UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS DOUTORADO EM LETRAS DANILO FERNANDES SAMPAIO DE SOUZA FACES DA VIOLÊNCIA NA LITERATURA DE LUÍS DILL: UM ESTUDO DE TRÊS NARRATIVAS PARA JOVENS VITÓRIA - ES 2024 DANILO FERNANDES SAMPAIO DE SOUZA FACES DA VIOLÊNCIA NA LITERATURA DE LUÍS DILL: UM ESTUDO DE TRÊS NARRATIVAS PARA JOVENS Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Letras do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Letras. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Arlene Batista da Silva Bolsista: Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) VITÓRIA - ES 2024 Dedico este trabalho à memória de Mirian Damariz Costa Gomes. AGRADECIMENTOS Àquele que me sustentou e permitiu que eu concluísse esta pesquisa com saúde física e emocional. Às mulheres da minha vida — minha avó, minha mãe e minha irmã —, que, mesmo sem compreenderem completamente o que eu estava estudando, me apoiaram e entenderam as minhas ausências. À minha orientadora, professora Dra. Arlene Batista da Silva, que não apenas orientou esta pesquisa, mas segurou minha mão e acreditou que seria possível, mesmo nos momentos em que eu duvidava da minha capacidade como pesquisador. Sou imensamente grato por sua orientação acadêmica primorosa, paciência e disponibilidade. Aos integrantes do Grupo de Pesquisa Literatura e Educação e do Grupo de Estudos e Pesquisa em Língua de Sinais, Interpretação e Tradução (Lisit), pelo acolhimento, pela força e pelo incentivo. À Banca de Qualificação e à Banca de Defesa, pelos apontamentos necessários e pelos saberes compartilhados, que foram essenciais para a materialização desta pesquisa. À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Espírito Santo (Fapes), pela concessão da bolsa de estudos, sem a qual esta pesquisa não seria possível. À Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo, pela concessão de licença parcial para a realização do doutorado. Ao escritor Luís Dill, pela pronta recepção aos meus pedidos de informações, pela generosidade ao responder uma entrevista tão longa e, especialmente, por sua literatura. “Olhamos em volta em busca de paz e frequentemente não vemos nada” (Jaime Ginzburg) RESUMO A presente tese vincula-se às investigações da Linha de Pesquisa “Literatura: escrita criativa, tradução e ensino” do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo, integrando os diálogos do Grupo de Pesquisa “Literatura e Educação” da mesma instituição. Com abordagem qualitativa e caráter bibliográfico-documental, este estudo teve como objetivo investigar as diferentes faces da violência na literatura juvenil do autor gaúcho Luís Dill. Para isso, foram selecionadas três obras que compõem o corpus principal de análise: A noite das esmeraldas (1997), O dia em que Luca não voltou (2009) e 100 mil seguidores (2019), representando, cada uma, uma década distinta da produção literária do escritor. A análise e interpretação da presença de diferentes formas de violência nas obras selecionadas basearam-se em estudos teóricos sobre o tema, como os de Yves Michaud, Slavoj Žižek, Byung-Chul Han e Marilena Chauí, entre outros pesquisadores. Além disso, o trabalho dialogou com pesquisas sobre a literatura brasileira contemporânea, a partir de autores como Karl Erik Schøllhammer, Tânia Pellegrini e Jaime Ginzburg, e investigações sobre a narrativa juvenil brasileira, com contribuições de João Luís Ceccantini e Alice Áurea Penteado Martha, entre outros. As análises indicaram uma progressão nas formas e manifestações da violência nas narrativas de Luís Dill, refletindo o sistema político-econômico vigente na contemporaneidade. Por meio de seus textos, o autor constrói uma realidade verossímil, fundamentada nas condições históricas e sociais do mundo objetivo, ao mesmo tempo em que realiza uma crítica contundente ao modus operandi da sociedade capitalista. Suas obras mostram como a violência encontra diferentes faces e formas de existir e de se reinventar ao longo do tempo. Palavras-chave: Literatura juvenil; Luís Dill; Violência ABSTRACT This thesis is linked to the investigations of the Research Line “Literature: creative writing, translation and teaching” of the Postgraduate Program in Literature at the Federal University of Espírito Santo, integrating the dialogues of the Research Group “Literature and Education” of the same institution. With a qualitative approach and bibliographic-documentary character, this study aimed to investigate the different faces of violence in the youth literature of the Gaucho author Luís Dill. For this, three works were selected that make up the main corpus of analysis: The night of the emeralds (1997), The day in which Luca did not return (2009) and 100 thousand followers (2019), each representing a different decade of the writer's literary production. The analysis and interpretation of the presence of different forms of violence in the selected works were based on theoretical studies on the subject, such as those by Yves Michaud, Slavoj Žižek, Byung-Chul Han and Marilena Chauí, among other researchers. Furthermore, the work dialogued with research on contemporary Brazilian literature, from authors such as Karl Erik Schøllhammer, Tânia Pellegrini and Jaime Ginzburg, and investigations on Brazilian youth narrative, with contributions from João Luís Ceccantini and Alice Áurea Penteado Martha, among others. The analyzes indicated a progression in the forms and manifestations of violence in Luís Dill's narratives, reflecting the current political-economic system in contemporary times. Through his texts, the author constructs a credible reality, based on the historical and social conditions of the objective world, at the same time as he carries out a scathing critique of the modus operandi of capitalist society. His works show how violence finds different ways of existing and reinventing itself over time. Keywords: Youth literature; Luís Dill; Violence LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Capa do livro Sombras no asfalto (2003) ................................................. 40 Figura 2 – Capa do livro Sombras no asfalto (2011) e imagem reproduzida da página 23 .............................................................................................................................. 40 Figura 3 – Capa do livro Todos contra Dante (2008) ................................................ 45 Figura 4 – Interior do livro Todos contra Dante (2008) .............................................. 45 Figura 5 – Capa do livro Destino sombrio (2013) ...................................................... 54 Figura 6 – Capa da obra Rabiscos (Maralto, 2019) ................................................... 60 Figura 7 – Capa da 1ª edição de A noite das esmeraldas (Ipsis Litteris, 1997) ...... 139 Figura 8 – Ilustrações no interior da 1ª edição de A noite das esmeraldas (Ipsis Litteris, 1997, p. 17 e 43) ..................................................................................................... 139 Figura 9 – llustrações no interior da 1ª edição de A noite das esmeraldas (Ipsis Litteris, 1997, p. 25 e 89) ..................................................................................................... 140 Figura 10 – Ilustrações no interior da 1ª edição de A noite das esmeraldas relacionadas à violência (Ipsis Litteris, 1997, p. 33, 51 e 69) .................................. 141 Figura 11 – Capa e ilustração da 3ª edição de A noite das esmeraldas (WS, 2004) ................................................................................................................................ 143 Figura 12 – Capa e estampa da folha de guarda da 4ª edição do livro de A noite das esmeraldas (Artes e Ofícios, 2010) ......................................................................... 144 Figura 13 – Capa do livro O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras, 2009) .. 164 Figura 14 – Segunda capa do livro O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras, 2009) ....................................................................................................................... 165 Figura 15 – Epígrafe do livro O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras, 2009) ................................................................................................................................ 166 Figura 16 – Ilustração do interior da obra O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras, 2009, p. 16) ................................................................................................. 167 Figura 17 – Reprodução das páginas 56-57 da obra O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras, 2009) ............................................................................................ 168 Figura 18 – Reprodução da abertura do capítulo 4 de O dia em que Luca não voltou (Cia. das Letras, 2009, p. 68-69) ............................................................................. 168 Figura 19 – Capa do livro 100 mil seguidores (Casa 29, 2019)............................... 193 Figura 20 – Banner da página inicial do site da campanha Setembro Amarelo ...... 195 Figura 21 – Página de abertura do primeiro capítulo de 100 mil seguidores (Casa 29, 2019) ....................................................................................................................... 196 Figura 22 – Reprodução da capa de 100 mil seguidores adesivada como finalista ao prêmio Jabuti (2020) ............................................................................................... 196 Figura 23 – Reprodução de nota poética escrita por Ana, personagem de 100 mil seguidores (2019) ................................................................................................... 214 LISTAS DE TABELAS Tabela 1 – Quantidade de estudos críticos por ano (2009-2022) ............................. 90 Tabela 2 – Quantidade de estudos realizados a partir de determinada obra ............ 93 LISTAS DE QUADROS Quadro 1 – Bibliografia de Luís Dill ........................................................................... 22 Quadro 2 – Obras de Luís Dill selecionadas para análise ......................................... 28 Quadro 3 – Narrativas longas de Luís Dill destinadas ao público juvenil .................. 35 Quadro 4 – Lista de dissertações e teses em torno da obra de Luís Dill .................. 64 Quadro 5 – Lista de artigos em revistas acadêmicas e anais de eventos ................. 65 Quadro 6 – Trabalhos em livros físicos e e-books .................................................... 67 SUMÁRIO LETRAS INICIAIS ..................................................................................................... 15 1 DECIFRANDO O ESCRITOR: TRÊS DÉCADAS DE PRODUÇÃO LITERÁRIA PARA JOVENS ......................................................................................................... 34 1.1 Década de 1990: o início da carreira literária ...................................................... 36 1.2 Década de 2000: inovações temáticas e formais ................................................ 39 1.3 Década de 2010: livros à mão cheia ................................................................... 50 2 POR TRÁS DAS PESQUISAS: A LITERATURA JUVENIL DE LUÍS DILL SOB O OLHAR DA CRÍTICA ACADÊMICA ......................................................................... 62 2.1 A (não) presença da temática da violência nos estudos ..................................... 68 2.2 Um balanço das pesquisas sobre as obras de Luís Dill ...................................... 88 3 A TEMÁTICA DA VIOLÊNCIA DE CARONA COM A LITERATURA ................... 95 3.1 Violência(s): uma definição complexa ................................................................. 97 3.2 A violência na realidade brasileira ..................................................................... 106 3.3 Violência, sociedade e mídia ............................................................................. 