UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS MESTRADO EM LETRAS DAIANI PIGNATON SOUZA SILVA A LITERATURA NOS LIVROS DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II: um estudo de três coleções contemporâneas VITÓRIA 2017 DAIANI PIGNATON SOUZA SILVA A LITERATURA NOS LIVROS DIDÁTICOS DO ENSINO FUNDAMENTAL II: um estudo de três coleções contemporâneas Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho. Co-orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Amélia Dalvi. VITÓRIA 2017 Para Paloma Beatriz, com amor. Para mamãe, pela vida e seu (re) inventar. Para Maria Amélia, com admiração, afeto, carinho, gratidão e respeito. AGRADECIMENTOS Difícil dizer algo que exprima o sentimento de finalizar esta dissertação. É uma mistura de sensações, muita emoção e uma dose de nostalgia. Penso no quanto foi duro o processo de escrita, nas noites sem dormir, nos prazos, mas também o quanto cresci e amadureci nesse período, nos amigos que ganhei, nas gentilezas, no amor, ah, o amor! Ele sempre esteve presente, e hoje eu agradeço Àquele que primeiro me amou, que já sabia desde sempre que, a menina que brincava de dar aula rabiscando o muro de casa com cacos de tijolo, hoje escreveria uma dissertação. Obrigada, Deus. A Paloma Beatriz, minha filha, presente do mestrado, que deu ainda mais sentido a esta pesquisa, me motivando a lutar por uma sociedade menos desigual; A mamãe, pela vida, pelo apoio incondicional e por me emprestar sua força, quando eu pensei em desistir; A Maria Amélia, pela orientação humana, ética, justa, exemplar e por toda força e incentivo, sem os quais seria impraticável o sonho do mestrado; A Raimundo, pela generosidade e confiança; A Paulo, pelo companheirismo; A meu pai e minhas irmãs Hozana e Celeste, pelo incentivo e apoio com Paloma e por me escutarem, principalmente no processo de finalização da escrita; A minhas irmãs Valéria e Huquiméia e meu sobrinho Estevão, que entenderam a ausência de mamãe, que me auxiliava com Paloma, enquanto eu escrevia; Aos colegas do Grupo de Pesquisa Literatura e Educação, pelas contribuições e generosidade, que fazem minha caminhada acadêmica ser menos solitária, em especial a Arnon, Daiane Francis, Eudma, Héber, Lorena, Lucecleia e Mariana pelas leituras atentas e generosas que realizaram desta pesquisa; Aos colegas Caroline, Jéssica, Lucecléia, Lucimar e Taiga, da disciplina Literatura do Espírito Santo, por dividirem comigo a tarefa de cuidar de Paloma durante as aulas e por nos permitir momentos tão agradáveis; RESUMO Esta dissertação investiga quanti-qualitativamente, a partir de um estudo de conteúdo, a presença e o tratamento teórico-metodológico da Literatura em três coleções contemporâneas de Língua Portuguesa destinadas ao 6º e 7º anos do Ensino fundamental II, a saber, Português: Linguagens, Para Viver Juntos e A Aventura da Linguagem, avaliadas e aprovadas pelo PNLD 2014 e adotadas por escolas públicas. Mapeia os gêneros literários mais comuns, a presença de textos integrais ou de fragmentos e o modo como as obras didáticas propõem a abordagem pedagógica dos textos literários. Integra os estudos do Grupo de Pesquisa Literatura e Educação, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e está inserida na linha de pesquisa Literatura e Expressões da Alteridade (LEA), do Programa de Pós- Graduação em Letras (PPGL) da Ufes. Na revisão bibliográfica, constatamos que há certa carência de estudos com esse recorte específico – e, no entanto, o consideramos de grande relevância visto que o 6º e o 7º anos fazem a passagem entre os anos iniciais do Ensino Fundamental I e os últimos anos do Ensino fundamental II.Dialogando com Candido (1988), Leahy-Dios (2000) e Dalvi (2013a, 2013b), e também com os documentos oficiais Guia do PNLD 2011 e 2014 e PCN, e tomando como corpus seis volumes de livros didáticos contemporâneos de três coleções distintas, esta pesquisa se caracteriza como bibliográfico-documental e busca debater e investigar o lugar ocupado pela Literatura nos livros didáticos do Ensino fundamental II em face dos materiais didáticos que, em tese, deveriam garantir o Direito à Literatura e à Educação Literária no contexto da educação pública escolar brasileira. Palavras-chave: Literatura no Ensino fundamental; Ensino fundamental; Livro didático; Direito à Literatura; Educação Literária. ABSTRACT This dissertation quantitatively investigates, from a study of content, the presence and the theoretical-methodological treatment of Literature in three contemporary collections of Portuguese Language destined to the 6th and 7th years of Elementary Education II, namely Portuguese: Languages, To Live Together and The Adventure of Language, evaluated and approved by PNLD 2014 and adopted by public schools. It maps the most common literary genres, the presence of integral texts or fragments, and the way the didactic works propose the pedagogical approach of literary texts. He is a member of the Research Group of Literature and Education, Federal University of Espírito Santo (Ufes), and the Postgraduate Program in Literature (PPGL) of Ufes. In the bibliographic review, we find that there is a certain lack of studies with this specific cut - and yet, we consider it of great relevance since the 6th and 7th years make the transition between the initial years of Elementary School I and the last years of the Elementary education II. Dialoging with Candido (1988), Leahy-Dios (2000) and Dalvi (2013a, 2013b), and also with the official PNLD Guide documents 2011 and 2014 and PCN, and taking as corpus six volumes of contemporary textbooks from three different collections , This research is characterized as bibliographic-documentary and seeks to discuss and investigate the place occupied by Literature in the textbooks of Elementary School II in the face of teaching materials that, in theory, should guarantee the Right to Literature and Literary Education in the context of education Public school system. Keywords: Literature in Elementary School; Elementary School; Textbook; Right to Literature; Literary Education. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Página 24 – livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2009) ................. 43 Figura 2 - Página 132 – livro de 6º ano coleção Para Viver Juntos (2009) ............... 44 Figura 3 - Capa do livro Português: Linguagens – 6º ano ......................................... 57 Figura 4 - Capa do livro Português: Linguagens – 7º ano ......................................... 58 Figura 5 – Página 45 – livro de 6º ano coleção Português: Linguagens (2012) ........ 74 Figura 6 - Página 46 – livro de 6º ano coleção Português: Linguagens .................... 75 Figura 7 - Página 103 – livro de 6º ano coleção Português: Linguagens (2012) ....... 76 Figura 8 - Página 104 – livro de 6º ano coleção Português: Linguagens (2012) ....... 77 Figura 9 - Página 118 – livro de 6º ano coleção Português: Linguagens (2012) ....... 78 Figura 10 – Página 26 – livro de 7º ano coleção Português: Linguagens (2012) ...... 80 Figura 11 - Página 33 – livro de 7º ano coleção Português: Linguagens (2012) ...... 81 Figura 12 - Página 49 – livro de 7º ano coleção Português: Linguagens (2012) ....... 82 Figura 13 - Página 197 – livro de 7º ano coleção Português: Linguagens (2012) ..... 84 Figura 14 - Página 198 – livro de 7º ano coleção Português: Linguagens (2012) ..... 85 Figura 15 - Capa do livro de 6º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ..................... 87 Figura 16 - Capa do livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ..................... 88 Figura 17 - Página 96 – livro de 6º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ............ 107 Figura 18 - Página 101 – livro de 6º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 109 Figura 19 - Página 194 – livro de 6º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 111 Figura 20 - Página 214 – livro de 6º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 113 Figura 21 - Página 104 – livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 114 Figura 22 - Página 133 – livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 116 Figura 23 - Página 194 – livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 117 Figura 24 - Página 264 – livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 119 Figura 25 - Página 266 – livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2012) ........... 120 Figura 26 - Capa do livro de 6º ano A Aventura da Linguagem (2012) ................... 122 Figura 27 - Capa do livro de 7º ano A Aventura da Linguagem (2012) ................... 123 Figura 28 - Página 55 – livro de 6º ano coleção A Aventura da Linguagem (2012) 135 Figura 29 - Página 56 – livro de 6º ano coleção A Aventura da Linguagem (2012) 137 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Porcentagem de textos literários por gênero coleção Para Viver Juntos (2009) ............................................................................................................ 40 Gráfico 2 - Porcentagem de textos por formato – coleção Para Viver Juntos (2009) 41 Gráfico 3: Apropriação das obras literárias pelos livros de 6º e 7º anos da coleção 41 Gráfico 4 - Apropriação literária pelos exercícios – coleção Para Viver Juntos (2009) .................................................................................................................................. 45 Gráfico 5 - Generos Literários coleção Português: Linguagens (2012) ..................... 69 Gráfico 6 – Estrutura dos textos coleção Português: Linguagens (2012) .................. 70 Gráfico 7 - Modo de apropriação da coleção Português: Linguagens (2012) ........... 71 Gráfico 8 - Atividades de natureza literária coleção Português: Linguagens (2012) . 72 Gráfico 9 - Estrutura dos textos coleção Para Viver Juntos (2012) ......................... 103 Gráfico 10 - Gêneros literários coleção Para Viver Juntos (2012) ........................... 104 Gráfico 11 - Modo de apropriação coleção Para Viver Juntos (2012) ..................... 105 Gráfico 12 - Atividades de natureza literária coleção Para Viver Juntos (2012) ...... 106 Gráfico 13 - Estrutura dos textos coleção A Aventura da Linguagem (2012) .......... 131 Gráfico 14 - Gêneros literários coleção A Aventura da Linguagem (2012) ............. 132 Gráfico 15 - Modo de apropriação coleção A Aventura da Linguagem (2012) ........ 133 Gráfico 16 - Atividades de natureza literária coleção A Aventura da Linguagem (2012) ...................................................................................................................... 134 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Levantamento de dados realizado no livro de 6º ano da coleção Para Viver Juntos ............................................................................................................... 33 Quadro 2 - Levantamento de dados realizado no livro de 6º ano da coleção Para Viver Juntos ............................................................................................................... 37 Quadro 3 - Quadro Esquemático coleção Português: Linguagens (2012) ................ 61 Quadro 4 - Levantamento de dados realizado no livro de 6º ano da coleção Português: Linguagens (2012) .................................................................................. 62 Quadro 5 - Levantamento de dados realizado no livro de 7º ano da coleção Português: Linguagens (2012) .................................................................................. 