UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS FISIOLÓGICAS MARCELO DI MARCELLO VALLADÃO LUGON EFEITOS DA MODULAÇÃO NICOTÍNICA SOBRE A NEUROPLASTICIDADE GLUTAMATÉRGICA EM HUMANOS VITÓRIA 2015 EFEITOS DA MODULAÇÃO NICOTÍNICA SOBRE A NEUROPLASTICIDADE GLUTAMATÉRGICA EM HUMANOS MARCELO DI MARCELLO VALLADÃO LUGON Orientadora: Profa Dra Ester Miyuki Nakamura-Palacios Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Ciências Fisiológicas. Área de Concentração: Neurociências e Farmacologia VITÓRIA 2015 EFEITOS DA MODULAÇÃO NICOTÍNICA SOBRE A NEUROPLASTICIDADE GLUTAMATÉRGICA EM HUMANOS MARCELO DI MARCELLO VALLADÃO LUGON Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Ciências Fisiológicas. Aprovada em 01/07/2015 por: ___________________________________________________________ Profª Drª Ester Miyuki Nakamura-Palacios - Orientadora – UFES ___________________________________________________________ Prof Dr Michael A. Nitsche – Uni-Goettingen ___________________________________________________________ Profª Drª Ângela Cristina do Valle – USP ___________________________________________________________ Prof Dr Luiz Carlos Schenberg - PPGCF – UFES ___________________________________________________________ Profª Drª Rita Gomes Wanderley Pires - PPGBF – UFES ___________________________________________________________ Profª Drª Ivanita Stefanon - Coordenadora do PPGCF – UFES AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE. Espaço reservado aos dados de catalogação na publicação Biblioteca Central da Universidade Federal do Espirito Santo “Esta tese é dedicada à minha avó Lia.” AGRADECIMENTOS À Universidade Federal do Espírito Santo por possibilitar a realização deste trabalho. À Professora Doutora Ester Miyuki Nakamura Palacios, minha tão estimada orientadora, pelos ensinamentos, conselhos, apoio e confiança em mim depositada proporcionando um grande crescimento pessoal e profissional. Sua orientação foi um presente. Ao Professor Doutor Michael A. Nitsche pela coorientação e por me receber em seu laboratório com tanta atenção e amizade. Obrigado por todo o conhecimento e oportunidade tão singular na minha vida. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, CAPES, pelo apoio financeiro, tão importante ao andamento e conclusão deste trabalho. À minha mãe pelo suporte e conselhos que me ajudaram muito em mais este ciclo da minha vida. À minha avó Lia, pelo amor incondicional e apoio. Mesmo distante seu amor e suas preces foram essenciais para me ajudar a seguir sempre em frente. Aos colegas de pós-graduação do Laboratório de Ciências Cognitivas e Neuropsicofarmacologia pela amizade e apoio. Aos colegas de pós-graduação do Laboratório de Neurologia de Goettingen pela amizade e apoio, que foram extremamente importantes para conseguir seguir com a minha jornada. Shane, Nathzidy, Asif e Giorgi, sem a ajuda de vocês este trabalho não seria concluído. À Monique, minha companheira nesta fase tão importante da minha vida, muito obrigado pelo seu apoio tão importante nos momentos mais difíceis. A todos aqueles que de alguma forma contribuíram para a elaboração deste trabalho, quero expressar o meu mais sincero e profundo agradecimento. "Às vezes é necessário dar um passo a trás para aumentar o campo de visão." (Hélio Magri Filho) http://kdfrases.com/frase/137977 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................. 15 1.1 Neuroplasticidade ....................................................................................................... 16 1.1.1 Plasticidade Sináptica e Modulação Glutamatérgica no Sistema Nervoso Central ...... 16 1.1.2 O Córtex Motor como Modelo para o Estudo da Plasticidade .................................... 19 1.1.3 Estimulação Elétrica no SNC: História do Uso da Corrente Elétrica ............................. 20 1.1.4 Estimulação Cerebral no Século XX ........................................................................... 22 1.1.5 Neuromodulação no Século XXI ................................................................................ 24 1.2 Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua ....................................................... 25 1.2.1 Mecanismos de Ação .............................................................................................. 25 1.2.2 Funções Motoras ..................................................................................................... 27 1.2.3 Aspectos Técnicos da ETCC ....................................................................................... 29 1.3 EMT ............................................................................................................................ 32 1.3.1 Mecanismos de Funcionamento e Ação .................................................................... 32 1.3.2 Aspectos Técnicos da EMT ........................................................................................ 35 1.4 Neuromoduladores ..................................................................................................... 37 1.4.1 Nicotina ................................................................................................................... 38 1.4.2 Dextrometorfano ..................................................................................................... 40 2. OBJETIVOS ...................................................................................................... 41 2.1 Objetivo Geral ............................................................................................................. 42 2.2 Objetivos Específicos ......................................................................................................... 42 3. MATERIAIS E MÉTODOS ................................................................................ 43 3.1 Sujeitos ....................................................................................................................... 44 3.2 ETCC ............................................................................................................................ 44 3.3 Monitoramento da Excitabilidade do Córtex Motor ...................................................... 44 3.4 Intervenção Farmacológica .......................................................................................... 45 3.5 Análise Estatística ........................................................................................................ 46 3.6 Procedimento Experimental ........................................................................................ 48 4. RESULTADOS .................................................................................................. 51 4.1 Características das Amostras e Análises Gerais ............................................................. 52 4.2 Efeito do DMO na Plasticidade Induzida pela ETCC ....................................................... 53 4.3 O Impacto da Nicotina na Plasticidade Induzida pela ETCC sob Influência do DMO ........ 56 4.4 Comparação entre a Nicotina e Diferentes Doses de DMO até 30 min Após a ETCC Anódica .................................................................................................................................. 58 5. DISCUSSÃO ..................................................................................................... 60 6. CONCLUSÕES ................................................................................................. 66 7. REFERÊNCIAS ................................................................................................. 