111 3.4 A temática da violência na literatura brasileira .................................................. 114 3.5 Realismo e a violência na literatura juvenil brasileira ........................................ 121 4 A NOITE DAS ESMERALDAS (1997): FLASHES DA REALIDADE E DA VIOLÊNCIA..............................................................................................................133 4.1 O projeto gráfico-editorial .................................................................................. 136 4.2 Flashes da realidade ......................................................................................... 145 4.3 Flashes da violência .......................................................................................... 150 5 O DIA EM QUE LUCA NÃO VOLTOU (2009): VIOLÊNCIA E MELANCOLIA ... 160 5.1 O projeto gráfico-editorial .................................................................................. 163 5.2 A melancolia na narrativa .................................................................................. 171 5.3 Violência e realidade brasileira .......................................................................... 182 6 100 MIL SEGUIDORES (2019): AS MÚLTIPLAS FACES DA VIOLÊNCIA E DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA ......................................................................... 190 6.1 O projeto gráfico-editorial .................................................................................. 192 6.2 Carol: um reflexo da sociedade contemporânea ............................................... 198 6.3 Ana e a violência subjetiva ................................................................................ 211 6.4 Ticiana: violência no limite ................................................................................. 216 6.5 Gilda: uma vítima da violência estrutural ........................................................... 221 6.6 Temas urgentes na novela juvenil contemporânea ........................................... 226 FINAL DE LINHA .................................................................................................... 230 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 236 APÊNDICES ........................................................................................................... 253 APÊNDICE A – TERMO DE CONSENTIMENTO ASSINADO ................................ 253 APÊNDICE B – ENTREVISTA COM LUÍS DILL (2024) .......................................... 256 ANEXOS ................................................................................................................. 279 ANEXO A – ZIRALDO CONVERSA COM O ESCRITOR LUÍS DILL (2012)........... 279 ANEXO B – PROGRAMA PRIMEIRA PESSOA COM LUÍS DILL E CAIO RITER (2013) ................................................................................................................................ 284 ANEXO C – PARTICIPAÇÃO NO PROGRAMA ESTAÇÃO CULTURA DA TVE (2013) ................................................................................................................................ 308 ANEXO D – ENCONTRO COM O ESCRITOR EM BENTO GONÇALVES (2020) . 310 ANEXO E – PARTICIPAÇÃO NO PODCAST PALAVRAS EM SALA DE AULA (2021) ................................................................................................................................ 323 ANEXO F - LIVE REALIZADA PARA O CANAL ROGER CASTRO (2021) ............ 338 ANEXO G – BATE-PAPO COM O AUTOR LUÍS DILL (COLÉGIO MURIALDO) (2021) ................................................................................................................................ 354 ANEXO H – PASSAPORTE DA LEITURA COM O ESCRITOR LUÍS DILL (2021). 371 ANEXO I – PARTICIPAÇÃO DE LUÍS DILL NO III ENCONTRO NACIONAL DE LITERATURA BRASILEIRA E SOCIEDADE (2023) ............................................... 375 15 LETRAS INICIAIS Deixo a revista de lado e fico folheando o tal livro. A divina quimera. Eduardo Guimaraens. Estranho a falta do til assim como as pessoas estranham o dáblio do meu nome. Bisbilhoto as letras miúdas nas páginas iniciais. Homenagem do Instituto Estadual do Livro e da Biblioteca Pública do Estado, DAC/SEC-RS, no cinquentenário da morte do poeta. Descubro que a ilustração da capa é de um Correia Dias. Ao lado, entre parênteses, aparece 1916. Será o ano em que o cara fez a ilustração? Na ficha catalográfica outra data: 1978. Deduzo que deve ser o ano de publicação do livro, já que as páginas estão amareladas. Bem abaixo, o endereço da editora e o telefone. Apenas seis números. Na outra página, o nome do autor, o nome do livro, uma ilustração (duas colunas retorcidas de fumaça, acho eu), Rio de Janeiro, MCMXVI. Mas o que me chama a atenção é que o quimera está escrito com cê agá: chimera. Será que se escrevia assim antigamente? Aliás, o que significa quimera? Sento na cama e uma leve tontura faz o quarto balançar. Coloco as mãos no colhão. É só esperar um pouco e ir até a prateleira da sala pegar o velho dicionário do meu pai (Dill, 2005, p. 27-28). No trecho transcrito acima, pertencente à obra Letras finais, de Luís Dill, o adolescente Oswaldo acabara de receber um livro de poesias, ganhado pelo irmão na escola, durante um sorteio feito pela professora de Português. Como não se interessava pela leitura, o jovem entregou o livro a Oswaldo, o que veio a ser “o primeiro presente que recebo do meu irmão. E o último” (Dill, 2005, p. 12). Ao contrário do irmão, Oswaldo se interessa bastante pela leitura. Na passagem acima, percebemos o interesse com o qual adentra o universo literário, observando os detalhes do objeto, prestando atenção aos elementos paratextuais. À medida que a narrativa avança, o livro torna- se parte da memória afetiva do narrador, uma ligação com o irmão. A partir de então, o interesse pela obra literária só cresce, uma vez que ele transcreve passagens do livro de poesias com as quais mais se identifica, arriscando-se, por vezes, a escrever poemas. Ao recordar as primeiras cenas da literatura em minha vida, vejo certa semelhança entre minha história com a leitura e a narrada acima. Em um primeiro momento, meu contato com a literatura se deu por intermédio da oralidade, a partir dos contos de tradição oral, narrados pelo meu bisavô, um exímio contador de histórias. Logo depois, lembro-me dos contos de fadas, clássicos da literatura infantil. A bela adormecida, O patinho feio e Os três porquinhos são, nas minhas lembranças, meus primeiros contatos com a arte da palavra – a literatura. Pertencente a uma família muito humilde, de trabalhadores rurais e empregadas domésticas, para os quais o estudo não foi 16 oportunizado, a convivência escolar me permitiu o convívio com o mundo da leitura e da literatura. Sem acesso a livros em casa, o interesse por eles surgiu logo cedo por meio da principal — e por vezes a única — mediadora de leitura a que os filhos da classe trabalhadora têm acesso: a escola. Foi no ambiente escolar que me familiarizei com a literatura infantil, por meio da leitura integral das obras ou de trechos contidos nos livros didáticos. Assim como na narrativa de Letras finais, na qual o livro entra por intermédio da escola, na minha trajetória de vida não foi diferente. Na adolescência, por volta dos anos finais do Ensino Fundamental, A droga da Obediência, de Pedro Bandeira, O gênio do Crime, de João Carlos Marinho, além de Os colegas e Corda Bamba, de Lygia Bojunga Nunes, foram minhas portas de entrada para o universo da literatura juvenil, por meio da biblioteca escolar. Já no Ensino Médio, recordo-me das obras Depois daquela viagem, de Valéria Piassa Polizzi, além dos clássicos Iracema, Capitães de Areia e A hora da Estrela, todos indicados pela professora de Português e acessados por meio de cópias, uma vez que a falta de funcionários não permitia a abertura da biblioteca escolar, fechada por mais de dois anos àquela época. Sendo assim, durante o Ensino Médio, o único contato com as obras literárias foram as indicadas pela professora de Português para compor as atividades escolares. Com a chegada do vestibular, a decisão de prestar o exame para o curso de Letras- Português se deu unicamente em razão do meu gosto pela leitura e literatura. Fui aprovado no regime de cotas sociais. Em 2008, aos 17 anos de idade, entrei no universo acadêmico, onde tive a oportunidade de conhecer vários autores, clássicos e contemporâneos, da literatura de Língua Portuguesa. A leitura e as reflexões feitas sobre os romances de Jorge Amado e Antonio Torres, bem como da poesia de Florbela Espanca foram essenciais na minha formação acadêmica e pessoal, marcando um período ímpar da minha vida. No terceiro semestre do curso, a disciplina obrigatória O estético e o Lúdico na literatura infantil e juvenil, ministrada pela professora Valdete da Macena Pardinho, foi um divisor de águas na minha trajetória acadêmica e leitora, proporcionando-me a 17 leitura de obras como A marca de uma lágrima, de Pedro Bandeira, As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain e As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, todas já consideradas clássicas na literatura infantil e juvenil brasileira e estrangeira. Tive a certeza, então, de que era nos caminhos da literatura juvenil e na formação do leitor literário que eu gostaria de me especializar. Em 2012, na tentativa de aprender mais sobre a literatura para crianças e jovens, participei do II Congresso Internacional de Leitura e Literatura Infantil e Juvenil e II Fórum Latino-Americano de Pesquisadores de Leitura, realizado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC –RS), em Porto Alegre. Foi nesse evento que conheci pela primeira vez a literatura do escritor Luís Dill. Na oportunidade, assisti a uma palestra do professor João Ceccantini, que indicou vários livros destinados ao público juvenil. Entre eles estava a obra Todos Contra Dante. Quando adquiri o livro em questão, o projeto gráfico e a temática chamaram minha atenção e marcaram minha entrada no universo literário do autor gaúcho. Em pouco tempo, eu já havia adquirido várias obras do escritor. A forma clara e objetiva da linguagem, bem como a presença de temas indigestos e sem floreios, muitas vezes referentes a problemas sociais, provocaram em mim uma reflexão. A partir daí surgiu o interesse acadêmico sobre as temáticas tidas como polêmicas presentes nas obras juvenis de Luís Dill. Nos anos seguintes, após o término do curso em Letras, dediquei-me à vida profissional, lecionando em escolas públicas da educação básica. Instigado pelas inquietações que perpassam o professor que ensina e medeia a leitura e literatura nesse contexto, participei do processo seletivo do Mestrado em Educação, na Universidade Federal do Espírito Santo, dando início ao curso em 2017. Com vistas a buscar alternativas para a formação do leitor, sobretudo para os anos finais do Ensino Fundamental, desenvolvi a pesquisa Literatura juvenil premiada: diálogos entre pesquisas acadêmicas, crítica especializada, escola e adolescentes leitores, orientada pela professora Maria Amélia Dalvi. Nessa pesquisa, respaldada por pressupostos bakhtinianos, analisei as narrativas premiadas com a rubrica juvenil do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Prêmio “O melhor para jovem”, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), em diálogo com as 18 experiências de leitura de tais livros advindas de estudantes matriculados no nono ano do Ensino Fundamental de uma escola pública. As percepções advindas das leituras teóricas e do corpus selecionado para a pesquisa evidenciaram que a literatura juvenil contemporânea tem mostrado alta qualidade estética, competindo lado a lado com a literatura dita “adulta”, mas que ainda não é conhecida por boa parte dos professores, nem pelos estudantes. Diante disso, almejando dar continuidade à investigação sobre a literatura para jovens, bem como contribuir para o reconhecimento estético da literatura juvenil brasileira, em 2021 iniciei meu doutoramento em Letras na Universidade Federal do Espírito Santo. O estudo da literatura juvenil brasileira, tanto no Mestrado em Educação como no Doutorado em Letras, está intrinsicamente relacionado à minha condição de professor da educação básica, que leciona há quase 15 anos para adolescentes e jovens. Assim, esta tese nasce do compromisso com uma educação literária de qualidade e da vontade de evidenciar a literatura juvenil brasileira, que pode ser uma grande aliada na formação de jovens leitores no país. Por décadas, a literatura destinada ao público infantil e juvenil ocupou condição periférica no âmbito da crítica e nos estudos realizados pela academia, sobretudo da área de Letras, sendo parcialmente aceita no âmbito da Educação. Isso ocorreu devido à característica didático-moralizante inerente à maioria dos textos destinados às crianças desde os seus primórdios. Somente a partir da década de 1970, conhecida como a década do boom da literatura infantil, que o rompimento com a perspectiva pedagógica começa a ser observada nas obras direcionadas a esse público. Os livros infantis publicados nesse momento, cujo teor literário começou a ser notado, chamou a atenção da academia, que iniciou um processo de pesquisa e análise. Os estudos realizados a partir dessa década, segundo Alice Áurea Penteado Martha (2012), foram indispensáveis para que o subsistema literário infantil se afirmasse e solidificasse no sistema literário brasileiro1, 1 Os autores Alice Áurea Penteado Martha e João Luís Ceccantini utilizam a palavra subsistema para se referirem à literatura infantil e juvenil,como um desdobramento do conceito de Sistema, a partir da teorização de Antonio Candido. 