UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS ICTIOFAUNA DA REBIO CÓRREGO GRANDE E SEUS ENTORNOS: COMUNIDADES E CONSERVAÇÃO DOS AMBIENTES AQUÁTICOS Felipe Vieira Guimarães Vitória, ES Março de 2020 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS ICTIOFAUNA DA REBIO CÓRREGO GRANDE E SEUS ENTORNOS: COMUNIDADES E CONSERVAÇÃO DOS AMBIENTES AQUÁTICOS Felipe Vieira Guimarães Orientadora: Dra. Luisa Maria Sarmento Soares Filho Coorientador: Dr. Luiz Fernando Duboc da Silva Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas (Biologia Animal) da Universidade Federal do Espírito Santo como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Biologia Animal. Vitória, ES Março de 2020 Dedico este trabalho à minha mãe e a meu marido, que me ajudaram (e continuam ajudando) nas jornadas da vida e do mestrado. AGRADECIMENTOS Agradeço à minha orientadora, Luisa, que me abriu os olhos para a importância de ações práticas para a conservação dos ambientes, me incentivou quando eu estava pra baixo e me guiou durante o processo de mestrado, seja em campo, em laboratório, por Skype ou nas estadias na minha casa ou na casa dela. Muito obrigado. A meu coorientador Luiz que me recebeu de braços abertos, antes quando a iniciativa era São Mateus e depois quando passou para Vitória, obrigado pelos insights ecológicos que eu necessitava para esse trabalho e por abrir as portas para mim quando eu precisava e me ajudou na complicada ida a campo, tão cheia de equipamentos e burocracias. Obrigado. A meu marido, Augusto, meu suporte, que tanto me auxilia em tudo, absolutamente tudo. Obrigado por estar ao meu lado quando eu estava desacreditado, quando artigos eram recusados, quando as idas para campo eram canceladas. E obrigado por estar ao meu lado nos momentos bons, também, afinal, estamos na mesma jornada e você sabe bem como essas coisas funcionam. Te amo. Agradeço também ao Ronaldo Fernando Martins-Pinheiro, rei da logística e a pessoa mais organizada que conheço, que acertou cada parte da ida a campo e auxiliou com ideias ótimas para a realização deste trabalho. Precisamos de mais pessoas assim. Gratidão a Luisa Maria Sarmento Soares pela identificação da maioria das espécies no presente estudo, inclusive em campo, e a Fernando Rogério Carvalho pela confirmação da identidade das espécies de piabas em campo identificadas como sp.1 e sp.2 em Astyanax. A equipe da REBIO Córrego Grande, em especial a José Ramos, nosso guia dentro da área protegida, que nos forneceu um panorama claro da realidade local e que nos acompanhou por todos os pontos de amostragem dentro da reserva. Ao Gabriel, chefe do NGI - Núcleo de Gestão Integrada-São Mateus, que inclui a REBIO Córrego Grande, REBIO Córrego do Veado e FLONA Rio Preto pelo apoio e troca de idéias com nossa equipe. A Luisa Maria Sarmento Soares pela fotografia dos exemplares em vida em aquário de campo. Agradeço aos amigos que fiz nesse recanto capixaba, todos na mesma: Arthur, Ari, Richard, Rodrigo (PaleoLab bombando), Matheus, Pri, Marcela (Casa de Cima rules), entre outros. Todos lindos. E aos amáveis Luisa, Ronaldo, Evandro, Débora e Tatyana que aceitaram passar perrengue em campo comigo, obrigado! Agradeço a Luiz Fernando Duboc e a Paulo Buckup por abrirem as portas de suas coleções para a conferência de material, e à Débora Machado e Tatyana Gomes por identificarem parte do material coletado. Agradeço a minha mãe, que sempre priorizou minha educação, acima de tudo. Ela queria ter um filho Doutor. Prometo que providenciarei, mãe, mas por enquanto será um filho Mestre. Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas e a seus professores pela oportunidade e pelos ensinamentos. Por fim agradeço à CAPES pela bolsa fornecida, que fomentou meus estudos nesses dois anos. E a todos que contribuíram na minha jornada e no decorrer deste estudo. “No final, todas as coisas se fundem em uma só, e um rio a atravessa. O rio foi criado na grande inundação do mundo e corre pelas rochas do porão do tempo. Sobre as rochas há gotas de chuva atemporais. Sob as rochas estão as palavras, e algumas das palavras são das rochas. Estou assombrado pelas águas.” Norman Maclean RESUMO No Espírito Santo restam apenas 11% da Mata Atlântica original do estado, na forma de remanescentes, dentre eles a Reserva Biológica Córrego Grande, que apresenta nascentes e tributários da bacia do rio Itaúnas. Dessa forma, o presente projeto visa contribuir com os conhecimentos sobre os impactos antrópicos nos ambientes aquáticos e suas zonas ripárias em sete trechos amostrais na REBIO Córrego Grande e entorno, bem como avaliar a influência de variáveis ambientais sobre a ictiofauna e identificar possíveis espécies indicadoras da qualidade da água nesses locais. Para tanto, duas amostragens em sete trechos das sub-bacias contribuintes do Córrego Grande foram realizadas. Um índice integrado de qualidade ambiental foi aplicado, para fins de detecção dos principais pontos que sirvam como referência de bons parâmetros ecológicos. Indo além, análises que visem avaliar quais espécies da ictiofauna sirvam como bioindicadoras foram realizadas. Uma análise de correspondência canônica foi utilizada a fim de relacionar graficamente a presença e a abundância de espécies com os trechos amostrados, as variáveis ambientais e o índice de qualidade ambiental. Por fim, foi aplicada uma análise de espécies indicadoras que visa atestar o poder de bioindicação de certas espécies em relação à níveis de qualidade ambiental específicos Como resultados, 1134 exemplares de peixes pertencentes a quatro ordens, nove famílias, 16 gêneros e 18 espécies foram amostrados. Dos sete pontos amostrais, cinco puderam ser classificados com referência em integridade ambiental, um de qualidade intermediária e um de qualidade ruim. A análise de correspondência canônica revela a influência dos tipos de substrato e da presença de vegetação, seja ela marginal ou ciliar como os fatores mais importantes na distribuição das espécies nas sub-bacias. Nenhuma espécie foi significativamente classificada como indicadora de qualidade ambiental na área de estudo. Novos estudos precisam ser realizados para analisar a qualidade da água dos pontos de amostragem e práticas mais amigáveis de uso e ocupação do solo no entorno da REBIO se fazem necessárias, para minorar os intensos impactos antrópicos. Palavras-chave: Conservação; Ecologia de