65 Quadro 6 - Quadro Esquemático coleção Para Viver Juntos (2012) ......................... 90 Quadro 7 - Levantamento de dados realizado no livro de 6º ano da coleção Para Viver Juntos (2012) ................................................................................................... 91 Quadro 8 - Levantamento de dados realizado no livro de 7º ano da coleção Para Viver Juntos (2012) ................................................................................................... 98 Quadro 9 - Quadro Esquemático coleção A Aventura da Linguagem (2012) .......... 126 Quadro 10 - Levantamento de dados realizado no livro de 6º ano da coleção A Aventura da Linguagem (PNLD 2014) .................................................................... 127 Quadro 11 - Levantamento de dados realizado no livro de 7º ano da coleção A Aventura da Linguagem (PNLD 2014) .................................................................... 129 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior Biblioteca L.D. – Livro Didático Edufes – Editora da Universidade Federal do Espírito Santo FFCL - Faculdade de Ciências e Letras Araraquara-SP FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Emef – Escola Municipal de Ensino Fundamental PNLD - Programa Nacional do Livro Didático PUC-SP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Scielo - Scientific Electronic Library Online Ufes – Universidade Federal do Espírito Santo UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas USP - Universidade de São Paulo SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS ................................................................................... 11 1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE O LIVRO DIDÁTICO .................................. 18 1.1 O PRIMO POBRE DA LITERATURA .................................................................. 18 1.2 O DIREITO À LITERATURA NO PAPEL: O QUE DIZEM OS PCN E O PNLD... 20 1.3 CONTRIBUIÇÕES DAS PESQUISAS SOBRE LITERATURA NOS LIVROS DIDÁTICOS DE ENSINO FUNDAMENTAL .............................................................. 27 1.3.1 A PESQUISA ANTERIOR E SUAS CONTRIBUIÇÕES .................................. 32 2 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS ............................................... 47 3 APRESENTAÇÃO E SISTEMATIZAÇÃO DO CORPUS ...................................... 55 3.1 AS COLEÇÕES DIDÁTICAS............................................................................... 56 3.1.1 COLEÇÃO PORTUGUÊS: LINGUAGENS ...................................................... 57 3.1.2 COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS .................................................................. 87 3.1.3 COLEÇÃO A AVENTURA DA LINGUAGEM.................................................. 122 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 140 REFERÊNCIAS....................................................................................................... 144 ANEXOS ................................................................................................................. 148 11 CONSIDERAÇÕES INICIAIS Esta pesquisa visa a dar continuidade ao nosso trabalho de conclusão de curso (TCC), apresentado ao Colegiado de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) no ano 2013, intitulado A Literatura no Livro Didático de Ensino Fundamental: a coleção Para Viver Juntos (6º e 7º anos), que buscou mapear o lugar ocupado pela Literatura nos livros de 6º e 7º anos da coleção Para Viver Juntos (2009), aprovada pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2011, e identificar como se apropriavam dessa coleção didática as escolas, professores e alunos, representados pela Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professor Luiz Baptista, localizada em um bairro periférico do município de Serra/ES. Naquele momento fomos movidos pela escolha do 6º e 7º anos, por observar que estas séries são pouco contempladas em pesquisas da área, conforme dados produzidos na revisão bibliográfica de nosso TCC, e por estarmos inseridos em ambiente escolar e notarmos a carência do trabalho com a Literatura a ser desenvolvido nessas séries, que são marcos divisores, ao passo que constituem a passagem do Ensino Fundamental I para o Ensino fundamental II. Os dados produzidos por nós a partir da coleção Para Viver Juntos (2009) nos demonstraram que a Literatura vem sendo esvaziada, pouco trabalhada com o auxílio do material didático disposto na coleção, e obteve lugar de desprestígio, destoando do que propõe o Guia do PNLD 2011 e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), o que nos motivou a prosseguir com a pesquisa, visando aprofundar nossos estudos, dar visibilidade e atrair olhares acadêmicos à base de nossa formação, o ensino fundamental II. Ressaltamos que, por recorrentes vezes, apresentaremos aqui os dados obtidos por nós em nosso TCC, sempre creditando as informações, a fim de exemplificar e de confrontar os dados obtidos, estabelecendo um diálogo com coleções aprovadas no PNLD 2014 e com seu respectivo edital. 12 Como objetivo geral deste trabalho, esperamos conhecer o tratamento didático dispensado à Literatura pelas coleções Português: Linguagens (2012), Para Viver Juntos (2012) e A Aventura da Linguagem (2012), especificamente nos volumes de 6º e 7º anos aprovados pelo PNLD 2014. No curso do trabalho, os objetivos específicos são: a) traçar um perfil das coleções em pauta, detectando suas concepções de ensino-aprendizagem e Literatura, especificamente; b) problematizar o conteúdo trabalhado, a fim de ressaltar o lugar ocupado pela Literatura nas coleções estudadas; c) entender os rumos e possibilidades da Educação Literária a partir do uso dos livros didáticos estudados e a inserção e problematização da Literatura como direito humano incompressível, ideia defendida por CANDIDO (1988), em contraponto com as coleções estudadas. Destacamos que trabalharemos com a coleção mais adotada1 pelas escolas de Ensino fundamental II no edital 2014 do PNLD, Português: Linguagens (2012), de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, com a coleção intermediária, ou seja, aquela que, dentre todas, foi mediana no processo de aquisição, Para Viver Juntos (2012), de Cibele Lopresti Costa, Eliane Gouvêa Lousada, Greta Marchetti, Jairo J. Batista Soares e Manuela Prado, e também com a menos adotada, A Aventura da Linguagem (2012), de Luiz Carlos Travaglia, Maura Alves de Freitas Rocha e Vania Maria Bernardes Arruda-Fernandes e, que esta simples informação já nos direciona a alguns questionamentos subsidiários em relação aos objetivos geral e específicos deste trabalho. Os problemas da edição 2011 PNLD, relacionados ao proposto no edital e ao que vem sendo trabalhado nos livros didáticos, se mantêm no edital 2014? Qual o lugar ocupado pela Literatura nos momentos de aprovação e escolha das coleções didáticas? 1 Dados referente à pesquisa realizada no portal do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), disponível em . Acesso em 03 jul. 2015 http://www.fnde.gov.br/component/k2/item/3010?Itemid=1296 13 Defendemos aqui não apenas o acesso, mas o Direito à Literatura2 (CANDIDO, 1988). Para que esse direito seja garantido, entendemos que a problematização acerca do ensino de Literatura, aqui pautado nos livros didáticos, seja continuamente instigada; por isso, optamos por uma pesquisa bibliográfico- documental (já que os livros didáticos são, em muitas escolas, os principais e primeiros meios de acesso à Literatura de que dispõem os alunos), delineando um paralelo com os documentos oficiais3 disponibilizados e viabilizados pelo Governo Federal, fomentador dos programas de acesso ao livro. Certamente, os livros didáticos são peças fundamentais na constituição das práticas de leitura das crianças. Sendo assim, ao mencionarmos os 6º e 7º anos do Ensino fundamental II, estamos priorizando um público que está, em sua maioria – quando pensamos em escolas públicas –, descobrindo a leitura literária desvinculada das práticas características da educação infantil e das séries iniciais do Ensino Fundamental I (notadamente, na alfabetização). Por ora, estamos explanando sobre um objeto de estudo já estigmatizado por alguns percalços conhecidos por nós, professores de Língua Portuguesa, como textos fragmentados, má utilização dos textos literários, pré-conceitos de estudiosos da Literatura, ausência de uma formação específica em didática da Literatura, dentre outros. Falar de livro didático é, sem dúvida paradigmal no atual cenário da educação, como nos afirma Maria Amélia Dalvi (2011, p. 185) em seu artigo “A poesia contemporânea em livros didáticos e a formação de leitores escolarizados: a trapaça institucionalizada”: O estudo dos livros didáticos é, pois, paradigmal em um tal contexto: seja por sua importância na economia da edição (no Brasil, constituem a maior parte da produção de nossos parques editoriais); seja por seu impacto social na organização das práticas de leitura, em um país em que seu principal polo irradiador é a escola – muito pouca gente neste país tem acesso a bens culturais impressos fora dos muros das instituições de ensino (CHOPPIN, 2004, p. 551). A despeito disso, os textos usados na escola e em particular os livros didáticos são desprestigiados tanto pelos cultores dos 2 Cf. CANDIDO, A. O direito à literatura. In: . Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1988. 3 Os documentos oficiais utilizados nesta pesquisa foram os PCN de Língua Portuguesa e os Guias do PNLD 2011 e 2014 e seus respectivos editais. 14 livros quanto pelos pesquisadores da história e da sociologia das práticas de leitura e escrita, bem como pelos estudos de Literatura e educação (BATISTA, 1999; BATISTA; ROJO, 2005) – justa exceção aos mais ou menos recentes trabalhos na perspectiva da nova História Cultural de matriz francesa, para os quais os objetos culturais e as agências de produção e difusão cultural (sistemas educativos, imprensa, meios de comunicação, organizações religiosas etc.) constituem legítimos territórios para as pesquisas (BARROS, 2005, p. 129-130). Desse modo, trabalhar com o ensino de leitura e Literatura (portanto, com a formação de leitores) no período contemporâneo no Brasil requer considerar: a) de um lado, a enorme quantidade de fontes e objetos de estudo possíveis, bem como a consequente variedade de práticas de leitura para que sinalizam; e b) de outro lado, considerar que os livros didáticos têm inegável importância na economia da edição e na organização das práticas de leitura levadas a turno pelo processo de escolarização formal. Dialogando com o exposto acima, afirmamos a pertinência deste trabalho que se sustenta em pilares de nossa educação (Ensino fundamental II) e manifesta-se como uma proposta de atrair olhares a este material relativamente pouco explorado pelos pesquisadores, o livro didático, que propõe um tratamento didatizado para o texto literário em contexto escolar. Para contribuir com o compromisso da Educação Literária, proposto por Cyana Leahy-Dios (2000), dialogaremos com a autora realizando um contraponto com nossos objetos de pesquisa, os livros didáticos. Essa educação emancipadora, mencionada como Educação Literária, é construtiva no nível pessoal e social, pois sabemos que, por meio da Literatura e de uma mediação adequada, é possível formar cidadãos, pois ela, a Literatura, humaniza e nos leva ao autoconhecimento, práticas importantes para uma atuação na sociedade. Dessa forma, acreditamos