19 pois passou a contar com um cânone de obras e autores, com estudo e pesquisa da crítica especializada e com um público leitor. Por outro lado, observou-se o “[...] vazio que se abria em relação ao reconhecimento de um ‘específico juvenil’, cujos produtos se apresentam nos espaços entre aquela produção [infantil] e a literatura para adultos” (Martha, 2012, p. 161). É nesse momento que a concepção de juventude ganha força, uma vez que é discutida no âmbito das diversas áreas do conhecimento, como Pedagogia, Psicologia, História, Sociologia, Biologia e Filosofia. A juventude é concebida, a partir de então, não apenas como uma etapa que antecede a vida adulta, mas como um momento singular da experiência humana. Sendo assim, os jovens passam a ser vistos como um público em potencial para o mercado. Para João Luís Ceccantini (2021, p. 13), ela torna-se “[...] um nicho muito importante de consumo em diferentes esferas (cinema, música, moda, esportes, literatura etc.), ou seja, revela-se um segmento do mercado extremamente rentável”. As editoras vislumbram esse novo público consumidor, e as obras anteriormente chamadas somente de infantis ou infantojuvenis passaram a ganhar também o adjetivo juvenil, devido ao aparecimento de características diferentes dos títulos voltados às crianças. De igual modo, as instituições literárias iniciam um processo de condecoração a obras específicas para o público jovem. O Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, passa a premiar com maior regularidade obras voltadas ao público jovem na década de 19802. Já o Prêmio Orígenes Lessa – O Melhor para o Jovem, outorgado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, chancela pela primeira vez um livro para esse público em 19793. Martha (2011; 2012) pontua que, a partir dessa década, surge um grupo maior de autores que escrevem especificamente para os jovens, lançando no mercado publicações diferenciadas e em maior quantidade. De igual modo, Ceccantini (2000, p. 299) afirma que é nesse momento em que “[...] se dá a consolidação da literatura juvenil como segmento ‘autônomo’ no horizonte das letras nacionais”. 2 Anteriormente à década de 1980, o Jabuti já havia premiado obras direcionadas ao público jovem, sendo o prêmio concedido pela primeira vez em 1959 ao livro Glorinha, de Isa Silveira Leal. Todavia, não há uma regularidade de premiação a essa categoria. Segundo levantamento realizado por Ceccantini na década de 2000 (Ceccantini, 2000), os intervalos variam de 1 a 8 anos. 3 No ano de 1979, a obra ganhadora foi A casa da madrinha, de Lygia Bojunga Nunes. 20 Ceccantini (2010), ao explicar a explosão dos livros de literatura destinados ao jovem a partir da década de 1970, comenta que o episódio está relacionado a uma maior democratização da instituição escolar e, consequentemente, à compra de livros subsidiada pelo governo, como forma de incentivo à leitura: No caso do Brasil, a Lei 5692 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1971) expandiu largamente o acesso à escola, trazendo para o ensino público grandes contingentes de jovens provenientes de grupos sociais iletrados, o que criou novas necessidades educacionais, dentre elas, modificações na metodologia de trabalho com a leitura, particularmente no que concerne ao texto literário. Muitas dificuldades se fizeram presentes na formação dessas novas faixas do potencial público leitor que passava a chegar à escola, em especial a resistência manifestada em relação ao corpus canônico da “literatura adulta” que até então circulava no meio escolar, com todas as barreiras linguísticas e culturais que esse corpus pode oferecer. Atento para o fenômeno, o mercado editorial buscou ou encomendou textos que atendessem ao novo perfil desse público (e mesmo da nova geração de professores que passa a atuar na escola), o que resultou no crescimento vertiginoso, à época, do número de novos autores e de lançamentos de textos literários voltados às crianças e jovens, com tiragens colossais, boa parte das vezes impulsionadas por compras governamentais de grande porte (Ceccantini, 2010, p. 2). Nesse contexto, surge a necessidade de estudos das obras com características diferentes das veiculadas como infantis ou voltadas ao público adulto, no intuito de entender melhor essa nova produção em franca expansão no mercado editorial brasileiro. Desta maneira, na década de 1990, têm início estudos pioneiros sobre a questão da literatura juvenil no Brasil, com a publicação de textos acadêmicos, a exemplo da tese de doutorado de Malu Zoega de Souza, Literatura juvenil em questão: Aventura e desventura de heróis menores, defendida em 1994 e publicada em livro em 2001; da dissertação de mestrado Literatura juvenil na escola de primeiro grau, de Juvenal Zanchetta, em 1995; e do livro Narrativas juvenis: modos de ler, organizado por Maria Alice Faria e publicado em 1997. Este, embora modesto, ganhou repercussão entre especialistas e professores da educação básica. Contudo, somente nos anos 2000 ocorre a publicação do “estudo pioneiro de fôlego sobre a questão” (Martha, 2011a, p. 1) intitulado Uma estética de formação: vinte anos da literatura juvenil premiada (1978-1997), tese de doutorado de João Luís Ceccantini. Esse trabalho, cujo corpus privilegiado resguardou obras laureadas pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), por meio do Prêmio Jabuti, entre os anos de 1978 a 1997, mostrou o crescente rompimento da pecha pedagógica 21 arraigada nas obras até então veiculadas como juvenis: [...] Nesse caso particular da literatura juvenil, somente depois de toda a análise realizada ao longo desta pesquisa parece ser possível afirmar com segurança que, se a literatura juvenil brasileira comungou duas décadas atrás do caráter pedagogizante que caracterizava o corpus “misto” analisado por Rosemberg, hoje existe um conjunto de obras significativo em que isso não ocorre, afirmando a autonomia do subgênero (Ceccantini, 2000, p. 433). A pesquisa revelou, ainda, a diversidade de temas e formas das narrativas estudadas, bem como a ascensão do caráter estético: Na análise dos vários tópicos que compõem o “balanço” foi possível perceber que, embora tenha ocorrido uma série de opções tanto no nível temático quanto formal, apontando para a predeterminação do público (juvenil) ao que se “destinam” as obras e, consequentemente, buscando, garantir condições mínimas de recepção junto a esse público virtual, isso, na grande maioria das vezes, não significou por parte do escritor abrir mão da esteticidade para apenas fazer concessões às leis do consumo e do mercado (Ceccantini, 2000, p. 434). Vale observar que é justamente no período investigado por Ceccantini (final da década de 1970) que a literatura juvenil brasileira ganha forma mais consolidada, com o surgimento de obras “[...] cujos narradores tratam de temas atraentes aos jovens leitores, com linguagem muito próxima à do cotidiano” (Martha, 2011a, p. 2). Escritores como Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Marina Colasanti e Marcos Rey são representativos do período, tidos como consolidadores4 da literatura juvenil, conforme nomenclatura definida por Ceccantini (2021). Esses autores alcançaram relativa popularidade e foram responsáveis por uma produção significativa, além de adquirirem aceitação positiva da crítica acadêmica e literária. Na contemporaneidade, a produção literária juvenil tem tentado inovar e renovar ainda mais, tanto no plano temático como no plano formal, contemplado, por vezes, um hibridismo de gêneros e formatos. De acordo com Martha (2011a, p. 2), os autores contemporâneos, por intermédio de técnicas mais complexas de narrar e por meio de uma linguagem questionadora de normas e convenções, exploram temas tabus como 4 Embora desde a década de 1940 já acontecesse uma publicação mais regular, apropriada a leitores mais maduros, denominada genericamente como “infantojuvenil” (Martha, 2012; Ceccantini, 2021), não havia ainda uma preocupação explícita com esse público. Autores como Maria José Dupre e Odete de Barros Mott, apenas para citar alguns, são escritores relevantes daquele momento, classificados por Ceccantini (2021) como precursores do período de formação do subsistema literário juvenil. De acordo com ele, “Essa produção dos precursores vai conquistando espaço e aumenta de forma gradativa, seja em número de títulos lançados e novos autores que surgem, seja quanto ao número de exemplares vendidos, num processo que avança até os anos de 1970” (Ceccantini, 2021, p. 14). 22 sexo, morte, violência, bullying, perdas, sexualidade e crises de identidades5. Tais assuntos, anteriormente proibidos a leitores jovens, agora ganham força e desafiam críticos que veem os textos juvenis como inferiores no que concerne à qualidade estética. Nesse contexto, entre o rol de autores que lançam a cada ano publicações com a rubrica juvenil, classificados por Ceccantini (2021) como os continuadores desse subsistema literário, destaca-se o escritor gaúcho Luís Dill, autor de mais de 60 livros. Sua bibliografia, composta de obras de diversas modalidades, abrange títulos destinados ao público infantil, juvenil e adulto, como é possível verificar no quadro a seguir: Quadro 1 – Bibliografia de Luís Dill ANO DE PUBLICAÇÃO TÍTULO PÚBLICO- ALVO PREMIAÇÃO 1. 1990 A caverna dos diamantes Juvenil 2. 1996 Olhos de Rubi Juvenil Finalista do Prêmio Açorianos 3. 1997 A noite das Esmeraldas Juvenil 4. 2003 Sombras no Asfalto Juvenil Finalista do Prêmio Açorianos no ano de 2004 Finalista do Prêmio Jabuti em 2012. 5. 2004 O punhal de jade Juvenil 6. 2004 Lâmina cega Adulto Finalista do Prêmio Açorianos 7. 2005 Arca de haicais Infantil 8. 2005 Letras Finais Juvenil Finalista do Prêmio Jabuti. 9. 2006 Letras Perdidas Juvenil 10. 2006 Dó Menor Adulto 11. 2006 Castelo de Areia Infantil 12. 2006 Tesouro de Pano Infantil 13. 2007 Dinamite ao meio-dia Juvenil 14. 2007 Olhos Vendados Juvenil Finalista do Prêmio Açorianos 15. 2007 Clube da Cova Juvenil 16. 2007 Tocada e fuga Adulto Vencedor do Prêmio Açorianos 17. 2008 Sonho real Infantil 18. 2008 Atalhos Adulto 19. 2008 Ouvindo Pedras Infantil 20. 2008 Todos contra Dante Juvenil Selo Altamente Recomendável FNLIJ 21. 2009 Beijo Mortal Juvenil 22. 2009 O dia em que Luca não voltou Juvenil Finalista do Prêmio Jabuti 2010 23. 