comunidades; Ictiofauna; IDI; Mata Atlântica. ABSTRACT In the state of Espírito Santo, only 11% of its original Atlantic Forest remains, in the form of small remnants, including the Córrego Grande Biological Reserve, which features headwaters and small tributaries of the Itaúnas River basin. Thus, the present project aims to contribute with the knowledge about the anthropic impacts on aquatic environments and their riparian zones in seven sampling sites around the Córrego Grande Biological Reserve, as well as to evaluate the influence of environmental variables on the ichthyofauna and identify possible species indicating water quality at these locations. Therefore, two samples field expeditions in seven reaches of the sub-basins around Córrego Grande Biological Reserve were performed. An integrated environmental quality index was applied to detect main points to be adopted as references for good ecological parameters. Besides this, analyses to evaluate which species of the fish fauna could serve as bioindicators were performed. A canonical correspondence analysis was used in order to graphically relate the presence and abundance of species with the sampled sections, environmental variables and the environmental quality index. Finally, an analysis of indicator species was applied to attest to the bioindication power of certain species in relation to specific environmental quality levels. As a result, 1134 specimens of fishes were sampled, belonging to four orders, nine families, 16 genera and 18 species. Of the seven sample sites, five could be classified as references to good environmental integrity, one of intermediate quality and one of poor quality. Canonical correspondence analysis reveals the influence of substrate types and the presence of vegetation, whether marginal or riparian vegetation, as the most important factors in the distribution of species in sub-basins. No species was significantly classified as an indicator of environmental quality in the study area. New studies need to be carried out to analyze the water quality of the sampling reaches and new practices, especially of agriculture, need to be implemented in the region, which has intense human impacts. Keywords: Atlantic forest; Community ecology; Conservation; Ichthyofauna; IDI. LISTA DE TABELAS Tabela 1. Caracterização física dos pontos de amostragem.. .......................... 18 Tabela 2. Táxons amostrados na REBIO Córrego Grande e seus entornos. ... 22 Tabela 3. Scores gerados pelos índices de integridade local (LDI), do uso do solo da bacia (CDI) e integrado (IDI), com os resultados de integridade de cada ponto amostral............................................................................................................ 25 Tabela 4. Resultado da análise de espécies indicadoras, indicando a frequência relativa (%), a abundância relativa (%) e o valor indicador (IndVal) (%) das espécies amostradas para cada categoria de integridade ambiental e o valor de p obtido para cada espécie. B = Boa; M = Média; P = Pobre; p = significância. ......................................................................................................................... 25 LISTA DE FIGURAS Figura 1. Mapa da REBIO Córrego Grande e seu entorno. ............................. 17 Figura 2. Algumas das espécies de peixes amostradas durante o estudo. ...... 23 Figura 3. Pontos amostrais visitados na REBIO Córrego Grande e seu entorno. ......................................................................................................................... 24 Figura 4. Gráfico de ordenação da análise de correspondência canônica (ACC), evidenciando a correlação dos pontos amostrais, variáveis ambientais e espécies.. ......................................................................................................... 26 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................. 11 2. OBJETIVOS ............................................................................................... 14 2.1 Objetivo geral .......................................................................................... 14 2.2 Objetivos específicos .............................................................................. 14 3. MATERIAL E MÉTODOS .......................................................................... 15 3.1 Área de estudo ........................................................................................ 15 3.2 Amostragem ............................................................................................ 16 3.3 Análise dos dados ................................................................................... 19 4. RESULTADOS .......................................................................................... 21 5. DISCUSSÃO .............................................................................................. 27 5.1 Diversidade taxonômica .......................................................................... 28 5.2 Qualidade ambiental, variáveis e sua influência na ictiofauna ................ 30 5.3 Espécies bioindicadoras ......................................................................... 31 6. CONCLUSÕES .......................................................................................... 33 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................. 34 APÊNDICES ..................................................................................................... 