68 8. ANEXO .............................................................................................................. 79 8.1 Manuscrito .................................................................................................................. 80 9 Lista de Tabelas Tabela 1. Médias das amplitudes dos MEPs ± SEM e as médias das intensidade de estimulação (porcentagem máxima de saída do estimulador, %MSO) ± SEM das linhas de base 1 e 2. 10 Lista de Ilustrações Figura 1. A entrada de cálcio através de receptores pós-sinápticos do tipo NMDA pode iniciar duas diferentes formas de plasticidade sináptica: potenciação de longo prazo (LTP) e depressão de longo prazo (LTD). Figura 2. Localização do córtex motor primário. Figura 3. Foto ilustrativa da técnica de Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) por meio de um par de eletrodos (catodo e anodo), conectados a um estimulador de corrente elétrica. Figura 4. Circuito elétrico básico do equipamento de ETCC. Figura 5. Representação das diferentes regiões cerebrais estimuladas por EMT aplicada na mesma posição, quando utilizadas bobinas de forma circular ou em forma de oito. Figura 6. Foto representativa da EMT. Figura 7. Fotografias representativas dos procedimentos. (A) sujeito acomodado confortavelmente em uma cadeira com encosto para os braços e a cabeça e com os eletrodos eletromiográficos colocados no MADM direito. (B) adesivo de nicotina/placebo aderido na parte superior do braço esquerdo. (C) aplicação da ETCC anódica; o aparelho para aplicação da ETCC, bem como da EMT podem ser vistos atrás à direita na foto. Figura 8. Curso do experimento. Figura 9. Efeitos do DMO, um antagonista de receptor NMDA, sobre a plasticidade facilitatória induzida pela ETCC. Figura 10. Efeito da nicotina e sua interação com diferentes doses de DMO sobre a neuroplasticidade induzida pela ETCC. Figura 11. Impacto da NIC e diferentes dosagens de DMO na plasticidade facilitatória induzida pela ETCC anódica para os MEPs obtidos até o intervalo de tempo de 30 min após a estimulação. 11 Lista de Abreviaturas e/ou Siglas % MSO porcentagem máxima de saída do estimulador MADM músculo abdutor do dedo mínimo direito AMPA ácido α-amino-3-hydróxi-5-metil-4-isoxazolepropionico ANOVA análise de variância AVC acidente vascular cerebral b1 linha de base 1 b2 linha de base 2 DMO dextrometorfano EEG eletroencefalograma EMT estimulação magnética transcraniana ETCC estimulação transcraniana por corrente contínua LTD Long-Term Depression LTP Long-Term Potentiation mAChR receptores colinérgicos muscarínicos MDSE manhã do dia seguinte ao experimento MEP potenciais motores evocados nAChRs receptores colinérgicos nicotínicos NE noite do experimento NIC nicotina NMDAR receptor N-metil-D-aspartato PAS estimulação associativa pareada PLC placebo SEM erro padrão da média SNC sistema nervoso central tDCS transcranial direct current stimulation 12 TDSE tarde do dia seguinte ao experimento TMS transcranial magnetic stimulation 13 Resumo A nicotina (NIC) altera as funções cognitivas modulando a neuroplasticidade e a excitabilidade cortical em animais e humanos. Como recentemente mostrado, a nicotina não apenas estabiliza, mas também influencia a formação da plasticidade glutamatérgica no córtex cerebral humano. Acredita-se que o efeito da NIC na plasticidade seja primariamente determinado pela ativação dos receptores nicotínicos permeáveis aos íons cálcio. A plasticidade glutamatérgica, que é cálcio- dependente, é provavelmente modulada pelo influxo de cálcio gerado pela ativação de receptores nicotínicos neuronais. Nós testamos essa hipótese na plasticidade de longo prazo induzida pela estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC), a qual é abolida por nicotina em indivíduos não fumantes e saudáveis, possivelmente devido a um sobrefluxo celular de cálcio. Nós aplicamos ETCC anódica em 13 indivíduos não fumantes, combinada com adesivos contendo 15 mg de nicotina e um bloqueador de receptor N-metil-D-aspartato (NMDAR), o dextrometorfano (DMO), em 3 diferentes doses (50, 100 and 150 mg) ou placebo. A excitabilidade corticoespinhal foi monitorada pelas amplitudes dos potenciais motores evocados (MEP) induzidos pela estimulação magnética transcraniana (EMT) até 36 h após a indução da plasticidade. A NIC suprimiu o aumento da excitabilidade do córtex motor induzido por ETCC anódica, que foi, entretanto, restituída sob a administração da dosagem média de DMO. Em contraste, a baixa dosagem de DMO não afetou o efeito da nicotina na plasticidade induzida por ETCC e a dose mais alta de DMO aboliu a plasticidade. Com a administraçao de apenas DMO, a dose mais baixa não teve efeito, mas as doses médias e altas aboliram a plasticidade induzida pela ETCC. Esses resultados aprimoraram nosso conhecimento sobre o sugerido impacto da nicotina, dependente de cálcio, na plasticidade e pode ser relevante para o desenvolvimento de novos tratamentos nicotínicos para a disfunção cognitiva. Palavras-chave: dextrometorfano, estimulação transcraniana por corrente contínua, neuroplasticidade, nicotina, receptores nicotínicos. 14 Abstract Nicotine (NIC) alters cognitive functions by modulating neuroplasticity and cortical excitability in animals and humans. It was recently shown that NIC can not only stabilize, but also disrupt formation of glutamatergic plasticity in the human cerebral cortex. The impact of NIC on plasticity is thought to be primarily determined via calcium channel properties of nicotinic receptor subtypes, and glutamatergic plasticity is likewise calcium-dependent. Therefore glutamatergic plasticity is likely modulated by the impact of nicotinic receptor-dependent neuronal calcium influx. We tested this hypothesis for transcranial direct current stimulation (tDCS) -induced long-term potentiation-like plasticity, which is abolished by nicotine in healthy non- smokers, possibly due to calcium overflow. To reduce calcium influx under NIC, we blocked NMDA receptors, which have calcium channel properties. We hypothesized that NMDA receptor block alone will prevent tDCS-induced plasticity, but should re- establish it under nicotine due to reduction of calcium influx. We applied anodal tDCS in 13 healthy non-smokers combined with 15 mg nicotine patches and the NMDA receptor antagonist dextromethorphan (DMO) in three different doses (50, 100 and 150 mg) or placebo medication. Corticospinal excitability was monitored by single-pulse transcranial magnetic stimulation (TMS)-induced motor evoked potential (MEP) amplitudes for up to 36 h after plasticity induction. NIC abolished the anodal tDCS-induced motor cortex excitability enhancement, which was however restituted under the medium dosage of DMO. In contrast, low-dosage DMO did not affect the impact of nicotine on tDCS-induced plasticity and high-dosage DMO abolished plasticity. For DMO alone, the low dosage had no effect, but medium and high dosages abolished tDCS-induced plasticity. These results enhance our knowledge about the proposed calcium-dependent impact of nicotine on plasticity and might be relevant for the development of novel nicotinic treatments for cognitive dysfunction. Keywords: dextromethorphan, neuroplasticity, nicotine, nicotinic receptors, transcranial direct current stimulation. 