2009 De carona, com Nitro Juvenil Vencedor do Prêmio Açorianos 5 A título de exemplificação, citamos a obra Sapato de Salto, de Lygia Bojunga, publicada em 2006. Nela, temas como abuso sexual, morte, prostituição infantil, dentre outros, são levantados a partir do olhar do jovem, sem a introdução do discurso utilitarista ou moralizante, comuns às narrativas dedicadas aos jovens em tempos passados. 23 24. 2009 Cartas do fim do mundo Adulto 25. 2009 O último Lanceiro Negro e Zepelim Juvenil 26. 2009 A lenda do Tesouro farroupilha Juvenil 27. 2009 Do coração de Telmah Juvenil Finalista do Prêmio Jabuti 2010 28. 2010 Um capitão de 15 anos Juvenil 29. 2010 A truta Infantil 30. 2010 Corra, Bernardo, corra! Infantil 31. 2010 Estação da Poesia Infantil 32. 2010 O estalo Juvenil 3 º lugar - Prêmio Biblioteca Nacional na categoria infantil e juvenil Finalista do Prêmio Açorianos Finalista do Prêmio Jabuti. 33. 2012 A dor mais afiada Adulto 34. 2012 Sem mais nem menos Infantil 35. 2012 Enquanto você não chega Infantil 36. 2012 Decifrando Ângelo Juvenil Prêmio Açorianos (categoria Juvenil) Finalista do Prêmio Jabuti 37. 2013 Destino Sombrio Juvenil 38. 2013 Gritos na noite Juvenil 39. 2013 Eros e Psique Infantil 40. 2013 Por trás das chamas Juvenil 41. 2013 Labirinto no escuro Juvenil Finalista do Prêmio Jabuti 42. 2013 Final de linha Juvenil 43. 2014 Meia dúzia de tiros e um pandeiro vacilante Juvenil 44. 2014 Na companhia de Ágata Juvenil 45. 2014 Safári Adulto 46. 2014 Longe, tão perto Infantil 47. 2014 Zona de sombra Juvenil 48. 2014 O telephone Juvenil 49. 2015 Camisa 10 em perigo Juvenil 50. 2016 Dick Silva no mundo intermediário Juvenil 51. 2016 Jubarte Juvenil Vencedor do Prêmio Açorianos 52. 2016 Qorpo-Santo diabos e fúrias Adulto 53. 2018 Minha camisa amarela de flanela Infantil 54. 2018 Guri do cimento Juvenil 55. 2018 80 degraus Juvenil Finalista do Prêmio Jabuti. 56. 2019 100 mil seguidores Juvenil Finalista do Prêmio Jabuti. 57. 2019 Cotidiano, paixões & outros flashes Infantojuvenil Selo Altamente Recomendável FNLIJ 2020 58. 2019 Rabiscos Juvenil Finalista do Prêmio Jabuti Selo Altamente Recomendável FNLIJ 2020 59. 2020 Timbirupá Adulto 60. 2020 Bandida Juvenil 61. 2021 Dias de Água Adulto 62. 2021 Diário da peste Juvenil 63. 2022 Um navio na coxilha Adulto 64. 2023 O almanaque de Lia Juvenil 65. 2023 Vento de fogo Adulto 24 66. 2024 Meu irmão esquisito Infantil Fonte: elaborado pelo pesquisador É possível observar, nesse quadro, que quase dois terços de seus textos são destinados, preferencialmente, ao público juvenil, fato que o consagra como escritor de literatura para jovens. Embora ele mesmo já tenha dito não ser muito adepto ao título.6 O reconhecimento do valor da obra de Dill pode ser exemplificado pelo montante de menções e prêmios recebidos. O autor já foi agraciado com o selo “Altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, ganhou o prêmio Açorianos na categoria juvenil com os livros De carona, com nitro (2009), Decifrando Ângelo (2012), Jubarte (2016) e Rabiscos (2019). Também foi laureado com o terceiro lugar do prêmio Biblioteca Nacional na categoria Juvenil com o livro O estalo (2010), entre outras premiações. Suas obras já foram selecionadas para programas governamentais, a exemplo do Programa Nacional do Livro Infantil e Juvenil (PNBE) e mais recentemente do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) literário. Além disso, a literatura juvenil de Luís Dill é discutida em vários projetos e programas de leitura, tanto de escolas públicas como de escolas privadas7, fazendo parte dos currículos de literatura de alguns estados. A título de exemplo, as narrativas juvenis do autor gaúcho estão entre as sugestões de leitura no Currículo do Novo Ensino Médio da Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo (SEDU), aprovado em 2020 (Espírito Santo, 2020). No itinerário formativo interdisciplinar intitulado “Narrativas socioliterárias: Literatura, Arte e Ciências Humanas escrevem o mundo”, voltado para a 2 ª e 3ª séries do Ensino Médio, há a indicação explícita das seguintes obras do autor: De carona, com Nitro (2009), Decifrando Ângelo (2012), Todos contra Dante (2008) e Beijo mortal (2009). 6 Em entrevista ao programa Primeira Pessoa, da TVE- RS, em 2013, Luís Dill afirma não ver diferença na adjetivação colocada na literatura. Prefere pensar que é um escritor. Questiona, ainda: “Já puseram no jornal: ‘o escritor juvenil’. O que é o escritor juvenil? Sou jovem?”. A entrevista completa pode ser lida no Anexo B deste trabalho, ou acessada no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=Ss- Eeo4GA1c). 7 No site do autor (www.luisdill.com.br), há várias fotos de trabalhos realizados em escolas públicas e particulares, sobretudo no estado do Rio Grande do Sul, nos quais se discutem obras do escritor. Em várias fotografias, é possível Dill presente no encerramento dos projetos, dialogando com os estudantes. https://www.youtube.com/watch?v=Ss-Eeo4GA1c https://www.youtube.com/watch?v=Ss-Eeo4GA1c http://www.luisdill.com.br/ 25 Todas selecionadas para o módulo “violências” do referido itinerário. As narrativas juvenis do escritor evidenciam de forma inovadora, e por vezes dura, a realidade vivida por parte considerável dos jovens brasileiros do século XXI, sempre com enredos instigantes, cheios de mistério e linguagem acessível aos jovens atuais. A leitura de sua bibliografia destinada ao público jovem trouxe à tona uma característica muito evidente em uma parcela considerável de seus livros: uma abordagem realista e denunciativa de problemas e temáticas sociais pertencentes mais fortemente ao universo juvenil, mas não exclusivamente a ele. Os temas discutidos por Dill em sua obra são vistos como polêmicos: criminalidade, uso de drogas, transtornos psicológicos, racismo, delinquência juvenil e, principalmente, violência urbana; sobre este último, para Martha (2015, p. 213), Dill é o escritor de literatura juvenil “[...] que mais comumente trata da violência urbana em suas narrativas”. Entendemos aqui como temas polêmicos “[...] assuntos ou tópicos considerados melindrosos ou ofensivos e que suscitam opiniões divergentes ou controversas sendo, em geral, alvos de altercações” (Bortoluzi, 2013, p.10). De fato, criminalidade, violência e morte, temas centrais nos livros do autor que analisamos nesta pesquisa, ainda são tabus e considerados não apropriados na literatura para jovens. Por vezes, são alvo de censura por parte de pais e educadores, com a justificativa de que as obras que os abordam poderiam, de alguma forma, influenciar o comportamento, principalmente do leitor juvenil. Portanto, embora a publicação de obras dirigidas ao público jovem que debatam temas mais complexos seja um avanço no plano estético, a exemplo dos livros de Luís Dill, sua adoção no ambiente familiar e escolar ainda é vista como polêmica, sendo, por vezes, objeto de censura nesses contextos. Sobre a questão, Martha (2013) atesta que: O debate sobre a importância e a propriedade da inserção de temas que tratem de violência em suas mais diferentes formas na literatura infantojuvenil tem sido alimentado com frequência por pontos de vista divergentes. São significativas ainda hoje as restrições que pais e educadores fazem a textos que veiculam medo e sofrimento de qualquer natureza, pois, a seu ver, tais obras cometem violência contra os jovens leitores, causando-lhes temores infundados e sentimentos negativos. Com uma concepção idealizada da infância e da juventude, épocas de despreocupação e felicidade — paraíso perdido —, muitos adultos acreditam que, nesse momento, talvez não sejam 26 apropriadas discussões sobre a violência, o medo e, tampouco, o sexo e a morte, como se tais assuntos fossem alheios à vida real Martha (2013, p. 88). Em Cuidado com as polêmicas veladas o pesquisador inglês de literatura infantil Peter Hunt parece seguir na mesma direção, quando afirma que: A literatura infantil, apesar da ideia de que se trata de algo simples e inocente, na verdade, gera muitas controvérsias. Essas são, geralmente, questões de conteúdo tal como este é percebido pelos adultos – porque um ponto importante é o de que, na maior parte das vezes, são os adultos que se chocam com o conteúdo dos livros, e não os jovens (Hunt, 2013, p. 83). O estudioso levanta, ainda, duas questões pertinentes: “Qual a importância dos livros na era dos multimeios? Quem estamos realmente protegendo quando nos preocupamos com o conteúdo dos livros infantis?” (Hunt, 2013, p. 84). Para a primeira questão, Hunt pondera que, diante das múltiplas narrativas, a maioria delas advindas das mídias (internet, televisão, cinema, música etc.), os livros são os que mais sofrem censura dos adultos, embora não sejam tão acessíveis quanto outros meios de comunicação. De um lado, existe um imaginário de que a palavra escrita pode ser mais influente que outras formas de expressão e, de outro, “[...] pode-se argumentar que os livros são retrógrados, pertencentes a um mundo cultural adulto que está sendo atacado” (Hunt, 2013, p. 84). No que tange à segunda questão, Hunt enfatiza que: Na maioria das vezes, estamos protegendo os adultos (ou os adultos estão se protegendo) e uma visão adulta da infância e da cultura. Muitos adultos têm uma relação desconfortável com as suas próprias infâncias e utilizam os livros infantis como um espaço onde podem criar um mundo ideal, inocente, independentemente da realidade (Hunt, 2013, p. 84). Entretanto, entendemos que a literatura juvenil de qualidade pode proporcionar ao leitor uma reflexão sobre temas diversos, como mostra o pesquisador José Nicolau Gregorin Filho (2011, p. 41): “[...] a literatura feita para o jovem da atualidade está vinculada à arte, isto é, ao mesmo tempo em que traz à tona as discussões sociais, devolve para a sociedade novas maneiras artísticas de discutir e veicular esses valores”. Diante da diversidade de juventudes existentes, perpassadas por problemas sociais de diversas ordens, a literatura juvenil contemporânea de boa qualidade é questionadora de normas, valores e regras: Há, nas obras contemporâneas da literatura juvenil, a instauração de várias vozes que dialogam com o texto, vozes que entram em conflito e que se originam de diferentes lugares sociais, vozes que levam a juventude a questionar a estrutura social, seus preconceitos e todas as lutas nela existentes (Gregorin Filho, 2011, p. 41). 27 A literatura, muitas vezes, é um reflexo da sociedade, com suas contradições, problemas e angústias. A produção literária destinada ao jovem caminha nessa mesma direção, ampliando as percepções e aguçando o senso crítico dos leitores. Sendo assim: Parece ser quase impossível selecionar temas e assuntos que não possam compor o cardápio literário destinado a esses leitores, pois, na literatura infantil e juvenil, ajustada às peculiaridades do gênero, todos os sentimentos, desejos, aspirações do homem devem estar presentes, especialmente porque sabemos que a violência, estampada em sua plenitude na mídia impressa e televisiva, além dos jogos e do cinema, atinge seu apogeu no cotidiano das crianças e jovens espancados, abandonados, drogados, prostituídos, atingidos por balas nas ruas e escolas, enfim, perdidos no caos da vida contemporânea (Martha, 2013, p. 95). Dito isso, defendemos a necessidade da leitura mediada das obras que abordam temáticas fraturantes8 e não a sua censura, pois muitas delas podem proporcionar aos jovens a reflexão sobre temas que os assolam e que são pertinentes à sociedade de modo geral. Por isso, tais textos precisam ser lidos e discutidos, como aponta a pesquisadora Nilma Lacerda (2007): Como experiência humana e estética que propicia o reconhecimento do que nos faz humanos, os temas vistos como polêmicos são exatamente os que mais se ocupam de nossa humanidade e podem ofertar aos leitores infantis e juvenis vias essenciais para a discussão do que os inquieta (Lacerda, 2007). Outrossim, Jaime Ginzburg (2013), ao defender a literatura como meio para se combater a violência, pontua: A convivência com a literatura permite criar um repertório de elementos — imagens, ideias, posições, relatos, exemplos — que interessa para a constituição de orientações éticas individuais e coletivas. Esse repertório, em sua variedade, contribui para um aberto e diversificado debate. A qualidade desse debate é única, porque sua matéria são textos polissêmicos, abertos, cujas possibilidades de interpretação são renovadas constantemente (Ginzburg, 2013, p. 106-107). Tendo em vista que a violência é tema preponderante nas narrativas juvenis de Luís Dill, a presente pesquisa defende a tese de que o autor, por meio de suas narrativas, revela que a violência persiste na sociedade, assumindo múltiplas faces e se renovando constantemente. Com base nisso, buscamos, como objetivo geral deste estudo, analisar as diferentes formas de manifestação da violência na literatura do 8 O termo fraturante foi cunhado pela pesquisadora Ana Margarida Ramos, em Portugal e, segundo a pesquisadora “percorre todos os tabus: sexo; morte; violência; sofrimento; terrorismo; guerra; genocídio; doença, incluindo todas as suas variáveis e combinações” (Ramos, 2015, p. 289). 