UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE MESTRADO PROFISSIONAL EM EDUCAÇÃO ANÍBAL SALTÓRIO DE ALMEIDA JÚNIOR FORMAÇÃO PARA OS CONSELHEIROS ESCOLARES DO MUNICÍPIO DE CARIACICA: POSSIBILIDADE DE TRANSFORMAÇÃO DA REALIDADE VITÓRIA 2019 ANÍBAL SALTÓRIO DE ALMEIDA JÚNIOR FORMAÇÃO PARA OS CONSELHEIROS ESCOLARES DO MUNICÍPIO DE CARIACICA: POSSIBILIDADE DE TRANSFORMAÇÃO DA REALIDADE Dissertação apresentada como requisito para a conclusão do Mestrado Profissional em Educação do Programa de Pós-Graduação de Mestrado Profissional em Educação – PPGMPE, da Universidade Federal do Espírito Santo, para a obtenção do título de Mestre em Educação. Orientador: Prof. Dr. Itamar Mendes da Silva VITÓRIA 2019 Aos meus pais, Aníbal e Noemi, por todo o incentivo e apoio aos meus estudos. Sem eles, nada disso seria possível. Aos educando-educadores e ex – educando-educadores, que sempre estiveram afeitos às trocas de experiências e por toda a compreensão e carinho para comigo. Aos meus colegas de trabalho, amigos de profissão, que sempre apoiaram e sempre estenderam suas mãos para ajudar nos momentos mais difíceis. À minha esposa, Ana Júlia, pela paciência, compreensão, pelas noites em claro, sempre ao meu lado... Confortando-me quando tudo parecia impossível. AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, por sua infinita bondade e misericórdia, sempre guiando meus passos e fortalecendo a caminhada. Aos meus familiares por sempre apoiarem e entenderem as minhas ausências nas reuniões e eventos de família. À Ana Júlia, companheira de todas as horas, por seu carinho, dedicação, compreensão, atenção, amor... Aos amigos/amigas/irmãos/irmãs que a UFES me deu (Amarilda, Carol Amaral, Celinha, Ester, Geruza, Iza, Jéssica, Karla, Mayana, Neuzita, Priscila, Rayana, Rayra, Soninha, Stéfano e Thiago) e que tanto me ensinaram nesses anos juntos. Ao meu grande amigo Lopes, por todo o apoio e por sempre acreditar que eu era capaz. Aos meus amigos da EMEF “Maria Augusta Tavares”, Sandoval, Flávio, professores e conselheiros escolares, que tanto ajudaram na construção desse trabalho. Aos amigos da Secretaria Municipal de Educação de Cariacica, principalmente André, Camila, Cezar, Cláudia, Edna, Flávia e Thiago, por todas as aprendizagens proporcionadas pelos debates e trocas de experiências. À minha querida amiga Gabriela, que tanto ajudou, incentivou e acreditou nesse trabalho. Seu carinho e preocupação me fizeram acreditar que eu conseguiria. Obrigado mesmo, Gabi. Ao Professor Itamar, que além de orientar meus estudos e o desenvolvimento desse trabalho, incentivou e acreditou que seria possível. Aos meus nobres e estimados professores, que com tanta paciência e solicitude acompanharam essa caminhada. Aos alunos e ex-alunos que participaram dessa longa caminhada, que sempre estavam dispostos a ajudar e a entender quando o cansaço pelos estudos, noites a fio, abatia meu semblante ao chegar à escola, pela manhã. RESUMO Os Conselhos Escolares foram criados com o intuito de tornar a ação da escola partilhada entre os sujeitos que a compõe e/ou tem interesse em seu fazer: a educação. O presente trabalho reflete sobre os Conselhos Escolares da rede pública municipal de ensino do município de Cariacica/ES e suas formas de composição, organização e funcionamento, na perspectiva da Gestão Democrática. Com o aporte teórico Freiriano, utilizamos os conceitos de participação, diálogo e Gestão Democrática da educação, para analisar o processo formativo desenvolvido junto ao Conselho Escolar de escola pública de Ensino Fundamental, de modo que estes venham facilitar nossa compreensão e embasar nossa discussão acerca da temática em questão. O objetivo da pesquisa é desenvolver reflexões acerca da participação qualificada dos conselheiros escolares em seu órgão colegiado, na perspectiva da Gestão Democrática, e propor processo formativo que ofereça possibilidades aos representantes dos segmentos, especialmente, de pais e de alunos, constituírem-se capazes de analisar, propor, opinar e decidir sobre os assuntos da competência dos Conselhos Escolares. Assumimos a pesquisa participante como metodologia de trabalho, pois esta nos permite fazer, juntamente com todos os envolvidos na realidade em questão, o levantamento dos problemas ali existentes e que são enfrentados por todo o grupo participante, levando esses sujeitos, através da própria análise e reflexão sobre a realidade em que vivem, a buscarem soluções para tais problemas. Ao final do estudo, concluímos que não basta ter instrumentos legais tratando da democracia para que esta se efetive no dia a dia das Unidades de Ensino, é necessário pratica-la constantemente como forma de consolidar as relações democráticas no âmbito das escolas. Palavras-chave: Conselhos Escolares. Participação. Gestão Democrática. Diálogo. ABSTRACT The school councils were created to make the school action shared between the person that composes it and who has an interest in education. This study reflects the school councils of the educational public system of Cariacica/ES and their form of composition, organization, and operation, on the perspective of the school democratic management. With the Freiriano theoretical contribution, we use the concept of participation, dialogue, and democratic management of education to analyze the formative process developed with the school council of the elementary public system. Which will be facilitating our understanding and support our discussion about the subject. The objective of this study is to develop a reflection about qualified participation of the school councils in their collegiate, in the perspective of the school democratic management system and propose a formative process that offers possibilities to the segments representatives, especially to the student's parents and students themselves, and constitute them capable to analyze, propose, opine and decide about subjects of the school councils. We take participant research as a working methodology because it allows us along with all involved on that reality, list all the problems that exist there and dealt by everyone involved their subjects through their analyzes and reflection about the reality, which they live and find out solutions to such problems. At the end of the study, we concluded that it is not enough to have legal instrumentals dealing with democracy to make it effective, in a daily routine of educational units, it is necessary to practice it constantly as a way of consolidating democratic relations in the school. Keywords: School Councils. Participation. Democratic Management. Dialogue. LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 – DISTRIBUIÇÃO DAS REUNIÕES DO CONSELHO ESCOLAR................................................................................................................113 GRÁFICO 2 – MOTIVAÇÕES PARA CONVOCAÇÃO DO CONSELHO ESCOLAR................................................................................................................114 GRÁFICO 3 – ENCONTROS DE FORMAÇÃO - FREQUÊNCIA DOS CONSELHEIROS.....................................................................................................165 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 – ANÁLISE DAS ATAS DO CONSELHO DE ESCOLA...................................................................................................................108 QUADRO 2 – NÚMERO DE OCORRÊNCIAS E A MOTIVAÇÃO DE ALGUMAS REUNIÕES DO CONSELHO DE ESCOLA QUE OCORRERAM NO MESMO DIA............................................................................................................................116 LISTA DE TABELAS TABELA 1 – FREQUÊNCIA DOS CONSELHEIROS NOS ENCONTROS DE FORMAÇÃO.............................................................................................................162 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AEE Atendimento Educacional Especializado ATPC Aula de Trabalho Pedagógico Coletivo B.O. Boletim de Ocorrência CAEd Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação CEE/ES Conselho Estadual de Educação do Espírito Santo CEs Conselho Escolar/Conselhos Escolares Cesan Companhia Espírito-santense de Saneamento CIs Correspondência Interna/Correspondências Internas CF Constituição Federal CMEI Centro Municipal de Educação Infantil COMEC Conselho Municipal de Educação de Cariacica CUS Conhecimento Universal Sistematizado EJA Educação de Jovens e Adultos EMEF Escola Municipal de Ensino Fundamental EPG Escola de Primeiro Grau EUA Estados Unidos da América FUNDEB Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação FUNDEF Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério GEC Gerência de Educação Cidadã GEC/SEME Gerência de Educação Cidadã da Secretaria Municipal de Educação de Cariacica LDB Lei de Diretrizes e Bases LDBEN Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC Ministério da Educação PAE Plano de Ação Educacional PDDE Programa Dinheiro Direto na Escola PDE Plano de Desenvolvimento da Educação PDT Partido Democrático Trabalhista PMDB Partido do Movimento Democrático Brasileiro PNE Plano Nacional de Educação PNFCE Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares PPP Projeto Político Pedagógico PSDB Partido da Social Democracia Brasileira SEDU Secretaria de Estado da Educação SEME Secretaria Municipal de Educação de Cariacica SEMED Secretaria Municipal de Educação SMEC Secretaria Municipal de Educação e Cultura UE Unidade Escolar UFC Universidade Federal do Ceará UFJF Universidade Federal de Juiz de Fora Uncme União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação UNESP Universidade Estadual Paulista UNIFAL Universidade Federal de Alfenas UNINOVE Universidade Nove de Julho UNIOESTE Universidade Estadual do Oeste do Paraná USP Universidade de São Paulo SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 15 2. CONSELHOS ESCOLARES: INSTRUMENTOS DE GESTÃO DEMOCRÁTICA ................................................................................................................................. .22 2.1. A implantação dos Conselhos Escolares ........................................................ 32 3. CONSELHOS ESCOLARES E A ESCOLA DEMOCRÁTICA DE QUALIDADE SOCIALMENTE REFERENCIADA: QUESTÕES ORGANIZATIVAS DE DEBATE, PESQUISA E INTERVENÇÃO ................................................................................. 47 3.1. O trabalho docente, a elaboração do currículo e o fortalecimento da democracia na escola ............................................................................................ 53 3.2. Currículo da Educação Básica na perspectiva da Gestão Democrática ......... 56 4. GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA E OS ÓRGAOS DE REPRESENTATIVIDADE SOCIAL E DE DELIBERAÇÃO PLURAL ....................... 65 4.1. Conselhos de Educação no Brasil: o longo caminho percorrido até chegar em Cariacica ................................................................................................................ 66 4.2. Os Conselhos Escolares no Brasil .................................................................. 71 4.2.1. A implantação dos Conselhos Escolares no município de Cariacica ........ 73 5. A EDUCAÇÃO NO MUNICÍPIO DE CARIACICA: DA ESCOLA E DA REDE, SUAS NORMAS, REGULAMENTOS E MECANISMOS DE REGULAMENTAÇÃO ................................................................................................................................. .81 5.1. Opções e caminhos da pesquisa .................................................................... 81 5.2. O início do trabalho com a escola ................................................................... 86 5.3. Normatização da Educação na rede municipal de Cariacica .......................... 90 5.3.1. Lei Nº 4.373/2006: institui o Sistema Municipal de Ensino de Cariacica .. 91 5.3.2. Lei Complementar Nº 035/2011: dispõe sobre a Gestão Democrática do ensino público municipal de Cariacica ................................................................ 