42 11 1. INTRODUÇÃO A Mata Atlântica, bioma costeiro que se estende do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul (Woehl Jr. et al., 2006), é a segunda maior área florestal do Brasil, atrás apenas da Floresta Amazônica (RBMA, 2012). Este bioma apresenta várias microrregiões fitogeográficas, que abrigam uma grande biodiversidade, sendo hábitat de mais de 20 mil espécies vegetais, mais de 800 espécies de aves, mais de 350 espécies de anfíbios, cerca de 200 espécies de répteis, mais de 270 de mamíferos e cerca de 350 espécies de peixes (MMA/SBF, 2010). Atualmente, 9% de remanescentes florestais são protegidos pela União, o que representa apenas 1% da área original da Mata Atlântica (Ribeiro et al., 2009), e no âmbito estadual, apenas 11% da Mata Atlântica original está presente, apresentando remanescentes florestais de tamanhos expressivos (Gatti et al., 2014). No entanto, na área de domínio desse bioma, encontram-se hoje mais de 60% da população brasileira, cerca de 120 milhões de habitantes distribuídos em mais de 3500 municípios, abrigando os principais polos industriais, agrícolas, químicos, petroleiros, portuários e turísticos do Brasil, respondendo por cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional (RBMA, 2012). Esse fato se reflete na contínua degradação dos ambientes naturais. Rios e riachos são normalmente objetos de estudos de ecologia de comunidades, por possuírem dimensões reduzidas, o que os torna mais suscetíveis às influências antrópicas (Ferreira, Casatti, 2006; Silva, 2009; Frota et al., 2016). Traçando um paralelo evolutivo, rios e riachos também são responsáveis pelo surgimento de diversas espécies, devido ao isolamento geográfico e às diferenças nas características físicas dos cursos d’água, o que gera grande taxa de endemismo, principalmente na Mata Atlântica, que apresenta diversas bacias independentes separadas por serras (Bizerril, 1994; Gerhard, 2005, Menezes et al., 2007, Abell et al., 2008). Segundo Abilhoa et al. (2011), cerca de 70% dos peixes de água doce da Mata Atlântica são endêmicos das drenagens costeiras deste bioma, o que torna diversas espécies suscetíveis à eventos de extinção. Segundo dados mais recentes do Ministério do Meio Ambiente, há atualmente 312 espécies de peixes de água doce ameaçados no 12 país, especialmente os peixes anuais da família Rivulidae (MMA/ICMBio, 2018). No âmbito estadual, 18 espécies dulcícolas se encontram em algum estágio de ameaça ou regionalmente extintas, principalmente peixes das ordens Characiformes (piabas e piaus) e Siluriformes (bagres e cascudos) segundo a última lista de espécies ameaçadas do ES (Vieira; Gasparini, 2007). É importante ressaltar aqui que uma nova lista de espécies ameaçadas, organizada em 2019, está em processo de homologação pelo Instituto Estadual do Meio Ambiente (IEMA). No entanto, não importam apenas a diversidade e a abundância de determinadas espécies, mas também a integridade dos hábitats, foco do trabalho pioneiro de Karr (1981), que desenvolveu um índice de integridade biótica, espelhado e aprimorado por diversos autores, como Ferreira e Casatti (2006), Pinto e Araújo (2007), Casatti et al. (2009), Flores-Lopes et al. (2010), Terra e Araújo (2011), Henriques (2013), Ligeiro et al. (2013) e Terra et al. (2013). Esses autores desenvolveram índices que consideram, dentre outros aspectos, a qualidade dos cursos d’água, dos ambientes nos entornos, presença de espécies tolerantes e intolerantes, variáveis químicas e físicas da água e a abundância relativa de determinadas ordens específicas de peixes que servem como indicadoras de boa qualidade ambiental. Espécies bioindicadoras são aquelas cuja presença, abundância e condições são indicativos de uma determinada condição ambiental (Polaz, 2013). Segundo Araújo (1998), posteriormente corroborado por Ferreira e Casatti (2006), Casatti et al. (2009), Cunico et al. (2012), uma grande abundância de exemplares da ordem Cyprinodontiformes (barrigudinhos, guarus) como Poecilia vivipara e P. reticulata indica um ambiente normalmente degradado, bem como a presença de peixes como Geophagus brasiliensis (cará). Espécies como Rhamdia quelen (bagre), Hoplias malabaricus (traíra) e Hypostomus affinis (cascudo), também encontradas na área de estudo, são resilientes e sobrevivem mesmo em situações nas quais o ambiente sofreu algum nível de degradação. Ainda assim tais espécies se apresentam em menor abundância quando comparadas a outras espécies mais adaptadas à mudanças nos sistemas hídricos. Apesar de serem geralmente extrapolações de alguns estudos, a presença de certos táxons associados a algum gradiente de perturbação ambiental visível pode ser decisiva, após os testes pertinentes, no 13 desenvolvimento de índices de avaliação ambiental multimétricos, ou seja, que consideram diversas métricas e variáveis do ambiente. Parte importante do processo de entendimento sobre o estado de conservação da ictiofauna e dos ambientes naturais é compreender como as variáveis ambientais influenciam a estrutura das comunidades. Características físicas e químicas dos ambientes são amplamente reconhecidas como importantes fatores na distribuição da ictiofauna (Abes; Agostinho, 2001, Oliveira; Cortes, 2006, Abell et al., 2008), mas aspectos intrínsecos da água como a salinidade, o pH e a taxa de oxigenação estão também correlacionados estatisticamente à diferentes níveis de degradação dos ambientes naturais (Guimarães, 2016). Desse modo, avaliações de hábitat, composição e variação de espécies, bem como a relação das diferentes variáveis ambientais e estágios de degradação da ictiofauna constituem peças-chave para o entendimento da dinâmica das assembleias de peixes e sua conservação. Rios e riachos na REBIO Córrego Grande e entorno, representam um importante fragmento conservado de Mata Atlântica que abriga diversas espécies, inclusive ameaçadas. Ainda que cercado por plantações de eucalipto e pastagens, se mostra uma área de estudo importante na avaliação dos possíveis impactos ambientais advindos das atividades econômicas instaladas no vale fluvial. 14 2. OBJETIVOS 2.1 Objetivo geral Este estudo tem como objetivo geral avaliar a influência da qualidade ambiental sobre as comunidades de peixes. 2.2 Objetivos específicos Os objetivos específicos do estudo são:  Identificar os níveis de degradação ambiental aos quais os riachos dos entornos da REBIO estão submetidos;  Avaliar a influência de variáveis físicas e químicas do ambiente sobre a estrutura da comunidade de peixes;  Identificar a possível presença de espécies de peixes que atuem como bioindicadoras da qualidade ambiental. 