15 1. INTRODUÇÃO 16 1.1 Neuroplasticidade 1.1.1 Plasticidade Sináptica e Modulação Glutamatérgica no Sistema Nervoso Central Neuroplasticidade pode ser definida como qualquer alteração, duradoura ou mesmo permanente, das propriedades do sistema nervoso, quer sejam elas morfológicas ou funcionais, ao longo do desenvolvimento neuronal ou em resposta a mudanças fisiológicas, alterações do ambiente ou lesões (Donoghue 1995; Citri e Malenka 2008). A plasticidade funcional realizada por mudanças de longa duração no Sistema Nervoso Central (SNC), tal como a potenciação de longa duração (LTP – de Long-Term Potentiation) e a depressão de longa duração (LTD – de Long-Term Depression), é considerada um mecanismo de formação da memória e do aprendizado (Bliss e Collingridge 1993; Malenka e Bear 2004). Além disso, essa plasticidade está envolvida em doenças neuropsiquiátricas e processos de neuroreabilitação, como a reorganização das redes neurais na esquizofrenia e a reaprendizagem das funções motoras após o acidente vascular cerebral (AVC) (Cramer et al. 2011). A LTP e LTD são processos dependentes de cálcio e podem ser classicamente induzidas pelo influxo de cálcio através da ativação dos receptores N-metil-D- aspartato (NMDARs) (Malenka e Bear 2004). O NMDAR é um receptor ionotrópico ativado pelo ácido glutâmico (glutamato), com cinética relativamente lenta, permeável ao Ca2+, em adição ao Na+ e ao K+. O canal contém um sítio de ligação para o Mg2+ voltagem dependente, o que torna o canal inativo em repouso, sendo esse íon liberado por despolarização pós-sináptica (Novak 1984). Com a liberação do Mg2+, os NMDARs podem ser ativados pela ação combinada de duas moléculas de glutamato e duas moléculas do co-agonista glicina ou D-serina, permitindo o influxo de Ca2+. A elevada permeabilidade ao Ca2+ fornece aos NMDARs uma profunda significância fisiopatológica, pois ativa uma série de vias de sinalização intracelulares, com diversas consequências potenciais, incluindo a estabilização de conexões sinápticas, LTD ou LTP, necrose ou apoptose (Hardingham e Bading 2003). 17 A LTP e LTD têm sido as formas de plasticidade sináptica mais intensivamente investigadas, principalmente no hipocampo (Bliss e collingridge 1993; Thickbroom 2007) e no neocórtex (Feldman 2009). O principal fator que determina a direção da plasticidade em uma sinapse é a concentração de cálcio pós-sináptica (Lisman 2001). Baixas concentrações de cálcio pós-sinápticas resultam em LTD, enquanto que altas concentrações em LTP, e a uma concentração média não tem efeito algum na plasticidade, uma condição denominada de “terra de ninguém” por alguns autores (Cho et al. 2001; Lisman 2001). Concentrações de Ca2+ muito altas também podem resultar em nenhuma plasticidade devido à ativação de condutâncias hiperpolarizantes de potássio (Misonou et al. 2004). Baixa concentração de cálcio intracelular desencadeia uma cascata de reações intracelulares que conduzem à remoção de receptores AMPA (ácido α-amino-3-hydróxi-5-metil-4- isoxazolepropionico - receptores de glutamato do tipo não-NMDA) da membrana sináptica e enfraquecimento da conexão sináptica, resultando em LTD. Em contraste, o influxo elevado de cálcio nos neurônios resulta na ativação do mecanismo oposto, aumentando a inserção de receptores AMPA na membrana subsináptica, resultando em LTP (Cummings et al. 1996; Malenka e Bear 2004) (Fig. 1). Recentemente, protocolos de estimulação cerebral não-invasivos têm sido desenvolvidos, os quais permitem a geração de plasticidade do tipo LTP e LTD em seres humanos (Ziemann et al. 2008). A estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) induz plasticidade dependente do canal NMDA e de cálcio (Liebetanz et al. 2002; Nitsche et al. 2003b, 2004). A estimulação associativa pareada (PAS – de paired associative stimulation) é uma outra técnica, glutamatérgica e dependente de cálcio, de estimulação cerebral não invasiva, que induz a plasticidade mais focal com ativação combinada do córtex motor primário e aferentes somatossensoriais (Stefan et al. 2000; Wolters et al. 2003). O impacto do sistema colinérgico em ambos os tipos de plasticidade foi estudado nos últimos anos no córtex motor humano como sistema modelo. Explorar os mecanismos de neuroplasticidade em seres humanos é relevante para melhorar o nosso entendimento da fisiologia do cérebro na saúde e na doença, bem 18 como a compreensão da base neural da aprendizagem e o mecanismo da memória no homem. Figura 1. A entrada de cálcio através de receptores pós-sinápticos do tipo NMDA pode iniciar duas diferentes formas de plasticidade sináptica: potenciação de longo prazo (LTP) e depressão de longo prazo (LTD). LTP surge quando uma única sinapse é repetidamente estimulada. Essa estimulação inicia uma cascata celular dependente de cálcio e CaMKII, o que resulta na inserção de mais receptores AMPA na membrana pós-sináptica. Na próxima vez que glutamato for liberado a partir da célula pré-sináptica, irá ligar-se a ambos os receptores NMDA e recentemente inseridos AMPA, assim, despolarizando a membrana mais eficientemente. LTD ocorre quando algumas moléculas de glutamato se ligam a receptores NMDA na sinapse (devido a uma baixa taxa de disparo do neurônio pré- sináptico). O influxo de cálcio através de receptores NMDA inicia uma outra cascata dependente da proteína fosfatase 1 e calcineurina, o que resulta na endocitose dos receptores AMPA. Isso faz com que o neurônio pós-sináptico fique menos sensível ao glutamato liberado do neurônio pré-sináptico. (Adaptado de Hauser, L. 2013. Derived copy of Biology 102. OpenStax-CNX, 27 de maio de 2015. http://cnx.org/content/col11541/1.1/.) 19 1.1.2 O Córtex Motor como Modelo para o Estudo da Plasticidade O córtex motor primário (M1 ou área 4 de Brodmann) (Fig. 2) é uma região do cérebro humano localizada na porção posterior do lobo frontal, no giro pré-central. Ele funciona em associação com o córtex pré-motor, a área motora suplementar, o córtex parietal posterior e várias outras regiões subcorticais, para planejar e executar movimentos. O córtex motor primário é definido citoarquitetonicamente como a região do córtex que contém neurônios grandes, como as células Betz. Essas, junto com outros neurônios corticais, enviam axônios à medula espinhal para fazer sinapses com interneurônios ou diretamente com os neurônios motores alfa, que se conectam com os músculos (Pruszynski et al. 2007; Rioult-Pedotti et al. 1998b). Embora tenha sido considerado apenas como uma área de início dos movimentos, a plasticidade do córtex motor primário é bem documentada (Pascual-Leone et al. 2005), e, de acordo com estudos recentemente publicados, esta área é mais ativamente envolvida no aprendizado motor e na formação da memória do que se pensava (Rioult-Pedotti et al. 2000; Muellbacher et al. 2002; Nitsche et al. 2003b). Assim, essa região é bem adequada para o estudo da plasticidade e das interações fisiológicas cognitivas/comportamentais no cérebro humano. Além de as características anatômicas, fisiológicas e as propriedades funcionais serem bem conhecidas, o córtex motor é facilmente alcançado pela estimulação magnética transcraniana (EMT) ou pela ETCC por estar situado na superfície cerebral e os potenciais motores evocados (MEPs) são parâmetros facilmente monitorados para medidas de mudanças da excitabilidade cortical (Rothwell 1993; Ziemann 2004). 20 Figura 2. Localização do córtex motor primário. Localiza-se na primeira convulação do lobo frontal, anterior ao sulco central, sendo o córtex motor primário a principal fonte de projeções dos neurônios motores na medula espinhal e nervo cranial. Além disso, envia axônios à medula espinhal fazendo sinapses com interneurônios ou diretamente com os neurônios motores, os quais se conectam com os músculos. 