93 5.3.3. Regimento Comum das Escolas ............................................................... 94 5.4. Caracterização do objeto: a comunidade onde a escola está inserida ........... 97 5.4.1. Histórico de criação da EMEF “Maria Augusta Tavares” ........................ 101 5.4.2. Implantação do Conselho Escolar na Unidade de Ensino ...................... 102 5.4.2.1. Conhecendo o perfil dos conselheiros escolares .............................. 104 6. O CONSELHO ESCOLAR DA EMEF “MARIA AUGUSTA TAVARES”: APROPRIAÇÃO DA REALIDADE E PROPOSIÇÃO DE ALTERNATIVAS .......... 107 6.1. Encontros de Formação com os conselheiros da EMEF “Maria Augusta Tavares”: possibilidades e desafios ..................................................................... 119 6.1.1. 1º Encontro Formativo ............................................................................ 122 6.1.2. 2º Encontro Formativo ............................................................................ 131 6.1.3. 3º Encontro Formativo ............................................................................ 135 6.1.4. 4º Encontro Formativo ............................................................................ 146 6.1.5. 5º Encontro Formativo ............................................................................ 153 6.2. Participação dos conselheiros escolares nos Encontros Formativos ............ 162 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 167 8. REFERÊNCIAS ................................................................................................... 173 APÊNDICE A – “CONSELHOS ESCOLARES NO MUNICÍPIO DE CARIACICA/ES” ................................................................................................................................ 179 APÊNDICE B – “MATERIAL DE REFERÊNCIA PARA O DEBATE SOBRE OS CONSELHOS ESCOLARES DO MUNICÍPIO DE CARIACICA” – (PRODUTO EDUCACIONAL 01) ................................................................................................ 183 APÊNDICE C – O CONSELHO ESCOLAR DA EMEF “MARIA AUGUSTA TAVARES”: APROPRIAÇÃO DA REALIDADE E PROPOSIÇÃO DE ALTERNATIVAS (PRODUTO EDUCACIONAL 02) ............................................... 197 15 1. INTRODUÇÃO Esse trabalho é fruto de pesquisa que é proposta e organizada a partir das minhas inquietações, observações e considerações em torno da participação da sociedade civil e dos sujeitos que compõem os espaços/instituições participativas colegiadas voltadas à educação, como é o caso dos Conselhos Escolares. Atuo como profissional da educação básica capixaba, na função de professor regente da disciplina de Geografia, desde o ano de 2002. Desde então, sempre estive vinculado à educação pública (redes estadual e municipal de Cariacica), embora durante alguns anos tenha exercido a função concomitantemente com a esfera privada de ensino. Tive a oportunidade de ocupar o posto de Conselheiro Municipal de Educação do município de Cariacica (entre abril de 2014 e maio de 2015), com assento na Câmara do FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação –, onde representava o segmento do Magistério. Um dos assuntos mais discutidos, durante o tempo em que fiz parte desse Conselho, envolvia a necessidade de criarmos mecanismos que pudessem viabilizar maior participação da sociedade, principalmente dos representantes de pais e também de alunos, pois havia uma rotatividade muito grande dos representantes desses dois segmentos. Dentre as justificativas que encontrávamos para o que acontecia, figuravam questões como: a falta de debate e preparo para o exercício da democracia em nosso município/estado/país; a descrença, por parte de vários representantes dos segmentos de pais e de estudantes, de que poderiam ser, de fato, ouvidos e respeitados dentro dos espaços públicos que envolvam tomadas de decisões; dificuldade de serem liberados de seus postos de trabalho para as reuniões e plenárias; entre outros. Tal situação nos afligia bastante, pois estávamos ali para definir os rumos que a educação do município tomaria, porém, não nos víamos preparados para fazer frente às necessidades da função. Antunes (2002) nos alerta sobre alguns dos principais problemas enfrentados em vários Conselhos, tais como: [...] a ausência de canais ágeis e eficazes para facilitar a comunicação entre os diferentes segmentos dentro da escola e entre a escola e a comunidade e a escola e as outras instâncias da estrutura administrativa; [...] a ausência de uma cultura de participação; [...] a falta de confiança da burocracia 16 escolar na capacidade da população de emitir opiniões e tomar decisões concernentes à escola; ausência de uma linguagem acessível a todos, principalmente aos pais e alunos [...] (ANTUNES, 2002, p. 139). Durante participação no “IX Encontro Estadual de Conselhos Municipais de Educação” (em julho de 2014), evento organizado pela Uncme – União Nacional dos Conselhos Municipais de Educação – e realizado no município de Vargem Alta/ES, pude debater sobre esse mesmo assunto com os conselheiros de educação de vários municípios capixabas que apontaram as mesmas dificuldades e obstáculos em seus respectivos Conselhos. De fato, os sistemas de educação e seus responsáveis diretos pouco trabalham ou atuam, no que diz respeito a quebrar essas amarras que alienam a população. Sobre a definição de Conselhos, Bordignon (2013, p. 53) afirma que estes são “[...] órgãos de representatividade social e deliberação plural [...]” e que “[...] os conselhos de educação foram concebidos como órgãos de assessoramento superior, de caráter eminentemente técnico. Hoje, assumem também uma dimensão política”. Com base nesse excerto, o autor nos deixa clara a função dos conselhos e qual a sua importância para a sociedade. Seu surgimento remonta ao período do Brasil Império, quando advém a necessidade de criar órgãos para auxiliar a administração da educação em nosso território. As tentativas de criação de conselhos de educação na estrutura de gestão da educação no Brasil remontam ao Império. A Província da Bahia, pela Lei Provincial nº 172, em 1842, criou o Concelho de Instrucção Pública (grafado com c), primeiro conselho de educação oficialmente criado no Brasil. Em 1854, pelo Decreto Imperial nº 1.331-A, de 17 de fevereiro, o município do Rio de Janeiro criou o Conselho Director do Ensino Primário e Secundário do Município da Corte. Assim, os dois primeiros conselhos de educação no Brasil foram criados no Império, sendo um estadual (Provincial à época) e o outro municipal. De 1846 até 1911 (abrangendo 43 anos do Império e 22 da República), diversas propostas de criação de um conselho de educação de âmbito nacional foram apresentadas e discutidas, mas não levadas a termo. O Brasil conta com um conselho de educação de âmbito nacional funcionando efetivamente desde 1911 (BORDIGNON, 2013, p. 54-55). A atuação da sociedade e sua participação nos Conselhos sempre teve grande importância para o desenvolvimento das ações prestadas pelos mesmos. No entanto, a participação desta sociedade só ganhou substrato graças à redemocratização do país e sua abertura política aos anseios de todos, garantindo a estes o direito de participarem das tomadas de decisões que envolvem o rumo que as políticas públicas destinadas à coletividade seguirão. Sobre aqueles que tinham 17 direito à participação nos Conselhos, bem como de exercerem as funções de responsabilidade dos mesmos, ao longo da história, Bordignon (2013) nos afirma que os Conselhos [...] eram compostos, inicialmente, por funcionários públicos com cargos de chefia e diretores de estabelecimentos de ensino. Posteriormente, os conselheiros passaram a ser de livre escolha do governo, obedecido ao princípio do notório saber. No entanto, o critério de escolha – dos mais sábios, dos melhores, dos homens bons – que fluía do respeito, da liderança intelectual, passou, gradativamente, a ser substituído pelo poder de influência, seja intelectual, político, econômico ou militar (BORDIGNON, 2013, p. 60). O Ministério da Educação ao divulgar documento sobre Conselhos Escolares afirma que estes “[...] são colegiados compostos por representantes das comunidades escolar e local, que têm como atribuição deliberar sobre questões político- pedagógicas, administrativas, financeiras, no âmbito da escola” (MEC, 2004, p. 34). Esse entendimento representou o acúmulo do debate teórico-prático acerca da criação e implementação de Conselhos que teve início na década de 1980. Assim, cada um dos 26 estados, o Distrito Federal e os municípios puderam criar leis específicas adequadas à sua realidade. No município de Cariacica, os Conselhos foram criados através do Decreto Nº 111, de 01 de setembro de 2004, que regulamentou a implantação dos Conselhos de Escola em todas as unidades de ensino da rede municipal de educação, determinando que: Artigo 2º Os Conselhos de Escola, resguardando os princípios constitucionais, as normas legais e as diretrizes da Secretaria de Estado da Educação, terão funções consultiva, deliberativa e fiscalizadora nas questões pedagógicas, administrativas e financeiras (CARIACICA, 2004). O município de Cariacica, quando cria os Conselhos Escolares, ainda não havia constituído Sistema de Ensino próprio, apesar de essa prerrogativa ter sido autorizada pela Constituição Federal de 1988 – CF/1988, quando o município se torna ente federado. Também na LDB, quando fala em regime de colaboração1, atribuindo ao município responsabilidade sobre a oferta do Ensino Fundamental em colaboração com o estado2 e pela Educação Infantil na sua totalidade3. Embora já existisse a possibilidade do município criar seu próprio Sistema, este continuou 1 LDBEN (Lei Nº 9.394/96), Art. 8º. 2 LDBEN (Lei Nº 9.394/96), Art. 10. 3 LDBEN (Lei Nº 9.394/96), Art. 11. 18 subordinado ao Conselho Estadual de Educação – CEE/ES –, tendo suas ações homologadas pelo Secretário de Estado da Educação. Podemos observar que a referida legislação garantiu, aos Conselhos Escolares, função de fundamental importância para o desenvolvimento e a oferta de uma “educação pública, gratuita e de qualidade”, conforme estabelece a CF/1988. Entretanto, o Decreto de criação não disciplinou as atribuições dos membros dos Conselhos Escolares e tal lacuna foi resolvida com a edição do Decreto Nº 139, de 08 de outubro de 2004. Assim, notamos que os Conselhos Escolares são recentes no município de Cariacica. Podemos dizer que estes se encontram em processo de consolidação em vários aspectos, pois a participação dos representantes dos segmentos que compõem os Conselhos ainda padece de maior efetividade, especialmente a participação de pais, estudantes e comunidade local. Uma das questões explicativas destacadas em trabalhos acadêmicos tem sido o entendimento de que falta preparo e/ou interesse, da parte dos representantes de tais segmentos, para participarem dos processos democráticos inerentes aos Conselhos e para discutir questões pedagógicas com os especialistas em educação: professores e equipe gestora. Tais entendimentos se constituem em elemento de enfraquecimento do órgão colegiado que tem como função deliberar sobre questões de ordem pedagógica, administrativa e financeira no âmbito da escola. No Brasil prevalece a “democracia representativa” com baixa intensidade de participação social, pois esta se restringe ao processo de votação, que ocorre durante as eleições. Essa prevalência faz com que uns tomem para si a capacidade de decidir para os outros, fazendo para eles e não com eles. Isso explica a necessidade de construirmos, de forma dialógica e coletiva, uma democracia com elevação no grau de intensidade da participação social, o que possibilitará que todos participem, opinando, discutindo, expondo seu ponto de vista e seus anseios, além de contribuírem para a deliberação de ações que dizem respeito à qualidade e a funcionalidade da educação ofertada à comunidade. Esses são problemas vivenciados nos Conselhos e que refletem o tipo de educação que está sendo ofertada nas escolas: uma educação que atende aos interesses da classe dominante e que visa mantê-la no poder, sem que haja mudanças ou transformações nessa/dessa realidade. 