que potencializando as ações educativas, podemos fazer com que os alunos desfrutem da Literatura e de suas inquietantes facetas. Para desenvolver nossos argumentos, buscaremos nos apoiar em dados produzidos a partir da análise das três coleções didáticas, nas quais buscamos detectar as ocorrências literárias (autores, textos e gêneros), bem como as abordagens que são 15 feitas destas ocorrências, pois sabemos que, em muitas coleções didáticas 4 , a Literatura é apenas um suporte para o ensino de gramática e outros saberes distintos do saber literário, o que desconstrói a potência crítica de que dispõem os textos. A Literatura não é e não pode ser encarada como suporte para o ensino de gramática e linguística. O texto não pode ser encarado como pretexto, como já nos afirmou Lajolo (1988), mas sim, deve ser tomado sob a perspectiva do contexto (LAJOLO, 2008), na tentativa de ampliar suas possibilidades. Com vistas a compreender como três coleções didáticas selecionadas e distribuídas às escolas públicas pelo PNLD orientam/sugerem o trabalho com a Literatura nos 6º e 7º anos do Ensino Fundamental, levantaremos nas coleções A Aventura da Linguagem (2012), Para Viver Juntos (2012) e Português: Linguagens (2012), a frequência de gêneros literários, correlacionando-a com dados sobre a autoria e outros complementares. Em seguida, faremos uma análise mais detalhada das propostas de “trabalho literário” em cada ocorrência, ou seja, analisaremos quantitativamente e qualitativamente as abordagens literárias das coleções. A opção por essas coleções se deu por estarem elas inseridas em contexto econômico distinto, considerando que trabalharemos com a coleção mais adotada no edital do PLND 2014, Português: Linguagens; a intermediária, Para Viver Juntos; e a menos adotada, A Aventura da Linguagem, demonstrando como a Literatura é tratada em cada material. O levantamento de dados nesses livros vai nos direcionar ao modelo representativo de livro didático de Língua Portuguesa que está sendo utilizado na contemporaneidade brasileira, ou nas escolas públicas brasileiras, se considerarmos que referido edital atendeu as escolas públicas até dezembro de 2016, pois as 4 Em nosso TCC evidenciamos este dado, ao demonstrar que, na coleção Para Viver Juntos, aprovada no PNLD 2011, o uso de textos literários como suporte para o ensino de demais áreas é recorrente. 16 coleções adquiridas cumprem um ciclo trienal5 de uso. Em seguida, vamos observar como esses gêneros são tratados teórica e metodologicamente no processo de didatização e faremos um paralelo com os dados obtidos em nosso TCC, a fim de verificar as mudanças ocorridas nos livros disponibilizados nos editais 2011 e 2014 do PNLD e quais as implicações no cotidiano do leitor em fase escolar. Ao estruturarmos esta pesquisa, realizamos, primeiramente, uma revisão bibliográfica sobre o livro didático de Ensino fundamental II, onde buscamos em teses, dissertações e artigos dados que dialogassem com nossa pesquisa atual e também compilamos as contribuições teórico-metodológicas, onde, além dos referenciais teóricos utilizados, fizemos a caracterização da pesquisa. Em um segundo momento, procedemos com a exposição e análise do corpus desta dissertação, onde apresentamos os conteúdos e realizamos as análises de três coleções didáticas contemporâneas, com vistas a compreender o lugar ocupado pela literatura nas mesmas. Para tanto, o presente trabalho foi organizado em três capítulos. No primeiro capítulo, intitulado Revisão Bibliográfica Sobre o Livro Didático, procedemos com um panorama inicial acerca do livro didático e das questões mercadológicas ligadas a ele e realizamos uma explanação acerca dos documentos oficiais que regem a aquisição e distribuição de Livros Didáticos para as escolas públicas de Ensino fundamental II no Brasil. Realizamos também uma revisão bibliográfica nos bancos de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), Biblioteca Central da Ufes, Scientific Electronic Library Online (Scielo), Google e Domínio Público, teses e dissertações, sobre a temática Literatura no Livro Didático de Ensino fundamental II, no período compreendido entre 2005 e 2015, onde 5 O processo de escolha dos livros didáticos e as informações acerca da vida útil do material serão retomadas adiante. 17 obtivemos poucos resultados vinculados a mesma temática, e não encontramos nenhuma pesquisa de recorte similar à análise que propomos neste trabalho. Ainda no primeiro capítulo, retomamos nosso TCC, com vistas a demonstrar o trabalho desenvolvido anteriormente e suas possíveis contribuições para a pesquisa atual. O segundo capítulo, Contribuições Teórico-Metodológicas traz as contribuições teóricas de Candido (1988), sob a qual desenvolvemos a ideia do Direito à Literatura, a partir do Livros Didáticos de 6º e 7º anos, para os alunos do Ensino fundamental II, Dalvi (2013a), da qual nos utilizamos para desenvolver a ideia de “usos” da literatura em ambiente escolar, e Leahy-Dios (2000), de quem tomamos emprestada a ideia de Educação Literária, pois acreditamos que uma educação mais justa, menos desigual, e que busque a emancipação seja possível por meio da Literatura. Discorremos também acerca da metodologia utilizada na pesquisa, caracterizada como bibliográfico-documental, pois utilizamos fontes bibliográficas e documentos para sua composição, e quanti-qualitativa, pois além de empreender significação nos resultados numéricos obtidos, ou seja, na quantidade de textos trabalhados, também analisamos a forma de tratamento dispensada à Literatura nas coleções estudadas. No terceiro capítulo, intitulado Apresentação e Sistematização do Corpus, os Livros Didáticos são evidenciados e as coleções apresentadas e analisadas de acordo com as contribuições dos referenciais elencados para as análises, para, então procedermos às considerações finais. 18 1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA SOBRE O LIVRO DIDÁTICO A Literatura, enquanto área do conhecimento, ao chegar à escola, se torna “saber escolar”, e a forma com que a disseminação deste saber se propaga, determina o lugar ocupado pela Literatura para instituições e sociedade. Não há como evitar que a literatura, qualquer literatura, não só a literatura infantil e juvenil, ao se tornar “saber escolar”, se escolarize, e não se pode atribuir, em tese, […] conotação pejorativa a essa escolarização, inevitável e necessária; não se pode criticá-la, ou negá-la, porque isso significaria negar a própria escola […]. O que se pode criticar, o que se deve negar não é a escolarização da literatura, mas a inadequada, a errônea, a imprópria escolarização da literatura, que se traduz em sua deturpação, falsificação, distorção, como resultado de uma pedagogização ou uma didatização mal compreendidas que, ao transformar o literário em escolar, desfigura-o, falseia-o. (SOARES, apud COSSON, 2009, p. 19) O tratamento dado à Literatura em ambiente escolar, aqui pautado nos livros didáticos, por vezes, deturpa, desfigura e distorce o saber literário, transformando-o em saber escolar apenas, fato que descontrói toda experiência crítica de que dispõe a arte literária, caracterizando-se como uma escolarização imprópria da Literatura. 1.1 O PRIMO POBRE DA LITERATURA Protagonistas da relação dos alunos da rede pública com a leitura, os livros didáticos de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental têm por conteúdo programático o trabalho com a Literatura, gramática e linguística, elencados em quatro eixos, são eles: leitura, produção de texto, oralidade e conhecimentos linguísticos. O protagonismo do livro didático nas escolas é afirmado por Marisa Lajolo e Regina Zilberman no livro A Formação da Leitura no Brasil (2011), em que as autoras reúnem dados acerca da leitura literária: O livro didático talvez seja uma das modalidades mais antigas de expressão escrita, já que é uma das condições para o funcionamento da escola. Em certo sentido, pode-se considerar a Poética, de Aristóteles, um ancestral seu, já que resulta de notas das aulas ministradas pelo filósofo, em pleno século IV a.C. (LAJOLO; ZILBERMAN, 2011, p. 120) 19 Considerar a Poética, de Aristóteles, um precursor do livro didático, nos faz perceber o quanto o modelo desse material sofreu alterações. Para Lajolo e Zilberman (2011) a obra clássica, resultado de anotações das aulas que Aristóteles ministrava, é um ancestral dos livros didáticos contemporâneos, pois, à sua maneira, didatiza e compila conteúdos. É certo que para a universidade, ao falarmos em livro didático em uma pesquisa de pós-graduação, pode soar um tanto quanto estranho, pode parecer uma pesquisa “menor”, mas dialogar com esse material histórico nos faz compreender melhor as práticas escolares e voltar nossos olhos à base de nossa educação, o Ensino Fundamental. Diante dos editais lançados pelo Governo Federal e da oferta de editoras que se inscrevem buscando atender aos critérios exigidos, podemos afirmar que o livro didático, apesar de Primo-Pobre da Literatura, se tornou o Primo-Rico dos parques editoriais, como nos afirmam Lajolo e Zilberman (2011): Apesar do berço ilustre, contudo, o livro didático é o primo-pobre da Literatura, texto para ler e botar fora, descartável porque anacrônico: ou ele fica superado dados os progressos da ciência a que se refere ou o estudante o abandona, por avançar em sua educação. Sua história é das mais esquecidas e minimizadas, talvez porque os livros didáticos não são conservados, suplantando seu “prazo de validade”. Por outro lado, ele é o primo-rico das editoras: as primeiras e as mais antigas já o incluíam em seus catálogos, e as atuais e mais modernas sonham com dispor de um ou mais títulos adotados por professores, escolas ou Secretarias de Educação. A vendabilidade do didático é certa, conta com o apoio do sistema de ensino e o abrigo do Estado, é aceita por pais e educadores. (p.120, grifo nosso) Ao mencionarmos os livros didáticos de Língua Portuguesa do Ensino fundamental II, estamos falando de um material já estigmatizado, pouco produtivo e com concentração de estudos, na maioria dos volumes, pouco voltada à Literatura, por isso é o Primo Pobre, ou seja, aquele que, apesar da circulação em local de 20 prestígio – se considerarmos que a escola é o principal ambiente formal de educação – não tem prestígio algum. O que ocorre com os livros didáticos é, a nosso ver, uma inversão de valores. Dizemos inversão de valores retomando mais uma vez a alegoria dos Primos Pobre e Rico. A riqueza referida por Lajolo e Zilberman (2011) pode ser entendida a partir da riqueza gerada às editoras por esse material escolar. Em contraponto à riqueza material, podemos observar a pobreza de conteúdo com que os livros didáticos são elaborados, tornando-os Primo Pobre da Literatura por não ofertarem o desfrute e a inquietude literária em suas páginas, mas, sim, uma série de atividades com os textos, voltadas, em algumas coleções 6 , quase exclusivamente ao ensino de gramática. 