1.1.3 Estimulação Elétrica no SNC: História do Uso da Corrente Elétrica Há relatos históricos do uso terapêutico da estimulação elétrica no cérebro, os quais remontam desde a antiguidade, época em que o homem ainda era incapaz de armazenar e descarregar energia elétrica de maneira segura e confiável. Scribonius Largus, médico do imperador romano Claudius (43-48 d.C.), descreveu a aplicação da descarga elétrica do “peixe-torpedo” para aliviar dores de cabeça em seu livro Compositiones Medicae (Piccolino 1998; Fregni et al. 2011). As descargas produzidas por esse peixe podem variar em torno de 50 V e o fato de esse peixe ser oriundo do mar e, portanto, apresentar solução salina no meio exterior, fazia com que o contato entre o animal e o paciente apresentasse baixa resistência à corrente. O número de peixes necessários para produzir um torpor inicial com subsequente alívio da dor variava entre os casos; a variabilidade individual e posterior resposta a um determinado tratamento já podia ser observada. 21 No século XVIII, ocorreu o desenvolvimento da pilha voltaica e, logo, a possibilidade de geração de eletricidade e seu uso de forma mais sistemática. Grande parte desse desenvolvimento se deu na Itália, tendo como personagens centrais Luigi Galvani e Alessandro Volta (Piccolino 1998; Fregni et al. 2011). Galvani, Professor da Universidade de Bolonha (Itália) e membro da Academia Delle Scienze, realizou diversos experimentos sobre eletricidade, sendo boa parte descritos em seu trabalho publicado em 1791: “De Viribus Electricitatis in Motu Musculari Commentarius”. Observações importantes foram realizadas em estudos com sapos, mas boa parte de suas interpretações seguiu em uma direção errada. A constatação de Galvani de que o contato de duas estruturas metálicas com o tecido muscular resultava em contração fez com que ele levantasse a hipótese da existência de uma eletricidade animal. A primeira observação foi acidental, um de seus assistentes tocou a ponta de um equipamento no nervo interno da coxa de uma rã e notou uma série de contrações. A partir disso, Galvani começou a alterar as condições experimentais chegando a considerar que as condições atmosféricas fossem capazes de interferir nas questões elétricas envolvidas. Galvani poderia ter seguido na direção de uma hipótese eletrolítica, entretanto ele acreditava existir uma eletricidade animal inerente (Piccolino 1998; Fregni et al. 2011). A hipótese de eletricidade animal foi calorosamente criticada por outro pesquisador italiano de seu tempo: Alessandro Giuseppe Antonio Anastasio Volta. Nascido em Como, na Itália, Volta lecionou Física na Universidade de Pávia. Ele replicou alguns dos estudos de Galvani, entretanto utilizando as mesmas composições metálicas nos dois eletrodos, mas nenhuma resposta com essa montagem foi observada. Segundo Volta, os resultados de Galvani eram dependentes do material utilizado nos eletrodos, e esses sim estavam gerando uma diferença de potencial entre os pólos e subsequente circulação de corrente elétrica – tratava-se de eletrodos metálicos dissimilares, o que gerava entre eles fluxo de elétrons; logo a conclusão seria que, em vez de eletricidade animal, a estrutura que sofria contração poderia ser considerada como um condutor de corrente. Volta seguiu adiante com essa ideia, culminando na elaboração da chamada pilha voltaica (Parent 2004). 22 O sobrinho de Galvani, Giovanni Aldini, dando continuidade aos trabalhos do tio, mas também considerando as colocações de Volta, realizou estudos importantes com a aplicação de eletricidade em seres humanos e forneceu elementos centrais para o desenvolvimento posterior de aspectos da fisiologia do Sistema Nervoso. Aldini aplicou corrente elétrica inicialmente em cadáveres, observando durante as aplicações, movimentos obviamente involuntários de membros, contrações de face, etc., tais demonstrações impressionaram seus contemporâneos. Além disso, fez ensaios de aplicação de corrente elétrica em pacientes sofrendo de melancolia encontrando resultados importantes nessa modalidade de tratamento. Entretanto, a carga aplicada, localização dos eletrodos, caracterização dos pacientes, entre outros fatores, não eram variáveis bem controladas nessa época (Parent 2004). 1.1.4 Estimulação Cerebral no Século XX Em contraste com o lento avanço no campo da estimulação cerebral nas primeiras três décadas do século XX, pode-se dizer que a neuromodulação sofreu uma revolução em meados desse século. Surpreendentemente, em apenas 40 anos alguns métodos de estimulação cerebral, tais como a eletroconvulsoterapia, foram descobertos, amplamente utilizados no mundo inteiro e logo rejeitados pela comunidade leiga e científica. Outros métodos, como a estimulação cerebral transcraniana por corrente contínua e alternada, começaram a ser estudados, porém foram ofuscados pelos avanços da psicofarmacologia (Goldring et al. 1950). A aplicação de estimulação por corrente contínua, dentro de um rigor metodológico mais apropriado, pode ser observada em uma série de estudos com animais ainda no século XX. Goldring e O’Leary (1950) apresentaram resultados de diversos experimentos realizados com coelhos. Em um desses experimentos, eles investigaram os efeitos da polarização superficial positiva no potencial de ação. Os autores verificaram que a polarização positiva aplicada na superfície do córtex resultou no desenvolvimento de descargas paroxísticas. Também verificaram que a intensidade da corrente necessária para isso variava de experimento para experimento, sendo encontrada no geral com correntes variando entre 1-3 mA após 23 polarização de 20-30 segundos. Também observaram uma duração do efeito após o término da estimulação variando de 1 a 2 minutos. Nos casos em que a corrente foi de 0,1-0,5 mA, nenhuma mudança foi observada (Goldring et al. 1950). Terzuolo e Bullock (1956) investigaram os efeitos da aplicação de corrente elétrica na modulação do disparo neuronal. Esses autores mediram os efeitos de estimulação catódica e anódica de células nervosas em crustáceos Cambarus clarkii e Panulirus interruptus. Ainda, verificaram aumento no disparo espontâneo após estimulação com corrente anódica e redução após catódica. Em um artigo de 1964, Purpura e McMurtry apresentaram resultados obtidos em um estudo com gatos, eles observaram, em células do trato piramidal, os efeitos no disparo espontâneo após aplicação de corrente contínua anódica ou catódica. A densidade de corrente aplicada variou de 30 a 400 µA/mm2. Não foi observada atividade convulsiva. Os autores verificaram aumento da atividade neuronal espontânea após passagem de corrente anódica e redução após catódica. Nas situações em que havia ausência de atividade espontânea, foi verificado que a estimulação anódica iniciou descargas fixas de frequência entre 10 e 30 Hz. Essas atividades cessaram quando a estimulação foi interrompida. No caso dos períodos de atividade espontânea de baixa frequência, a estimulação catódica abruptamente silenciou a atividade. Essa atividade reapareceu aproximadamente com a mesma frequência após a interrupção da estimulação com catodo. Os autores verificaram que a estimulação anódica produziu uma despolarização do corpo celular de neurônios piramidais; já a estimulação catódica gerou resultados opostos, produzindo uma hiperpolarização. A despolarização produzida pela polarização positiva inicia disparo, ou aumenta as descargas espontâneas das células piramidais. Além disso, a estimulação anódica inicia oscilações de membrana relativamente de alta frequência e baixa amplitude durante a despolarização (Purpura et al. 1964). 