19 Com base nessa educação ofertada a todos, mas que não considera a todos, Antunes (2002) afirma que: A escola pública [...] está organizada com vistas a manter relações verticais, de mando e submissão, em detrimento das relações horizontais de cooperação e solidariedade entre as pessoas, nas quais todos possam participar da gestão da instituição (ANTUNES, 2002, p. 143). É preciso luta e resistência, para que possamos nos livrar dessa educação que visa apenas manter, a todo custo, o seu status quo, sem a participação e o engajamento dos que realmente dela necessitam e fazem parte. Devido a sermos fruto de uma educação que é ofertada pela classe dominante e que, por isso mesmo, traz consigo uma filosofia neoliberal de desenvolvimento, podemos observar que essa “[...] produziu uma nova exclusão: uma inclusão excludente. Ou seja, as classes populares vão à escola, mas não são oferecidas as condições adequadas para que elas sejam atendidas nas suas demandas e necessidades específicas” (GIOVEDI, 2014, p. 4-5). Essa educação que nos foi, e ainda é, ofertada nos permite a participação no processo, mas é a responsável pela “invisibilização” dos sujeitos pertencentes às classes menos favorecidas, que ao terem oportunidade de transformar sua realidade, não o sabem como fazer, pois não receberam uma formação que torne isso possível. Dessa forma, é necessário e urgente fortalecermos os Conselhos promovendo a participação da comunidade escolar (principalmente pais e alunos) no processo de gestão da escola. Assim, nossa participação, ancorada também em nossa prática, passa pela necessidade de promover, fomentar e qualificar a participação dos variados segmentos que compõem os Conselhos Escolares das Unidades de Ensino do município de Cariacica. O que fazer para que esses Conselhos Escolares, e os representantes dos variados segmentos que o compõem, possam deliberar e definir, de maneira consciente, sobre os rumos da educação local? Como proceder para que a participação qualificada possa ser bem sucedida em tornar a escola lugar significativo e relevante? Como fazer para que a educação ofertada possa atender aos anseios e expectativas da comunidade e auxiliar na transformação da realidade em que vivem? 20 Tomando como base, e objeto de estudo, o conjunto de problemas que os segmentos de pais e de alunos afirmam enfrentar durante sua participação em Conselhos Escolares propomo-nos a trabalhar o fortalecimento desses por intermédio de uma formação de seus conselheiros numa perspectiva crítico- libertadora. Paulo Freire nos traz elementos para debater tais problemas enfrentados pelos Conselhos Escolares e buscar possíveis saídas, com posicionamentos dialógicos, que respeitem e considerem as vivências dos demais representantes dos segmentos sociais menos favorecidos. Freire (2014a, p. 79) nos alerta que “o que importa, realmente, ao ajudar-se o homem é ajudá-lo a ajudar-se. [...] É fazê-lo agente de sua própria recuperação. É, repitamos, pô-lo numa postura conscientemente crítica diante de seus problemas”. Observamos que é necessário pôr os representantes de segmentos em contato com os problemas que os Conselhos enfrentam, a partir de problematizações e reflexões acerca dessa realidade. Tais ações oferecerão condições para a criação de uma consciência crítica que possibilite criar instrumentos para a transformação da realidade, de maneira mais igualitária e democrática. Embora tenhamos a democracia como princípio da educação garantido pela Constituição Federal e pela LDBEN, vale ressaltar o que foi afirmado por Freire (2014a, p. 90): “realmente o Brasil nasceu e cresceu dentro de condições negativas às experiências democráticas”. Ou seja, vivemos em uma democracia que não nos permite nem qualifica a participar do debate dentro das esferas públicas de tomadas de decisões. Com base em tudo o que foi discutido até agora, nosso objetivo com a pesquisa é desenvolver reflexões acerca do papel e das práticas dos Conselhos Escolares na perspectiva da Gestão Democrática e desenvolver processo formativo que ofereça possibilidades aos representantes dos segmentos, especialmente, de pais e de alunos, constituírem-se capazes de analisar, propor, opinar e decidir sobre os assuntos da competência dos Conselhos Escolares. Para tornar possível tal objetivo, nos propomos: a) Caracterizar os Conselhos Escolares no município de Cariacica: sua natureza, composição, forma de escolha dos membros, atribuições, competências, funcionamento, possibilidades e limites; b) Identificar o perfil dos conselheiros, especialmente os representantes de pais, alunos, funcionários da escola e de instituições da comunidade; c) Identificar as necessidades formativas dos representantes de pais, alunos, funcionários da escola e de instituições da 21 comunidade; d) Planejar e executar, junto com os representantes de pais, alunos, funcionários da escola e de instituições da comunidade, formações que venham contribuir para o desempenho de suas funções nos Conselhos Escolares. Essa dissertação é composta por: capítulo 1 – introdução; capítulo 2 – revisão de literatura/Estado da Arte; capítulo 3 – referencial teórico; capítulo 4 – histórico sobre a formação dos Conselhos; capítulo 5 – metodologia, normatização e regulamentação da educação no município; capítulo 6 – proposta de intervenção no Conselho Escolar; capítulo 7 – considerações finais; capítulo 8 – referências e apêndices. 22 2. CONSELHOS ESCOLARES: INSTRUMENTOS DE GESTÃO DEMOCRÁTICA Para esse item, nos dedicamos a realizar uma revisão de literatura acerca da temática proposta pela pesquisa. A revisão de literatura visa fornecer um levantamento da produção acadêmica realizada sobre o tema que estamos estudando ou sobre os temas que o atravessam, o que nos possibilita visualizar o que já foi produzido (evitando que estudos sobre o mesmo objeto sejam feitos novamente) ou nos permite ver até que ponto nosso objeto de estudo foi trabalhado e o que falta ser desvelado para que seja alcançada sua compreensão de forma mais globalizada. Dessa forma, a revisão de literatura é parte fundamental do nosso trabalho, pois apresenta o que já foi produzido acerca da temática proposta, permitindo que possamos enxergar algumas possibilidades, potencialidades e/ou fragilidades já encontradas. A partir da análise dos trabalhos anteriormente elaborados (teses e dissertações) podemos, com base nas considerações de cada um dos mesmos, elaborar novas propostas de aprofundamento e compreensão da temática. Em 2007 entra em vigor o “PDE – Plano de Desenvolvimento da Educação”, que nos documentos oficiais4 é apresentado como uma ferramenta criada pelo Governo Federal para auxiliar as escolas públicas a realizarem o seu trabalho, visando garantir a oferta de uma educação básica de qualidade, significativa para os estudantes e com vistas a promover o sucesso e a permanência destes nas escolas. No plano se anuncia, como um de seus objetivos, a iniciativa de prestar contas à sociedade de todas as decisões tomadas pelo governo para a promoção de uma educação de qualidade. Baseado nesse argumento entende-se a participação da sociedade como sendo de fundamental importância para opinar, dialogar, debater e refletir sobre os rumos que a educação do país deve tomar, para que esta atenda, da melhor forma possível, àqueles que dela fazem uso: estudantes e comunidade escolar em geral. Essa ferramenta possibilitou maior transparência nas ações empregadas pelo governo e pelos gestores da educação e das escolas de todo o país. Foi impulsionada pela assinatura do Decreto Nº 6.094, de 24 de abril de 2007, que 4 “O que é o Plano de Desenvolvimento da Educação?” Disponível em: . Acesso em: 13 mai. 2018. 23 implementou o Plano de Metas “Compromisso Todos Pela Educação”, um conjunto de ações que visava a união de forças entre os entes federados (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), para que estes pudessem atuar, em regime de colaboração, juntamente com as famílias e as comunidades escolares, alcançando, assim, melhorias na qualidade da educação básica ofertada pelos respectivos entes. A proposta do Plano foi de constituir-se como ferramenta impulsionadora da Gestão Democrática da educação, com vistas a tornar esse princípio mais presente e necessário no cotidiano das escolas. Dessa forma, para analisar os caminhos que a vinculação desse plano proporcionou para a gestão das escolas de todo o país, resolvemos fazer um levantamento de estudos (teses e dissertações) realizados a partir do ano de 2007, avaliando as contribuições que o Plano trouxe para a melhoria da gestão e da prestação de contas dos assuntos perpassados pela educação nacional. O levantamento bibliográfico foi feito no site da “Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações” (www.bdtd.ibict.br), tendo como recorte temporal, o período de 2007 a 2018 (2007 foi quando teve início o Plano de Metas “Compromisso Todos Pela Educação” e, consequentemente, marca o início da vigência do PDE). As buscas se colocaram sobre as expressões: “Conselhos Escolares” e “Gestão Democrática”. Para a expressão “Conselhos Escolares”, identificamos um total de 4.364 documentos (entre teses e dissertações) e para a expressão “Gestão Democrática”, foram identificados 2.518 documentos. Apesar desse contingente de trabalhos versar sobre Conselhos Escolares e Gestão Democrática, após uma amostragem de observações e leituras feitas, constatamos que nem todos tratavam os temas que estávamos propondo de forma principal. Nesse sentido (e pelo quantitativo de documentos disponíveis e da impossibilidade de se trabalhar com tamanho contingente de dados), buscamos fazer o refinamento da pesquisa indicando as referidas expressões delimitando-as pelo campo “assunto”. Assim, foram identificados 74 documentos para a expressão “Conselhos Escolares” e 283 documentos para a expressão “Gestão Democrática”. Vale ressaltar que alguns desses trabalhos apareceram em duplicidade. Após o referido levantamento, constatamos a repetição de alguns conceitos destacados como sendo muito importantes para encabeçarmos e desenvolvermos a http://www.bdtd.ibict.br/ 24 discussão acerca da temática de que trata esse trabalho. Conceitos como “Gestão Democrática”, “Conselho Escolar”, “participação” e “diálogo” foram apontados, a partir de leituras realizadas em decorrência do resultado alcançado pelo levantamento feito junto à Biblioteca Digital de Teses e Dissertações, como sendo de fundamental importância para a compreensão da temática em questão e também para a elaboração e o desenvolvimento da pesquisa. Sobre Gestão Democrática, pudemos constatar que o conceito é bem variado. Barroso (2011, p. 19), ao tratar sobre a Gestão Democrática da educação, a define como a transferência de “[...] poderes e funções do nível nacional e regional para o nível local, reconhecendo a escola como um lugar central de gestão e a comunidade local (em particular os pais dos alunos) como um parceiro essencial na tomada de decisão”. O fato é que, por meio da Gestão Democrática da Educação, busca-se atender a todos e garantir que as pessoas, sujeitos e segmentos que fazem uso do sistema educacional (pais, alunos, comunidade escolar, funcionários da escola, professores, entre outros) possam atuar na construção de uma escola que atenda, de fato, aos seus anseios e às suas expectativas, enquanto processo formativo que visa possibilitar a compreensão e a transformação da realidade em que vivem. Esse trabalho de formação e transformação da realidade será possível por intermédio dos Conselhos Escolares, que são: [...] órgãos colegiados compostos por representantes das comunidades escolar e local. Sua atribuição é “deliberar sobre questões político- pedagógicas, administrativas, financeiras”, assim como analisar as ações