28 escritor gaúcho, a partir de três de suas obras voltadas para o público jovem, observando nelas: as temáticas predominantes, o projeto gráfico-editorial, bem como a configuração do narrador, das personagens, do enredo e da estrutura linguística. Em outras palavras, a pesquisa possui as seguintes interrogações: quais as formas de violência representadas na literatura juvenil de Luís Dill? Como a violência (elemento externo) se materializa na relação intricada forma-conteúdo do texto literário? Entre as quase 40 narrativas produzidas por Luís Dill comercializadas sob a rubrica juvenil foram escolhidas para fazer parte do corpus principal as seguintes obras: Quadro 2 – Obras de Luís Dill selecionadas para análise LIVRO EDITORA ANO A noite das esmeraldas Editora Ipsis Litteris 1997 O dia em que Luca não voltou Companhia das Letras 2009 100 mil seguidores Editora Casa 29 2019 Fonte: Elaborado pelo pesquisador Entre os diversos livros do autor em que a violência surge como tema pungente, a escolha dessas obras se deu porque: 1) contemplam as três décadas da produção de Luís Dill (1990, 2000 e 2010)9; 2) as narrativas trazem à tona diferentes manifestações da violência na sociedade; 3) foram publicadas por três editoras diferentes, cujos projetos gráfico-editoriais seguem linhas únicas e díspares entre si; e 4) ainda não receberam um volume expressivo de estudos críticos. À vista disso, como objetivos específicos da pesquisa, procuramos apresentar um panorama da literatura juvenil do escritor, bem como um mapeamento da sua fortuna crítica. Almejamos, também, cooperar com trabalhos futuros, por meio da recolha das entrevistas dadas pelo escritor em diferentes plataformas de áudio e vídeo. 9 No exame de qualificação desta tese, a banca examinadora sugeriu que escolhêssemos narrativas do escritor publicadas em diferentes épocas, uma vez que propusemos neste estudo um percurso histórico da produção do autor. Assim, escolher textos de três momentos distintos se tornou uma alternativa viável. 29 Nesse sentido, a pesquisa ora apresentada, vinculada às discussões propostas pelo grupo de pesquisa Literatura e Educação10, justifica-se pela contribuição aos estudos relacionados à área de Letras, principalmente no que concerne aos avanços na pesquisa da ficção juvenil brasileira, de modo a cooperar com professores e pesquisadores que se empenham em tornar visível o valor estético e cultural dessa literatura, uma vez que sua condição periférica no âmbito da academia impede que o subsistema seja satisfatoriamente estudado. Ceccantini e Pereira (2008) confirmam tal perspectiva periférica ao pontuar que: Gênero polêmico e ainda marginal, no que tange aos estudos da área de Letras no país. São ainda bastante escassos os trabalhos acadêmicos que contemplam a literatura juvenil nacional, se bem que esta corresponde à parcela importante das publicações que alimentam nosso mercado editorial (Ceccantini; Pereira, 2008, p. 8). A título de exemplificação, no âmbito do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGL-UFES), algumas obras da literatura infantil e juvenil brasileira já foram indicadas no processo seletivo de mestrado: Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado (processo seletivo 2013) e A bolsa amarela, de Lygia Bojunga Nunes (processo seletivo 2020). Todavia, das mais de 170 dissertações de mestrado acadêmico defendidas entre 2013 e 2023, apenas cinco tiveram a literatura juvenil brasileira como mote dos trabalhos11. Em relação às teses, 10 O grupo de pesquisa Literatura e Educação, com sede na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), existe desde 2011 e é coordenado pelas professoras Dra. Maria Amélia Dalvi e Dra. Arlene Batista da Silva (coordenadora adjunta). Outras informações podem ser acessadas em: https://literaturaeeducacao.ufes.br/. 11 Os trabalhos encontrados foram: 1) O trançar de uma trajetória: o feminino em Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado (2015), de autoria de Lucinei Maria Bergami, orientada pela professora Dra. Jurema José de Oliveira; 2) A trajetória temporal da representação feminina em Bisa Bia, Bisa Bel de Ana Maria Machado (2016), escrito por Soraya Jacome dos Santos Costalonga, orientada pelo professor Dr. Luís Fernando Beneduzi; 3) Dos pés à cabeça: moda e modos em Sapato de Salto de Lygia Bojunga (2017), de autoria de Danielle da Silva Apolinario, orientada pela professora Dra. Maria Mirtis Caser; 4) Protocolos de leitura em obras de Maria José Dupré na Série Vaga-Lume: livros, leitura e literatura para jovens leitores no século XX (2017), de Josineia Sousa da Silva, orientada pela professora Dra. Maria Amélia Dalvi; 5) Narrativas, imaginação e experiência: Cena de Rua, de Ângela Lago, na sala de aula (2021), escrito por Ana Carla Soares de Oliveira Malaquias, orientada pela professora Dra. Arlene Batista da Silva. Há, ainda, cinco pesquisas que dialogam com a leitura literária voltada ao público jovem. São elas: 1) Práticas e representações de leitura literária no IFES/campus de Alegre: uma história com rosto e voz (2016), de Rosana Carvalho Dias Valtão, orientada pela professora Dra. Maria Amélia Dalvi; 2) Leitura literária de alunos do Campus São Mateus do Instituto Federal do Espírito Santo frente às tecnologias de informação e comunicação contemporâneas (2016), de autoria de Rossanna dos Santos Santana Rubim, orientada pela professora Dra. Maria Amélia Dalvi; 3) (Não) leituras de obras literárias em contexto escolar: um estudo de caso a partir de versão integral e adaptações de O cortiço, de Aluísio de Azevedo (2017), defendida por Ravena Brazil Vinter, orientada pela professora Dra. Maria Amélia Dalvi; 4) Leitura literária com alunos do 9º ano do Ensino Fundamental II: A cartomante, de Machado de Assis, adaptada em HQ (2023), de Simone Valim Cândido Bourguignon, orientada pela professora Dra. Arlene Batista da Silva; 5) O universo literário de https://literaturaeeducacao.ufes.br/ 30 das mais de 100 defendidas desde o início do curso de doutorado em Letras na UFES, encontramos apenas duas que dialogam diretamente com a literatura infantil12. Nenhuma tese até a presente data privilegiou uma obra pertencente ao acervo da literatura juvenil brasileira. Assim, o presente trabalho delineia-se como precursor no âmbito do PPGL-UFES. Diante disso, esta pesquisa almeja, de um lado, colaborar com o preenchimento das lacunas existentes no campo da Teoria e da Crítica da narrativa juvenil brasileira contemporânea e com a consolidação de uma tradição de estudos referentes a essa literatura nos programas de pós-graduação no país, dada a carência de estudos neste campo de pesquisa nos cursos de Letras. De outro, visa contribuir na divulgação dessa literatura entre profissionais ligados à educação e mediadores de leitura, uma vez que a consideramos uma potencializadora na formação de leitores. Com vistas a atingir os objetivos propostos, utilizamos uma abordagem qualitativa. Segundo Gil (2002), esta é menos formal que a pesquisa quantitativa e os seus resultados dependem dos pressupostos teóricos utilizados, entre outros fatores. Na pesquisa qualitativa, as categorias são constantemente reorganizadas e modificadas no decorrer da investigação, de forma a dar coerência ao que está sendo pesquisado. Além disso, o foco da nossa análise não recai sobre dados numéricos, o que também a classifica como qualitativa. No que se refere ao delineamento, este trabalho é uma pesquisa bibliográfica- documental. Segundo Gil (2010), a pesquisa bibliográfica É elaborada com base em material já publicado. Tradicionalmente, esta modalidade de pesquisa inclui material impresso, como livros, revistas, jornais, teses, dissertações e anais de eventos científicos. Todavia, em jovens leitores: relatos de experiências (2021), de Patrícia Rosicleia da Silva Sodré, orientada pela professora Dra. Arlene Batista da Silva. 12 As teses defendidas foram: 1) Contos de Grimm (1812-1815): dos significantes na representação da verossimilhança artístico-literária ou aristotélica (2016), de Lícia Cristina Dalcin de Almeida, orientada pela professora Dra. Ester Abreu Vieira de Oliveira; 2) A literatura infantil no Espírito Santo no séc. XXI e o desvelar do autor-distribuidor (2015), de Ivana Esteves Passos de Oliveira, orientada pela professora Dra. Maria Amélia Dalvi. Há, também, os trabalhos que abordam a literatura em contexto escolar, todos orientados pela Dra. Maria Amélia Dalvi. São eles: 1) Literatura em Libras e educação literária de surdos: um estudo da coleção "educação de surdos" e de vídeos literários em libras compartilhados na internet (2015), de Arlene Batista da Silva 2) Leitura literária temática no Ensino Médio: princípios e orientações metodológicas, de Suellen Pereira Miotto Lourenço (2021); 3) Formação humana e Educação literária: a Literatura nas Provas do Enem (2022), de Rosana Carvalho Dias Valtão; 4) Literatura no Ensino Médio com vistas à formação omnilateral: princípios para a seleção de repertórios de leitura (2022), de Ravena Brazil Vinter da Cruz. 31 virtude da disseminação de novos formatos de informação, estas pesquisas passaram a incluir outros tipos de fontes, como discos, fitas magnéticas, CDs, bem como o material disponibilizado pela internet (Gil, 2010, p. 29). Além de fontes características da pesquisa bibliográfica, este trabalho acolheu participações e entrevistas concedidas pelo autor Luís Dill a diversos meios de comunicação e para variados fins. Contou, ainda, com uma entrevista concedida pelo autor exclusivamente para esta investigação. Sendo assim, é também uma pesquisa documental, uma vez que, “[...] vale-se de toda sorte de documentos, elaborados com finalidades diversas” (Gil, 2010, p. 30). Em relação ao procedimento de entrevista, realizada com o escritor, optamos por essa técnica de coleta de dados pelo fato de ela ser Bastante adequada para a obtenção de informações acerca do que as pessoas sabem, creem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou fizeram, bem como acerca de suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes (Gil, 2008, p. 109). Dada a necessidade de conhecermos o processo de criação literária do escritor em relação ao corpus principal deste estudo, realizamos uma entrevista semiestruturada. Segundo Augusto Triviños (1987, p. 146), esse tipo de procedimento “[...] ao mesmo tempo que valoriza a presença do investigador, oferece todas as perspectivas possíveis para que o informante alcance a liberdade e a espontaneidade necessárias, enriquecendo a investigação”. O autor define a entrevista semiestruturada como aquela que parte de questões básicas e, conforme o entrevistado avança nas respostas, outros questionamentos podem surgir, abrindo possibilidade para que este participe ativamente na elaboração do conteúdo da pesquisa. Dessarte, este trabalho está estruturado em seis