24 1.1.5 Neuromodulação no Século XXI No campo da estimulação cerebral não invasiva, observou-se, na última década, o ressurgimento da técnica da aplicação de correntes elétricas diretas, de baixa intensidade, através do crânio, sendo muito semelhante à polarização cerebral pesquisada em 1960 e 1970: trata-se da “estimulação transcraniana por corrente contínua”. Em 1998, Priori et al. relataram os efeitos da estimulação cerebral por corrente contínua na excitabilidade cortical de 15 voluntários saudáveis. Os pesquisadores utilizaram doses atualmente consideradas ínfimas de corrente elétrica (0,5 mA por menos de 1 minuto). Mesmo assim, foram capazes de demonstrar os efeitos neuromodulatórios da técnica. Em 2000, Nitsche e Paulus aprofundaram os achados do grupo de Priori em uma série de elegantes experimentos, demonstrando de maneira inequívoca que a estimulação cerebral por corrente contínua consegue alterar a excitabilidade cortical e que tais efeitos são dependentes dos parâmetros de aplicação, notadamente a polaridade elétrica – a estimulação anódica aumenta a excitabilidade cortical, enquanto a estimulação catódica diminui (Priori et al. 1998; Nitsche e Paulus 2000). A estimulação de certas áreas do córtex também é estudada para o tratamento da dor neuropática crônica há cerca de 20 anos. Essa técnica consiste na aplicação de eletrodos sobre o córtex motor, o que leva, por meio de uma série de mecanismos ainda não completamente elucidados, à diminuição dos sintomas dolorosos. Mais recentemente, foram realizados estudos testando a técnica para outras condições, tais como distúrbios do movimento, reabilitação pós-acidente vascular cerebral e doença de Parkinson (Liebetanz et al. 2002; Boggio et al. 2004; Boggio et al. 2005). 25 1.2 Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua 1.2.1 Mecanismos de Ação A ETCC (Fig. 3) é um processo contínuo de condução ôhmica, aplicada com correntes de intensidade constante, invariáveis com o tempo, com aumento gradual, apenas no início da estimulação, até o valor ideal (Wagner et al. 2007). A técnica de ETCC envolve a aplicação de correntes elétricas de baixa intensidade (0,5-2 mA), diretamente sobre o escalpo intacto, por um período pré-estipulado de tempo (5-30 min) (Priori 2003). A estimulação é fornecida por um par de eletrodos de 3,5 a 35 cm2, conectados a um estimulador que gera um campo elétrico indolor e modulador da atividade neuronal, de acordo com os parâmetros escolhidos na aplicação (Wagner et al. 2007; Brunoni el al 2012). Figura 3. Foto ilustrativa da técnica de Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) por meio de um par de eletrodos (catodo e anodo), conectados a um estimulador de corrente elétrica. Os eletrodos específicos para a ETCC podem ser encontrados comercialmente, mas esponjas cobertas com gel condutor ou embebidas com solução salina também podem ser utilizadas. No circuito elétrico uma fonte de corrente direta é colocada em 26 série com os eletrodos e um potenciômetro, a fim de ajustar a corrente constante (Wagner et al. 2007). A ETCC altera o potencial da membrana neuronal, polarizando-a, mas não é suficiente para provocar potenciais de ação. A ETCC catódica reduz as taxas de disparo neuronal espontâneo enquando a anódica tem o efeito oposto. A ETCC não induz potenciais de ação, apenas modula a atividade neuronal espontânea dependente da polaridade da corrente aplicada e do potencial de repouso da membrana neuronal, resultando em alterações imediatas nas taxas de disparo corticais. A estimulação promove alterações sustentadas na excitabilidade cortical por algumas horas após o término da estimulação, se a corrente for aplicada por pelo menos alguns minutos (Nitsche e Paulus 2000, 2001; Liebetanz et al. 2002; Nitsche et al. 2003a). Em 2002, Liebetanz et al. estudaram os efeitos da ETCC aplicada no córtex motor em condição anódica ou catódica e de que maneira a administração de bloqueador de canais de sódio dependentes de voltagem (carbamazepina) ou de antagonista de receptor NMDA (dextrometorfano) interferem nos efeitos observados. Como em outros estudos, os autores observaram que a ETCC anódica resultou em aumento da excitabilidade cortical e ETCC catódica em diminuição. Entretanto, a administração de dextrometorfano suprimiu os efeitos pós-estimulação, usualmente observados (Liebetanz et al. 2002). No ano seguinte, Nitsche et al. deram continuidade a esse estudo. Investigaram os efeitos da ETCC quando aplicada em conjunto com a carbamazepina ou o dextrometorfano, além de estudarem os efeitos da flunarizina, um bloqueador de canais de cálcio, observando a importância de outros canais iônicos nos mecanismos de ação da ETCC. A relação da ETCC com os canais de cálcio ficou em evidência após se verificar um aumento nos níveis de cálcio intracelular pós- estimulação anódica, além do que já era conhecida a participação do cálcio nos processos de liberação de neurotrasmissores. Já no caso de efeitos após a estimulação, os resultados em relação ao bloqueio de receptores NMDA foram para outra direção. O bloqueio desses receptores interferiu tanto no aumento da excitabilidade cortical quanto na redução promovida pela ETCC catódica. Os 27 autores consideraram que tais resultados mostravam a importância que esses receptores devem ter na promoção dos efeitos a longo prazo, principalmente quando se considera o crescente conhecimento sobre o envolvimento de receptores NMDA em mecanismos de plasticidade cortical, como potenciação ou depressão de longo prazo (Nitsche et al. 2003b). Já em 2004, Lang et al. investigaram os efeitos da ETCC anódica ou catódica quando aplicada em conjunto com a administração de D-Cicloserina, um agonista parcial de receptores NMDA. Os autores observaram uma potencialização dos efeitos de aumento da excitabilidade cortical induzida pela ETCC anódica. Considerando esses mecanismos de neuroplasticidade como centrais em processos de aprendizagem e memória, a ETCC aparece como uma interessante ferramenta de pesquisa nas áreas de neurociência e reabilitação neuropsicológica (Lang et al. 2004). 1.2.2 Funções Motoras Em 2000, Nitsche e Paulus iniciaram uma série de publicações a respeito da aplicação de ETCC no córtex motor. Eles investigaram os efeitos da ETCC na modulação da excitabilidade cortical e a sua mensuração se deu com a análise de potenciais motores evocados (MEPs) produzidos com o uso da EMT no córtex motor. Os autores verificaram aumento na excitabilidade após a ETCC anódica e diminuição após a ETCC catódica. Além disso, observaram que os efeitos não ficaram restritos ao momento da aplicação, durando até 5 minutos após a interrupção da aplicação da corrente. Por fim, a variação da intensidade de corrente e da duração da aplicação interferiram na variação da excitabilidade e da duração dos efeitos pós-estimulação (Nitsche e Paulus 2000). No ano seguinte, em 2001, os mesmos autores demonstraram a manutenção das mudanças de excitabilidade cortical produzidas pela estimulação mesmo após o seu término. Nesse estudo, os autores mostraram que a ETCC poderia produzir 28 aumento na excitabilidade cortical motora de aproximadamente 150%, com duração de até 90 minutos após o término da aplicação (Nitsche e Paulus 2001). Já em 2003, Liebetanz, Nitsche e Paulus investigaram o impacto da ETCC anódica em tarefa de tempo de reação envolvendo aprendizado motor implícito. Eles estimularam em momentos diferentes as áreas relativas ao córtex motor primário, pré-motor e pré-frontal. Esses pesquisadores observaram melhora no desempenho após a ETCC na área motora primária, mas não nas outras áreas. Com esse estudo, passou-se a considerar a possibilidade de inserção dessa técnica de estimulação em áreas de reabilitação e facilitação de aprendizado de funções motoras. Ainda no mesmo ano, investigaram o impacto da ETCC catódica como técnica de redução dos padrões