a empreender e os meios a utilizar para o cumprimento das finalidades da escola. Assim, os conselhos escolares representam as comunidades escolar e local que, atuando em conjunto, podem e devem definir de forma participativa os caminhos para tomar as deliberações que são de sua responsabilidade (PAULA; ESPÍRITO SANTO; BARBOSA, 2014, p. 28). Os Conselhos Escolares ocupam posição de destaque na transformação social possibilitada pela escola e pela educação, de maneira geral. É através deles que os segmentos que compõem a comunidade escolar exercem seus direitos; têm vez, voz e voto nas questões que envolvem a sua formação e a qualidade dos serviços a eles prestados pela escola. Dentro dos conselhos, é garantida a participação de todos os envolvidos no processo educativo, para que estes possam opinar, exprimir seus 25 anseios e deliberar sobre o tipo de educação que querem, além do motivo pelo qual a querem. A participação de todos os membros e representantes de segmentos é de fundamental importância para a construção de um Conselho democrático e atuante, além do que, é necessária, também, para a efetivação e para a deliberação legal de todas as ações que competem ao mesmo. Entretanto, não há consenso sobre o significado de “participação”. Como nos afirma Werle (2003, p. 19), “quando se busca o significado de participar, não encontramos sentidos tão convergentes, mas diferenciados, incluindo, desde comunicar, anunciar, informar e fazer saber, até tomar parte e associar-se”. A participação efetiva de todos os envolvidos no processo, não apenas “burocrática”, mas “prática e atuante” possibilita aprendizagens coletivas que pressupõem o acesso à produção de conhecimentos adequados às necessidades e interesses de toda a população, capazes de transformar a realidade em que a comunidade escolar se encontra. É através da participação nos conselhos que os variados segmentos sociais encontram oportunidade para externarem seus anseios e cobrarem do Executivo, ao qual se vinculam, as melhorias necessárias para uma educação pública, gratuita e com cada vez mais qualidade. Essa composição plural dos conselhos (representada pela grande variedade de segmentos que compõem a sociedade civil organizada e a comunidade escolar) permite o debate aprofundado sobre os anseios e pontos de vista de cada segmento, além de possibilitar a aproximação entre eles, garantindo, assim, resultados que venham atender de maneira mais igualitária e satisfatória às necessidades de todos os envolvidos na comunidade escolar. Como significado de participação, Libâneo (2008) nos diz que: A participação é o principal meio de se assegurar a gestão democrática da escola, possibilitando o envolvimento de profissionais e usuários no processo de tomada de decisões e no funcionamento da organização escolar. Além disso, proporciona um melhor conhecimento dos objetivos e metas, da estrutura organizacional e de sua dinâmica, das relações da escola com a comunidade, e favorece uma aproximação maior entre professores, alunos, pais (LIBÂNEO, 2008, p. 102). Ainda sobre o conceito de “participação”, o autor complementa dizendo que: O conceito de participação se fundamenta no de autonomia, que significa a capacidade das pessoas e dos grupos de livre determinação de si próprios, isto é, de conduzirem sua própria vida. Como a autonomia opõe-se às 26 formas autoritárias de tomada de decisão, sua realização concreta nas instituições é a participação. Portanto, um modelo de gestão democrático- participativa tem na autonomia um dos seus mais importantes princípios, implicando a livre escolha de objetivos e processos de trabalho e a construção conjunta do ambiente de trabalho (LIBÂNEO, 2008, p. 102). Como pudemos observar, o conceito de participação é muito diversificado, plural. Cada autor o trata a partir de um prisma que se aproxima da realidade com a qual dialoga. O fato é que não podemos tratar um conceito tão importante, para a compreensão da democracia e para a efetivação de processos democráticos dentro da educação e da escola, de forma reducionista, pois a compreensão desse conceito extrapola tais “muros”, como nos lembra Freire (1991): [...] a participação não pode ser reduzida a uma pura colaboração que setores populacionais devessem e pudessem dar à administração pública. Participação ou colaboração, por exemplo, através dos chamados mutirões por meio dos quais se reparam escolas, creches, ou se limpam as ruas ou praças. A participação para nós, sem negar este tipo de colaboração, vai mais além. Implica, por parte das classes populares, um “estar presente na História e não simplesmente nela estar representadas”. Implica a participação política das classes populares através de suas representações ao nível das opções, das decisões e não só do fazer o já programado. [...] Participação popular para nós não é um slogan mas a expressão e, ao mesmo tempo, o caminho de realização democrática da cidade (FREIRE, 1991, p. 75). A maneira mais coerente (e condizente) com a realidade que buscamos evidenciar de se promover uma participação mais efetiva de todos os representantes dos segmentos que compõem a comunidade escolar nos Conselhos Escolares para que, assim, estes possam atuar na condução do processo de construção do seu próprio conhecimento, sendo sujeitos desse processo, é através do diálogo. [...] o diálogo é a força que impulsiona o pensar crítico-problematizador em relação à condição humana do mundo. Através do diálogo podemos dizer o mundo segundo nosso modo de ver. Além disso, o diálogo implica uma práxis social, que é o compromisso entre a palavra dita e nossa ação humanizadora (STRECK; REDIN; ZITKOSKI, 2016, p. 117). O diálogo é o instrumento de fundamental importância a ser usado para a transformação da realidade, pois ele permite que as pessoas tornem-se críticas e passem a refletir sobre possíveis obstáculos que as circundam e que impedem seu desenvolvimento, sua emancipação. Dentro de uma educação humanizadora, o diálogo possibilita, aos sujeitos que compõem a comunidade escolar, capacidade de reflexão sobre seu meio e suas ações, permitindo a transformação destas. Um caminho para construir possibilidades de transformação da atual realidade é assumindo o “diálogo” como processo que favorece o “estar com”, a “interação com 27 outros sujeitos”, enfim o fazer partilhado, coletivo e humanizador. Como nos afirma Freire (2014b, p. 109), “[...] o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens”. Ou seja, é através do diálogo que nos constituímos como homens e mulheres, como seres conscientes do nosso inacabamento, como humanos propriamente. Freire (2014b, p. 116) ainda complementa que “a educação autêntica, repitamos, não se faz de A para B ou de A sobre B, mas de A com B, mediatizados pelo mundo”. Esses pensamentos de Paulo Freire nos encorajam e nos fazem acreditar que sem dialogar com nossos semelhantes, nossos pares; sem que haja disponibilidade de fazermos com (e não de fazermos para ou sobre); sem a consciência de nosso inacabamento; entre tantas outras coisas, não será possível uma educação crítica e libertadora, transformadora da realidade que permita enxergarmos outros horizontes, outras possibilidades. Através do diálogo existe a problematização das situações que permeiam a vida dos sujeitos que compõem a comunidade escolar, bem como o entorno onde a escola se insere, o que possibilitará a organização, por parte do profissional docente, e a construção de um conhecimento verdadeiramente adequado às necessidades e interesses desses sujeitos. É isso o que Freire (2014b) nos afirma: Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição – um conjunto de informes a ser depositado nos educandos –, mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada (FREIRE, 2014b, p. 116). O diálogo é, então, condição precípua para a construção de relações democráticas e participativas no processo de gestão da educação e dos demais processos inerentes a essa prática. A construção de uma escola sem diálogo com os variados segmentos que a compõem (pais, alunos, professores, funcionários, etc.); que não permite que estes segmentos se expressem ou indiquem o tipo de escola da qual necessitam para o seu processo de formação e de construção de seu conhecimento; uma escola que não possibilite que estes segmentos atuem no processo de decisão sobre a reflexão e a elaboração de metodologias com conteúdos que orientem a sua formação e a construção do saber que é relevante e, verdadeiramente, significativo para os mesmos, implica na construção de uma escola que, inevitavelmente, será autoritária, desestimulante, pouco atrativa para a comunidade e fadada à perpetuação da reprodução dos processos que conduzem ao fracasso escolar. 28 Pensar em uma escola, na perspectiva freiriana, que atue diferentemente dessa realidade (com uma gestão, de fato, democrática; com conselho escolar atuante; que objetive a participação de todos os envolvidos e interessados no processo educativo e que estes sejam inseridos no processo sob uma perspectiva dialógica) não é tarefa fácil e simples, muito pelo contrário: é uma tarefa árdua e que leva tempo para ser concretizada. Porém, apesar de todas essas dificuldades, é uma tarefa necessária e urgente, pois a prestação de um serviço público que atenda às reais necessidades da comunidade onde a escola se insere e que tenha por princípio a oferta de uma educação pública, gratuita e de qualidade5 e que garanta o acesso, a permanência6 de seus estudantes, bem como o seu sucesso nos estudos e no aprendizado é tarefa e dever de todos. Embora a democracia seja a base da Constituição Federal brasileira, onde é tratada da seguinte forma, “Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito [...]” (BRASIL, 1988, grifo nosso), ou seja, que o poder emana do povo e por ele mesmo deve ser exercido, precisa de uma luta, cotidiana, para que seja respeitada e posta em prática, exercida. Ter sido explicitado, no texto constitucional, o princípio da democracia, não significa que este será garantido e efetivado a qualquer instante ou em qualquer situação. Da mesma forma que a assinatura de tratados, acordos e outros, sobre “gestão democrática” e “participação da sociedade” nas escolas e nos processos educativos, não garante a sua efetivação e prática. Como nos lembra, e também questiona, Werle (2003): É suficiente instituir estruturas participativas nas escolas e nos sistemas de ensino? Por exemplo, instituir a eleição de diretores, criar Conselhos Escolares, Grêmio de alunos, de professores, associação de pais ou associação de funcionários assegura o florescimento de processos participativos? As estruturas colegiadas catalisam, efetivamente, o interesse daqueles que as constituem? (WERLE, 2003, p. 19). Terem sido institucionalizados, todos esses instrumentos democráticos e de participação, não significa dizer que o espaço em questão seja, de fato, democrático e participativo. Democracia e participação não são estanques, que passam a existir pela assinatura de algo ou por um simples “estalar de dedos”. Muito pelo contrário. Para que existam, de fato, precisam ser construídas, exercidas, praticadas, 5 Princípios da Educação, presentes no texto da Constituição Federal de 1988, Art. 206. 