capítulos. No primeiro, apresentamos, em linhas gerais, dados biográficos do autor Luís Dill, bem como um panorama, década a década, da sua bibliografia dirigida ao público juvenil. Nesse processo, destacam-se os temas mais evidentes em sua produção, além da presença de elementos formais que atestam o diferencial do projeto estético do escritor. No segundo capítulo, realizamos um levantamento exaustivo da fortuna crítica acerca da literatura juvenil do autor gaúcho, apontando o que foi produzido academicamente em teses, dissertações, artigos disponíveis em periódicos, anais de eventos e capítulos de livros e e-books. Com isso, fica evidente a presença da temática da 32 violência em alguns dos estudos encontrados. Mostramos, também, a partir das considerações de Gregorin Filho (2011), as perspectivas teórico-metodológicas mais recorrentes nas pesquisas analisadas e as obras literárias mais estudadas pela crítica acadêmica, entre outros pontos. Em seguida, no terceiro capítulo desta tese, interrompemos a leitura da obra de Luís Dill para fazermos uma breve reflexão sobre o conceito de violência e sobre as múltiplas formas que ela assume na sociedade atual, em especial, na brasileira. A partir disso, discorremos sobre como a literatura brasileira do século XX e XXI interpreta e denuncia essa mazela, abrindo caminho para que a literatura juvenil possa também discutir tal problemática, com adequações às características dos textos direcionados a esse público. Esse capítulo, essencialmente teórico, aborda o conceito de violência como fenômeno social, construída na relação entre os homens, determinada, entre outros, por diferentes fatores históricos, econômicos e políticos. Para isso, baseia-se nos pressupostos teóricos de Yves Michaud, Slavoj Žižek, Byung-Chul Han, Marilena Chauí, entre outros pesquisadores. Assim, oferece subsídios para uma leitura possível das obras literárias integrantes do corpus, interpretadas nos capítulos seguintes. A investigação concentra-se na área de Estudos Literários, cujo objeto de trabalho é o texto literário, portanto, ficcional. Logo, o cerne desta pesquisa é a análise literária. No quarto capítulo, retornamos nosso olhar para a literatura juvenil de Luís Dill, discutindo e analisando A noite das esmeraldas, terceiro livro do autor, publicado em 1997. A obra pertence, portanto, à primeira década de publicação do autor. Observamos como a narrativa caminha no mesmo compasso que outras produções do final do século XX destinadas ao público juvenil e adulto. Embora vise ao entretenimento, o texto permite identificar flashes da violência aliada ao tom crítico que perpassa grande parte das narrativas do literato. Teóricos como Karl Erik Schøllhammer respaldam o debate. No quinto capítulo, por sua vez, abordamos a presença da violência urbana e da melancolia na narrativa O dia em que Luca não voltou (2009), pertencente à segunda década de publicação do escritor. Fazemo-lo a partir dos postulados de Jaime 33 Ginzburg e Sigmund Freud, em diálogo com os autores que investigam a literatura juvenil contemporânea. O sexto capítulo propõe uma análise de 100 mil seguidores (2019), obra pertencente à terceira década de publicações do autor. Por meio dos pressupostos teóricos de Slavoj Žižek, Byung-Chul Han, Marilena Chauí e Karl Erik Schøllhammer, entre outros autores, analisamos como as múltiplas faces da violência e da sociedade contemporânea se entrelaçam nessa narrativa dedicada ao leitor juvenil. Por fim, em Final de linha, além de responder às questões norteadoras desta pesquisa, fizemos um balanço de toda a trajetória literária do escritor gaúcho direcionada ao jovem e, ainda, sintetizamos como, em cada narrativa analisada, se manifesta a temática da violência. Desejamos, com esse esforço investigativo, que esta pesquisa promova a valorização da literatura juvenil do escritor Luís Dill, bem como incentive pesquisadores a se debruçarem sobre a estética do autor, uma vez que a consideramos pertinente para uma reflexão crítica da realidade em que estamos inseridos. 34 1 DECIFRANDO O ESCRITOR: TRÊS DÉCADAS DE PRODUÇÃO LITERÁRIA PARA JOVENS Eu digo sempre que escrevo para ser feliz; faço isso diariamente, todos os dias estou produzindo, escrevendo ou estudando sobre algum tema que quero acrescentar num livro, numa história (Dill, 2021). No trecho acima, parte de uma entrevista realizada online por ocasião da 37ª Feira do Livro de Caxias do Sul-RS, em 2021, o escritor Luís Dill declara a importância da escrita em sua vida; mais que uma profissão, escrever é, para ele, uma necessidade de vida. O trecho revela ainda a preocupação do autor com os temas que problematiza em suas obras, mediante o exercício de muito estudo e dedicação. Dill, como já dissemos, é autor de mais de 60 livros, dos quais um pouco menos de 40 são destinados ao público juvenil. Devido à quantidade extensa de obras lançadas por ele e o tempo limitado deste trabalho de pesquisa, o estudo panorâmico realizado neste capítulo tem como foco as narrativas, uma vez que é o tipo de texto predominante no conjunto da obra do escritor, embora ele também escreva poesias, sobretudo haicais13. No interior dessa seleção de narrativas, decidimos restringir um pouco mais a possibilidade de corpus para estudo, sobrelevando os romances e novelas exclusivos do autor. Excluímos, dessa forma, os textos presentes em antologias e livros de contos e crônicas (Quadro 3). Feito tal recorte, este capítulo elabora um panorama da produção do autor destinada ao público jovem. Para isso, expõe e contextualiza sua produção década a década, tecendo comentários a respeito das narrativas publicadas, com foco nas temáticas predominantes e características mais relevantes. Sendo assim, apresentamos, no subcapítulo seguinte, as narrativas produzidas pelo autor, divididas por décadas de publicação. 13 Até o momento, Luís Dill publicou três obras do gênero poético. São elas: Arca de Haicais (2005), Estação da Poesia (2010) e Cotidiano, paixões & outros flashes: Haiquases (2019). 35 Quadro 3 – Narrativas longas de Luís Dill destinadas ao público juvenil ANO DE PUBLICAÇÃO TÍTULO EDITORA LIVROS PUBLICADOS NA DÉCADA DE 1990 1990 A caverna dos diamantes WS/ Artes e ofícios 1996 Olhos de Rubi WS/ Artes e ofícios 1997 A noite das Esmeraldas Ipsis Litteris LIVROS PUBLICADOS NA DÉCADA DE 2000 2003 Sombras no Asfalto WS/ Companhia das Letras 2004 O punhal de jade SM 2005 Letras Finais Artes e ofícios 2006 Letras Perdidas Escala Educacional 2007 Dinamite ao meio-dia Escala Educacional 2007 Olhos Vendados DCL 2007 Clube da Cova Salesiana/ Lê 2008 Todos contra Dante Companhia das Letras 2009 Beijo Mortal Ed. Dulcineia 2009 O dia em que Luca não voltou Companhia das Letras 2009 De carona, com Nitro Artes e ofícios 2009 Do coração de Telmah Artes e ofícios 2009 A lenda do Tesouro farroupilha Ática 2009 O último Lanceiro Negro e Zepelim Ed. Salesiana LIVROS PUBLICADOS NA DÉCADA DE 2010 2010 Um capitão de 15 anos14 Escala Educacional 2010 O estalo Positivo 2012 Decifrando Ângelo Scipione 2013 Destino Sombrio Seguinte 2013 Gritos na noite Mundo Mirim 2013 Por trás das chamas Ed. Do Brasil 2013 Labirinto no escuro Positivo 2013 Final de linha Scipione 2014 Meia dúzia de tiros e um pandeiro vacilante WS Editor 2014 Na companhia de Ágata Artes e ofícios 2014 Zona de sombra Artes e ofícios 2014 O telephone Gaivota 2015 Camisa 10 em perigo Garamond 2016 Dick Silva no mundo intermediário Pulo do Gato 2016 Jubarte Ed. Do Brasil 2018 Guri do cimento Casa 29 2018 80 degraus Ed. Palavras 2019 100 mil seguidores Casa 29 2019 Rabiscos Maralto Fonte: elaborado pelo pesquisador 14 Esta obra não aparecerá nos comentários, uma vez se tratar de uma adaptação do romance de Júlio Verne. 36 1.1 Década de 1990: o início da carreira literária Nascido em abril de 1965, na cidade de Porto Alegre, Luís Campello Augusto Dill, mais conhecido como Luís Dill, possui uma extensa bibliografia literária, cujo número de títulos individuais, como já dissemos, ultrapassa 60 publicações. Criado em um lar de leitores, sua infância foi rodeada por livros e visitas a eventos que promoviam a leitura, como a Feira do Livro de Porto Alegre. Desde criança, Dill tinha a certeza de que a escrita ocuparia lugar de destaque em sua vida, como afirma na entrevista concedida para esta pesquisa: Desde pequeno eu sempre tentei criar as minhas próprias histórias, de uma maneira muito amadora. Ao longo do tempo as coisas foram melhorando um pouco mais. Sobretudo, na adolescência, treze, catorze anos, eu me dei conta – para mim tudo é intuitivo, foi muito intuitivo – quanto mais eu lia, melhor saía aquelas tentativas de história. Então eu disse “opa, é por aqui que eu vou”, “tenho que ser leitor”, e é aí que tu começa a prestar mais atenção na maneira como os autores construíam suas histórias. Dessa maneira, um tanto intuitiva, degrau a degrau, fui indo até sair o primeiro livro. Mas o contato vem da família, surgiu da família (Dill, 2024).15 Na juventude, motivado pelo desejo de trabalhar com a escrita, iniciou o curso de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUC) em Porto Alegre. Nessa época, já havia reunido um conjunto de contos destinados ao público adulto e decidiu mostrá- los ao escritor Laury Maciel, que fez vários apontamentos, elencando os pontos positivos e negativos dos seus escritos. Pouco tempo depois, Dill procurou uma editora local, a Sulina, e mostrou uma novela policial que havia escrito, também para adultos. Embora tenha recebido um feedback positivo, a editora respondeu que no momento não estava publicando obras voltadas a esse público. Contudo, o contexto editorial brasileiro à época favorecia a publicação de obras voltadas ao público infantil e juvenil, uma vez que, como apontam Ferreira e Valente (2013): Com a ação da Fundação de Assistência ao Estudante (FAE), e de suas Salas de Leitura, em 1988, por meio da compra direta dos editores, barateia- se a produção de obras que são levadas diretamente às escolas e às bibliotecas escolares. Dessa forma, o governo torna-se o principal cliente da indústria editorial e a rede escolar é abastecida de livros não apenas didáticos e paradidáticos, como também de literatura infantil e juvenil, determinando 15 Entrevista concedida pelo autor em julho de 2024. Sua transcrição na íntegra se encontra no Apêndice B desta tese. 37 um novo panorama na produção e recepção (Ferreira; Valente, 2013, 146). Diante desse panorama, a editora Sulina estava privilegiando a publicação de obras voltadas ao público juvenil e apresentou ao escritor a sua Coleção Misterinho, desafiando-o a produzir algo voltado para esse público. Sobre isso, Dill comenta: “Eu não fazia ideia de como realizar isso, mas aceitei o desafio e fui para casa e bolei A Caverna dos diamantes” (Feira do Livro de Caxias do Sul, 2021). Assim, sua primeira publicação destinada ao público jovem nasceu de uma necessidade de mercado. Sendo o comércio livresco pertencente à engrenagem da indústria cultural, o autor, para entrar no sistema, precisou adequar-se às regras impostas naquele momento. Então, em 1990 Dill lançou a novela policial A caverna dos diamantes, obra encomendada pela editora Sulina e já direcionada ao público jovem. Essa narrativa inaugural conta a história de Elias, um garoto de 13 anos que, junto com seu amigo Noslen, de 15 anos, fica sob a mira de bandidos por ter ouvido uma conversa sobre diamantes escondidos na caverna Boca Del Diablo. Os garotos, ao lado da jovem destemida Anita, enfrentam vários perigos enquanto fogem dos criminosos. Em live realizada no canal do contador de histórias Roger Castro, em 2021, o escritor comenta que a narrativa ganhou as graças do público juvenil: O livro deu super certo, ele foi muito bem. Inclusive, na Feira do Livro de Porto Alegre, ele perdeu apenas para dois livros: o Onde está Wally? Mas o Onde está Wally? eu nem considero um livro, uma história literária, é um joguinho de encontrar Wally no meio da multidão. E o outro livro que ficou na frente do meu foi Calvin e