de excitabilidade cortical. A estimulação foi na área M1 e a duração das aplicações variou entre cinco e nove minutos. Eles observaram que a ETCC catódica de 5 a 7 minutos resultou em redução da excitabilidade cortical com efeitos pós-estímulo de alguns minutos. Já a ETCC catódica de 9 minutos resultou também em redução da excitabilidade cortical, mas com duração de até uma hora após o término da aplicação. A importância desses resultados abriu a possibilidade do uso dessa técnica de estimulação como ferramenta terapêutica em disfunções que têm, entre suas características, padrões elevados de excitabilidade cortical como, por exemplo, epilepsia, enxaqueca e distonia (Nitsche et al. 2003a). Em 2005, Hummel et al. investigaram o impacto da ETCC no funcionamento motor de pacientes que sofreram AVC. Eles investigaram o desempenho motor da mão parética pelo teste de Jebsen-Taylor. A estimulação se deu pela aplicação do anodo em área motora primária do hemisfério lesionado e foi comparada com estimulação placebo. Como resultados, observaram que a ETCC anódica produziu um aumento significativo no desempenho motor de todos os pacientes. Além disso, através de estimulação magnética transcraniana, os autores investigaram o padrão de excitabilidade cortical verificando que o aumento no desempenho motor se correlacionou com um aumento na excitabilidade (Hummel et al. 2005). 29 Por fim, em 2006, Vines, Nair e Schlaug investigaram os efeitos da ETCC tanto no membro contralateral quanto no ipisilateral em relação ao hemisfério estimulado. Os autores aplicaram ETCC anódica ou catódica na área M1. Os resultados indicaram que a ETCC anódica facilitou o desempenho do membro contralateral e a ETCC catódica facilitou o desempenho do membro ipsilateral. Dessa forma, verificou-se que a estimulação cerebral pode ter seus efeitos pela aplicação direta na região motora investigada ou, também, por mecanismos indiretos via modulação da atividade da região homóloga do hemisfério oposto. Eles concluíram que tais resultados estão relacionados ao papel da inibição interhemisférica no funcionamento cortico-motor (Vines et al. 2006). 1.2.3 Aspectos Técnicos da ETCC 1.2.3.1 O Equipamento O equipamento utilizado para gerar corrente contínua é constituído basicamente por quatro componentes principais: eletrodos (anodo e catodo), amperímetro (medidor de intensidade de corrente elétrica), potenciômetro (componente que permite a manipulação da intensidade da corrente) e um jogo de baterias para gerar a corrente aplicada (Fig. 4). A fonte de energia elétrica é obtida através da associação em série de 3 baterias de 9 volts resultando em uma tensão total de 27 volts. Esta tensão é aplicada nos extremos de um potenciômetro (reostato) com resistência igual a 100 kOhms. A função do potenciômetro é de possibilitar uma tensão ajustável variando de 0 até 27 volts. Nota-se que a corrente flui no tecido do eletrodo positivo (anodo) ao negativo (catodo). Geralmente, a corrente contínua aplicada é de 0,5–2 mA e a duração da sessão é de 5-30 min. 30 Figura 4. Circuito elétrico básico do equipamento ETCC. 1.2.3.2 Parâmetros de Segurança na Aplicação da ETCC Até o presente momento, nenhuma pesquisa apresentou dados de efeitos colaterais produzidos pela ETCC (Brunoni et al. 2012; Fresnoza et al. 2014; Grundey et al. 2015; Batsikadze et al. 2015). Um ligeiro prurido sob o eletrodo, cefaléia transitória, fadiga e náuseas foram descritos em uma minoria de casos, sendo que a maioria desses efeitos não diferiu do placebo (Poreisz et al. 2007). Entretanto, critérios sobre a utilização de corrente contínua aplicada sobre o escalpe devem ser investigados e utilizados para garantir a segurança da aplicação (Nitsche et al. 2003c), tais como: 1) Intensidade de corrente aplicada: i (mA); 2) Duração da sessão de estimulação: t (seg); 3) Tamanho do eletrodo: A (cm2 ); 4) Densidade da corrente: i/A (mA/cm2 ); 5) Carga total aplicada: (i/A)*t. Segundo McCreery, no que tange à ETCC, um bom parâmetro para verificar a segurança da técnica é a densidade da corrente. Em estudos com animais, densidades da corrente inferiores a 25 mA/cm2 não são capazes de induzir lesões no tecido cerebral, mesmo quando aplicadas por horas e com freqüências altas. Nos 31 protocolos atuais de ETCC, o valor da densidade da corrente varia de 0,02857 (para i = 1 mA e eletrodo de 35 cm2 ) a 0,05714 (para i = 2 mA e eletrodo de 35 cm2) ficando, portanto, muito abaixo dos valores recomendados (875 e 437,5 vezes inferior, respectivamente). Além disso, em função dos protocolos também utilizarem a duração da sessão como variável, a carga total aplicada por sessão deve ser considerada. Em 1981, Yuen et al. observaram lesão no tecido cerebral a partir de 216 C/cm2 de carga total. Se considerarmos tempo de sessão de 30 minutos, i = 2 mA e eletrodo de 35 cm2 a carga total aplicada será de 0,103 C/cm2, ou seja, 2100 vezes abaixo do valor observado por Yuen et al. em 1981 (Nitsche et al. 2003). Estudos detalhados para avaliar a segurança da ETCC não encontraram nenhuma evidência de dano neuronal avaliado pela dosagem da enolase sérica neurônio- específica (Nitsche e Paulus 2001; Nitsche et al. 2003c), edema, perturbações na barreira hematoencefálica ou alterações cerebrais detectáveis pela ressonância magnética por imagem (Nitsche et al. 2004), ou efeitos autonômicos considerados clinicamente significativos (Raimundo et al. 2012). Nenhum registro patológico eletroencefalográfico foi notado, nem prejuízos relevantes no desempenho de testes neuropsicológicos, após a estimulação do lobo frontal com intensidades de corrente de até 2 mA por 20 min (Iyer et al. 2005). Entre os critérios de exclusão para a estimulação cerebral não invasiva cita-se a presença de condições médicas que podem ser agravadas com a estimulação, como em casos de epilepsia não controlada, embora convulsões epilépticas não tenham sido observadas num estudo piloto em pacientes com epilepsia (Fregni et al. 2006). Além disso, os indivíduos não devem possuir implantes metálicos cerebrais (Brunoni et al. 2012). 32 1.3 EMT 1.3.1 Mecanismos de Funcionamento e Ação O aparelho de EMT é composto por uma unidade fixa e uma móvel. A unidade fixa contém um ou mais capacitores de armazenamento, um alternador de carga e circuitos para modelar a forma do pulso e a recuperação de energia, além do painel de controle. A parte móvel é composta pela bobina e pelo cabo que a conecta à parte fixa. É necessário que o aparelho contenha capacitores com grande capacidade de armazenamento e sistema eficiente de transmissão para a bobina. Existem dois tipos de bobinas usualmente utilizadas: em forma de 8 ou também chamada borboleta e a bobina circular (Fig. 5). A bobina em forma de 8 é a mais focal, enquanto a circular é a mais utilizada quando se deseja estimular uma áera maior (Walsh e Pascual-Leone 2003). Outras bobinas como a bobina em H e a em cone vêm sendo testadas para aumentar a profundidade da estimulação. Figura 5. Representação das diferentes regiões cerebrais estimuladas por EMT aplicada na mesma posição, quando utilizadas bobinas de forma circular ou em forma de oito. 33 Quando a energia elétrica, que está armazenada nos capacitores, é liberada, ela gera corrente elétrica, que passa rapidamente pela bobina, configurando um pulso, o qual deve ser de alta intensidade e de breve duração. Em relação ao tipo de pulso, existem três diferentes: monofásico, bifásico e polifásico. O pulso monofásico é o ideal para aplicações do tipo pulso simples, sendo o bifásico melhor para pulsos repetitivos. A duração do pulso monofásico é de cerca de 600 ms, e do bifásico, de 