15 3. MATERIAL E MÉTODOS 3.1 Área de estudo A Reserva Biológica Córrego Grande (REBIO Córrego Grande) está integralmente localizada no município de Conceição da Barra, extremo norte do Espírito Santo (Fig. 1), na divisa com o estado da Bahia (Sarmento-Soares; Martins-Pinheiro, 2013). O nome da reserva advém do curso d'água que delimita a reserva em sua porção oeste – córrego Grande, afluente do rio ltaúnas (MMA, 2000). Além do córrego Grande, a reserva apresenta em seu domínio as nascentes do rio Taquaruçu, uma sub-bacia também do Itaúnas, contendo a área protegida duas bacias independentes desta rede de drenagem. Os entornos da REBIO Córrego Grande apresentam diversos tributários tanto da bacia do rio Itaúnas, como o rio Dourado, à oeste da reserva, quanto da micro-bacia do riacho Doce, que corre na Bahia mas apresenta a contribuição de nascentes em sua margem direita no Espírito Santo. No entorno da área protegida há um divisor de águas separando as bacias do Itaúnas e a micro-bacia do Riacho doce. A sub- bacia do córrego Grande apresenta 35 km² de área total, ao passo que as do córrego Taquaruçu, riacho Doce e Dourado apresentam, respectivamente, 61 km², 140 km² e 372 km² (Sarmento-Soares; Martins-Pinheiro, 2013). Na classificação de Abell et al. (2008), a área de estudo se encontra na ecoregião 328, Mata Atlântica Nordeste (Figura 1). A fitofisionomia da região é composta sobretudo pela Mata de Tabuleiros, uma formação da Mata Atlântica que consiste em solos predominantemente arenosos e frágeis cobertos por floresta ombrófila densa (MMA, 2000), apresentando relevo majoritariamente plano a ondulado (Sarmento-Soares; Martins-Pinheiro, 2019), com acúmulo de água em áreas alagáveis que, por concentrarem grande quantidade de folhiço e taninos apresentam naturalmente uma cor de chá ou âmbar. 16 3.2 Amostragem Inicialmente foi feito um mapeamento espacial das áreas de coleta para avaliar como a área da bacia é utilizada, seja para fins urbanos ou agrícolas, presença de represamento e outros efeitos antrópicos deletérios como o despejo de esgoto e lixo em algum trecho de rio. Após essa etapa, sete localidades georreferenciadas foram amostradas em duas ocasiões, agosto de 2018 e fevereiro de 2019, em cinco riachos no entorno da REBIO Córrego Grande: córrego Taquaruçu, córrego Grande, córrego Dourado e dois afluentes do riacho Doce (Figura 2, Tabela 1). Para fins de padronização, 10 passadas de rede de arrasto e cinco peneiradas foram efetuadas em cada amostragem realizada para cada ponto. Informações sobre horário, data, clima, altitude, vazão, vegetação marginal, tipo e porcentagem de substrato, presença de mata ciliar, largura, profundidade, além de fotos do local de coleta e de dossel foram obtidas, além do uso de uma sonda multiparâmetros, a fim de obter dados físicos e químicos da água: temperatura (em ºC), condutividade elétrica (em milisiemens por centímetro - ms/cm), salinidade (em g/L), total de sólidos dissolvidos (em ppm) oxigênio dissolvido (em mg/L) e pH. As amostragens foram realizadas com o uso redes de arrasto e peneiras, para garantir suficiência adequada do esforço amostral. Para garantir o mínimo de impacto possível à ictiofauna, os exemplares foram acondicionados em bombonas de 5 L com água, transportados à margem, identificados, fotografados, contados e liberados. A maior parte dos indivíduos amostrados foram liberados, visto que se trata de uma UC onde boa parte das espécies são sensíveis às diminuições populacionais, sobretudo espécies ameaçadas. Alguns indivíduos de cada espécie foram coletados e depositados como material- testemunho no Museu Nacional/UFRJ (na primeira campanha de coleta) e na Coleção Zoológica Norte Capixaba (CNZC), (na segunda campanha de coleta), localizada no Centro Universitário do Norte do Espírito Santo (CEUNES/UFES), em São Mateus, ES. A lista completa de material testemunho encontra-se no Anexo 1. Esses foram fotografados em aquário em campo, vivos, fixados em formalina a 10%, transportados para o laboratório, triados e conservados em álcool a 70%. 17 Figura 1. Mapa da REBIO Córrego Grande e seu entorno. O ponto vermelho representa a localização da área de estudo no sistema hídrico do Atlântico Leste. O retângulo vermelho representa a área aumentada, que apresenta os pontos amostrais (círculos pretos), a REBIO (área verde musgo) e a área de amortecimento da REBIO (área verde translúcida). 18 Tabela 1. Caracterização física dos pontos de amostragem. São apresentados o nome, a sigla, as coordenadas, a profundidade média, a largura média, presença de vegetação marginal, presença de mata ciliar, tipo de substrato e a temperatura média da água. Localidade Sigla Latitude (S) Longitude (W) Altitude (m) Profundidade média (m) Largura média (m) Vegetação marginal Mata ciliar Substrato Temperatura média (°C) Córrego Grande, limite sul da REBIO P1 -18°17'30.5" -39°48'58.9" 22 0.33 21,8 Abundante Abundante Areia e silte 24,85 Córrego Grande, sob a ES-209 P2 -18°18'22.6" -39°49'08.8" 16 0.55 5,7 Abundante Pouca Silte, rochas e laje 24,1 Córrego Taquaruçu, entorno da REBIO P3 -18°17'47.4" -39°47'40.7" 29 0.4 2,3 Média Pouca Silte, areia e rochas 25,9 Afluente do Riacho Doce, entorno REBIO P4 -18°16'12.4" -39°46'23.0" 24 0.63 8,6 Média Pouca Silte 27,3 Córrego Dourado P5 -18°10'37.9" -39°54'38.3" 28 0.50 6,3 Pouca Pouca Silte e areia 27,05 Córrego Taquaruçu, limite leste da REBIO P6 -18°16'40.8" -39°47'46.4" 40 0.24 6,5 Pouca Pouca Silte e areia 27,5 Afluente do Riacho Doce, nascente P7 -18°15'51.6" -39°46'27.2" 26 0.25 3,0 Média Média Silte 26,6 19 Alguns exemplares destinados à análise genética foram mantidos em álcool absoluto, e em laboratório transferidos para álcool PA, evitando-se hidratação excessiva e possível perda da qualidade do material a ser sequenciado em estudos futuros. Os exemplares foram identificados ao menor nível taxonômico possível com o auxílio de inventários publicados em artigos científicos e manuais de identificação, como os de Roldi et al. (2014), Sarmento- Soares e Martins-Pinheiro (2010; 2012; 2013; 2014a; 2014b) e consulta a especialistas. 3.3 Análise dos dados Inicialmente, uma adaptação do índice de degradação ambiental apresentada por Ligeiro et al. (2013) foi aplicada, onde índices de gradiente de degradação ambiental foram testados em escalas locais (LDI) e regionais (CDI) da bacia. Para o CDI, foi considerada a porcentagem do uso do solo em cada ponto de amostragem, como uso urbano, agrícola e pastagem. Em relação ao LDI, considera-se scores diferentes em relação à proximidade de impactos antrópicos em relação ao rio. Por fim, um índice de degradação integrado (IDI), dado pela seguinte equação: 3005 22             CDI + LDI =IDI O IDI gerou valores que definiram se uma localidade tem sua integridade ecológica boa, intermediária ou bastante degradada (Tabela 1). Definiu-se como valores separatórios: localidades com IDI até 0,75 = boa; até 1,50 = média; acima de 1,50 = pobre. Esses valores foram conjugados com os dados físicos e bióticos transformados logaritmicamente (visto que são aferidos em