1.2 O DIREITO À LITERATURA NO PAPEL: O QUE DIZEM OS PCN E O PNLD Os Parâmetros Curriculares Nacionais, compilados em 1998, buscam implementar um novo modelo curricular no Brasil. Essa reformulação visa a atender uma demanda social que preconiza a formação do sujeito crítico e atuante em sociedade, como afirma a nota de abertura desse documento, assinada pelo então Ministro da Educação e do Desporto, senhor Paulo Renato Souza: Os Parâmetros Curriculares Nacionais foram elaborados procurando, de um lado, respeitar diversidades regionais, culturais, políticas existentes no país e, de outro, considerar a necessidade de construir referências nacionais comuns ao processo educativo em todas as regiões brasileiras. Com isso, pretende-se criar condições, nas escolas, que permitam aos nossos jovens ter acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente elaborados e reconhecidos como necessários ao exercício da cidadania. (BRASIL, 1998, p. 5) 6 A título de exemplo, retomamos nosso TCC, desenvolvido com base em dados da coleção Para Viver Juntos (2009), aprovada no PNLD 2011, que identificou o trabalho desenvolvido com a literatura como insuficiente, minoritário, pois esta coleção possui sua concentração de estudos nos conteúdos linguísticos, conforme dados do Guia do PNLD 2011 e análise do modo de apropriação dos textos literários pelos livros didáticos de 6º e 7º anos, desenvolvida por nós em formato de tabela, e disponibilizado em gráficos. 21 Os PCN de Língua Portuguesa (terceiro e quarto ciclos)7 descrevem no decorrer de 107 páginas as práticas relativas ao ensino de Língua Portuguesa em sala de aula e traçam um paralelo entre o ensino e o que é esperado a partir desse documento, já que a proposta é de reformulação. A visão de que a escola tem papel decisivo na formação dos cidadãos é inquestionável e pode ser retomada a cada tópico nos quais se aplicam quesitos de trabalho em sala de aula com a Língua Portuguesa, visando à emancipação dos educandos. Os textos literários nesse documento aparecem como um teor singular, e o direcionamento ao tratamento da Literatura em sala de aula é afirmativo e, não deixa dúvidas quanto o lugar que a Literatura deve ocupar em sala de aula: O tratamento do texto literário oral ou escrito envolve o exercício de reconhecimento de singularidades e propriedades que matizam um tipo particular de uso da linguagem. É possível afastar uma série de equívocos que costumam estar presentes na escola em relação aos textos literários, ou seja, tomá-los como pretexto para o tratamento de questões outras (valores morais, tópicos gramaticais) que não aquelas que contribuem para a formação de leitores capazes de reconhecer as sutilezas, as particularidades, os sentidos, a extensão e a profundidade das construções literárias (BRASIL, 1998, p. 27, grifo nosso). O direito ao texto literário sem pretextos fica estabelecido nesse documento oficial datado de 1998. Mas será que esse direito é efetivo? Se considerarmos o trabalho desenvolvido pelas coleções didáticas analisadas por nós, não, pois os textos literários vêm sendo, na maioria das vezes, utilizado de forma errônea, descontextualizada, fazendo com que esse direito seja garantido apenas no papel. De acordo com os dados analisados por nós nos documentos PCN de Língua Portuguesa e Guia do PNLD podemos dizer que os direcionamentos do Ministério da Educação (MEC) para o ensino de Literatura são incongruentes, pois nos são 7 Atualmente não utilizamos o termo ciclo. A subdivisão das séries do Ensino Fundamental II é disposta em anos, que vão do 6º ao 9º ano. 22 apresentados dados discrepantes com relação ao conteúdo dos livros didáticos analisados nesta pesquisa. Como pode o PNLD admitir que o sistema de seleção de seus livros seja edificado na contramão dos PCN, um documento que deveria ser base para as ações que fazem frente à educação? Como podem passar pelos especialistas coleções que descontroem o sentido dos textos, esvaziando-os, preterindo-os, e anulando todo seu potencial literário? A resposta para tais inquietações nos pode ser dada se pensarmos no sistema mercadológico e na precarização da educação a serviço do Estado, como uma ferramenta de manutenção social, um Aparelho Ideológico de Estado, que, como mencionou Althusser (1970), promove o controle social por meio e a serviço de determinada ideologia. O Programa Nacional do Livro Didático “[...] tem por objetivo prover as escolas públicas de Ensino Fundamental e médio com livros didáticos e acervos de obras literárias, obras complementares e dicionários” (BRASIL, 201-?), sendo realizado trienalmente. Ao se encerrar cada ciclo, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) lança novos editais para abastecer o PNLD, com verbas exclusivamente federais, e estas obras e coleções didáticas, ao serem adquiridas, abastecem as escolas públicas de todo Brasil. Referente ao PNLD 2014, a somatória de investimentos realizada pelo Governo Federal está contabilizada no valor de R$ 202.968.901,27,8 com custo referente à aquisição e distribuição dos livros didáticos de todas as séries contempladas no edital. Vale lembrar que o maior investimento com livros didáticos por segmento de estudo, no total de R$ 88.570.010,26, foi destinado à compra de livros dos anos finais do Ensino Fundamental, o que representa um total de 75.657.959 exemplares 8 Dados referente à pesquisa realizada no portal do FNDE, disponível em . Acesso em 03 jul. 2015 http://www.fnde.gov.br/component/k2/item/3010?Itemid=1296 23 e cerca de 43,6% do valor total investido nesse PNLD, conforme dados do portal do FNDE: Tabela 1: Levantamento de dados realizado no portal do FNDE referente ao PNLD 2014 Fonte: Disponível em . Acesso em 03 jul. 2015 Voltando nosso olhar ao objeto de estudo evidenciado nessa pesquisa, o livro didático de Língua Portuguesa de Ensino fundamental II, vale salientar que a coleção Português Linguagens (2012) foi a mais adotada em todo Brasil, no edital de 2014 do PNLD, e soma o valor de R$ 11.091.312,509, referente à aquisição dos 1.688.888 (um milhão seiscentos e oitenta e oito mil, oitocentos e oitenta e oito) exemplares dos anos escolhidos em nosso recorte (6º e 7º anos do Ensino Fundamental). A segunda coleção estudada em nossa pesquisa, Para Viver Juntos (2012), foi de aquisição mediana, e, pertencente ao mesmo edital, custou o valor de R$ 3.047.128,26 referente à aquisição dos 356.567 (trezentos e cinquenta e seis mil, quinhentos e sessenta e sete) exemplares de 6º e 7º anos. 9 Dados referente à pesquisa realizada no portal do FNDE, disponível em . Acesso em 03 jul. 2015 http://www.fnde.gov.br/component/k2/item/3010?Itemid=1296 24 Por fim, temos a terceira coleção estudada, A Aventura da Linguagem (2012), adotada em menor medida entre as escolas públicas do país, com 62.666 (sessenta e dois mil, seiscentos sessenta e seis) exemplares de 6º e 7º anos adquiridos e distribuídos, somando o valor de R$ 835.798,26 referente à aquisição dos livros. Os quantitativos e valores demonstram que o Estado tem investido verba pública para a aquisição de materiais didáticos, e o Guia do PNLD, ao mencionar seus critérios para seleção das coleções, nos direciona ao entendimento de que as coleções adquiridas são o “modelo” adquirido pelas escolas: Das 23 coleções de Língua Portuguesa destinadas ao segundo segmento do EF que passaram pelo processo avaliatório no PNLD/2014, 11, ou seja, 47,82%, foram excluídas, enquanto 12 (ou 52,18%) foram aprovadas [...]. Cinco entre as 12 coleções aprovadas são reedições e já figuravam, com os mesmos títulos, no Guia de 2011. Entre propostas inéditas e reedições significativamente revistas e atualizadas, outras sete coleções aparecem pela primeira vez no Guia, perfazendo um significativo percentual de 58,33% de renovação. Novas, recentes ou já veteranas, as coleções do Guia 2014 trazem, em conjunto, inovações que aprofundam e diversificam o processo de adequação dos livros didáticos à virada pragmática no ensino da língua materna, responsável, há cerca de trinta anos, pelas grandes transformações que vêm ocorrendo tanto na concepção do que é uma disciplina como Língua Portuguesa quanto pelos métodos de ensino considerados adequados (BRASIL, 2013, p. 21). Inferimos ser pertinente uma comparação entre o trabalho literário que propõem os Guias do PNLD 2011 (p.20) e 2014 (p.16), com suas indicações de critérios e formas de avaliação das coleções didáticas aprovadas nesses editais. Vejamos o que o Guia do PNLD propõe: Considerando-se […] as recomendações expressas por diretrizes, orientações e parâmetros curriculares oficiais, o ensino de Língua Portuguesa, nos quatro últimos anos do novo EF, deve organizar-se de forma a garantir ao aluno […] a fruição estética e a apreciação crítica da produção literária associada à Língua Portuguesa, em especial a da Literatura brasileira. (BRASIL, 2010, 2013, grifo nosso) 25 Não houve modificação no texto dos dois editais (2011 e 2014) no que tange aos critérios de seleção das obras, e o ensino de Literatura, assim como a inserção de textos literários continua sendo cultivado. Defendemos aqui a importância dos textos literários para o crescimento pessoal de cada discente, para o processo de criticidade, de amadurecimento enquanto leitor. Mas sabemos que, para isso, é preciso mais do que simplesmente inserir em uma coleção didática, textos literários. Voltados para este foco, os PCN de Língua Portuguesa, dispõem em seu tópico Tratamento Didático dos Conteúdos (BRASIL, 1998, p. 65, grifo nosso): Há estreita relação entre o que e como ensinar: determinados objetivos só podem ser conquistados se os conteúdos tiverem tratamento didático específico. A questão não é apenas qual informação deve ser oferecida, mas, principalmente, que tipo de tratamento deve ser dado à informação que se oferece. A própria definição dos conteúdos já é, em si, uma questão didática que tem relação direta com os objetivos colocados. A problematização feita aqui é ligada ao tratamento dado às obras literárias nas coleções didáticas em estudo. A presença de obras representativas da Literatura não pode ser encarada como um dos critérios de seleção para as coleções no PNLD, mas, sim, o tratamento dado a essas obras. Os Guias estudados nos propõem ainda: O conjunto de textos que um LDP oferece para o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa deve justificar-se pela qualidade da experiência de leitura que possa propiciar ao aluno, contribuindo para a sua formação como leitor proficiente, inclusive como leitor literário. Uma coletânea deve, portanto: • estar isenta tanto de fragmentos sem unidade de sentido quanto de pseudotextos, redigidos com propósitos exclusivamente didáticos; • ser representativa da heterogeneidade própria da cultura da escrita – inclusive no que diz respeito a autoria, a registros, estilos e variedades (sociais e regionais) linguísticas do Português –, de forma a permitir ao aluno a percepção de semelhanças e diferenças entre tipos de textos e gêneros diversos, pertencentes a esferas socialmente mais significativas de uso da linguagem; • ser adequada – do ponto de vista da extensão, da temática e da complexidade linguística – ao nível de escolarização em jogo; 26 • incluir, de forma significativa e equilibrada, em relação aos demais, textos da tradição literária de Língua Portuguesa (especialmente os da Literatura brasileira); […] (BRASIL, 2010, p. 21; 2013, p. 17; grifo nosso) Dessa forma, observamos que a compreensão de que a leitura contribui para a formação do cidadão, em especial a leitura literária, está contemplada no documento, porém, houve uma falha ao colocar em prática o que dizem os documentos. Os Guias do PNLD 2011 e 2014 se assemelham nos conteúdos e direcionamentos acerca do que deve obter uma coleção para atender a demanda estipulada pelo FNDE, porém o edital do PNLD 2014 vem trazendo como atrativo e diferencial coleções didáticas com recursos multimídia. Duas das coleções analisadas por nós apresentaram conteúdo multimídia para professores e alunos, são elas: Português: Linguagens e Para Viver Juntos. No edital para aquisição dos livros referente ao PNLD 2014, lançado em 2011, alguns direcionamentos para inscrição e aprovação das obras com conteúdo multimídia (Tipo 2) são predispostos: [...] 