é atuante em preservar e transmitir a história e a identidade cultural da comunidade canela-verde. 2.4 PRESERVAÇÃO OU PERDA? O FUTURO DOS ACERVOS FOTOGRÁFICOS EM JOGO A fotografia faz parte do patrimônio documental e cultural. Com a transformação digital e a ascensão das novas mídias, a fotografia se consolidou como um elemento da comunicação social, conforme afirmam Lima (2007), Palacin (2012), Malverdes (2015), Silva (2021), Ward (2021), entre outros. No contexto digital, a fotografia envolve a seleção de formatos de armazenamento que sejam estáveis e duráveis, a organização de acervos para garantir sua acessibilidade ao público, e a implementação de técnicas de conservação para protegê-las contra danos e deterioração. Além disso, a digitalização dos acervos fotográficos é amplia a acessibilidade e assegura a preservação a longo prazo (The British Library, 2014). A fotografia exerce um impacto profundo e multifacetado, sendo um tema de grande relevância e complexidade na sociedade contemporânea. Ela integra esforços acadêmicos e práticos para garantir a preservação e acessibilidade da identidade sociocultural. Conforme alerta Cunha (2016), “preservar é preciso”, e essa necessidade é urgente. A preservação vai além da manutenção física dos documentos; deve-se assegurar que as informações e conhecimentos neles contidos permaneçam acessíveis e relevantes. Dado o rápido avanço da transformação digital, as técnicas de preservação devem evoluir continuamente, incorporando novos métodos e recursos para proteger esses valiosos acervos documentais. Nesse âmbito, a CI preserva acervos fotográficos, pois aborda de maneira larga as questões relativas ao armazenamento, gestão e conservação de informações, conforme destaca a obra de Cassares e Moi (2000). Observa-se que, para Araújo e Santos (2007, p. 99), a “[...] construção de arquivos, notação de dados, organização de eventos e celebrações são atividades da memória que cumprem papéis sociais fundamentais na sociedade em que vivemos”. Essas duas abordagem enfatizam que memória, história e esquecimento são experiências essenciais, cada qual singular, sem confundir-se ou completar-se. Então, cabe observar que, nos tempos atuais, afastamo-nos consideravelmente da ideia de história como um registro exato do passado, bem como da redução da memória a uma mera reconstrução seletiva desse passado (Araújo; Santos, 2007). Não obstante, verifica-se que o Estado brasileiro demonstra uma certa sensibilidade em 37 relação às questões que abrangem a necessidade de guarda, tratamento e disponibilização dos acervos fotográficos, o que permite prenunciar que “[...] três instituições podem ser vistas como referência para o trato dos acervos fotográficos, pois contribuíram e ainda contribuem para pensar as políticas de guarda, preservação e difusão: a Funarte, a Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles” apontam Arruda e Gandum (2020, p. 2). Mas, em que sentido pretende-se utilizar o termo ‘acervos fotográficos’? Aqui nos referimos ao conjunto de coleções de fotografias com valor histórico, artístico, cultural ou científico, representando um legado imagético que documenta momentos passados. Por isso, o verbete ‘fotografia’ é utilizado para tratá-la no amplo documental, bem como no contexto do seu caráter técnico híbrido que combina arte e documentação. Como observa Grieco (2015, p. 50), a coleção fotográfica situa um “[...] eficaz instrumento para o campo da preservação cultural, devido às suas características de fornecer registros, de servir como fonte histórica e como documento visual, e de ser ela própria um bem cultural, imbuído de memória, identidade, e valores individuais e coletivos”. Assim, a fotografia se estabelece como um bem cultural coletivo e assume uma importância multifacetada na preservação sob a ótica histórico- documental. Logo, frisa-se que o termo ‘acervo fotográfico’ se refere a documentos que vão desde textuais a materiais fotográficos, partes de arquivos dos quais restam apenas fotografias, pequenos grupos de fotografias, entre outros. Os acervos fotográficos fazem parte do patrimônio documental sob a custódia de arquivos, museus, bibliotecas e centros de documentação e em todas essas instituições de guarda serão aplicados a esses acervos o tratamento técnico de organização de acordo com as teorias e métodos relativos a cada campo disciplinar representado pela instituição custodiadora, visando ao amplo acesso, pelo público, das informações contidas nos documentos (Lacerda, 2013, p. 240). A importância do documento fotográfico é amplamente reconhecida pela Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) e a preservação de acervos fotográficos situa-se em um rol de contributos da formação para o desenvolvimento de competências necessárias à atuação dos profissionais da informação nas instituições públicas e privadas. A CI, da mesma forma, ao estar envolvida na digitalização de acervos fotográficos, atua para ampliar a acessibilidade e a