200-300 ms. A energia dispensada na bobina é de cerca de 500 J, suficiente para arremessar um peso de 1 Kg à altura de 50 m. A bobina deve estar posicionada paralelamente ao crânio do individuo (Fig. 6), assim, no momento do disparo, surge um campo magnético perpendicularmente à bobina, que usualmente é da ordem de 1,5 a 2 T (40.000 vezes o campo magnético da Terra e aproximadamente da mesma intensidade do campo magnético estático produzido por um aparelho de ressonância magnética), o qual irá atravessar o escalpe e o crânio atingindo o tecido cortical. É importante notar que a variação em relação ao tempo do campo magnético é mais importante do que a intensidade por si só. Figura 6. Foto representativa da EMT. A posição ideal da bobina para a estimulação do córtex motor primário deve ser em um ângulo de 45o em relação ao plano parassagital, nesse caso se obtém a maior intensidade da corrente elétrica induzida. Embora não seja consenso, com pequenas diferenças baseadas em modelos matemáticos, pode-se dizer que esse campo magnético alcança uma profundidade 34 de 2 a 3 cm. Para bobinas em forma de 8, a 0,5 cm abaixo da bobina, a área estimulada é de 7 X 6 cm e a 2 cm abaixo é de 3 X 4 cm, o que dá uma ideia tridimensional de um cone com seu ápice para baixo (Walsh e Pascual-Leone 2003). Esse campo eletromagnético, através da indução de cargas elétricas no parênquima cerebral (indução eletromagnética – lei de Faraday), transforma-se em campo elétrico no córtex com sentido oposto ao produzido na bobina e paralelo a ela. Por isso, a EMT atinge preferencialmente neurônios dispostos horizontalmente, usualmente os interneurônios da substância cinzenta (Wassermann et al. 2008; Fregni et al. 2011). A estimulação elétrica cerebral, de forma diferente, produz corrente elétrica transversal, estimulando diretamente neurônios piramidais na substância branca (dispostos verticalmente). Podemos observar essa diferença através do tempo de latência dos potenciais motores evocados (MEP), que é cerca de 2 ms maior com a EMT em relação à estimulação elétrica. A força do campo elétrico, na prática, deve ser de 100 mV/mm para estimulação eficiente do córtez mortor e consequente contração muscular, induzindo corrente elétrica no tecido cerebral de cerca de 10 mA/cm2. É importante reafirmar que os efeitos obtidos com o uso da EMT não são devidos ao campo magnético, mas sim ao campo elétrico que leva à despolarização do neurônio, movimentando a carga através da membrana neuronal excitável, o que acaba por criar um potencial transmembrana que, se de intensidade suficiente, causa despolarização e inicia o potencial de ação que se propaga pelo nervo. A EMT não envolve passagem direta da corrente elétrica pelo corpo celular como na estimulação elétrica, entretanto, em nível celular os mecanismos de estimulação são os mesmos. Em outras palavras, a estimulação magnética deve ser imaginada como estimulação elétrica sem eletrodos (Wassermann et al. 2008). Os efeitos da EMT não são apenas na área cortical atingida diretamente pelo campo magnético, mas uma série de circuitos e conexões cerebrais se encarregam de levá-los a áreas dsitantes do cérebro. A EMT pode ser de pulsos únicos ou repetitivos; nesse último caso, são emitidos vários pulsos seguidamente de acordo com a frequência determinada, passando a ser denominada estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr). Em relação ao número de pulsos repetitivos por unidade de tempo, existem dois tipos de EMTr: baixa frequência (≤ 1Hz) e alta 35 frequência (> 1Hz), com efeitos opostos. O uso da EMTr de alta frequência aumenta o fluxo sanguíneo cerebral na área, medido através de PET, com consequente aumento da atividade cerebral. A EMTr de baixa frequência, por outro lado, diminui a atividade cerebral (Wassermann et al. 2008). Durante a aplicação, o ângulo da bobina é um parâmetro importante. Por exemplo, para a estimulação do córtex motor primário, ela deve ser posicionada em um ângulo de 45o em relação ao plano parassagital para se obter a maior intensidade da corrente elétrica induzida no córtex cerebral (Fregni et al. 2011). 1.3.2 Aspectos Técnicos da EMT 1.3.2.1 Aquecimento da Bobina A EMT rápida com bobina convencional e centenas de joules por pulso rapidamente resulta em aquecimento da bobina. Sistemas de refrigeração são geralmente necessários em bobinas utilizadas em estimulação prolongada de alta velocidade, embora aumentem substancialmente seu peso e volume. A água tem um alto calor específico e é um refrigerante eficaz, mas também pode ser perigosa se utilizada em EMT com altas tensões. As flutuações de temperatura e outros tipos de estresse associados com o uso da bobina podem, eventualmente, quebrar o invólucro da bobina, levando a água a ter contacto com os componentes de alta tensão e com o ambiente externo. Óleo tem sido proposto como um fluido de arrefecimento mais seguro, mas tem um calor específico muito mais baixo, exigindo a circulação mais rápida. Ar em movimento parece ser o refrigerante mais simples e mais seguro para bobinas de EMT, mas a circulação é barulhenta e os sistemas necessários para seu funcionamento são grandes. Bobinas que são vulneráveis ao superaquecimento devem ter um sensor de calor interno que desligue o sistema se a temperatura subir muito (41 oC) (Wassermann et al. 2008). 36 1.3.2.2 Parâmetros de Segurança na Aplicação da EMT Uma força tarefa da Organização Mundial de Saúde, em 1987, relatou que não existem evidências de efeitos adversos na saúde humana em decorrência à exposição a curto prazo a campos magnéticos estáticos com intensidade de até 2T. O campo magnético produzido pela EMT (intensidade de 1,5 a 2T) é de pulsos breves e não há razão para se supor que os efeitos magnéticos devam ser maiores com esse tipo de campo magnético (pulsado) do que com um campo estático (Hallett e Chokroverty 2005). O efeito colateral mais comum da EMT é a cefaléia, que costuma ser transitória e cede com analgésicos comuns. Também pode ocorrer tensão muscular em musculatura próxima à aplicação e na nuca (Fregni et al. 2011). Diversos estudos com ratos, utilizando um número de pulsos e intensidade de campo magnético maiores do que os utilizados habitualmente em seres humanos falharam em demonstrar qualquer efeito colateral grave, alterações histológicas ou da barreira hematoencefálica com uso da EMTr (Wassermann et al. 2008). Dois pacientes epilépticos que seriam operados receberam, no lobo temporal, estímulos a 50 Hz com densidade de corrente muito acima da que os aparelhos usuais utilizados nas pesquisas com EMTr produzem, antes da ressecção. À microscopia, nenhuma lesão histológica foi observada (Brasil-Neto et al. 2004; Wassermann et al. 2008). Dezesseis casos de crises convulsivas foram descritos na literatura médica com o uso da EMTr, sendo que nenhum desses indivíduos apresentou sequelas e na maioria o eletroencefalograma retornou ao normal em 1 a 2 dias (Brasil-Neto et al. 2004). A maior parte das crises foram desencadeadas com EMTr de alta frequência. Não há descrição da EMTr piorando a epilepsia, pelo contrário, estudos com EMTr de baixa frequência em epilépticos têm demonstrado potencial terapêutico dessa técnica (Walsh e Pascual-Leone 2003). Após a aplicação de EMTr em animais, esses desenvolveram aumento permanente no limiar auditivo. Em humanos, entretanto, em 2003 Pascual-Leone et al. demonstraram não haver perda auditiva após a aplicação de EMTr. Aumento no 37 número de linfócitos foi observado após EMT de pulso único, entretanto, esse aumento terminava em 48 horas e era comparável ao que ocorre no ciclo menstrual e ritmo circadiano normal (Walsh e Pascual-Leone 2003; Wassermann et al. 2008; Fregni et al. 2011). Pascual-Leone et al., em 1992, mensuraram os níveis séricos de prolactina, hormônio estimulante da tireoide, hormônio luteinizante, hormônio folículo- estimulante e hormônio adrenocorticotrófico, não observando alterações após aplicação de EMTr. Ainda no mesmo ano, em relação aos possíveis efeitos na cognição, esses autores também aplicaram bateria de testes cognitivos em nove voluntários antes e após a aplicação de EMTr com diversas intensidades e frequências, não observando nenhum prejuízo cognitivo ou alteração no exame clínico-neurológico. 