6 Princípios da Educação, presentes nos texto da LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96), Art. 3º. 29 dialogadas, ensinadas. Mesmo em escolas que se dizem “democráticas” e que permitem a “participação de todos” alguns questionamentos precisam sempre ser feitos e levantados, como nos mostra, novamente, a autora: Os processos que ocorrem no interior de estruturas participativas asseguram a participação de que segmentos? Quais são os participantes efetivos das estruturas da escola? Qual o nível de participação dos diferentes componentes da comunidade escolar? Há alguns que desempenham apenas uma presença legitimadora de decisões dadas por outros? Quem se questiona a respeito das ausências, dos que são excluídos das instâncias participativas? (WERLE, 2003, p. 20). A formação desses representantes de segmentos que pertencem às estruturas participativas (Conselhos Escolares, por exemplo), demarcando nelas seu espaço e sua voz, precisa ser feita continuamente, para que estes possam, verdadeiramente, representar seus pares, levando até os órgãos colegiados (estruturas participativas) os anseios e necessidades da coletividade. Não basta estar presente na reunião/plenária, é preciso demarcar seu território de interesse, bem como as necessidades do coletivo que o mesmo representa. A democracia é algo relativamente recente na história política brasileira. No processo de redemocratização a sociedade lutou para que houvesse possibilidade de participar da tomada de decisões e a ter direito a voz (mesmo que de forma tímida e incipiente) nos processos que organizam a vida no presente e também no futuro. A criação de órgãos colegiados, compostos por segmentos da sociedade e que pressupõem a participação e o exercício da cidadania, torna efetiva a democracia e precisa, por esse fato, ser estimulada constantemente. Entretanto, pelo fato mesmo de ser recente em nossa história, ainda paira a descrença popular de que esses espaços vão considerar sua opinião, na tomada de decisões, e que os poderes superiores lhes darão a atenção de que precisam e que também merecem. É bem verdade que, por isso mesmo, tal processo de participação da sociedade passe por momentos de “altos e baixos”. Isso por que a construção da democracia com participação de alta intensidade não é processo que se dê a estanque, se trata, sim, de um processo lento e conflituoso, que demanda trabalho para que seja construído e incorporado, de maneira eficaz e satisfatória, por todos. Lima (2007) propõe, a partir de estudos sobre a obra de Paulo Freire, a construção, dentro das escolas e dos órgãos colegiados da educação, de uma “pedagogia da participação”, uma pedagogia que tivesse como objetivo a criação de oportunidades que viessem a 30 contribuir com a construção de processos democrático-participativos no seio da sociedade. Sobre isso, a autora diz: A pedagogia da participação é apresentada [...] não como um acessório para ser usado somente em algumas ocasiões, mas como um estilo de vida, adotado e incorporado pelas pessoas e que deve ser resultante de um longo e árduo aprendizado. Vale ressaltar que a participação não se constrói com atitudes autoritárias de uma administração autocrática. Os responsáveis pela administração escolar devem despertar em todos os integrantes da escola, educadores, pais, alunos e comunidade, o objetivo de participar (LIMA, 2007, p. 67). Essa busca contumaz pela participação da sociedade nos espaços escolares de tomada de decisões deve ser pautada nessa pedagogia, para que sirva de aprendizado para todos. Esse processo é lento e passa por momentos bons e ruins, pois a construção da participação é processual e, por isso, passa por períodos de livre aceitação e períodos de embate e resistência, conflitos. É isso que a autora nos mostra, mais uma vez, ao dizer que: A construção da participação popular é lenta, difícil, conflituosa e demanda tempo e trabalho. Não pode ser entendida como um slogan, como uma maneira de “vender uma mercadoria”, mas deve ser incorporada, vivida e praticada. Somente intenções e atitudes democráticas não são suficientes: é preciso criar nas unidades escolares uma cultura de participação que reúna todos os envolvidos no processo educacional, possibilitando a propagação de todas as informações necessárias ao debate e à tomada coletiva de decisões (LIMA, 2007, p. 68). Portanto, “não basta [...] ter presente a necessidade de participação da população na escola. É preciso verificar em que condições essa participação pode tornar-se realidade” (PARO, 2016b, p. 28). Dentro dos Conselhos Escolares, os segmentos mais prejudicados pela falta de participação ou pela precariedade de sua participação, são os segmentos de pais e de alunos. Se pensarmos que a escola existe para atender às necessidades da comunidade escolar e de seus estudantes, e que estes não têm uma efetiva participação no processo que promove a produção de seu próprio conhecimento, temos aí um grave problema, problema este que precisa ser enfrentado com urgência. Paro (2016b) faz uma análise sobre a participação de pais e de alunos no Conselho Escolar de uma escola pública do estado de São Paulo, onde desenvolveu seu estudo. Ele relata que “no segundo semestre de 1989, dos cinco alunos do conselho de escola, três já haviam desistido da escola devido, principalmente, à evasão do noturno, que se deu com maior intensidade em virtude da greve” (PARO, 2016b, p. 168). Sobre a descontinuidade da participação dos representantes do segmento dos 31 estudantes, ele aponta, neste trecho, a evasão escolar e a greve dos professores (que ocorreu no referido ano) como sendo alguns dos principais motivos que levaram ao esvaziamento desse segmento no Conselho. No que diz respeito à participação dos representantes do segmento de pais, o autor trata como sendo alguns dos principais obstáculos à presença destes, a “descrença que os pais têm nas estruturas participativas”, descrença de que estas levarão em conta, de fato, suas opiniões e as necessidades do segmento do qual fazem parte, além da “falta de compromisso destes representantes para com a escola e o processo educativo”. Isso fica evidenciado no trecho onde ele diz que: A professora Mári também salientou a dificuldade de convencer os pais a se candidatarem para as vagas do conselho, o que faz com que nunca haja disputa nas eleições. A professora Leda diz que é muito difícil conseguir o número de pais estabelecido por lei para serem representantes no conselho de escola: “Você tem [...] quase que laçar o pai [...] Eles não querem ter compromissos com a escola” (PARO, 2016b, p. 168). Mesmo que, com todas essas dificuldades apresentadas, se consiga formar um número mínimo de representantes para a atuação e a ação no/do Conselho, ainda existe a necessidade de que esses representantes estabeleçam diálogo com seus pares (com os membros do segmento ao qual pertencem), debatendo sobre as necessidades do grupo, colhendo as opiniões e anseios destes para que estas sejam levadas e apreciadas pelos conselheiros do Conselho de Escola, e para que haja devolutiva ao grupo, das respostas e do posicionamento do Conselho de Escola em relação ao seu contingente de demandas. Um dos principais fatores que impedem que o conselho de escola se transforme num instrumento de democratização das relações no interior da escola é a falta de ligação entre representantes e representados, especialmente no que se refere a pais e alunos (PARO, 2016b, p. 180). Fica claro que a falta de participação nos Conselhos Escolares, pelo segmento de pais (ou a precariedade da participação dos mesmos) se deve ao despreparo e/ou à falta de qualificação destes, para opinarem e debaterem sobre os rumos da educação da comunidade local, a educação que querem e que buscam dentro do ambiente escolar. É o que nos afirma Silva (2010a): Assim, na perspectiva da gestão democrática, fica evidente que a lacuna está na qualificação da participação, pois falta que as escolas possam buscar elementos para a inclusão de pais não apenas entre aqueles que opinam sobre resultados, mas que tomam decisões no processo (SILVA, 2010a, p. 60). 32 De fato, o problema que perpassa a falta de representatividade dos vários segmentos sociais, ou a precariedade desta, no âmbito dos Conselhos Escolares é algo bastante grave, que emperra a efetivação da gestão e da atuação de todos, de forma verdadeiramente democrática, no processo de construção de uma educação pública, gratuita e de qualidade e que atenda a todos, de maneira igualitária e satisfatória. É emergencial, cada vez mais, refletir sobre alternativas que venham tornar este um problema do passado, além de promover a conscientização de todos os segmentos participantes quanto ao seu papel e importância no referido processo, possibilitando que a educação favoreça a transformação da realidade na qual se encontram. 2.1. A implantação dos Conselhos Escolares Um elemento muito importante nessa seara foi o levantamento de informações e produções acadêmicas – teses e dissertações – feito junto ao site da “Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações” (www.bdtd.ibict.br). As produções teorizam acerca da discussão sobre a implantação de Conselhos Escolares realmente imbuídos na perspectiva democrática e dialógica de atuação, que consideram a participação política dos segmentos que compõem a comunidade escolar no processo de construção (e de direcionamento da construção) do conhecimento daqueles a quem se destina a educação, bem como o papel fundamental desses Conselhos na formação cidadã dos estudantes e demais usuários dessa estrutura participativa. É isso o que nos apontam os estudos feitos por Silva (2014), Ribeiro (2015), Abreu (2016), Cândido (2016), Dutra (2016), Peres (2016), Buraki (2017), Salles (2017), Souza (2017) e Moreira (2017). Silva (2014) trata do processo de implementação dos Conselhos Escolares nas escolas da rede municipal de ensino de um município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, com o objetivo de analisar tal implementação e elaborar uma proposta de intervenção que venha tornar o processo mais eficaz, estabelecendo o diálogo entre os representantes (como forma de incentivar e fortalecer a construção de uma realidade democrática dentro e fora das escolas) e a participação de todos. Ao tratar da implementação dos Conselhos Escolares sob a égide da Gestão Democrática, a autora afirma que: http://www.bdtd.ibict.br/ 33 [...] as possibilidades de construção de uma escola pública de qualidade viabilizadas pelo modelo de gestão democrática no sistema educacional representam uma alternativa de aprendizado e experiências da democracia podendo, portanto, tomar um sentido diferenciado do proposto pelos fazedores de política. Sob este ponto de vista, podemos considerar que a implantação de novas diretrizes da política educacional não está, preliminarmente, pré-definida e pode, em vista disso, tomar sentidos diferenciados (SILVA, 2014, p. 15). Observamos que a autora considera a participação de todos, através de uma gestão democrática, como sendo importante ferramenta para a construção de um aprendizado significativo para toda a comunidade escolar. Por outro lado, a questão da formação e preparação para atuação nestes espaços democráticos ainda é algo que precisa ser urgentemente revisto, pois: Pudemos identificar também que os gestores das Unidades escolares analisadas não possuíam práticas de gestão e de organização compartilhadas, que a comunidade escolar não intervinha nas ações realizadas nas/pelas escolas e creches, assim como o supervisor educacional ainda não tinham clareza do seu papel a cumprir e a necessidade de maior compreensão sobre a temática, uma vez que também compõe a equipe diretiva da UE (SILVA, 2014, p. 96). Ribeiro (2015) propõe um trabalho dialógico e interativo entre a escola e a família, investigando as ações desenvolvidas pela equipe gestora para promover o fortalecimento da participação da família na escola, na perspectiva da gestão democrática. Ela afirma que [...] a parceria da escola com a família estimula a participação dos familiares, gerando maior aproximação nas relações interpessoais, na motivação dos profissionais da escola e, consequentemente, pode provocar mudanças no desempenho da aprendizagem dos estudantes. E, também, argumenta-se que as ações da gestão são fundamentais para provocar comprometimento de todos os envolvidos (RIBEIRO, 2015, p. 20). Vemos a importância, destacada pela autora, da participação da família na escola como sendo peça fundamental para o desenvolvimento de relações exitosas de aprendizado e de construção de conhecimentos significativos para a comunidade em questão. No entanto, muito trabalho ainda está por vir, pois os problemas