preservação a longo prazo, oferecendo novas oportunidades para se apresentar e compartilhar informações, o que inclui a criação de exposições virtuais, a disponibilização de fotografias on-line e a integração de informações em pesquisas e projetos educacionais. A CI colabora para a preservação de acervos fotográficos, ao direcionar olhares para as questões relacionadas ao armazenamento, à gestão e à conservação de informações. Isso 38 requer a seleção de formatos de armazenamento estáveis e duráveis, a organização de acervos de forma a torná-los acessíveis ao público e a implementação de técnicas de conservação para proteger as fotografias contra danos e deterioração. Embora sejam relativamente novos os trabalhos de fotografia no Brasil, ele se iniciou há mais de um século e meio, e conta com produções tanto qualitativas quanto quantitativas: Os inúmeros acervos de imagens espalhados por todo o Brasil são capazes de revelar situações inéditas da cultura brasileira. Pode-se afirmar que parte significativa da história do Brasil ainda permanece revelada apenas na bidimensionalidade das fotografias. Alguns historiadores afirmam que, em termos de utilização da fotografia, há praticamente tudo para fazer, visto ter muitas imagens, porém poucos trabalhos (Canabarro, 2005, p. 24). A preservação de acervos fotográficos contribui para manter e construir a memória coletiva, pois as fotografias são documentos visuais valiosos que capturam momentos, lugares e pessoas importantes para a sociedade. Eles são fontes históricas e culturais que fornecem informações sobre o passado e ajudam a moldar a compreensão da sociedade sobre o seu próprio desenvolvimento e, conforme apontam Karpinski; Kressin e Vieira (2022, p. 33), “[...] com técnicas cada vez mais avançadas de digitalização e da melhoria na qualidade de visualização dos dados na internet, o patrimônio cultural ganhou o ciberespaço e trouxe questões ainda mais complexas à categoria ‘patrimônio’ […]”. Em resumo, a preservação de acervos fotográficos mantém e constrói a memória coletiva, e a CI participa desse processo, ajudando a preservar as fotografias para as gerações futuras e torná-las acessíveis e significativas para a sociedade. Já, os expoentes teóricos brasileiros que tratam do enfoque da memória e fotografia incluem: ▪ José Luiz Goldfarb: professor emérito da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, conhecido por suas contribuições à teoria da cultura visual e da fotografia. Ele destaca a importância da fotografia como um mecanismo de registro e preservação da memória individual e coletiva. ▪ Lúcia Santaella: renomada filósofa e teórica da comunicação, que tem se dedicado a estudar as relações entre arte, tecnologia e linguagem. Ela destaca a importância da fotografia como um mecanismo de construção da memória coletiva, e argumenta que as fotografias podem ser vistas como uma forma de documentação histórica e cultural. ▪ Nilce Martins: professora titular da Universidade Estadual de Campinas que tem se dedicado a estudar a fotografia como um instrumento de representação da memória coletiva. Ela enfatiza a importância de se considerar as dimensões políticas, sociais e 39 culturais da fotografia na construção da memória coletiva. Esses teóricos brasileiros lembram da importância da fotografia como um mecanismo para a preservação e construção da memória coletiva, e argumentam que é necessário considerar as dimensões políticas, sociais e culturais da fotografia para compreender sua relevância e significado. A preservação de acervos fotográficos mantém e constrói a memória coletiva. Elas são fontes históricas e culturais, estão fortemente imbricadas na ascensão da modernidade (Gordon; Kurzwelly, 2018) e, ao fornecer informações sobre o passado, ajudam a moldar a compreensão da sociedade sobre o seu próprio desenvolvimento. Ao contribuir para preservar acervos fotográficos, a CI auxilia sistematicamente na construção e manutenção da memória coletiva, permitindo que as informações e valores da sociedade sejam transmitidos às gerações futuras. Portanto, a preservação de acervos fotográficos é uma parte importante da missão da CI, que visa a organização, descrição, preservação e difusão do conhecimento. 2.5 ENTRE ECOS E RELÍQUIAS: O GARIMPO DAS NARRATIVAS HISTÓRICAS PELOS INSTITUTOS HISTÓRICOS E GEOGRÁFICOS Os Institutos Históricos e Geográficos (IHGs) surgiram na Europa no século XVIII como organizações que buscavam preservar e difundir a história, a geografia e a cultura de um país ou região (Silva, 2020a). O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) 10 foi fundado em 1838, tornando-se o primeiro instituto cultural do país e um dos mais antigos da América Latina. O instituto tem como objetivo preservar e difundir a memória histórica e cultural do país, bem como fomentar a pesquisa e o estudo dessas áreas (Meira, 2015). Por meio de suas atividades, o IHGB tem contribuído significativamente para a formação da identidade cultural brasileira e para a preservação do patrimônio histórico e cultural do país. O IHGB estava ligado à Corte Portuguesa, com isso: [...] os IHGs procuram construir a memória oficial desde sua gênese, sendo preservados os documentos que representam a história dos vultos e da elite, configurando o que se convencionou chamar de história tradicional. [...] Os IHGs buscavam se estabelecer como guardiões da memória oficial local. O papel dos IHGs para os seus sócios é o de colaborar para resgatar e preservar a memória da nação brasileira, dos estados e municípios (Meira, 2015, p. 35-41). 