unidades de medidas diferentes) dos pontos de amostragem em um gráfico de ACC (análise de correspondência canônica) (ter Braak, 1986) para evidenciar graficamente a relação e a influência das variáveis ambientais com a integridade ecológica e as assembleias de peixes. Previamente à realização da análise de correspondência canônica, foi aplicada uma análise de FIV (fator de inflação da variância), a fim 20 de identificar parâmetros multicolineares (que variam em conjunto) e eliminá-los da ACC. Para identificar quais espécies podem possivelmente atuar como bioindicadoras da qualidade ambiental na bacia, foi aplicada uma análise de espécies indicadoras (IndVal) (Dufrêne; Legendre, 1997). O valor da IndVal varia de 0 a 100%, onde 0% indica que a espécie não é característica de determinado local e 100% que ela é característica do local amostrado (Silva, 2011), demonstrando a afinidade de cada espécie com determinados trechos, com os devidos testes para atestar sua significância. Todas as análises foram realizadas a nível de confiança de 95% (p < 0,05) nos programas PAST v3.26 (Hammer et al., 2001), Software R v.3.6.1 (R Core Team, 2019), utilizando os pacotes “vegan” (Oksanen et al., 2013), “labdsv” (Roberts, 2016) e “usdm” (Naimi et al., 2014; Naimi, 2017) e Excel (Microsoft, 2016). 21 4. RESULTADOS Foram amostrados 1134 exemplares de peixes pertencentes a quatro ordens, nove famílias, 16 gêneros e 18 espécies (Tabela 2, Figura 2). A espécie mais representativa foi Mimagoniates microlepis, correspondendo a cerca de 46% (n = 522) dos exemplares amostrados, seguida por Hyphessobrycon bifasciatus (n = 211, 18,6%). Apesar dos registros históricos da espécie ameaçada Mimagoniates sylvicola, as amostragens durante o presente estudo não lograram sucesso em localizar populações desta espécie. A família mais numerosa foi Characidae, apresentando seis espécies, seguida por Heptapteridae (n = 3). Ao todo, a ordem Characiformes foi a mais representativa, contribuindo com nove das 19 espécies amostradas (cerca de 47% das espécies), seguida por Siluriformes (n = 6, cerca de 31,6% das espécies). Dos sete pontos amostrais, cinco puderam ser classificados como possuindo bons parâmetros de integridade (P1, P2, P3, P6 e P7), uma possuindo qualidade ambiental intermediária (P4) e um possuindo integridade ambiental pobre (P5) (Tabela 3, Figura 3). Visto que o ponto 6 não apresentou nenhum exemplar, ele foi retirado da análise de correspondência canônica, bem como as variáveis temperatura da água, altitude, total de sólidos dissolvidos, oxigenação da água, salinidade, pH, condutividade elétrica, profundidade média, largura média, vazão e porcentagem de laje e areia, restando as variáveis IDI, porcentagens de dossel, de silte, cascalho e pedras e de vegetação marginal. O eixo 1 agrupou sobretudo os maiores valores de IDI com espécies mais tolerantes às alterações antrópicas, como Poecilia vivipara, ou de ambientes mais abertos, como Cyphocarax gilbert e Moenkhausia vittata, assim, como localidades de maior porcentagem de substrato siltoso e menor porcentagem de vegetação marginal nos quadrantes direitos, explicando, dessa forma, 46,3% da variação dos dados (eigenvalue = 0.92, Figura 4). O eixo 2, formado principalmente pelo gradiente positivo da porcentagem de cascalho e dossel, e o gradiente negativo da porcentagem de pedras explica 40,4% da variação dos dados (eigenvalue = 0.8). Os resultados da análise de espécies indicadoras, em conjunção com o IDI, indicam a forte correlação de uma espécie com o ambiente altamente degradado 22 P5: Poecilia vivipara. No entanto, essa espécie não foi significativamente correlacionada a esse trecho por essa análise (Tabela 4). Outras espécies que apresentaram correlação (igualmente não significativa) com determinados pontos amostrais foram Astyanax sp. aff. A. janeiroensis, Hyphessobrycon bifasciatus e Hyphessobrycon sp. (P4) e Hoplias malabaricus (P5). Tabela 2. Táxons amostrados na REBIO Córrego Grande e seus entornos. A tabela apresenta a ordem, a família, a espécie, o número de exemplares amostrados e a sigla utilizada nas análises. Ordem Família Espécie n Sigla Characiformes Crenuchidae Characidium cricarense Malanski, Sarmento-Soares, Silva-Malanski, Lopes, Ingenito & Buckup, 2019 21 Ccr Characidae Astyanax sp. aff. A. intermedius 92 Ain Astyanax sp. aff. A. janeiroensis 94 Aja Hyphessobrycon bifasciatus Ellis, 1911 211 Hbi Hyphessobrycon sp. aff. H. boulengeri 91 Hsp Mimagoniates microlepis Steindachner, 1877 522 Mmi Moenkhausia vittata Castelnau, 1855 1 Mvi Erythrinidae Hoplias malabaricus Bloch, 1794 4 Hma Curimatidae Cyphocharax gilbert Quoy & Gaimard, 1824 2 Cgi Siluriformes Callichthyidae Aspidoras virgulatus Nijssen and Isbrücker, 1980 11 Avi Corydoras nattereri Steindachner, 1876 2 Cna Loricariidae Otothyris travassosi Garavello, Britski & Schaefer, 1998 37 Otr Heptapteridae Acentronichthys leptos Eigenmann and Eigenmann, 1889 5 Ale Pimelodella sp. aff. P. vittata 1 Pvi Rhamdia sp. aff R. quelen 1 Rqu Cyprinodontiformes Poeciliidae Phalloceros ocellatus Lucinda, 2008 9 Poc Poecilia vivipara Bloch & Schneider, 1801 4 Pov Cichliformes Cichlidae Geophagus brasiliensis Quoy & Gaimard, 1824 26 Gbr Total 1134 23 Figura 2. Algumas das espécies de peixes amostradas durante o estudo. A = Aspidoras virgulatus; B = Astyanax intermedius; C = Astyanax sp. aff. A. janeiroensis; D = Hyphessobrycon bifasciatus; E = Hyphessobrycon sp.; F = Mimagoniates microlepis.; G = Phalloceros ocellatus; H = Otothyris travassosi; I = Poecilia vivípara; J = Pimelodella vitatta. Escala = 1cm. 24 Figura 3. Pontos amostrais visitados na REBIO Córrego Grande e seu entorno. P1 = Córrego Grande, limite sul da REBIO; P2a = Córrego Grande, sob a ES-209 (lado direito); P2b = Córrego Grande, sob a ES-209 (lado esquerdo); P3 = Córrego Taquaruçu, entorno da REBIO; P4 = Afluente do riacho Doce, entorno da REBIO; P5 = Córrego Dourado; P6 = Córrego Taquaruçu, limite leste da REBIO; P7 = Afluente do riacho Doce, nascente. 