enfrentados pelas escolas são muitos e a gestão compartilhada entre todos os atores que dela fazem uso ainda é um sonho relativamente distante. A autora reafirma esta questão ao dizer que No dia a dia havia questões, como rotatividade de professores e equipe gestora, evasão de alunos, espaço físico precário, que atravancavam as tentativas de construir algo coletivamente e que pudessem resultar em melhoria do ensino-aprendizagem. A falta de credibilidade era um fator que se destacava nos levantamentos feitos pela equipe gestora com familiares e 34 alunos, pois alegavam que gostariam de ter uma escola com educação de qualidade (RIBEIRO, 2015, p. 87). Abreu (2016) investiga os desafios a serem enfrentados para se promover a participação democrática dentro dos Conselhos Escolares, visando seu fortalecimento a partir das ações preconizadas pelo Programa Nacional de Fortalecimento dos Conselhos Escolares – PNFCE. A autora afirma que a participação de toda a comunidade é de extrema importância para alicerçar a gestão democrática como método de organização da escola, bem como ser a maneira contumaz de se promover a construção de aprendizados significativos para todos. Ela indaga sobre o Programa de Fortalecimento dos Conselhos Escolares como instrumento que qualificaria a atuação dos sujeitos envolvidos nos Conselhos ou como sendo um instrumento legitimador das ações do Estado. Sobre esta questão, ela afirma: A proposta de qualificação encontrada no material analisado refere-se a sujeitos que não são competentes, por isso precisam ser instruídos. O instruir é permeado de intencionalidades, o que me faz refletir a qualificação dos conselheiros e técnicos das secretarias municipais e estaduais de educação ser mais um instrumento legitimador das ações do Estado do que torna-los participantes da gestão democrática (ABREU, 2016, p. 87). Cândido (2016) desenvolveu estudo acerca das possibilidades e das dificuldades, apontadas por pais e gestores de uma escola de Ensino Fundamental, para a promoção da Gestão Democrática das escolas da periferia de um município do interior do estado de São Paulo. A autora aponta a participação de todos como sendo um dos caminhos que conduzem para a oferta de uma educação de qualidade. Pensamos na participação dos pais no contexto da escola pública como forma de garantir a preocupação de todos os segmentos envolvidos diretamente com as escolas, preocupados com a qualidade do ensino e, além disto, com a boa formação dos alunos, seja em termos de aquisição de conhecimentos, seja em termos de futuros cidadãos, em uma sociedade democrática. Quando todos sentem-se pertencentes à escola, com certeza o trabalho funciona à favor dos próprios estudantes (CÂNDIDO, 2016, p. 106). Para isso, ela aponta a construção de um “coletivo” na comunidade escolar, formado pela presença de todos os envolvidos em tal realidade, como sendo a saída para superarem todas as dificuldades e obstáculos existentes. A construção deste “coletivo” seria dada a partir das conclusões de seu estudo realizado. [...] a efetivação deste “coletivo” seria um passo importante para o estabelecimento de uma cultura organizacional democrática e para que as 35 escolas cumpram, igualmente, seu papel no sentido de contribuir para a mudança da cultura política na sociedade, a partir da comunidade onde estão inseridas (CÂNDIDO, 2016, p. 106). Dutra (2015) faz um levantamento histórico acerca das memórias de educadoras da rede municipal de ensino de São Paulo, à época da gestão de Paulo Freire, onde tal gestão trouxe mudanças na maneira de conduzir o processo de tomada de decisões sobre a educação ofertada pela Secretaria de Ensino e também pelas escolas vinculadas à referida rede e incentivou a efetiva participação de todos no processo de gestão das ações que envolvem a escola. O autor conclui que há grandes dificuldades a serem transpostas para que tenhamos relações democráticas instituídas em nosso meio social. Ele afirma que Contar histórias relacionadas a Paulo Freire é refletir sobre a construção de uma escola democrática e, assim, também pensar sobre a história da construção da democracia no Brasil. Freire desenvolveu toda sua produção teórica e prática educativa em torno da problemática da democracia brasileira, onde o acesso à escola e a forma como esse ocorria refletiam um país que concedia um papel coadjuvante à população mais pobre. Mais do que buscar inovações pedagógicas, isso implicou em desvendar sua suposta neutralidade da prática pedagógica e buscar formas de educar a população, valorizando seus saberes e capacitando-a para inferir na realidade vivida (DUTRA, 2015, p. 394-395). Peres (2016) analisa os entraves que impedem a participação efetiva da comunidade escolar no processo de gestão democrática implantada na rede municipal de ensino de um município do interior de São Paulo. Ela aponta que não houve democratização da gestão escolar por uma série de motivos, entre os quais: ausência de uma cultura popular participativa (o que impede que a participação e a democracia sejam efetivadas, também, fora da realidade escolar), falta de políticas públicas que contribuam para sua efetivação, burocracia etc. Ela afirma que a gestão compartilhada permite avanços da participação das famílias dentro dos Conselhos Escolares, porém surgem outros problemas quando a escola chama essas famílias para participarem das ações concernentes a esse órgão. [...] na efetivação da gestão democrática, surgiram entraves, como falta de participação, uso do colegiado para legitimar ações da Secretaria da Educação, deliberações não acatadas pelos órgãos públicos, burocracia, ênfase no financeiro e não no pedagógico, entre outros. [...] Em Araraquara, a gestão democrática efetivou-se pela necessidade de representatividade da sociedade nos setores públicos. Com a descentralização, houve a necessidade de participação de diversos atores sociais e sua fiscalização no quesito financeiro. Essa política foi imposta de cima para baixo, às pressas. Dessa forma, é possível observar a presença de situações contrastantes à democracia participativa (PERES, 2016, p. 56). 36 Podemos observar, pela afirmação da autora, que, apesar de ter sido instituída a política de formação de Conselhos Escolares para auxílio da gestão das escolas do município, ainda há muito a ser feito para que haja uma participação política atuante dos representantes dos segmentos neste órgão, o que permitiria que o Conselho pudesse, de fato, atuar de forma significativa para a construção do conhecimento de todos aqueles atendidos pela unidade escolar em questão. Buraki (2017) analisa a implementação dos Conselhos Escolares na rede pública municipal de ensino do município de Cascavel-PR, sob o viés da Gestão Democrática, apontando seus limites e suas possibilidades. Como sendo um dos principais limites a serem superados pela efetiva participação da comunidade escolar nos Conselhos, a autora nos mostra o seguinte: [...] o que se constata é que, embora a legislação vigente, a partir da Constituição Federal de 1988 e da LDBEN nº 9394/96, a ampliação da Gestão Democrática, sendo a participação e a descentralização relacionadas ao processo de “desconcentração”, a qual delimita as funções do Conselho Escolar que seria normativa, consultiva, deliberativa, fiscal e mobilizadora, apontando para a participação na solução de problemas e de recursos financeiros. Ao longo da pesquisa [...] percebemos o indício de Gestão Democrática atuar com características mercadológicas e reguladoras, apontando que a desconcentração ocorre por meio de tarefas formais em torno da burocracia para os CEs, limitando suas funções à participação e à tomada de decisões apenas sobre recursos financeiros, em especial sobre o que já foi definido anteriormente pela Direção ou pela Secretaria de Educação (BURAKI, 2017, p. 146). Salles (2017) traz uma reflexão sobre a importância do diálogo como forma de efetivar e manter a participação das comunidades, escolar e local, nos órgãos colegiados e nos segmentos que possuem representatividade dentro da estrutura participativa composta pela realidade da escola. Corroboramos com a autora, pois entendemos o diálogo como sendo a principal ferramenta a ser usada como fomento e incentivo à participação dos sujeitos da comunidade escolar nas esferas de tomadas de decisão. Apoiada em Flecha (1997), Freire (2005) e Habermas (1987a), a autora afirma ter havido a necessidade de “[...] questionar a importância da dialogicidade para uma efetiva participação da comunidade local e da comunidade escolar nas escolas” (SALLES, 2017, p. 18). A partir de sua pesquisa ela trata, como sendo de fundamental importância para o estabelecimento de uma gestão compartilhada da educação onde todos participem e se façam envolvidos pelo processo, com vistas a criar possibilidades para a transformação da realidade onde 37 se inserem, a criação de “Comunidades de Aprendizagem”, onde estas seriam movidas pela busca da “[...] participação de todos(as) da maneira mais igualitária possível, envolvendo transformações não somente para a escola, mas também para a comunidade do entorno” (SALLES, 2017, p. 162). Souza (2017) analisa o efetivo funcionamento do Conselho Escolar como sendo uma importante ferramenta para conduzir o processo de Gestão Democrática implantado em uma escola de tempo integral, baseando-se no diálogo e na participação de todos. Ela aponta que os problemas para o efetivo funcionamento do Conselho da referida escola, ocorrem por falta de participação dos diversos segmentos que o compõem, além da falta de envolvimento destes nas atividades desenvolvidas pela escola. Constatou-se, na pesquisa, a existência de alguns desafios que impossibilitam a atuação a contento do CE como prática de uma gestão participativa. Dentre esses desafios, destacam-se: a existência de um CE que não atende sua finalidade de promover a gestão democrática dentro da escola; e conselheiros que não conhecem suas atribuições nem as funções do conselho, bem como sua importância. Podemos identificar, também, que o gestor escolar afirma que sua gestão é democrática, no entanto, diante de sua fala e dos demais conselheiros, fica claro que sua gestão não é compartilhada (SOUZA, 2017, p. 82). Como proposta estabelecida, após sua análise, a autora afirma que é necessário, para o contexto estudado, que se criem possibilidades para que haja a transformação de tal realidade. Isso seria possível por meio de programas de formação para os conselheiros. Segundo ela: A proposta da formação dos conselheiros busca oferecer a eles conhecimentos sobre a legislação que legitimam o CE, suas atribuições, além da importância de sua participação na reflexão e no enfrentamento de situações cotidianas e nos desafios que precisam ser superados na escola. Acreditamos que com isso, a comunidade escolar terá maiores oportunidades de vivenciar uma gestão descentralizada e focada na participação dos atores envolvidos no processo educativo (SOUZA, 2017, p. 82). Moreira (2017) discute sobre as dificuldades enfrentadas por uma escola, situada na Zona da Mata Mineira, para implementar a gestão democrática e participativa em seu cotidiano. Ela analisa o contexto e a realidade da comunidade local e os canais de participação de que dispõem os representantes dos segmentos que compõem tal realidade escolar. A autora afirma que tais dificuldades surgem em decorrência “[...] da pouca participação dos sujeitos no cotidiano escolar” (MOREIRA, 2017, p. 26). Sobre a escola onde se desenvolveu seu estudo, a autora destaca o seguinte: 38 [...] podemos afirmar que esta escola busca abrir espaços de participação para todos os segmentos da comunidade escolar, porém não existe uma mobilização de grande parte de seus sujeitos. São visíveis resistências em participar; as pessoas sabem da importância de um trabalho coletivo, mas não se envolvem nas ações cotidianas e também não reconhecem alguns espaços de participação como o Colegiado Escolar, o Conselho de