10 O IHGB destaca-se pela custódia de arquivos, diferenciando-se do Arquivo Nacional por não ser um órgão estatal. Ao contrário desse, o IHGB não tinha a responsabilidade de servir como depositário oficial do patrimônio cultural arquivístico da nação, mas seu objetivo inicial era reunir arquivos privados que pudessem, de alguma maneira, contribuir para a história do país (Cougo Junior, 2023). 40 A tratar de questões da memória coletiva, os IHGs estabelecem relações para a preservação da memória (ao coletar, preservar e compartilhar informações), para a pesquisa (ao conduzir estudos sobre a história e a geografia de uma região ou comunidade), para a educação (ao ofertar programas educacionais e a mediação informacional), para valorização do patrimônio (ao fortalecer e viabilizar ações aos artefatos culturais). Essas são apenas algumas das relações entre IHGs e a memória coletiva, mas existem muitas outras formas pelas quais eles podem trabalhar junto com a CI para preservar e compreender a memória coletiva (Meira, 2015). Além das mencionadas anteriormente, outras possíveis relações entre IHGs e a memória coletiva incluem: documentação de eventos históricos e culturais; exibição de objetos históricos e culturais; compilação de fontes primárias (como diários, cartas e fotografias, para documentar a história e fortalecer a memória coletiva); preservação de monumentos e lugares históricos; desenvolvimento de programas de estudo e compilação de bibliografia para a promoção da história e da cultura local. Esses são apenas alguns exemplos de como os IHGs podem atuar para preservar a memória coletiva. Possibilidades relacionais entre IHGs e memória coletiva são aproximadas com: as exibições e exposições (que apresentam informações sobre a história e a geografia); a preservação do patrimônio arquitetônico (a busca de preservar edifícios e outras estruturas históricas); a publicação de livros, artigos, documentário e produções audiovisuais (que auxilia a compreender os artefatos da memória coletiva); a estruturação de bibliotecas e arquivos (útil à preservação e acesso às informações, viabilizado em instrumentos de pesquisa); e a colaboração com outras organizações e com eventos comunitários (que prospecta oportunidades e diálogos). Outra questão funcional a ser abordada diz respeito à preservação de informações precisas e atualizadas sobre o número exato de IHGs regionais presentes no Brasil, como observa Meira (2015). Contudo, é recorrente encontrar IHGs de natureza diversa em diferentes regiões do país, cada um com sua área de atuação e objetivos específicos. Alguns IHGs estaduais mais conhecidos incluem o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambucano (IAHGP), o IHG de São Paulo, o IHG de Minas Gerais, o IHG Paraibano, o IHG do Rio Grande do Sul, o IHG de Alagoas e o IHG do Espírito Santo. Cada um desses IHGs tem sua própria área de atuação e pode ser especializado em um tema ou região. Juntos, preservam e divulgam a história e a cultura de sua macrorregião. Além disso, existem diferentes tipos de 41 IHGs no país, como em nível nacional, estadual, municipal (que contribuem para a identidade e a consciência histórica dos habitantes do município) e até mesmo em zonas, como o Instituto Histórico da Baixada de Jacarepaguá (IHBAJA). Como uma instituição sem fins lucrativos, o IHGVV foi criado com o objetivo de preservar e divulgar a memória histórica e geográfica de Vila Velha e região. Ele é formado por uma equipe de pesquisadores, engenheiros, artistas visuais, bibliotecários, arquivistas e outros profissionais da área, que se dedicam à coleta, catalogação e conservação de documentos, fotos, objetos e demais materiais relacionados à memória histórica, cultural e artística que compõem a vida da sociedade canela-verde. Rangel e Furtado (2021); Miguel, Furtado e Silva (2022); Miguel, Silva e Aldabalde (2022); Miguel, Costa e Aldabalde (2023) alegam que o instituto promove pesquisas, exposições, palestras, publicações e outras atividades que visam a valorizar e difundir a história da cidade. Nessa via, o significado e a utilidade pública do IHGVV vai além da conservação passiva de documentos e demais artefatos documentais que contenha atributo informacional e inerente aos vértices da memória (histórica, literária, social, artística entre outras). A conexão entre o IHGVV e a CI reside na missão do IHGVV de preservar e disseminar a memória c