3.3. Entende-se por conteúdo multimídia os temas curriculares tratados por meio de um conjunto de objetos educacionais digitais destinados ao processo de ensino e aprendizagem. Esses objetos devem ser apresentados nas categorias audiovisual, jogo eletrônico educativo, simulador e infográfico animado; ou congregar todas ou algumas dessas categorias no estilo hipermídia, devendo cada objeto ser identificável individualmente, armazenável em mídia e passível de disponibilização em ambiente virtual. [...] 3.4. Os conteúdos e atividades dos livros que compõem as coleções devem permitir, independentemente dos conteúdos multimídia, a efetivação autônoma e suficiente da proposta didático- pedagógica da coleção. 3.4.1. Os conteúdos multimídia deverão ser elaborados tendo em vista o uso tanto coletivo (em sala de aula, sob a orientação do professor) quanto o individual (fora de sala de aula). [...]3.5. Os objetos educacionais digitais contidos em cada conteúdo multimídia são complementares e devem estar articulados com o conteúdo dos volumes impressos, tanto no que diz respeito ao livro do aluno quanto ao manual do professor. 3.6. As coleções do Tipo 2 deverão indicar, no manual do professor e no livro do aluno, não só as funções reservadas aos conteúdos multimídia, mas ainda os momentos em que poderão ser utilizados em cada volume, unidade ou seção. 3.7. Os conteúdos multimídia devem primar pela diversidade de objetos interativos e de possibilidades de uso por parte do aluno e do professor. 3.8. Os conteúdos multimídia deverão ser armazenados em um DVD ROM e acompanhar cada volume da coleção, tanto o livro do aluno quanto o manual do professor, sendo considerado parte integrante da coleção. (BRASIL, 2011, p. 2, grifo nosso) 27 Sendo assim, as coleções com conteúdo multimídia são um atrativo a mais, mas não critério obrigatório neste edital. Vale frisar que não tivemos acesso ao material multimídia e nem analisamos seu conteúdo, pois materiais de natureza digital e acessória fogem ao proposto por essa pesquisa. 1.3 CONTRIBUIÇÕES DAS PESQUISAS SOBRE LITERATURA NOS LIVROS DIDÁTICOS DE ENSINO FUNDAMENTAL Ao iniciarmos nossa pesquisa, buscamos informações que dialogassem com nosso tema em dissertações, teses, livros e artigos, os quais nos acrescentaram informações e nos permitiu vislumbrar o panorama atual dos estudos voltados à Literatura nos livros didáticos do Ensino fundamental II. Em busca recente, realizada no mês de dezembro de 2015, nos bancos de dados da Capes, Biblioteca Central da Ufes, Scielo, Google e Domínio Público, poucos dos resultados obtidos por nós são voltados, notadamente, à investigação da Literatura nos livros didáticos de Ensino Fundamental nas séries aqui propostas (6º e 7º anos). Selecionamos os dados buscando dar prioridade aos trabalhos desenvolvidos entre os anos 2005 e 2015, por entendermos que, sob este filtro, poderíamos contemplar o panorama dos últimos dez anos de pesquisa na área, o que representa para nós, em nível de pesquisa, um mapeamento dos estudos contemporâneos acerca do Livro Didático de Ensino fundamental II. Os trabalhos aos quais tivemos acesso versam sobre as mais diversas temáticas envolvendo o livro didático, alguns estão ligados direta ou indiretamente ao nosso tema, mas convém ressaltar que nenhuma das pesquisas as quais tivemos acesso pelas referidas plataformas é similar ao recorte proposto neste trabalho. São poucas as pesquisas de pós-graduação que se debruçam sobre a temática da Literatura nos livros didáticos dos anos finais do Ensino Fundamental. Destacamos algumas e elencamos seus distanciamentos aproximações com nossa atual pesquisa: 28 A dissertação apresentada em 2005 ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá (PR), intitulada A leitura do texto literário e da imagem no livro didático de Ensino Fundamental, de autoria de Solange Bragato, na qual a autora trabalhou as possibilidades de ensino do texto literário no Ensino fundamental II, especificamente em livros de uma coleção didática de 7ª e 8ª séries, hoje oitavo e nono anos, e enfatizou o estudo das ilustrações e suas contribuições para entendimento dos textos literários. Este estudo busca compreender como as imagens podem auxiliar no entendimento dos textos literários, e como as práticas escolares, atravessadas pelos professores de Língua Portuguesa, contribuem para o norteamento de uma análise que vincule os mais variados tipos de texto se distanciando assim, de nossa atual pesquisa, por empreender significação nos textos a partir das ilustrações e pelo recorte das séries, que são as finais do Ensino fundamental II. Nossa dissertação busca dar ênfase ao tratamento dispensado aos textos literários de 6º e 7º anos, visando a um mapeamento de ocorrências e abordagens de textos literários e de como ocorre apropriação a partir das atividades relacionadas aos textos. Em A leitura nas classes populares: uma investigação na 5ª série do Ensino Fundamental, dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul no ano de 2007, de autoria de Tatiana Anflor, a autora discorre acerca da apropriação da Literatura pelos alunos da quinta série do Ensino Fundamental, hoje, 6º ano. Este trabalho se aproxima de nossa pesquisa por demonstrar a importância social da Literatura, de como ela pode nos transformar, nos humanizar, e assim, fazer com que estejamos mais ativos e atentos na sociedade. Anflor (2007) discorre em sua pesquisa sobre como o social, voltado ao poder aquisitivo, influencia no processo de leitura, demonstrando, a partir de entrevistas com alunos da quinta série de classes menos favorecidas, o lugar que essas crianças ocupam enquanto leitoras. O recorte que Tatiana Anflor utilizou, privilegiou a série hoje correspondente ao 6º do Ensino 29 Fundamental, e se difere de nosso recorte neste quesito, pois estudamos 6º e 7º anos e também por ser sua pesquisa de natureza teórica e prática, pois além da pesquisa bibliográfica, ela foi a campo, ao contrário de nós, que realizamos pesquisa bibliográfico-documental. Vale destacar, também, a pesquisa realizada por Beatriz Pinheiro Arraes, da qual resultou sua dissertação de mestrado: O cânone em movimento: um estudo da leitura de textos canônicos adaptados em livro didático do Ensino Fundamental, apresentada em 2007 ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá (PR), que investiga o uso de textos canônicos adaptados em livros didáticos do Ensino Fundamental I, mais precisamente a antiga quarta série, hoje quinto ano. Aproximando-se de nossa pesquisa, Arraes (2007) discorre acerca da importância da Literatura para os alunos do Ensino Fundamental I, discutindo acerca da pertinência da leitura de textos canônicos por alunos e professores da quarta série (atualmente denominada quinto ano) e da contribuição destes para a criação de uma memória cultural, que deve ser/estar disseminada no país. Apesar das pontos convergentes, nossa pesquisa se distancia da dissertação de Arraes (2007), pois nosso foco é a Literatura em três coleções didáticas de 6º e 7º anos contemplados pelos editais 2011 e 2014 do PNLD, e ela prioriza o trabalho com cânones da Literatura e adaptações realizadas destes em materiais didáticos de uma escola da rede privada de ensino e também vai a campo, dando caráter diferenciado do que propomos em nossa dissertação. Tomando por base o livro didático, temos a tese de doutorado de Maria Amélia Dalvi, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Ufes, em setembro de 2010, e publicada em 2011 sob o título Drummond: a invenção de um poeta nacional pelo livro didático, pela Editora da Universidade Federal do Espírito Santo (Edufes). Nesse trabalho, a autora constrói um “percurso” do livro didático, 30 chegando à principal ideia contemplada na tese, que seria demonstrar as abordagens e invenções de Carlos Drummond de Andrade pelos livros didáticos estudados por ela. Em sua tese, Dalvi (2010) faz análise de livros didáticos de ensino médio, e fala da “invenção” de um Drummond, com recorte mais restrito, diferenciando-se de nossa pesquisa, pois, além do nível de ensino ser diferente, nossa dissertação busca levar ao entendimento mais difuso de como a Literatura é trabalhada no Ensino fundamental II por meio do livro didático e de como as políticas públicas, aqui representadas pelos PCN e PNLD, contribuem para isso. A dissertação de Héber Ferreira de Souza, Apropriações do livro didático de Literatura: um diálogo com professores e alunos, apresentada no ano de 2015 ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Ufes, onde são discutidas práticas do ensino de Literatura com base nos livros didáticos de ensino médio em escolas públicas da cidade de Cariacica/ES, também vai ao encontro do que propomos em nosso trabalho, pois problematiza o ensino de Literatura a partir do livro didático de Língua Portuguesa. Na dissertação, Héber Ferreira de Souza tece contrapontos entre o livro didático em uso no ensino médio e as práticas escolares, pois além de pesquisa bibliográfico- documental, ele também vai a campo, diferindo de nosso recorte, pois além das séries cotejadas serem diferentes, nosso trabalho não investiga as práticas. O artigo intitulado Literatura nos livros didáticos de ensino médio: as pesquisas de pós-graduação, de autoria de Maria Amélia Dalvi, publicado pela Revista Eutomia em 2013, buscou verificar no banco de teses e dissertações da Capes, as pesquisas que, entre os anos 2001 e 2011, se debruçam sobre a temática Literatura nos livros didáticos. Buscando identificar o lugar que a Literatura nos livros didáticos vem ocupando nas produções acadêmicas contemporâneas, este artigo dialoga com 31 nossa dissertação, pois sua autora nos afirma que poucas são as pesquisas que se dedicam à temática. Em trabalho intitulado A Literatura no livro didático de Ensino Fundamental: a coleção Para Viver Juntos (6º e 7º anos), apresentado em 2013 ao Colegiado de Letras da Ufes, discorremos acerca do que vem sendo mencionado aqui: o desprestígio da Literatura nos livros de séries finais do Ensino Fundamental. Nesse estudo, pudemos ter uma ideia inicial sobre os “novos rumos” dos textos literários nos livros da coleção estudada. Observamos que a Literatura vem sendo utilizada como suporte à gramática, e que os textos trabalhados com vistas a compreender os “fenômenos” literários são, em sua maioria, poemas, nos quais os trabalhos realizados pelos autores da coleção giram em torno do eu-lírico. Estes estudos demonstram os rumos distintos que as pesquisas sobre Literatura nos livros didáticos vêm tomando. Dessa forma, este trabalho se justifica pelo compromisso de contribuir e consolidar as investigações acerca do trabalho com a Literatura nos livros didáticos (ocorrências e abordagens), pouco trabalhada até o momento, conforme demonstramos anteriormente, e também por entendermos que a Literatura é um direito humano inalienável e incompressível. O presente trabalho se diferencia dos estudos citados acima, por conectar dados de dois editais do PNLD (2011 e 2014) e por tratar das abordagens e ocorrências literárias em três coleções didáticas aprovadas pelo PNLD 2014, a primeira, Português: Linguagens, de autoria de Thereza Anália Cochar Magalhães e William Roberto Cereja, publicado pela Saraiva Livreiros Editores, a segunda, Para Viver Juntos, organizada por Greta Marchetti, Cibele Lopresti Costa, Jairo J. Batista Soares e Márcia Takeuchi, publicada pela Edições SM, a terceira, A Aventura da Linguagem, de Luiz Carlos Travaglia, Vania Maria B. A. Fernandes e Maura Alves de Freitas Rocha, publicada pela Editora Dimensão, todas de 6º e 7º anos do Ensino 32 Fundamental, sendo, respectivamente a mais adotada, uma intermediária, e a menos adotada de acordo com os índices divulgados pelo FNDE10. 