Classe, o Regimento Escolar e o PPP. A resistência das pessoas em participar de maneira coletiva foi identificada como um obstáculo a uma gestão escolar de qualidade, pois impede a realização de um planejamento realmente participativo. Outro ponto identificado é a questão política que existe no espaço escolar que gera uma disputa de poder e dificulta a participação principalmente dos docentes. Nesse sentido, percebemos que a convivência democrática é afetada e existe ainda uma visão de gestão centralizada (MOREIRA, 2017, p. 183). Moreira (2017) afirma que a superação para tais problemas está em seus atores assumirem seu compromisso com a educação, potencializando essa prática através do diálogo e da participação. Observamos, pelas contribuições trazidas pelos autores que pesquisaram a temática “fortalecimento dos Conselhos Escolares através de uma perspectiva dialógica”, que a participação efetiva e dotada de um caráter político e democrático é primordial para estabelecermos uma cultura participativa e cidadã no meio social e que esta seja envolvida por reflexões e tomadas de decisões voltadas para a obtenção de uma educação de qualidade e que venha atender às reais necessidades das comunidades escolar e local. Para isso, é preciso desvelar o leque de possibilidades de atuação e promoção da cidadania que os Conselhos Escolares, e demais órgãos colegiados, podem oferecer, transformando a participação e a atuação dos sujeitos nesses meios como possibilidades de exercerem a cidadania, a democracia e, ainda, ajudarem na construção de conhecimentos significativos para que possam atuar na transformação da realidade em que vivem. Os Conselhos Escolares são ricos e importantes espaços de aprendizagem cidadã, uma aprendizagem que extrapola os muros da educação escolarizada, pois o resultado obtido através desta experiência acompanhará, os que dela se apropriarem, por toda a vida, não sendo útil apenas ao portador do referido conhecimento, mas sendo útil, também, a toda a coletividade. Os tipos de aprendizado aos quais nos referimos estão ligados a uma aprendizagem responsável pela tomada de iniciativas e que engloba aspectos, tais como: aprendizado para a participação e vivência em comunidade; aprendizado que conduz a utilizar, sempre, o diálogo para a resolução de problemas e/ou conflitos; 39 aprendizado que prepara e qualifica para o exercício da democracia e para o reconhecimento da vontade, das necessidades e dos anseios da maioria, priorizando o bem comum em detrimento ao bem-estar particular e privado; o aprendizado que prepara para o respeito e o convívio harmonioso para com as diferenças e diversidades; entre tantos outros. Sobre esse aspecto, Ramos (2014) afirma que: [...] os conselhos se materializam quando implantados e atuantes como instâncias participativas que são também potencialmente espaços de empoderamento da comunidade escolar e local passando a ter função primordial na gestão escolar. Espaço esse que também se constitui por disputas, contradições e conflitos. Diante disso, nesse trabalho destacamos o papel que os conselhos escolares podem ter na formação globalizadora dos alunos, pois estes também compõem os conselhos e são convidados a participar em todas as suas atividades (RAMOS, 2014, p. 14-15). A autora traz essa face pedagógica e didática que a participação em Conselhos Escolares pode desempenhar na formação cidadã dos estudantes que deles façam ou que venham fazer parte. Podemos, por isso mesmo, complementar que esse aprendizado, potencialmente rico, o qual os estudantes têm (ou podem vir a ter) acesso, também se estende aos pais e ao segmento que estes representam. Embora façamos a defesa de formação para os segmentos menos favorecidos que compõem os Conselhos Escolares (segmentos de pais e de alunos), é de fundamental importância, para o êxito de todo o processo, que os demais segmentos também recebam qualificação para a participação por intermédio de formação. O processo formativo também deve ser estendido, como alternativa de aprendizado, aos gestores, professores, funcionários etc., pois só assim conseguiremos ampliar o debate nos órgãos colegiados e realizarmos, com isso, a promoção e o respeito as mais diversas realidades e necessidades dos sujeitos que fazem parte dos Conselhos e dos segmentos por eles representados, pois “[...] a escola, como local de formação de profissionais criativos, críticos e reflexivos, é um instrumento social de contraposição às formas autoritárias que permanecem na educação, ao longo da história educacional brasileira” (LIMA, 2007, p. 30). Defendemos essa formação, que qualifica o trabalho desenvolvido dentro e fora da escola, para todos os segmentos que compõem os Conselhos Escolares. Uma formação que venha envolver a todos os sujeitos que fazem parte do espaço educativo poderá promover a aproximação de todos eles, onde cada 40 membro/representante poderá vir a ser um elo que liga a realidade de todos os envolvidos, o que permitirá o reconhecimento e a empatia para todas as realidades ali representadas. É preciso, para isso, reconhecer que A escola é a instituição na qual se inicia e se promove a socialização das pessoas – desde a idade mais tenra até a idade adulta. As regras de convivência social, o respeito ao outro e às normas de convivência são exercitadas cotidianamente na escola, por meio de um trabalho em que se afirma a relação entre os sujeitos individuais e coletivos (PENIN; VIEIRA, 2002, p. 32). A partir desse processo formativo para todos os segmentos que envolvem a realidade da comunidade escolar (gestores, professores, entre outros), todos os representantes que compõem a estrutura participativa da escola estarão aptos para refletir e opinar sobre possiblidades que venham promover a aproximação de todos e que permitam contribuir para a promoção de práticas que venham transformar a realidade da comunidade escolar local. Esse exercício poderá render ótimos resultados e experiências de ensino que permanecerão por toda a vida, dentro e fora do ambiente escolar, como nos lembram Penin e Vieira (2002), ao afirmarem que: De uma instituição que se mantinha em relativo isolamento face às influências de seu entorno, hoje, a escola abre-se a influências diversas, incorporando a idéia [sic] de que a educação é um empreendimento social coletivo. Isto quer dizer que embora possua um coletivo próprio, constituído pelas pessoas que exercem papeis específicos no ambiente escolar, a escola não pode se manter à margem do contexto no qual se insere (PENIN; VIEIRA, 2002, p. 34). Para que sejam alcançados todos esses (além de tantos outros) objetivos, é necessário que a escola assuma seu papel de refletir e de permitir a formação de todos aqueles que de sua realidade fazem parte, pois todos os sujeitos que compõem a escola são indispensáveis para o sucesso da construção de uma escola e de uma educação dotadas de qualidade e para que estas venham atender às reais necessidades de todo o coletivo. A falta da participação dos adultos nas questões sociais, e da comunidade em que vivem, se dá, muitas vezes, por que estes adultos não tiveram acesso a esse tipo de aprendizado/experiência durante a infância ou a juventude. Negar a essas pessoas, mais uma vez, essa rica oportunidade de aprendizado e de possibilidade de transformar sua realidade, significa perpetuar a relação de descaso, opressão e dominação sobre as classes populares. Fortalecer e fomentar a participação, cada vez mais atuante e qualificada dos segmentos de pais e de alunos em Conselhos Escolares, para que estes 41 representem, verdadeiramente, seus pares, propondo ideias, expondo a realidade em que vivem, dialogando e debatendo sobre os rumos que a educação escolar local pode tomar, entre outros, são alternativas possíveis e altamente necessárias para superarmos este problema que nos aflige de longa data. Como nos afirma Freire (2011a), não existe educação neutra. Toda educação é dotada de ato e de posicionamento político. “Decidir sobre”, “escolher algo”, “optar por”, “ser a favor de” ou “ser contra algo”, entre outros, demonstram o caráter político que a educação traz e nos possibilita. Ele afirma que: Do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político. Isto não significa, porém, que a natureza política do processo educativo e o caráter educativo do ato político esgotem a compreensão daquele processo e deste ato. Isto significa ser impossível, de um lado, como já salientei, uma educação neutra, que se diga a serviço da humanidade, dos seres humanos em geral; de outro, uma prática política esvaziada de significação educativa (FREIRE, 2011a, p. 34-35). Essa participação qualificada, da qual tratamos e nos referimos, tem uma natureza de educação política, de educação cidadã, que prepara para o convívio em sociedade, onde o fortalecimento das relações democráticas é peça chave para seu êxito. A Gestão Democrática, como resultado e processo participativo, por esse conjunto de fatores, ocupa papel de fundamental importância, tanto no processo de formação do educando, como também no caminho de abrir possibilidades para que este consiga produzir seu próprio conhecimento. Construir um conhecimento verdadeiramente relevante, dotado de significado e que possa ser utilizado para a promoção de seu desenvolvimento, na emancipação do coletivo ao qual é pertencente e na transformação da realidade da qual faz parte é fundamental para esse processo. Pelo exposto, até agora, fica clara a necessidade de termos a construção de processos participativos e democráticos que se deem através de encontros onde todos os sujeitos que compõem a escola possam contribuir de forma dialética e dialógica. É isso o que afirma Silva (2002), quando diz que: O foco [...] é o Conselho de Escola e as formas de organização da participação que lhe oferecem suporte na escola e na estrutura de ensino, pois, como indica Paulo Freire, a participação é que pode fazer diferença em favor dos oprimidos na constituição de um projeto efetivamente popular de escola. (SILVA, 2002, p. 11). 42 Essa construção não pode se dar, apenas, partindo de esferas superiores à escola, como a Secretaria de Educação ou o Sistema de Ensino que rege a organização escolar; ou vir, até a comunidade escolar, por meio de decretos, leis e portarias, expedidos pelo governo. A construção de uma participação efetiva, com caráter político, e de uma democracia que respeite e represente, de fato, aos anseios e necessidades da maioria, deve ser construída por todos, de forma que esta construção dialogue com os representantes dos Conselhos Escolares, dentro da escola, e com o Poder Público, o governo que mantém o Sistema de Ensino. Aqui, temos a ideia sobre a composição global dos Conselhos Escolares, num movimento de “vai e vem”, onde as decisões não partem apenas de “cima para baixo”, mas são construídas respeitando e considerando a participação, opinião e anseios de todos os envolvidos. Este movimento dialógico e dialético é o que Silva (2002) chama de “paridade”. Ele nos explica que: A ideia de paridade remonta à necessidade de contar com a efetiva participação dos usuários e principais interessados pela educação – pais/mães e alunos/as –, que seus anseios possam ser ouvidos e levados em consideração e, se considerados possíveis e adequados por todos/as ou pela maioria, colocados em prática. A paridade também visa garantir que a equipe escolar não deixe de ser ouvida e considerada, pois tem conhecimento técnico, vive o cotidiano da escola e desempenha papel fundamental no processo. A paridade justifica-se na concepção de que a educação deve ser tarefa compartilhada entre a escola e a família. É processo coletivo e de importância fundamental para a sociedade e para o futuro das gerações mais novas. Fundamenta também o seu funcionamento colegiado e se coloca como uma forma de garantir o debate democrático no interior dos Conselhos. [...] A chave da paridade coloca-se na tentativa de construção de processo de parceria entre os/as