25 Tabela 3. Scores gerados pelos índices de integridade local (LDI), do uso do solo da bacia (CDI) e integrado (IDI), com os resultados de integridade de cada ponto amostral. Sigla LDI CDI (%) IDI Integridade P1 0 0 0 Boa P2 2.5 40 0.52 Boa P3 1 40 0.24 Boa P4 4 40 0.81 Intermediária P5 9.5 70 1.91 Pobre P6 1 0 0.2 Boa P7 1.5 40 0.33 Boa Tabela 4. Resultado da análise de espécies indicadoras, indicando a frequência relativa (%), a abundância relativa (%) e o valor indicador (IndVal) (%) das espécies amostradas para cada categoria de integridade ambiental e o valor de p obtido para cada espécie. B = Boa; M = Média; P = Pobre; p = significância. Espécies Frequência relativa (%) Abundância relativa (%) IndVal (%) p B M P B M P B M P Acentronichthys leptos 20 0 0 100 0 0 20 0 0 1,00 Aspidoras virgulatus 40 0 0 100 0 0 40 0 0 1,00 Astyanax intermedius 20 100 100 0,4 81,2 18,4 0,1 81,2 13,4 0,29 Astyanax janeiroensis 40 0 0 100 0 0 40 0 0 1,00 Characidium cricarense 40 0 0 100 0 0 40 0 0 1,00 Corydoras nattereri 20 0 0 100 0 0 20 0 0 1,00 Cyphocharax gilbert 0 0 100 0 0 100 0 0 100 0,28 Geophagus brasiliensis 60 100 100 21,4 28,6 50 12,9 28,6 50 0,66 Hoplias malabaricus 40 0 100 16,7 0 83,3 0,6 0 83,3 0,19 Hyphessobrycon bifasciatus 40 100 100 7,5 82,6 9,9 0,3 82,6 0,9 0,23 Hyphessobrycon boulengeri 60 100 0 8,6 91,4 0 0,5 91,4 0 0,14 Mimagoniates microlepis 40 0 100 97,6 0 2,4 39 0 0,2 0,96 Moenkhausia vittata 0 0 100 0 0 100 0 0 100 0,30 Otothyris travassosi 60 0 0 100 0 0 60 0 0 0,82 Phalloceros ocellatus 40 0 0 100 0 0 40 0 0 0,77 Pimelodella vitatta 20 0 0 100 0 0 20 0 0 1,00 Poecilia vivipara 0 0 100 0 0 100 0 0 100 0,31 Rhamdia quelen 20 0 0 100 0 0 20 0 0 1,00 26 Figura 4. Gráfico de ordenação da análise de correspondência canônica (ACC), evidenciando a correlação dos pontos amostrais, variáveis ambientais e espécies. A elipse tracejada representa a correlação entre o mais alto valor de IDI, ponto amostral 5, as espécies Poecilia vivipara, Geophagus brasiliensis e maiores porcentagens de silte. CAS = Cascalho; DOS = Dossel; IDI = Índice de Degradação Integrado; PED = Pedras; SIL = Silte; VEG = Vegetação marginal. Ace = Acentronichtys leptos; Aja = Astyanax sp. aff. A. janeiroensis; Ain = Astyanax intermedius; Avi = Aspidoras virgulatus; Ccr = Characidium cricarense; Cgi = Cyphocharax gilbert; Cna = Corydoras nattereri; Gbr = Geophagus brasiliensis; Hbi = Hyphessobrycon bifasciatus; Hma = Hoplias malabaricus; Hsp = Hyphessobrycon sp.; Mmi = Mimagoniates microlepis; Mvi = Moenkhausia vittata; Otr = Otothyris travassosi; Pvi = Pimelodella vittata; Poc = Phalloceros ocellatus; Pov = Poecilia vivipara; Rqu = Rhamdia quelen. Cna, Pvi, Rqu Localidades de menor qualidade ambiental e espécies mais tolerantes a alterações antrópicas Localidades de maior qualidade ambiental e espécies menos tolerantes a alterações antrópicas 27 5. DISCUSSÃO Os resultados indicam que, apesar de estar localizada em uma região com altos índices de impactos antrópicos e de ser uma Unidade de Conservação de pequena proporção, a maioria dos pontos de amostragem da REBIO Córrego Grande e sua área de entorno apresentaram boa qualidade ambiental e a mesma sustenta uma parcela substancial da fauna aquática nativa da região, um cenário diferente do que se esperava encontrar, visto que os arredores apresentam uma fitofisionomia distinta, demonstrando a qualidade de oásis desta UC, o que apresenta influência sobre as assembleias de peixes da região. Apesar de a monocultura de espécies exóticas como o eucalipto diminuir a diversidade local nas matas ciliares, não apenas da flora mas também da fauna e potencialmente carrear defensivos químicos para os cursos d’água, (Sarmento-Soares; Martins- Pinheiro, 2018; Carneiro et al., 2019) a ictiofauna têm se mantido em sua maioria estável nessa UC (com algumas exceções, como Mimagoniates sylvicola) e seus arredores diretos, evidenciando o papel desses fragmentos protegidos e suas zonas de amortecimento na conservação das espécies. No entanto, vale ressaltar que a antropização local é crescente. Sarmento- Soares et al. (2019) aconselham que no entorno dessa Unidade de Conservação, onde ocorrem plantações de eucalipto da empresa de papel Fíbria-Suzano, sejam tomadas medidas práticas, como a eliminação do uso de herbicidas que podem ser carreados para os cursos d’água e a implantação de outras formas de plantio e manejo, para que, em última instância, os mananciais não sejam mais afetados pelos possíveis efeitos deletérios que algumas das localidades já vêm sofrendo. A instalação de cercas para evitar o pisoteio de gado, animais oriundos da fazenda do grupo de frigoríficos Frisa, pode ser acordada, conforme sugerido em Sarmento-Soares & Martins-Pinheiro (2013). Sarmento-Soares e Martins-Pinheiro (2017) salientam a importância da proteção dos mananciais presentes nos entornos das UCs, cujas matas ciliares devem ser também protegidas e revitalizadas. 28 5.1 Diversidade taxonômica Na região Neotropical, sobretudo no bioma Mata Atlântica, há reconhecida predominância de peixes das ordens Characiformes e Siluriformes, conforme atestado por Lowe-McConnell (1999) e Menezes et al. (2007), estudos corroborados posteriormente por diversos trabalhos em drenagens dessa região (e.g.: Sarmento-Soares et al., 2009; Miranda et al., 2013, Sarmento-Soares; Martins-Pinheiro, 2013, 2014b; Larentis et al., 2016). O mesmo ocorre nas sub- bacias da REBIO Córrego Grande e arredores, onde essas duas ordens correspondem a quase 85% das espécies amostradas. Em relação às famílias, Characidae também é reconhecidamente a mais diversa na região Neotropical e na área de estudo, sobretudo por características que permitem a ocupação de diversos ambientes (Lowe-McConnell, 1999; Buckup et al., 2007; Furtado et al., 2018). Todas as espécies amostradas são de pequeno porte e de baixo ou nenhum valor econômico, características compartilhadas pela maior parte da ictiofauna dulcícola da América do Sul de acordo com Castro (1999). A presença na área de estudo de peixes comuns em riachos de Mata Atlântica, como as espécies Corydoras nattereri, Geophagus brasiliensis, Rhamdia quelen, Poecilia vivipara e P. reticulata, bem como espécies dos gêneros Astyanax, e Hyphessobrycon, evidencia a existência anterior de um trecho contínuo de mata que se estendia por todo o estado do Espírito Santo, sendo esse território no passado totalmente inserido no Corredor Central da Mata Atlântica (MMA, 2006), hoje largamente substituído por pastagens e cultivos, em especial o eucalipto. Partindo do princípio de que essas mesmas espécies ocorrem também em trechos de Mata Atlântica mais ao sul, incluindo o Rio de Janeiro e São Paulo, percebe-se que a distribuição desses peixes se apresenta potencialmente disjunta, estando as mesmas