1.3.1 A PESQUISA ANTERIOR E SUAS CONTRIBUIÇÕES Inferimos ser de suma importância retomar na pesquisa atual os dados obtidos por nós no TCC, haja vista que o material produzido naquele momento dialoga diretamente com nossa proposta atual. Em nosso TCC, intitulado A Literatura no livro didático de ensino fundamental: a coleção Para viver juntos (6º e 7º anos), buscamos mapear o lugar ocupado pela Literatura na coleção didática Para Viver Juntos (2009) e, também, o lugar que a Literatura ocupa/ocupou no processo de escolha das coleções didáticas, desde o PNLD até chegar à Emef Professor Luiz Baptista, localizada no município de Serra/ES, que nos abriu as portas naquela oportunidade. Inicialmente fizemos um levantamento de dados nos dois volumes estudados, onde pudemos constatar grande quantitativo de textos literários, 145 (cento e quarenta e cinco) no total. Reunimos em uma tabela as ocorrências literárias encontradas no decorrer das páginas dos volumes de 6º e 7º anos da coleção Para Viver Juntos (2009), aprovada no PNLD 2011, assim como os gêneros literários e o que denominamos “modo de apropriação pelo livro didático” onde mapeamos os textos fragmentados e não fragmentados e, também, a forma que o livro didático trabalha esses textos literários, buscando identificar o lugar ocupado pela Literatura na coleção estudada. Para exemplificar, inserimos abaixo os quadros elaboradas de acordo com os dados que produzimos a partir dos livros didáticos: 10 Dados referente à pesquisa realizada no portal do FNDE, disponível em . Acesso em 03 jul. 2015 http://www.fnde.gov.br/component/k2/item/3010?Itemid=1296 33 Quadro 1 - Levantamento de dados realizado no livro de 6º ano da coleção Para Viver Juntos (PNLD 2011) LIVRO DE 6º ANO DA COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS continua Página Identificação/autor Gênero Modo de apropriação pelo livro didático 12-14 Robinson Crusóe - Daniel Defoe Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 27 Paraíso - José Paulo Paes Poema Texto Integral/ Exercícios subjetivos 28-30 A Criatura - Laura Bergalio Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 40 No Trono - Thalita Rebouças Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 42 Água - Paulo Tatit e Arnaldo Antunes Canção Texto Integral/ Exercícios de grafia (X ou CH) 43 Pirata da perna de pau – Braguinha Canção Texto Integral/ Exercícios de fonemas 49 Capelinha de melão - sem indicação de autoria Canção Texto Integral/ Exercícios subjetivos 50-52 O marido da Mãe d'água Conto Texto Integral/Exercícios subjetivos 54 Sem indicação do nome da obra - Câmara Cascudo Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 55 A perigosa Yara - Clarice Lispector Lenda Texto Integral/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 60 Autor anônimo - Cuitelinho Canção Texto Integral/Exercícios de variação linguística 61 Patativa do Assaré - Vaca Estrela e Boi Fubá Canção Texto Integral/ Exercícios literários (eu lírico) 62 Trezentas Onças - João Simões Lopes Neto Conto Texto Integral/Exercícios de compreensão/Exercícios de variação linguística 64-66 A moça que pegou a serpente - Yves Pinguilly Conto Texto Integral/Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 72 A História, mais ou menos – Luis Fernando Veríssimo Crônica Texto Fragmentado/Utilizado para explicar variação linguística. 76 Virando-se com os vírus - Ziraldo Texto Paradidático Texto Fragmentado/Exercícios de variação linguística 77 Carta a uma senhora - Carlos Drummond de Andrade Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de variação linguística 80 As mina de Sampa - Rita Lee e Roberto de Carvalho Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de variação linguística 34 LIVRO DE 6º ANO DA COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS continuação Página Identificação/autor Gênero Modo de apropriação pelo livro didático 94 Diariamente - Nando Reis Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 96 Mistério de amor – José Paulo Paes Poema Texto Integral/ Utilizado para explicar substantivo 98 Imagem - Arnaldo Antunes e Périicles Cavalcanti Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 99 Aquarela - Toquinho, M. Fabrizio, G. Morra e Vinícius de Moraes Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 100 Circuito fechado - Ricardo Ramos Conto Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 101 Cidadezinha qualquer - Carlos Drummond de Andrade Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 101 O elefantinho - Vinícius de Moraes Poema Texto Integral/ Exercícios de compreensão e literários (eu lírico) 111 Letrinhas de jornais - Mallu Magalhães Canção Texto Fragmentado/ Utilizado para explicar substantivo. 111 Boa de garfo - Luiz Vilela Conto Texto Fragmentado/ Utilizado para explicar substantivo. 132 Canção de junto do berço - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 133 Anarquistas, graças a Deus - Zélia Gattai Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 134 As formigas - Lygia Fagundes Telles Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 142 Caixa mágica de surpresa - Elias José Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 144 Continho - Paulo Mendes Campos Crônica Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 145 Telegrama - Zeca Baleiro Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 146 Mundo novo, vida nova - Luís Gonzaga Júnior Canção Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 147 XXIII - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 150 Voo triste e voo alegre – Cyro de Mattos Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 150 Um homem de consciência - Monteiro Lobato Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 162 Carta de Pero Vaz de Caminha (linguagem atualizada) Híbrido Texto Fragmentado/ Exercícios compreensão de texto com respostas subjetivas 181 O que se diz - Carlos Drummond de Andrade Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 35 LIVRO DE 6º ANO DA COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS continuação Página Identificação/autor Gênero Modo de apropriação pelo livro didático 181 Diálogo ultrarrápido - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 181 Que nome! - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 184 O pinguim - Vinícius de Moraes Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 189 A porta - Vinícius de Moraes Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de interpretação literária 190-192 O poeta aprendiz - Vinícius de Moraes Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 194 Copos-de-leite - Lúcia pimentel Góes Poema Texto Integral/ Exercícios literários (eu lírico) 194 Da irresistível beleza - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de interpretação com respostas ao nível do texto 194 Uma estrela - Almir Correia Poema Texto Integral/ Exercícios de interpretação com respostas ao nível do texto 195 Noturno - Guilherme de Almeida Poema Texto Integral/ Exercícios literários (rima) 196 Relógio - Oswald de Andrade Poema Texto Integral/ Exercícios literários (sonoridade) 197 Libertação - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Utilizado para explicar onomatopéia 197 O leão - Vinícius de Moraes Poema Texto Integral/ Utilizado para explicar comparação 200 Trilhares - Paulo Tatit e Edith Derdyk Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 203 Fico assim sem você Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 204 Fora de si - Arnaldo Antunes Canção Texto Integral/ Exercícios de variação linguística e literários (eu lírico) 205 Saudosa Maloca - Adoniran Barbosa Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de variação linguística e literários (eu lírico) 206 Ritmo - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de interpretação literária 207 A onda - Manuel Bandeira Poema Texto Integral/ Exercícios de interpretação literária 208 O relógio - Vinícius de Moraes Canção Texto Integral/ Exercícios de interpretação 208 Pedro Pedreiro - Chico Buarque Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de interpretação literária 214 Paulo Leminski Poema Texto Integral/ Exercícios de interpretação literária (eu lírico) 214 Hora do banho - Cláudio Thebas Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 215 Era uma vez - Lenice Gomes Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de interpretação literária (eu lírico) 36 LIVRO DE 6º ANO DA COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS conclusão Página Identificação/autor Gênero Modo de apropriação pelo livro didático 217 Fim de festa - Maria Dinorah Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de acentuação 218 Ela e eu - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de interpretação e literários (eu lírico) 230 Neologismo - Manuel Bandeira Poema Texto Integral/ Exercícios de formas verbais e literários (eu lírico) 233 Vem, morena vem - Jorge Benjor Canção Texto Fragmentado/ Utilizado para explicar verbos 233 Garota de Ipanema - Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim Canção Texto Fragmentado/ Utilizado para explicar verbos 235 Vassoural - Sylvia Orthof Poema Texto Fragmentado/ Exercícios classes de palavras 252 Minha mãe dizia - Paulo Leminski Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 252 Luz de lanterna, sopro de vento - Marina Colassanti Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 261 Hora de dormir - Fernando Sabino Crônica Texto Fragmentado/ Utilizado para explicar argumentação 266 Eu apenas queria que você soubesse - Gonzaguinha Canção Texto Fragmentado/ Utilizado para explicar verbos e exercícios de interpretação literária (eu lírico) 268 Tuas mãos - Roseana Murray Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 268 Do manual do perfeito cavaleiro - Mário Quintana Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 269 Da utilidade dos animais - Carlos Drummond de Andrade Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 279 A grande noite - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 279 Pura verdade - José Paulo Paes Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 284 Elizabete no Chuí - Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 290-292 Piratas sem piedade… - Suely Mendes Brazão Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 298 Infância - Carlos Drummond de Andrade Poema Texto Integral/ Exercícios linguísticos e literários (eu lírico) 300 Nasrudin - Regina Machado Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 301 Azul – Djavan Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras Fonte: Produção e sistematização de dados realizada pela autora. 