Haroldo, que é uma tirinha de jornal, um menino e um tigrezinho, muito bacana por sinal. Portanto, livro, texto mesmo, ficção, literatura, o meu livro acabou sendo o mais vendido lá na Feira do Livro de Porto Alegre de 1990. Isso me deu uma alegria, uma satisfação: “poxa, acho que o caminho é esse”. E a partir desse primeiro livro as editoras começaram a se interessar pelo meu trabalho, começaram a me pedir originais, livros, histórias [...] (Vivandeiro Roger Castro, 2021). Inspirado pela boa repercussão ante ao público, alguns anos depois, em 1996, Dill publicou Olhos de rubi, sua segunda narrativa policial, que possui três protagonistas adolescentes envolvidos em uma trama misteriosa e perigosa. Apesar de o foco central da obra incidir sobre elementos típicos da narrativa policial, de forma sutil ela é perpassada por um tema polêmico, de crítica social, uma vez que o antagonista é um líder religioso denominado O Pregador de Jesus, que utiliza a fé das pessoas para 38 enganá-las. Envolto em uma estrutura narrativa simples, ágil e linear, a obra foi finalista do Prêmio Açorianos de Literatura na categoria destinada ao público juvenil. No ano seguinte, em 1997, Dill lançou seu terceiro livro, intitulado A noite das esmeraldas, mais uma narrativa policial, com apelo ao leitor jovem. Na obra, José, em uma noite chuvosa, decide ir ao cinema sozinho assistir a um filme que já vira inúmeras vezes. Durante a sessão, ele percebe movimentações suspeitas na sala de cinema e, ao final, encontra no chão uma caixa cheia de pedras preciosas. Os fatos estranhos culminam quando o jovem encontra o corpo de um homem morto em uma das cabines do banheiro e logo começa a ser perseguido por bandidos que querem as esmeraldas que ele havia encontrado. Organizado em 21 capítulos, narrados em primeira pessoa e em formato de depoimento, o livro é repleto de ação e suspense. O desfecho, assim como as narrativas anteriores, é fechado, e os mistérios são solucionados. Assim como ocorre em Olhos de rubi, atravessam A noite das esmeraldas os temas sociais, a exemplo dos adolescentes em situações de rua, representados por Leônidas, garoto que ajuda José a escapar dos bandidos; e da denúncia do envolvimento de idosos em crimes, que se beneficiam da venda de objetos roubados, representados pela personagem Velhinha. Ainda assim, se dá pouca visibilidade a tais temáticas e problemas sociais, como nas produções realizadas nas décadas posteriores. A noite das esmeraldas é o último livro juvenil publicado por Luís Dill na década de 199016 e encerra o ciclo conhecido como “trilogia das pedras”, pois todos tem como desenrolar do enredo uma pedra preciosa. As narrativas dessa primeira década de publicação do autor, embora afinadas às necessidades do mercado, não deixam de evidenciar nuances de criticidade, característico de boa parte de sua produção. A escolha pelo gênero policial, desde a sua primeira obra, mostra a afinidade do autor com esse gênero, que é o mais representativo de sua produção literária. Nessa 16 Em 1999, Luís Dill publica a novela policial Lâmina Cega (Finalista do Prêmio Açorianos de Literatura em 2001 na categoria Romance). A obra, embora recentemente tenha sido redirecionada ao público juvenil (8º, 9º ano e Ensino Médio), a priori não foi pensada mercadologicamente para esse público. 39 primeira década, as narrativas são lineares, com finais fechados e personagens construídos de forma mais homogênea. O foco está no desenrolar da ação e na resolução dos conflitos estabelecidos. Assim, a temática policial, uma tendência das narrativas juvenis contemporâneas, é o cerne das primeiras publicações do escritor. À vista disso, os livros da primeira década indiciam características comuns aos escritores que se enveredam pelo gênero policial: seguem uma estrutura mais ou menos padronizada, um formato pré-estabelecido, uma fórmula já consolidada, a partir da qual Dill irá iniciar suas experiências criativas com a linguagem literária. 1.2 Década de 2000: inovações temáticas e formais Após um intervalo de cinco anos sem publicações direcionadas ao público juvenil17, em 2003 Luís Dill lança a novela Sombras no asfalto, pela editora gaúcha WS Editor. A obra, também encomendada, pertenceu à Coleção Farol da editora, cujo objetivo era trazer à lume a reflexão a respeito de temas considerados polêmicos, apresentando-os com leveza, mas sem superficialidade. A obra é a primeira em que o autor aborda de forma mais direta problemas sociais pertencentes ao universo juvenil: o uso abusivo de drogas. Na narrativa policial, a personagem Coralina (primeira protagonista feminina de Dill), de 16 anos, misteriosamente acorda em um quarto de hotel com um lapso de memória e sem saber os motivos pelos quais ela foi parar ali. Em seguida, a jovem começa a ser perseguida e segue em uma jornada em busca de respostas, permeada de encontros e frustrações. No desfecho, o leitor descobre como possibilidade interpretativa a morte da protagonista devido ao uso excessivo de drogas. A primeira edição, de 2003, possui projeto gráfico simplificado, sem atrativo ao leitor juvenil. Em 2011, Sombras no asfalto é reeditado pela Companhia das Letras sem mudança no texto, mas agora com um projeto gráfico muito mais chamativo e atraente ao jovem leitor. Nesta edição, a capa, em tons de amarelo e verde, contrasta com a 17 Nesse ínterim, Luís Dill lança, além da novela policial voltada ao público jovem-adulto Lâmina cega (1999), um livro poético, Arcas de Haicais (2002), voltado ao público infantil. 40 silhueta de uma jovem em tom vermelho escuro, cor que remete a sangue, e com as letras garrafais em preto que revelam o título e o autor da narrativa. Figura 1 – Capa do livro Sombras no asfalto (2003) Fonte: Dill, (2003, capa) Figura 2 – Capa do livro Sombras no asfalto (2011) e imagem reproduzida da página 23 Fonte: Dill (2011, capa e p.23) Desse modo, o interior da segunda edição do livro também chama a atenção pelas ilustrações, que dialogam com o todo da narrativa, e pelos destaques dados a trechos 41 do texto, como forma de ressaltar ao leitor pontos importantes para o entendimento do desfecho. Em 2004, Luís Dill retoma a temática das pedras preciosas, característica da sua obra na década de 1990, com a publicação de O punhal de jade. Nesta narrativa de aventura, porém, a presença de gemas não possui a mesma força que nas anteriores. Com uma história composta por 19 capítulos lineares, Dill, pela primeira vez em uma de suas obras juvenis, trabalha a temática do sexo na adolescência, abordando-a de uma forma inusitada, mas sem deixar de mostrar as consequências de decisões baseadas exclusivamente nos desejos sexuais. Em O punhal de jade, o jovem Edu programa um final de semana ao lado de sua namorada. Todavia, tudo foge de seu controle quando a personagem Dóris aparece em sua casa, pedindo-o que escondesse um punhal que ela havia roubado de seu amante. O jovem rapaz se vê envolto em uma confusão, não resiste aos encantos de Dóris e acaba traindo sua namorada Beatriz. A relação dos dois fica abalada e não se resolve até o final da narrativa. Dessa forma, o sexo na adolescência é abordado como temática complementar, sem, contudo, desprezar-se o tom crítico, característico da obra do escritor gaúcho. No ano seguinte, Luís Dill publica a narrativa Letras finais (2005) pela editora Artes e Ofícios, obra que viria a ser uma das mais conhecidas do autor. Organizado em 60 breves capítulos, o texto destaca-se pelo trabalho estrutural realizado. Rompendo a linearidade da narrativa até então presente na maioria das obras direcionadas ao público jovem, Letras finais apresenta um trabalho inovador e criativo, repleto de digressões, flashbacks e um enigma que dá título à obra, cujo desvendar depende da atenção e perspicácia do leitor. Em cada capítulo há uma letra destacada que, ao final, forma um anagrama, responsável pelo desfecho da história, cujo protagonista é Oswaldo, um adolescente sequestrado por engano. No cativeiro, ele reflete sobre momentos marcantes de sua vida e se mostra um jovem corajoso e sensível. Com essa obra, Dill amplia os horizontes e expande seu público leitor para além do sul do país, uma vez que ela foi selecionada para compor o Programa Nacional Biblioteca Escolar (PNBE), sendo distribuída em escolas públicas de todo Brasil. Ao 42 mesmo tempo, a presença de temas fraturantes ou polêmicos na literatura para jovens ganha maior destaque no texto, em comparação às produções anteriores (com exceção de Sombras no asfalto). A violência urbana, por meio do sequestro sofrido pelo protagonista, é o ponto de partida da narrativa. E a morte é outro tema polêmico que a perpassa, porém sob diferentes vieses. Em um primeiro momento, existe o medo da morte, sentido pelo personagem: “Vou morrer. É isso. Simples assim. Acabou o ar aqui dentro. Por isso não tenho mais dúvida. Sim, sem chances, é o meu fim [...]” (Dill, 2005, p. 9). Em outra face, a morte é expressa por meio do luto vivenciado pela família de Oswaldo, que perdeu seu irmão mais velho, vítima de um acidente. Tais temáticas, retratadas de maneira mais intimista e sensível, se desenvolvem a partir do olhar do jovem protagonista que compartilha com o leitor seus anseios, medos e traumas emocionais. A morte também está presente na narrativa policial Letras perdidas, publicada em 2006 pela editora Escala Educacional. O enredo se desenvolve a partir do assassinato de uma senhora, vizinha e amiga do jovem Vitor Alberto, protagonista da história. O choque causado por esse falecimento, bem como o velório, é descrito no livro de maneira muito sensível, que emociona o leitor. Após o assassinato, o jovem vai em busca de pistas, a fim de desvendar o mistério por trás da morte de sua amiga. Embora tenha sido escrita em cerca de trinta dias e sob encomenda, para pertencer à Série BR.doc da editora, caracterizada por enredos ambientados em cenário brasileiro e que possuam um documento como ponto de partida, Letras perdidas articula as exigências editoriais e o fazer literário do autor, sem que isso comprometa o rendimento estético da obra. O destaque da narrativa está justamente nos procedimentos estruturais realizados por Luís Dill, que intercala a narrativa de Vitor Alberto com a de Thomas MacManus, documento histórico responsável por ligar a narrativa à Série BR.doc. Além disso, o projeto gráfico do livro é bem elaborado, contendo ilustrações e desenhos de dois profissionais. É a primeira obra de Dill direcionada ao público juvenil em que as ilustrações possuem destaque. O trabalho final de Letras perdidas logrou tal êxito que, no ano seguinte, a editora solicitou do escritor mais um livro para compor a série. Além das exigências anteriores, 43 o editor determinou que a narrativa deveria ser ambientada no estado do Paraná18. Com isso, em 2007, Luís Dill lançava mais um livro direcionado ao público jovem, intitulado Dinamite ao meio-dia. Sobre esse processo, o autor comenta: Minha experiência anterior tinha sido ótima. Diverti-me muito escrevendo Letras Perdidas e a ideia de repetir a dose me parecia fantástica. Ainda por cima com uma vantagem: desta vez eu teria mais tempo para entregar o original. No trabalho anterior, tive aproximadamente 30 dias para apresentar o texto. Para este livro, cujo cenário deveria ser o Paraná, o tempo foi ampliado. isso é bom, dá tempo para o autor pensar bem, pesquisar, reescrever mais vezes, até chegar à versão a ser entregue para a editora (que nem sempre é a última). Porém, há um perigo. Prazo longo pode ser uma armadilha, pode deixar o autor um tanto, digamos, preguiçoso, naquela base do “ah, tem tempo ainda...” (Dill, 2007, p. 125). Dill descreve que o primeiro passo para escrever Dinamite ao meio-dia foi a escolha do cenário. Para isso, recorreu ao mapa do estado e, diante das dezenas de cidades, escolheu a capital, por já conhecê-la. Em seguida, por meio de pesquisas na internet, escolheu os locais em que se desenrolaria o enredo. O autor conta que a primeira característica de Curitiba que veio à sua mente foi a beleza da cidade. Em seguida, ele pensou em como sugerir tal atributo em uma narrativa do gênero policial: destruição foi a resposta encontrada. Dessa forma, nas palavras do autor, [...] começou a nascer a ideia do livro. Alguém disposto a atacar a beleza da capital paranaense. Um maluco disposto a cometer um ato terrorista em nome de vingança e de insana vaidade pessoal. Como a história se destina – preferencialmente – ao público jovem, era preciso colocar um jovem no enredo. Entrava em cena Hamílcar (Dill, 2007, p. 128). Assim, nessa narrativa, composta de 28 capítulos, o jovem Hamílcar vê sua rotina modificada quando salva de maneira inesperada um assassino profissional que, por sua vez, quer retribuir a atitude do garoto, salvando-o de um grupo de rapazes que faziam bullying com o adolescente. Em meio a isso, o jovem tem sonhos enigmáticos constantes com seu pai já falecido e, não bastasse isso, acaba recebendo cartas estranhas, com um caça-palavras. A partir daí, os acontecimentos se desenrolam, marcados por suspense, enigma e ação. Como se vê, a temática do bullying já aparece na produção do autor, e terá seu ápice em Todos contra Dante, obra lançada no ano seguinte. 