distribuídas em ilhas de remanescentes florestais protegidos, em riachos da floresta atlântica. Esses remanescentes conservam espécies como Acentronichthys leptos e Mimagoniates sylvicola. As duas constam na mais recente lista de espécies ameaçadas do estado (VIEIRA; GASPARINI, 2007), a última constando como Em Perigo na última lista nacional (MMA/ICMBio, 2018). M. sylvicola foi encontrada apenas dentro da REBIO Córrego Grande no estado do Espírito Santo, evidenciando o papel das unidades de conservação na proteção da flora, 29 fauna e mananciais (Sarmento-Soares et al., 2019), sendo sua congênere M. microlepis encontrada na zona de amortecimento da UC e, no norte do estado, sendo também encontrada nas cabeceiras e no baixo rio Itaúnas, bem como nas porções inferiores do rio São Mateus e nos riachos que cortam a REBIO de Sooretama (Sarmento-Soares; Martins-Pinheiro, 2012; 2013; Plesley, 2017). Acentronichthys leptos possui ampla distribuição, indo de Santa Catarina à Bahia (Sarmento-Soares; Martins-Pinheiro, 2009). No entanto, as intensas ameaças à espécie, sobretudo perda de hábitat, contribuíram na fragmentação ambiental e sua distribuição disjunta. Algumas das espécies encontradas no estudo apresentam problemas em sua taxonomia, carecem de descrição formal ou estão sendo revisadas, sobretudo Hyphessobrycon sp. aff. H. boulengeri, antes nomeada Hyphessobrycon sp. 1 (sensu Carvalho, 2006); e Pimelodella sp. aff. P. vittata, cujo gênero que recentemente passou por um processo de revisão no Espírito Santo que resultou na possível sinonimização dessa espécie com Pimelodella sp. 2 (Sibien, 2019). Vale ressaltar a presença da espécie recentemente descrita Characidium cricarense, encontrada dentro e nos arredores da REBIO, é restrita à Mata Atlântica Nordeste, (Malanski et al., 2019), na fisionomia da paisagem floresta Atlântica de tabuleiros. A espécie habita águas rápidas de fundo pedregoso, condições nas quais foi encontrada no presente estudo. O gênero Characidium, assim como os citados no parágrafo anterior, apresenta taxonomia confusa em diversas espécies, problemas esses que estão sendo sanados com o incremento das informações sobre esses peixes associada a estudos em taxonomia integrativa. Um problema comum na amostragem das espécies é a seletividade do método de coleta. No caso do presente estudo, a ausência de exemplares no ponto 6 pode ser explicada pela falta do material de coleta adequado para tanto, visto que essa localidade apresenta profundos trechos que necessitam de um petrecho de coleta diferente, como uma tarrafa, por exemplo. Ribeiro e Zuanón (2006) e Duarte et al. (2013), apontam para a necessidade da utilização de diferentes petrechos de captura para garantir maior eficiência na coleta dos exemplares. 30 Em um panorama geral, o levantamento anterior feito na REBIO Córrego Grande por Sarmento-Soares e Martins-Pinheiro (2013) amostrou apenas três espécies a mais que o atual, realizado em menos locais de coleta. A principal diferença se encontra na composição faunística dos dois levantamentos. Ao passo que a listagem de 2013 amostrou espécies como Astyanax aff. lacustris, Trichomycterus pradensis, Callichthys callichthys, Synbranchus marmoratus e Australoheros capixaba, não encontradas nas amostragens recentes, o presente estudo incluiu as espécies Cyphocharax gilbert e Rhamdia quelen à lista da ictiofauna presente dentro e nos arredores dessa UC. Tais resultados sugerem que a região ainda não tenha sido exaustivamente amostrada. 5.2 Qualidade ambiental, variáveis e sua influência na ictiofauna A escolha de um índice integrado para aferir a qualidade ambiental de corpos d’água vem se tornando cada vez mais comum na literatura (e.g.: Ligeiro et al., 2013; Terra et al., 2013; Macedo et al., 2016, Fierro et al., 2018). Por considerarem que existem efeitos antrópicos deletérios em diferentes escalas (Fierro et al., 2018), esses índices, em conjunção com variáveis das assembleias faunísticas geram escores que tornam a definição da integridade ambiental mais completa. A definição dos limites 0,75 e 1,50 para definir a integridade ambiental das localidades, seguindo Macedo et al. (2016), se dá por conta do baixo número de pontos amostrais, para que mais facilmente se possa definir categorias de qualidade do ambiente. Esse índice é baseado em aferição visual das localidades e a escolha desses valores foi feita de forma a permitir que localidades em que realmente não há indício de altos impactos antrópicos (ou o contrário) pudessem ser categorizadas da forma mais adequada possível. Vale ressaltar que, das sete localidades visitadas, apenas a localidade externa à REBIO e zona de amortecimento, o córrego Dourado, pôde ser categorizada como pobre, onde espécies caracteristicamente associadas à baixa integridade ambiental foram encontradas, como Poecilia vivipara, Geophagus brasiliensis e Hoplias malabaricus. A análise de correspondência canônica, em sintonia com o resultado do IDI, correlacionou essas espécies a essa localidade de menor qualidade ambiental. Por outro lado, pelo córrego 31 Dourado representar um rio com maior ordem de grandeza, ali apareceram espécies não localizadas nos pequenos córregos da REBIO, como Moenkhausia vittata e Cyphocharax gilbert, o que corrobora o Conceito de Rio Contínuo (CRC), proposto por Vannote et al. (1980), que sugere que a quantidade e a complexidade de hábitats, assim como a disponibilidade de recursos, aumenta no sentindo montante-jusante de uma bacia, permitindo um maior aporte de espécies. No gráfico de ordenação da análise de correspondência canônica percebe- se que, em geral, os quadrantes esquerdos apresentaram as localidades com melhor qualidade ambiental, P1 e P2, pontos no córrego Grande, com maior porcentagem de dossel e vegetação marginal; e os quadrantes direitos as localidades com qualidade intermediária ou pobre, bem como espécies características desses locais. Como exemplo, a previamente mencionada Characidium cricarense, comumente encontrada em locais com substratos pedregosos, está fortemente associada à variável ambiental “substrato de pedras”, assim como Otothyris travassosi está para “substrato de cascalhos”, atestando o poder de correlação desse método de ordenação. 