envolvidos/as. A legitimidade do Conselho passa por sua composição paritária, pois de outra forma seria desacreditado e visto como órgão construído para penalizar uma das partes. Instauraria a desconfiança e não conseguiria obter o crédito de todos/as, necessário para gerir a escola de maneira eficaz” (SILVA, 2002, p. 23-24). A escola não pode ser vista como uma “ilha”, que vive isolada de todos os acontecimentos sociais e políticos, pois é espaço de construção coletiva e de reflexão partilhada, sendo perpassadas pela participação. A escola é, portanto, espaço de socialização de vivências democráticas, que preveem a construção coletiva dos conhecimentos e de reflexões partilhadas que podem permitir a transformação da realidade em questão, considerando sempre o contexto onde está inserida. É o que Freire ([1961] 2005) nos afirma ao dizer que: 43 O que há de se fazer no Brasil, sobretudo em áreas mais fortemente subdesenvolvidas, é aproveitar esse esforço do povo e ajudá-lo em suas respostas. Ao invés de continuarmos a “plantar” escolas ou unidades pedagógicas sem vinculações sistemáticas e estreitas entre si e com sua localidade, deveríamos tentar experiências de integração da escola em sua comunidade local. (FREIRE, [1961] 2005, p. 102). Essas são mudanças necessárias, porém levam certo tempo para que aconteçam; mexem com a organização e a mudança de postura de muitas pessoas e segmentos; necessitam de aprofundamento teórico e disponibilidade de todos para que saiam da sua “zona de conforto”. Por esses e por outros tantos fatores é que tal prática, a de encarar a Gestão Democrática como um mar infindável de possibilidades que permitem o desenvolvimento educativo e a formação cidadã dos estudantes e da comunidade escolar em geral, necessita de grande habilidade a ser dispendida pelo gestor que se proponha a atuar com esses princípios e fazer fluir as ações de um conselho com as mesmas características. Essa retomada de ações significa, efetivamente, praticar a democracia com participação de alta intensidade. Além disso, esses representantes, atuando nos Conselhos Escolares e podendo vir a ser exercedores de uma “participação com caráter político”, poderão ser os propagadores de práticas participativas e, de fato, democráticas no seio da sociedade e dos grupos que representam, o que abriria possibilidades para que seus pares também viessem ter acesso às mesmas discussões, aos mesmos princípios, à mesma formação democrática e cidadã, sendo preparados, assim, para o exercício da cidadania e da participação social e responsável, durante um futuro próximo, dentro da comunidade à qual pertencem. Esse conjunto de fatores irá promover a emancipação coletiva dessa comunidade, garantindo aos sujeitos do processo, que os mesmos possam construir seu próprio projeto de escola, de conhecimento, e transformar a realidade que vivenciam, compreendendo, assim, que em todas as realidades vividas e experienciadas a mudança é possível e deve ser buscada. É isso que nos lembra Freire (2011b), em uma unidade do “capítulo 2” do livro “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa”, mostrando as justificativas práticas que embasam seu discurso ao dizer que a mudança é realmente possível e deve ser buscada, incansavelmente, pois “o mundo não é. O mundo está sendo” (FREIRE, 2011b, p. 74, grifo nosso). A escola composta por sujeitos participativos, e com participação de alta intensidade, fará com que esta tenha projeto próprio. Esse projeto da escola, 44 balizado pelas normas do Sistema de Ensino, poderá se desenvolver enquanto adequado àquela localidade. Aqueles sujeitos que desse ambiente fazem parte com seu modo de compreender, de se relacionar, de se posicionar democraticamente, dentro da Unidade Escolar, constitui um elemento de autonomia dentro da escola, sempre relativa, parametrada, mas uma autonomia que dá significação ao trabalho do Conselho. Por isso, o Sistema de Ensino não pode ter o poder de decisão total sobre o espaço escolar, enviando-lhe um trabalho pronto e acabado que será empregado, da mesma forma, em toda a rede de ensino, pois cada escola possui particularidades específicas da realidade onde está inserida. Como afirma Freire (2011b, p. 67), “ensinar exige apreensão da realidade”. Para que tais sujeitos sejam capazes de “apreender a realidade” e exercitar a democracia e seu direito à cidadania, é necessário “mudar a cara da escola”, como destaca Lima (2013), a partir de estudo desenvolvido sobre a experiência da gestão de Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação da cidade de São Paulo. Tal mudança só será possível mediante a conscientização dos conselheiros que representam os mais variados segmentos sociais que o compõem (pais, alunos, professores, funcionários, etc.) e também a partir da promoção da formação de todos os membros dos Conselhos Escolares, uma formação preocupada e antenada com a oferta de uma educação de qualidade e que atenda às reais necessidades de toda a comunidade escolar, bem como de todos os sujeitos que são atendidos ali. Uma formação dialógica, feita com eles e não para eles ou sobre eles. É necessário frisarmos, nesse ponto, a importância do diálogo e da participação política da comunidade escolar na consolidação da Gestão Democrática da Educação por intermédio dos Conselhos Escolares. Segundo Lima (2013, p. 28) “na esteira da teoria da democracia como participação (ou democracia participativa), a participação, a discussão e o diálogo são apontados como verdadeiros métodos da construção democrática”. Vemos, aqui, a importância e o papel de destaque que “diálogo” e “participação” ocupam na construção e efetivação de processos democráticos. Considerados esses pontos fundamentais, o autor destaca a necessidade de mudar a “cara da escola”, essa escola que ainda pratica a centralização de poder e de decisões que dizem respeito a todos, mantendo-as nas mãos de poucos. Segundo o autor, essa transformação que deverá ocorrer nas relações instituídas dentro do 45 ambiente escolar e dentro dos órgãos colegiados, só poderá ocorrer, de fato, se contar com a participação política de todos os envolvidos no processo, a quem a educação, ofertada nesses espaços, é destinada. Se a mudança da cara da escola não pode, por definição, ser realizada sem (e muito menos contra) a escola, dispensando os atores escolares mais imediatamente centrais à ação pedagógica, fica claro que ela é igualmente inatingível exclusivamente a partir da sua iniciativa (LIMA, 2013, p. 36-37). Transformar a cara da escola e as relações desenvolvidas dentro dela, e da estrutura participativa que a ela se vincula, é de fundamental importância para que os sujeitos da comunidade escolar (principalmente, pais e alunos) passem a enxergá-la com uma verdadeira relação de pertencimento, necessária para o desenvolvimento de tais ações e práticas. Esses sujeitos, de quem falamos e a quem a educação é ofertada, precisam sentir-se pertencentes a ela, pois só assim verão a real necessidade de se organizarem em função da melhoria dela e por ela lutarem. Para que a comunidade escolar se veja como parte efetiva do processo democrático de construção do conhecimento e de políticas públicas voltadas para esse fim, é preciso que sejam criadas maneiras para que o diálogo sobre a realidade dessa comunidade seja feito e discutido, bem como garantir a chegada do resultado desse diálogo nas reuniões do Conselho Escolar, para que ali seja apreciada tal matéria e, depois, os encaminhamentos e deliberações sejam devolvidos aos vários segmentos que compõem esse conselho, para que seja feita a prestação de contas que todo esse processo promoveu. Só através de ações desse porte é que a comunidade se enxergará como parte efetiva e pertencente nos processos que conduzem à produção e ao direcionamento de uma educação realmente preocupada com os anseios e necessidades dessa comunidade local. Somente abrindo suas portas à comunidade é que a escola e o Conselho Escolar ganharão o respeito e a confiança de todos. [...] a transformação da escola em “casa da comunidade” exige uma política de devolução democrática da escola à comunidade, através da descentralização e da autonomia, legitimadas por suas formas de governação democrática e de participação ativa na tomada de decisões (LIMA, 2013, p. 39). A busca pela democratização da escola e da educação são pontos de discussão e debate de que nós, professores e gestores da educação, precisamos nos apropriar, para que, assim, possamos refletir sobre nossas práticas e preparar situações que 46 oportunizem um aprendizado cidadão e democrático a todos os estudantes e segmentos que compõem a comunidade escolar. Portanto, uma educação significativa e responsável com o aprendizado, com o real desenvolvimento de todos, e que possibilite a transformação da realidade que perpassa pelo ambiente escolar e pelo da comunidade local é uma educação que se faz pela construção e o envolvimento de todos. Todos os que fazem uso do ambiente escolar, e que a ele pertencem, devem assumir o seu papel sobre a oferta de uma educação pública, gratuita e dotada de qualidade e que realmente valha a pena para todos os sujeitos que a ela vinculam-se e que, a partir dela, esperam buscar subsídios para promoverem a transformação da sua realidade. O que realmente esperamos da escola é que, como afirma Freire ([1961] 2005, p. 99-100) “[...] ela há de ser uma escola de trabalho, de diálogo, da participação, da ‘comunicação’. Uma escola democrática”. 47 3. CONSELHOS ESCOLARES E A ESCOLA DEMOCRÁTICA DE QUALIDADE SOCIALMENTE REFERENCIADA: QUESTÕES ORGANIZATIVAS DE DEBATE, PESQUISA E INTERVENÇÃO Esse capítulo se ampara na crença de que, para que a escola se detenha sobre questões efetivamente importantes e que a participação dos sujeitos que a compõem seja qualificada (não seja apenas homologatória, não seja uma participação de faz-de-conta), ela precisa tratar daquilo que é o coração do “fazer da escola”: o currículo. Tratar do currículo significa tratar, decidir sobre, a organização geral da escola e também do Conselho Escolar. O professor é o animador cultural por excelência do “fazer da escola”, tendo responsabilidades imprescindíveis quanto a isso. Falar de currículo, nessa compreensão, é falar de uma educação com características de formação do humano, humanizadora, uma educação que faz a opção por atender a todos, independente da classe social, pois ela é pública, em sua essência. O capítulo embasa, portanto, o significado sobre a participação de todos os membros dos Conselhos Escolares atuando na construção de mecanismos que possibilitem o aprendizado da democracia para o exercício pleno da cidadania, dentro e fora da escola. Tratando como membros que participam dos Conselhos Escolares os membros da comunidade escolar (profissionais da educação, funcionários da escola, estudantes devidamente matriculados e seus/suas pais/famílias, entre outros) bem como os membros da comunidade local (composta por todos aqueles citados anteriormente, acrescido das pessoas ou famílias que moram no entorno da escola e que têm suas vidas afetadas/influenciadas pelas atividades escolares ou que afetam/influenciam tais atividades), esses representantes são fundamentais para o planejamento das atividades desenvolvidas pela escola. Como professor, pude refletir, nesse trabalho, sobre meu papel na profissão docente, o que me motivou a introduzir tal capítulo discutindo a questão da atuação do profissional docente na construção do currículo na escola. Um currículo que seja o organizador de todo o “fazer da escola” e que este seja na perspectiva da Gestão Democrática, que é participativa, que é dialógica. Nesse sentido, esses elementos 48 explicitam, dialogam com essa trajetória, já exposta anteriormente, e dialogam com as opções teóricas que temos nesse trabalho. Temos vivido tempos difíceis para a construção de uma sociedade justa e igualitária, pois as políticas desenvolvidas pelos governos tendem a seguir oprimindo as