37 Quadro 2 - Levantamento de dados realizado no livro de 7º ano da coleção Para Viver Juntos (PNLD 2011) LIVRO DE 7º ANO DA COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS continua Página Identificação/autor Gênero Modo de apropriação pelo livro didático 12-14 Não chore, papai - Sérgio Faraco Conto Texto Integral/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 18 A garota das laranjas - Jostein Gaarder Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 24 Esperança - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 25 A garota das laranjas - Jostein Gaarder Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 26-28 Um peixe - Luiz Vilela Conto Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários 38 Na chapada - Tetê Espíndola e Carlos Rennó Canção Texto Fragmentado/ Exercícios fonéticos 39 Chuva, suor e cerveja - Caetano Veloso Canção Texto Fragmentado/ Exercícios fonéticos 46-48 Prometeu - sem autoria definida Mito Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 50 A guerra dos botões - Louis Pergaud Romance Texto Fragmentado/ Exercícios literários (narrativa) 51 O mundo de Sofia - Jostein Gaarder Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 58 Astronauta - Gabriel o Pensador e Lulu Santos Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 59 Ela - Luis Fernando Veríssimo Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 60-62 Um impossível amor: as cataratas do Iguaçu - Leonardo Boff Lenda Texto Integral/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 70 Correção - José Paulo Paes Poema Texto Integral/ Utilizado para explicar pronomes 72 Malandragem - Cazuza e Roberto Frejat Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 74 Lua do Arpoador - Ivan Lins Canção Texto Integral/ Exercícios de acentuação 81 Sem indicação do nome da obra - Rubem Braga Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 82-83 O médico e o monstro - Paulo Mendes Campos Crônica Texto Integral/ Exercícios de compreensão e classes de palavras 92 Paisagens - Heloisa Seixas Crônica Texto Fragmentado/ Utilizado para explicar verbos 38 LIVRO DE 7º ANO DA COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS continuação Página Identificação/autor Gênero Modo de apropriação pelo livro didático 95 Alexandre e outros heróis - Graciliano Ramos Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 95 Menino de Asas - Homero Homem Novela Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 98-99 Pitangas - Ivan Ângelo Crônica Texto Integral/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 101 Aconteceu alguma coisa - Carlos Drummond de Andrade Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 108 Eu + Eu - Mário Manga e Gabriel Fernandes Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 112 Zabumba - Pedro Vieira Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de ortografia 114 História estranha - Luis Fernando Veríssimo Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 128 Correspondência - Millôr Fernandes Híbrido Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 133 Amar-amaro - Carlos Drummond de Andrade Poema Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 135 Condôminos - Fernando Sabino Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 147 Horóscopo - Carlos Drummond de Andrade Crônica Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 152 O ronco da peixarada - Rosana Zaidan Conto Texto Integral/ Exercícios de compreensão e variação linguística 175 O disfarce - Mário Quintana Prosa Poética Texto Integral/ Exercícios sobre oração (sujeito de predicado) 185 O fazedor de amanhecer - Manoel de Barros Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e compreensão 186 Convite - José Paulo Paes Poema Texto Integral/ Exercícios de compreensão e literários (eu lírico) 187 Lagoa - Carlos Drummond de Andrade Poema Texto Integral/ Exercícios de compreensão e literários (eu lírico) 189 Poema brasileiro - Ferreira Gullar Poema Texto Integral/ Exercícios de compreensão com respostas ao nível do texto 190 Aspiração - Alberto de Oliveira Poema Texto Fragmentado/ Execícios de compreensão com respostas ao nível do texto 194 Happy end - Cacaso Poema Texto Integral/ Utilizado para explicar sujeito simples, composto e desinencial 194 Os poemas - Mário Quintana Poema Texto Integral/ Utilizado para explicar sujeito simples, composto e desinencial 196 O urso e as abelhas – Esopo Fábula Texto Integral/ Exercícios sobre sujeito 197 Inútil - Roger Rocha Moreira Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 198 Rio: o ir - Arnaldo Antunes Poema Texto Integral/ Exercícios de compreensão e literários (eu lírico) 199 A primavera endoideceu - Sérgio Capparelli Poema Texto Integral/Exercícios de compreensão e literários (eu lírico) 39 LIVRO DE 7º ANO DA COLEÇÃO PARA VIVER JUNTOS conclusão Página Identificação/autor Gênero Modo de apropriação pelo livro didático 206 Sem casa - Roseana Murray Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 207 Tempestade - Henriqueta Lisboa Poema Texto Integral/ Exercícios de compreensão e literários (eu lírico) 207 Primeiros erros - Kiko Zambianchi Canção Texto Fragmentado/ Exercícios literários (eu lírico) 209 Alfabeto - José Paulo Paes Poema Texto Fragmentado/ Este exercício propõe a reescrita e continuação do poema 210 Cantando marinheiros - Sérgio Capparelli Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 210 São Pedro e São Paulo - Ruth Rocha Conto Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 225 Os desafios na adolescência - Vera Wrobel e Clélia E. de Oliveira Texto Paradidático Texto Integral/ Exercícios de compreensão e classes de palavras 234 Tableau! - Mário Quintana Conto Texto Integral/ Exercícios de compreensão e classes de palavras 235 A mulher de preto - Machado de Assis Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão e classes de palavras 241 A coruja e a águia – Esopo Fábula Texto Integral/ Exercícios com provérbios 254 O menino no espelho - Fernando Sabino Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de compreensão e classes de palavras 255 Pato-mergulhão - Lalau e Laurabeatriz Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários (rimas) 264 Hildinha - o coração de ouro - Millôr Fernandes Prosa Poética Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 266 A sombra e o brilho - Jack London Conto Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 267 As coisas - Arnaldo Antunes Poema Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras 268 Desce - Arnaldo Antunes Canção Texto Integral/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 276 Nossos netos não vão comer pastel - Jô Hallack, Nina Lemos e Raq Affonso Crônica Texto Integral/ Exercícios de compreensão de texto 281 É uma partida de futebol! - Samuel Rosa e Nando Reis Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras 283 Não vou me adaptar - Arnaldo Antunes Canção Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras e literários (eu lírico) 284 Dom Quixote - Miguel de Cervantes Romance Texto Fragmentado/ Exercícios de classes de palavras Fonte: Produção e sistematização de dados realizada pela autora. 40 Após a organização dos dados, mapeamos os gêneros literários e vale ressaltar que, dentre os cento e quarenta e cinco textos literários contidos nas duas unidades, em sua maioria, o trabalho é feito com poemas e canções, conforme gráfico abaixo: Gráfico 1 - Porcentagem de textos literários por gênero coleção Para Viver Juntos (2009) Fonte: Produção e sistematização de dados realizada pela autora. A predileção dos autores por esses gêneros literários nos direciona a inferir que, por questões de ordem editorial, esses gêneros foram os mais utilizados nas duas unidades da coleção estudada, visando, dentre outros motivos, a uma economia de espaço nas páginas dos livros (pois, na maioria dos casos, são textos curtos e/ou de “fácil” fragmentação), o que permite que ali sejam alocados outros textos e atividades. Notamos, ainda, que a maioria dos textos, cerca de 51%, são integrais, mas em contrapartida, temos 49% dos textos sendo dispostos de forma fragmentada, o que não possibilita um completo entendimento da obra por parte dos alunos: Poema 38% Romance 6% Crônica 11% Conto 13% Canção 24% Mito 1% Lenda 2% Novela 1% Texto Paradidático 1% Prosa Poética 1% Híbrido 1% Fábula 1% Porcentagem por Gênero Literário 41 Gráfico 2 - Porcentagem de textos por formato – coleção Para Viver Juntos (2009) Fonte: Produção e sistematização de dados realizada pela autora. A maioria dos textos literários dos livros estudados são utilizados como pretexto para atividades que, em sua maioria, estão relacionadas à linguística e sintaxe, deixando a desejar no que tange à área literária que, conforme demonstra o gráfico a seguir, ocupa apenas 22% do modo de apropriação das unidades de 6º e 7º anos: Gráfico 3: Apropriação das obras literárias pelos livros de 6º e 7º anos da coleção Para Viver Juntos (2009) Fonte: Produção e sistematização de dados realizada pela autora. Fragmentado: 71 ocorrências 49% Integral: 74 ocorrências 51% Formato dos Textos Exercícios de Compreensão Textual 22% Exercícios Linguísticos 48% Exercícios Literários 22% Explicação de Matéria 8% Modo de apropriação dos textos literários pelos livros didáticos analisados 42 A partir das informações contidas nos gráficos acima, podemos destacar o trabalho minoritário que é feito com a Literatura na coleção Para Viver Juntos (2009). Os textos literários contidos nesta coleção estão sendo, por vezes, mutilados, esvaziados de toda experiência que poderiam proporcionar enquanto Literatura. Outro dado importante é que, na maioria das vezes, os exercícios que se propõem a trabalhar questões literárias estão ligados à identificação do eu lírico nas canções e poemas estudados. O que foge a essa regra são os poucos exercícios ligados aos textos narrativos, que contemplam características das narrativas (espaço, tempo, personagens, enredo, etc.) e os exercícios ligados a alguns poemas, que tratam de rima e sonoridade. A título de exemplo, trouxemos duas páginas retiradas dos livros de 6º e 7º anos, onde o trabalho com a Literatura é feito de forma inconsistente. Os exercícios abaixo destacados são da classe de palavras substantivo, e utilizam o poema Esperança, de Mário Quintana, como suporte: 43 Figura 1 - Página 24 – livro de 7º ano coleção Para Viver Juntos (2009) Fonte: COSTA, C. L. et al, 2009, p. 24 – livro de 7º ano 44 Figura 2 - Página 132 – livro de 6º ano coleção Para Viver Juntos (2009) Fonte: COSTA, C. L. et al, 2009, p. 132 – livro de 6º ano 45 Inicialmente, podemos observar que esta página traz o título “Reflexão Linguística na Prática”, o que já direciona o aluno a uma prática linguística, fazendo uso de um texto literário, o poema Canção de Junto do Berço, de Mário Quintana. Os exercícios que seguem o texto trabalham adjetivos, e não propõem nenhuma reflexão literária, o que nos permite afirmar que o poema foi totalmente esvaziado de suas condições artísticas e críticas, visando a um saber, não menos importante, mas diferente do que se espera de um texto literário. Outro dado relevante é o uso que os livros da coleção fazem no que tange a apropriação literária dos textos literários. O gráfico abaixo demonstra que setenta e dois por cento dos exercícios literários tratam do eu lírico. Um verdadeiro descompasso referente à questão do ensino e apropriação das obras literárias: Gráfico 4 - Apropriação literária pelos exercícios – coleção Para Viver Juntos (2009) Fonte: Produção e sistematização de dados realizada pela autora. O que foge “a regra”, descrita acima, cerca de vinte e oito por cento dos exercícios, são as atividades ligadas a textos narrativos, que contemplam características das narrativas (espaço, tempo, personagens, enredo, etc.) e os exercícios ligados a alguns poemas, que tratam de rima e sonoridade. Outros exercícios de natureza literária 28% Eu Lírico 72% Exercícios literários e a apropriação literária 46 Atendendo ao Guia do PNLD 2011, que determina que deve ser garantida aos alunos a “apreciação crítica da produção literária associada à Língua Portuguesa, em especial a da Literatura brasileira” (BRASIL, 2010, p. 20), autores representativos da Literatura brasileira aparecem nos livros dessa coleção. Com destaque para Mário Quintana, Arnaldo Antunes e Vinícius de Moraes, que aparecem consideravelmente no decorrer das páginas dos volumes de 6º e 7º anos. De acordo com os dados produzidos, podemos dizer que a Literatura ocupa lugar de desprestígio nos livros didáticos estudados por nós. Nesta pesquisa, ainda inicial, pudemos constatar que os textos literários vêm apenas “cumprindo tabela” nos livros didáticos contemplados e estudados por nós, e que ela, a Literatura, está sendo esvaziada de todo teor crítico que possui. 