5.3 Espécies bioindicadoras Apesar de não apresentar um valor de p significativo na análise de espécies indicadoras, Poecilia vivipara é reconhecidamente resistente a impactos antrópicos, sendo comumente encontrada em ambientes degradados (Casatti et al., 2009; Cunico et al., 2012) e apresentou um alto valor na análise de espécies indicadoras. Obviamente, isso não a coloca no patamar de indicadora de qualidade ambiental, dada a ausência de um valor significativo de p neste estudo, mas sua associação ao ambiente com o mais alto nível de degradação dentre os pontos amostrados indica que essa espécie pode, de fato, ser reconhecida como bioindicadora, visto que em pontos de melhor qualidade ambiental não foi encontrada. O mesmo se aplica a espécies como Acentronichthys leptos e Mimagoniates sylvicola, esta última encontrada apenas dentro da REBIO. Ambas não obtiveram um valor de p significativo na análise, mas são características de ambientes íntegros e florestados (Sarmento-Soares; Martins-Pinheiro, 2013; Sarmento-Soares et al., 2019). 32 Outro ponto a ser ressaltado nesse tópico é a associação (no entanto, também não significativa) de três espécies de caracídeos, Astyanax sp. aff. A. janeiroensis, Hyphessobrycon bifasciatus e Hyphessobrycon sp. com o ponto de qualidade intermediária P4, que apresentou poucos impactos antrópicos. Alguns peixes dos gêneros Astyanax e Hyphessobrycon são intolerantes à hipóxia (Cruz et al., 2013; Teresa et al., 2015) e sensíveis às alterações antrópicas no geral (Pinto; Araújo, 2007; Casatti et al., 2009), o que, no entanto, não parece ser o caso das espécies desses gêneros na área de estudo. A associação de indivíduos adultos de Hoplias malabaricus com o ponto de baixa integridade P5 é outro indício, já fortemente corroborado na literatura, de que esta é uma possível espécie indicadora da presença de impactos antrópicos, sendo resistente à hipóxia e efeitos deletérios e associada a ambientes caracteristicamente antropizados (Pinto; Araújo, 2007; Casatti et al., 2009; Cruz et al., 2013). Vale ressaltar, também, que há um berçário da espécie dentro da REBIO (LMSS, com. pess.), indicando que a espécie, que possui ampla distribuição, ocorre igualmente em ambientes íntegros. Uma hipótese a ser levantada para que nenhum valor indicador (IndVal) tenha gerado números dentro do intervalo de confiança de 95% é o baixo número de amostragens, visto que os valores de frequência e abundância relativas das espécies estão intimamente associados ao resultado dessa análise. Possivelmente um maior número de coletas seria ideal para gerar valores significativos desse índice. Apesar de não ter obtido um resultado estatisticamente satisfatório, isso abre portas para a realização de novos estudos na região abordando esse tema. No entanto, como previamente dito, a literatura já corrobora que diversas das espécies encontradas dentro e nos entornos da REBIO Córrego Grande são indicadoras de qualidade ambiental, seja ela alta ou baixa. Vale ressaltar que, as espécies que obtiveram altos valores de IndVal associados a ambientes bons foram encontradas sobretudo dentro da REBIO e de sua Zona de Amortecimento, evidenciando, novamente, o papel das Unidades de Conservação e seus entornos diretos na preservação das espécies, sobretudo ameaçadas como Mimagoniates sylvicola e Acentronichthys leptos. 33 6. CONCLUSÕES Apesar de inúmeros impactos antrópicos que afetam a região norte do Espírito Santo, sobretudo nos arredores da REBIO Córrego Grande, boa parte dos pontos de amostragem ainda apresentam boa qualidade ambiental, conseguindo conservar as espécies da fauna aquática que ali residem. Os resultados da análise de correspondência canônica sugerem que os tipos de substratos e a presença de vegetação, seja marginal ou ciliar, são fatores fundamentais na distribuição das comunidades na área de estudo. Aliados a isso, os tipos de hábitat e o clima do local também são fatores importantes na determinação das espécies que ali residem. Indo além, a implantação de práticas agrícolas ambientalmente mais amigáveis, sem o uso de venenos, como os sistemas agroflorestais nas proximidades da REBIO seria de grande valia. Esse tipo de sistema de plantio conserva não só os solos, mas também diminui o uso da água, incentiva a produção de outros tipos de plantas e o plantio de mudas nativas para a restauração das matas ciliares e auxilia no desenvolvimento pessoal dos produtores da região, como quilombolas, assentados e pequenos arrendatários, que têm como a agricultura sua principal fonte de renda. Por fim, novos estudos em regiões próximas à REBIO precisam ser realizados, em vias de analisar a presença de defensivos químicos na água e nos substratos dos riachos e como os mesmos afetam a qualidade da água e a ictiofauna. Finalizando, não podemos simplesmente lamentar a perda da biodiversidade localmente. É preciso conceber ações práticas que levem a restauração dos ambientes de forma sustentável, beneficiando a vida silvestre e a qualidade de vida dos trabalhadores rurais. 34 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABELL, R., M. L.; THIEME, C.; REVENGA, M.; BRYER, M. KOTTELAT, N. BOGUTSKAYA, B. COAD, N. MANDRAK, S. C. BALDERAS, W. BUSSING, M. L. J. STIASSNY, P. SKELTON, G. R. ALLEN, P. UNMACK, A. NASEKA, R. NG, N. SINDORF, J. ROBERTSON, E. ARMIJO, J. V. HIGGINS, T. J. HEIBEL, E. WIKRAMANAYAKE, D. OLSON, H. L. LÓPEZ, R. E. REIS, J. G. LUNDBERG, M. H. SABAJ PÉREZ & P. PETRY. Freshwater ecoregions of the world: a new map of biogeographic units for freshwater biodiversity conservation. BioScience, v. 58, p. 403-414, 2008. ABILHOA, V., BRAGA, R. R., BORNATOWSKI, H., VITULE, J. R. S., 2011. Fishes of the Atlantic Rain Forest Streams: ecological patterns and conservation. pp. 259–282. In: GRILLO, O. 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MNRJ 51480; Moenkhausia vittata MNRJ 51453; Otothyris travassosi MNRJ 51485, MNRJ 51546 e MNRJ 51582; Phalloceros ocellatus MNRJ 51484 e MNRJ 51545; Pimelodella vittata MNRJ 51487; Poecilia vivipara MNRJ 51542; Rhamdia quelen MNRJ 51488. b. Coleção Zoológica Norte Capixaba da Universidade Federal do Espírito Santo (CZNC) – 16 lotes Astyanax sp. CZNC 3561, CZNC 3565 e CZNC 3569; Corydoras nattereri CZNC 3560; Geophagus brasiliensis CZNC 3556; Hoplias malabaricus CZNC 3555 e CZNC 3567; Hyphessobrycon bifasciatus CZNC 3563 e CZNC 3570; Hyphessobrycon sp. CZNC 3564 e CZNC 3568; Mimagoniates microlepis CZNC 3562 e CZNC 3566; Otothyris travassosi; CNZC 3558; Phalloceros ocellatus CZNC 3559; Poecilia vivipara CZNC 3557.