18 Desse modo, esta é uma das únicas produções do escritor ambientada fora do estado do Rio Grande do Sul. 44 Ainda que o projeto gráfico de Dinamite seja semelhante à obra anterior, uma vez que faz parte de uma coleção padronizada, Dill mais uma vez tenta inovar na estrutura textual, criando uma narrativa não linear, com digressões e prolepse de ação. Dinamite ao meio-dia é um dos poucos livros do escritor com um apêndice que detalha seu processo criativo, com depoimento de como surgiu o livro, além de esboço, esqueleto e final alternativo para a narrativa. Ainda em 2007, mais dois livros são lançados, O clube da cova, pela editora Salesiana, e Olhos vendados, pela Difusão Cultural do Livro, ambos pertencentes ao gênero policial. Contudo, é apenas no ano seguinte que Luís Dill lança o que se tornaria seu best-seller: a narrativa Todos contra Dante. O livro conta a história do garoto Dante, aluno bolsista de uma escola de elite. Ao ser rejeitado pelos colegas por ser de uma classe social de menor prestígio e por não ter características físicas que seguiam um padrão de beleza imposto pela sociedade, o menino é assediado, se tornando vítima fatal do bullying e do cyberbullying. A temática incontornável, relacionada à violência em ambiente escolar, aliada a uma construção narrativa composta de inúmeras vozes e a um projeto gráfico-editorial diferenciado, rapidamente despertou atenção da crítica literária. Logo, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil concedeu o selo Altamente Recomendável à obra. A crítica acadêmica, por sua vez, atestou o caráter inovador da narrativa, por meio de várias pesquisas publicadas sobre o tema. À guisa de ilustração, Marisa Lajolo e Regina Zilberman, em Literatura infantil brasileira: uma nova outra história (2017), elogiam o caráter arrojado do livro de Dill. Em seu texto, as pesquisadoras trazem reflexões acerca da literatura infantil e juvenil produzida no Brasil nos últimos 30 anos e enfatizam, dentre outras questões, que a cultura digital influencia a produção e circulação de literatura, invadindo “[...] o universo do livro, ao propor temas, ideias e procedimentos artísticos singulares” (Lajolo; Zilberman, 2017, p. 44). A respeito disso, as autoras assinalam os blogs, inspiração para o projeto gráfico-editorial da narrativa de Dill, que incorpora em seu texto elementos do virtual, como é perceptível nas imagens a seguir. 45 Figura 3 – Capa do livro Todos contra Dante (2008) Fonte: Dill (2008, capa) Figura 4 – Interior do livro Todos contra Dante (2008) Fonte: Dill (2008, p. 34-35) Lajolo e Zilberman (2017) também evidenciam o caráter intertextual da obra, bem como os diferentes discursos que atravessam a narrativa analisada. Elas observam, por exemplo, que as páginas ímpares são ocupadas por três diferentes discursos: os diálogos dos colegas de turma de Dante, os posts ofensivos inseridos na comunidade de Orkut Eu sacaneio o Dante e o discurso do próprio protagonista, manifesto por meio do blog criado para expor seus sentimentos e emoções. Já nas páginas pares, há uma quarta voz, um link que permite um retrospecto dos fatos narrados. Por fim, as pesquisadoras enaltecem a estruturação do texto, permeada de elementos do mundo digital: A estrutura da obra aproveita sugestões do mundo da comunicação virtual. 46 Comunidades, blogs, links são elementos do mundo digital, facultando a navegação entre páginas distintas. O ousado projeto gráfico da obra transforma-os em procedimentos narrativos e seus consequentes efeitos de sentido. A esses elementos o autor acrescenta recursos da linguagem literária, como o intertexto, ao introduzir o poema épico de Dante Alighieri (Lajolo; Zilberman, 2017, p. 50). Contudo, apesar do sucesso de crítica e público, Dill revela que não foi fácil lançar seu texto no mercado, em razão da estrutura narrativa e do final trágico do protagonista. Em entrevista concedida para esta pesquisa, o autor comenta que, ao mostrar o texto a uma grande editora, recebeu como condição para publicação a mudança de vários aspectos da obra, inclusive do desfecho: [...] esse livro eu concebi dessa maneira, bem esquizofrênico até, e uma grande editora do centro do país topou editar o livro, mas com uma condição: eu tinha que mudar o final e tinha que fazer uma narrativa mais comum, não toda picotada como fiz. Na época, acho que tinha um ou dois livros publicados fora daqui do Rio Grande do Sul, para mim era uma oportunidade excelente. E eu: “tá, vou pensar”. Cheguei em casa, abri o arquivo: “tá, vou transformar isso tudo em algo ‘mais normal’, entre aspas”. Mas disse: “puxa, não pensei a história desse jeito, eu vou mutilar a história se eu colocar ela bonitinha, certinha e quadradinha”. A avaliação tinha que ser daquele jeito meio maluco. Entrei em contato com eles e disse que não ia fazer como eles estavam me pedindo, agradeci a oportunidade (Dill, 2024). Acreditando que seu texto deveria ser editado da forma que foi concebido, Dill resolve enviar o manuscrito para a editora Companhia das Letras, que rapidamente aceita editá-lo: “Eles aceitaram o livro em uma semana e começaram a produzir o livro em uma semana” (Dill, 2024), revela o escritor. Sabendo da importância do visual em uma obra destinada ao público juvenil, a editora, em diálogo com o autor, iniciou um arrojado projeto gráfico-editorial para Todos contra Dante. O próprio escritor reconheceu em entrevista essa importância do processo de elaboração desse aspecto para o público leitor: Acho um processo muito importante porque no fim das contas o livro é um produto, ele tem que ter uma embalagem bonita, tem que atrair o olhar do consumidor. É claro que o principal é o texto, sem dúvida, o texto tem que ser bom, mas uma roupagem, um design legal sempre atrai (Dill, 2024). Contudo, Dill também confessou ter ficado apreensivo quando recebeu a sugestão por parte da editora de produzir o livro na horizontal: Foram várias conversas a respeito do design do livro e quando eles me apresentaram essa opção do livro na horizontal, eu digo: “esse livro não vai dar certo. É muito esquisito isso. O texto já é meio diferente e esse formato deitado”... e é o meu best-seller (Dill, 2024). 47 Apesar dessa apreensão inicial, a aceitação da narrativa junto ao público comprador foi notável, de modo que proporcionou uma nova parceria entre o escritor e a editora Companhia das Letras, culminando na publicação de O dia em que Luca não voltou, no ano seguinte. Todavia, este não obteve o mesmo volume de vendas nem a mesma adesão das escolas. Para o autor, essa segunda publicação, que tematiza a problemática das crianças desaparecidas, não foi tão bem aceita nas escolas por ser uma narrativa muito triste: Esse livro, eu concebi ele como juvenil, ele foi para a Companhia das Letras como juvenil, foi publicado como juvenil, e ele fracassou como livro juvenil. Por que ele fracassou, embora eu considere um dos meus melhores textos? Porque ele é muito, muito, muito triste. O final do livro, quem lê o livro chora, dói de tristeza, de raiva do autor. Então é óbvio que o livro não foi adotado nas escolas, por quê? Porque é um livro, as crianças todas chorando, então houve pouca adoção (Dill, 2024). É justamente essa tristeza, a qual denominamos melancolia, o diferencial dessa obra. Como ela integra o corpus desta tese, será abordada mais detalhadamente no penúltimo capítulo deste trabalho. Ainda em 2009, outro livro cuja temática preponderante é a violência foi publicado: Beijo mortal, pela editora Dulcinéia. Nessa narrativa, de projeto gráfico simples, mas de alta densidade temática, o escritor aborda a violência entre os jovens, expondo como na sociedade contemporânea a vida humana, por vezes, é ceifada por motivos banais. O enredo se desenvolve a partir de uma chacina envolvendo jovens, que culminou na morte de sete, dos nove envolvidos. O adolescente Francisco, de 15 anos, imbuído no jornalismo, começa a investigar os motivos que levaram à tragédia e descobre que tudo aconteceu por ciúmes. Assim, Luís Dill “[...] desenvolve um típico romance policial, que com uma linguagem descritiva nos ambienta um texto com características jornalísticas e cinematográficas, posto que as cenas e a objetividade da língua correm sob o olhar do leitor” (Almeida, 2021a, p. 217). Publicada também em 2009 pela editora Artes e Ofícios, a obra De carona, com nitro tem a violência no trânsito como o fio condutor para o desenvolvimento de uma narrativa que ocorre em contagem regressiva, a exemplo das produções audiovisuais e cinematográficas, como a série televisiva 24 horas: 11h33 Nicole, 16, dá xau e sai do MSN. Às vezes se aborrece com a colega de aula. 48 Vitória vive convidando-a para sair à noite: balada da boa, balada forte hoje, migaaa, digitara há pouco. Naum sei, depois te ligo, xau. Os pais a levam e a buscam das festas, o que, por vezes, a embaraça diante dos amigos e dos colegas [...] 12h49 Franciele, 17 anos, acorda com os gritos da mãe e do pai. Está acostumada, já não se impressiona. A mãe jura que o pai tem um caso. Esta semana a desconfiança recai sobre a colega loira do escritório de advocacia onde ele é sócio. — Saco! — grita contra eles. Na semana passada quem tinha sido? A secretária? (Dill, 2009a, p. 20-21). Na narrativa em questão, estruturada em dois macro capítulos (7 de outubro, sábado e 8 de outubro, domingo) e vários micro capítulos (representados pelas horas antecedentes ao acidente), a trajetória dos personagens, entre eles vários jovens, vai sendo contada aos poucos. O enredo se desenvolve a partir de variados ângulos isolados, que se entrelaçam apenas nos momentos finais, ocasião em que acontece o acidente de trânsito. Por meio de linguagem dura e direta, o leitor por vezes é surpreendido com a antecipação do desfecho trágico de alguns personagens: 8h39 Doralice, 50, prepara a primeira refeição do dia para a família. Haverá café com leite, manteiga, mel, pão feito em casa, suco de uva de caixinha. Espia pela janela. Nenhuma nuvem. Dia lindo. Pensa. Lembra de parte do sonho que teve. A filha caçula navegava em imenso oceano turquesa. Estava deitada em um colchão de ar muito branco. Peixes coloridos a cercavam. Isadora parecia feliz, a expressão serena. Doralice sorri. Lembra do que ouviu no rádio: tempo excelente para o fim de semana. Lembrará horrorizada do sonho no dia seguinte, durante o velório da filha (Dill, 2009a, p. 12). De carona, com nitro é a narrativa que torna mais evidente o emprego de técnicas e efeitos oriundos do audiovisual no fazer literário do escritor gaúcho, as quais se tornam uma característica preponderante no conjunto de sua obra dedicada ao público juvenil (Almeida, 2021a). Tais influências oriundas do cinema e da televisão são resultado de sua formação, como nos confessa o próprio escritor: Quando eu era pequeno, a