47 2 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS Entendendo a Literatura como elemento essencial à vida, pois nela e por ela perpassam questões sociais e históricas, lançamos mão do texto O Direito à Literatura, de Antonio Candido, ao nosso ver, essencial para esse entendimento, e que nos motiva ao passo que sugere a Literatura como direito universal, equivalente aos demais direitos humanos, como moradia e alimentação. Movidos pela certeza do potencial crítico da Literatura, e por acreditarmos em sua capacidade de transformação do ser humano, concordamos com a explicação de Candido acerca da inclusão da Literatura como um direito: Por quê? Porque pensar em direitos humanos tem um pressuposto: reconhecer que aquilo que consideramos indispensável pra nós é também indispensável para o próximo. [...] Na verdade, a tendência mais funda é achar que os nossos direitos são mais urgentes que os do próximo. Nesse ponto as pessoas são frequentemente vítimas de uma curiosa obnubilação. Elas afirmam que o próximo tem direito, sem dúvida, a certos bens fundamentais, como casa, comida, instrução, saúde, coisas que ninguém bem formado admite hoje em dia que sejam privilégio de minorias, como são no Brasil. Mas será que pensam que o seu semelhante pobre teria direito a ler Dostoievski ou ouvir os quartetos de Beethoven? Apesar das boas intenções no outro setor, talvez isto não lhes passe pela cabeça. E não por mal, mas somente porque quando arrolam os seus direitos não estendem todos eles ao semelhante. Ora, o esforço para incluir o semelhante no mesmo elenco de bens que reivindicamos está na base da reflexão sobre os direitos humanos (CANDIDO, 1988, p. 172-173). Candido (1988) desenvolve em seu texto a ideia de que a Literatura nos organiza e nos liberta, e, ao fazer isso, nos humaniza. Ora, se ler Literatura nos torna mais humanos, nos faz perceber e sentir com mais clareza aquilo que nos enreda, nada mais justo do que concordar que ela deve ser – e é – um direito a ser reivindicado. Antonio Candido reivindica o Direito à Literatura em seu texto, e para o fazer, se apoia no ponto de vista do sociólogo francês Louis-Joseph Lebret, que distingue os bens compressíveis e os bens incompressíveis, “[...] isto é, os que não podem ser negados a ninguém” (CANDIDO, 1988, p. 173). 48 Apoiado em Lebret, Candido (1988) discorre sobre a incompressibilidade de alguns bens, elencando direitos, associando e aproximando sua fala aos direitos humanos: Certos bens são obviamente incompressíveis, como o alimento, a casa, a roupa. Outros são compressíveis, como os cosméticos, os enfeites, as roupas supérfluas. Mas a fronteira entre ambos é muitas vezes difícil de fixar [...] O fato é que cada época e cada cultura fixam os critérios de incompressibilidade, que estão ligados à divisão da sociedade em classes [...] Na classe média brasileira, os da minha idade ainda lembram o tempo em que se dizia que os empregados não tinham necessidade de sobremesa nem de folga aos domingos, porque não estando acostumados a isso, não sentiam falta... Portanto, é preciso ter critérios seguros para abordar o problema dos bens incompressíveis, seja do ponto de vista individual, seja do ponto de vista social. Do ponto de vista individual, é importante a consciência de cada um a respeito, [...] Do ponto de vista social é preciso haver leis específicas garantindo esse modo de ver. Por isso a luta pelos direitos humanos pressupõe a consideração de tais problemas, e chegando mais perto do tema eu lembraria que são bens incompressíveis não apenas os que asseguram a sobrevivência física em níveis decentes, mas os que garantem a integridade espiritual. São incompressíveis certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, porque não, à arte e à Literatura (CANDIDO, 1988, p. 173,174). Por ser a Literatura um bem imaterial, e estar ela inserida entre os direitos básicos, entre os fatos e acontecimentos quotidianos, podemos chamar de Literatura, segundo Antonio Candido (1988): [...] da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Vista deste modo a Literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma fabulação. (CANDIDO, 1988, p. 174) Se é impossível viver sem Literatura, se a Literatura faz parte da vida do ser humano e se nós, humanos, precisamos dela para nos confirmar como humanos, para nos humanizar, é preciso lançar mão da definição de humanização por Candido: Entendo aqui por humanização [...] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da 49 beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A Literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (CANDIDO, 1988, p. 180) A busca por uma sociedade igualitária, ou como propõe Antonio Candido (1988), menos desigual, deve ser constante. Ao conduzir o leitor por um vasto repertório, por lugares, sensações, sentimentos, a Literatura o proporciona, dentre outras experiências, estar no lugar do outro, e, assim, podemos compreender a complexidade de ser “cada um”, visitando e encarando o mundo, ainda que ficcional, pela ótica do outro, e isso nos torna mais sensíveis a tudo que nos enreda. A afirmação da Literatura enquanto direito humano corrobora com a ideia de um modelo de educação através da Literatura, a Educação Literária. E é em busca da garantia desse direito que nós estamos, pois, apesar de essencial para a vida, de ser imprescindível para a formação humana, ele vem sendo negado aos nossos alunos, que, por vezes, encontram no livro didático e na escola, os únicos meios de acesso à Literatura. Ao defendermos em nossa pesquisa o Direito à Literatura, estamos propondo, apoiados em Candido (1988), que os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental tenham acesso aos textos literários em sua totalidade, não apenas usufruindo destes como apoio e suporte para o ensino das demais matérias, como vem acontecendo na coleção estudada em nosso TCC, mas que a estes alunos seja permitida a humanização de que o crítico nos fala. A proposta de Cyana Leahy-Dios (2000) em seu livro Educação Literária como metáfora social: desvios e rumos, no qual a autora discorre, entre outros assuntos, sobre os rumos da Educação Literária, também nos motivou, pois acreditamos, assim como ela, que a Literatura pode mover pessoas e instigá-las a pensar de forma mais ampla: A Literatura não somente deve permanecer nos currículos escolares, mas lhe deve ser dado um papel mais central do que o atual, sem a tendenciosidade de gênero e classe social que cerca sua realização pedagógica. É a única matéria que pode oferecer alimento para os sentidos e emoções em simbiose com conscientização cultural, social e política, com 50 um aprendizado de prazer e autoconhecimento junto à aquisição de valores de participação política como sujeitos sociais […] A educação literária surge, assim, como uma metáfora para o entendimento individual e social, para uma inteligibilidade que pode ser educativa e prazerosa. (LEAHY-DIOS, 2000, p. 273) Ciente da complexidade do tema trabalhado por ela nesta obra, Leahy-Dios (2000) argumenta sobre os desafios impostos a esta “modalidade” de educação: Minha proposta não é simples. Para que atinja seu potencial, a educação literária precisa ser reconhecida como uma disciplina transformadora e poderosa por professores, alunos e professores de professores, por especialistas acadêmicos e legisladores educacionais. Creio que o primeiro passo a ser dado é o fortalecimento dos professores de Literatura com o conhecimento teórico e prático que a matéria exige, para que os programas atuais se tornem ricas fontes de problematização. (p. 277) Dessa forma, podemos afirmar como o fizemos na pesquisa anterior, que no modelo escolar atual, centrado em regras gramaticais e no ensino tecnicista, voltado ao mercado de trabalho, com proposições funcionais, não comporta a Educação Literária. É preciso reinventar as práticas escolares com a Literatura, tornando-a mais atraente e permitindo que os alunos desfrutem dela. É preciso partir dela – Literatura – para o ensino das demais disciplinas. No livro Leitura de Literatura na Escola, organizado por Maria Amélia Dalvi, Neide Luzia Rezende e Rita Jover-Faleiros, e com primeira edição publicada pela editora Parábola no ano de 2013, os textos, de estudiosos da área literária, perpassam as questões relacionadas ao ensino de Literatura na escola, com ênfase no leitor e buscando entender as facetas do processo de leitura literária. O artigo de Dalvi (2013), intitulado Literatura na escola: Propostas didático-metodológicas, em que a autora dialoga com o texto Teses sobre o ensino do texto literário na aula de português, de Vítor Manuel de Aguiar e Silva (1998), “alterando-as e atualizando-as” (DALVI, 2013, p. 67), sugere formas de trabalho com a Literatura em sala de aula, considerando as particularidades de cada leitor e revelando o lugar ocupado pela Literatura na escola: Partimos do princípio de que a Literatura, do modo como a estamos pensando (próxima, real, democratizada, efetivamente lida e discutida, 51 visceral, aberta, sujeita à crítica, à invenção, ao diálogo, ao pastiche, à leitura irônica e humorada, com manejo dos recursos – verbais, visuais, materiais e imateriais -, inserida no mundo da vida e em conjunto com as práticas culturais e comunitárias, sem medo dos julgamentos), nunca esteve no centro da formação escolar. Basta lembrar que, conforme Fonseca (2000), nos modelos tradicionais do ensino da língua materna, o texto literário tinha presença constante, mas erigido em exemplo, em objeto de admiração “por encomenda”, usado como modelo de boa linguagem, como veículo ideológico, como suporte temático e documental, como apoio ao ensino da história literária, como exercícios de análise gramatical – ou seja, uma utilização abusiva, burocrática, nada criativa ou crítica e, pior, uma instrumentalização inespecífica, que conferia ao texto literário uma presença sacralizada e, ao mesmo tempo, banal (DALVI, 2013a, p. 77, grifo nosso). Dalvi (2013a) nos mostra que a realidade escolar nunca contemplou a Educação Literária, e que a Literatura, aquela que faz pensar, que emancipa e humaniza, nunca ocupou papel central em ambiente escolar, dado preocupante se pensarmos que estamos seguindo na contramão do que nos sugeriu Antonio Candido (1988) em seu artigo O Direito à Literatura. A Literatura nos livros didáticos também foi tema de uma abordagem por parte de Dalvi (2013a), que pondera acerca da importância histórica dos livros didáticos e seus usos em ambiente escolar, e sobre o reflexo desse material na sociedade que o utiliza: Não se pode esquecer a complexidade do “manual escolar” ao se trabalhar com a literatura nos espaços e tempos escolares: instrumento iniciático da leitura para formação de coletividades; suporte privilegiado