1.4 Neuromoduladores Neuromoduladores são transmissores que podem alterar a plasticidade, mas não são essenciais para a sua ocorrência (Malenka e Bear 2004). Eles induzem pouca ou nenhuma alteração na atividade neuronal basal, mas potencializam ou atenuam respostas evocadas por outras substâncias transmissoras (Barchas et al. 1978). Estudos recentes sugerem que a plasticidade sináptica nem sempre depende apenas da atividade neuronal pré e pós-sináptica, mas também da presença de neuromoduladores (Malenka e Bear 2004). Ao contrário de sinapses químicas clássicas, em que o neurônio pré-sináptico afeta diretamente a célula alvo, as sinapses neuromoduladoras regulam populações neuronais relativamente grandes e acredita-se serem importantes para a aprendizagem e a memória. Foi mostrado que neuromoduladores influenciam LTP, bem como LTD em animais e em experiências com cortes histológicos de uma maneira não-linear (Kojic et al. 1997; Fujii et al. 2000; Matsuyama et al. 2000; Fujii e Sumikawa 2001b; Mori et al. 2001; Huang et al. 2004b; Ge e Dani 2005; Kemp e Manahan-Vaughan 2005; Huang e Kandel 2007; Luo et al. 2008; Costa et al. 2012; Park et al. 2012; Batsikadze et al. 2013,2014). 38 Estudos em humanos e animais têm demonstrado um impacto das substâncias neuromoduladoras sobre os processos cognitivos, funções motoras, aprendizagem motora, atenção, memórias de trabalho e episódicas. Além disso, vários distúrbios neurológicos mostram níveis alterados de neuromoduladores que normalmente levam a falhas em funções cognitivas (doença de Parkinson, esquizofrenia, doença de Alzheimer, demência do corpo de Lewy, depressão, etc), cuja base fisiológica pode ser do impacto dos neuromoduladores sobre a plasticidade (Provost e Woodward 1991; Knecht et al. 2004; Winters e Bussey 2005; Floel et al. 2008; Heishman et al. 2010; Mocking et al. 2012; Batsikadze et al. 2013,2014). A participação dos neuromoduladores nas mudanças sinápticas em longo prazo é criticamente dependente da sua concentração, da atividade fásica, dos subtipos de receptores e de seus locais de ação (Stagg e Nitsche 2011) e a investigação dos seus efeitos nos diferentes tipos de plasticidade pode ser conduzida por agentes farmacológicos ou técnicas não-invasivas de estimulação cerebral (Kuo et al. 2007; Kuo et al. 2008; Monte-Silva et al. 2009; Nitsche et al. 2009; Monte-Silva et al. 2010b; Thirugnanasambandam et al. 2012). Por exemplo, a ativação colinérgica inespecífica (receptores muscarínicos e nicotínicos) pelo inibidor da colinesterase rivastigmina, bem como a ativação dos receptores nicotínicos pela administração de nicotina, aboliu a plasticidade do tipo LTP induzida pela ETCC anódica (Kuo et al. 2007; Thirugnanasambandam et al. 2011). 1.4.1 Nicotina O sistema colinérgico está envolvido em atenção, memória de curto prazo, estimulação e percepção sensorial (Provost e Woodward 1991; Hahn e Stolerman 2002; Kumari et al. 2003; jubelt et al. 2008; Heishman et al. 2010). Estados patológicos do sistema colinérgico são observados em esquizofrenia e na doença de Alzheimer (Jones et al. 1992; White e Levin 1999). A modulação colinérgica é realizada por meio de dois tipos de receptores: receptores colinérgicos nicotínicos (nAChRs) e muscarínicos (mAChR). Os nAChRs são canais catiônicos dependentes 39 de ligantes que são ativados por acetilcolina e nicotina, não seletivamente (Burnashev 1998; Dajas-Bailador e Wonnacott 2004). A nicotina (NIC), um composto de amina terciária, é o principal agente psicoactivo do tabaco e é responsável por suas propriedades aditivas (Heishman et al. 1994;. Levin et al. 2006). Além de sua propriedade aditiva, a nicotina tem efeitos importantes sobre a cognição (Grundey et al. 2012a, 2012b). Estudos em animais e humanos têm mostrado que a nicotina aumenta a aquisição, consolidação, e recuperação da informação memorizada (Arendash et al. 1995a; Puma et al. 1999; Levin et al. 2006), bem como melhora a atenção, funções motoras, memória de trabalho e episódica (Min et al. 2001; Hahn e Stolerman 2002; Kumari et al. 2003; jubelt et al. 2008;. Froeliger et al. 2009; Heishman et al. 2010). A nicotina também melhora a aprendizagem e atenção em pacientes que sofrem de doença de Alzheimer (Wilson et al. 1995; White e Levin 1999). Os receptores nicotínicos formam uma família heterogênea de canais iônicos (receptores ionotrópicos), os quais são encontrados em várias regiões do SNC, e modulam os efeitos de uma grande variedade de transmissores químicos – como dopamina, serotonina, norepinefrina, glutamato, ácido gama-aminobutírico (GABA), opióides, assim como do próprio sistema colinérgico por mecanismos pós e pré- sinápticos (Levin e Simon 1998; Gotti e Clementi 2004) – os quais estão envolvidos na geração e modulação da plasticidade, que se acredita ser o principal fundamento fisiológico da aprendizagem e da formação da memória (Rioult-Pedotti et al. 1998, 2000). A base molecular para a heterogeneidade funcional de nAChRs é a existência de uma família de genes que codifica, pelo menos, nove subunidades α ''α2 - α10'' e três β ''β2 - β4'' (Gotti e Clementi 2004). Ambos os receptores nicotínicos α4β2 e α7, que são canais de cátions, parecem ser críticos para os efeitos funcionais da nicotina, bem como para seu impacto sobre a excitabilidade cortical e neuroplasticidade (Burnashev 1998; Dajas-Bailador e Wonnacott 2004). Esses receptores, que são amplamente expressos no SNC, influenciam a plasticidade sináptica e a função cognitiva por regulação da permeabilidade celular de cálcio, bem como da liberação de neurotransmissores (Lisman 2001; Gotti e Clementi 2004; Browne et al. 2010; Huang et al. 2010). 40 1.4.2 Dextrometorfano Dextrometorfano (D-3-metoxi-N-metilmorfina – DMO) é o D-isômero do análogo da codeína, metorfano. Os sítios de ligação nos quais se liga o DMO com alta afinidade foram identificados em membranas de várias regiões cerebrais. Embora seja conhecido por ser bloqueador de receptor NMDA, os sítios de ligação para essa substância não estão limitadas à distribuição conhecida dos receptores NMDA (Brunton et al. 2012). O DMO já é utilizado como antitussígeno há mais de 40 anos (Bem e Peck 1992), e está amplamente disponível no Brasil nas formas de Trimedal Tosse (Novartis) ou Benalet TSC (Johnson & Johnson), bem como pode ser encontrado na Alemanha na forma de pastilhas ou cápsulas Hustenstiller-ratiopharm (Ratiopharm). Os primeiros casos documentados de uso abusivo dessa droga ocorreram em meados dos anos 1960 nos Estados Unidos e em vários outros países (Bem e Peck 1992). Ao longo dos últimos 10 anos houve um brutal crescimento do número de casos de doses excessivas de DMO, com efeito recreativo, confirmados por pesquisas e dados epidemiológicos por todo o mundo (Ziaee et al. 2005; Banken e Foster 2008; Romanelli e Smith 2009; Forrester 2011; Wilson et al. 2011). O uso abusivo, como forma de recreação, por vezes referido como “Dexing” ou “Robotripping” parece ser mais frequente em adolescentes e adultos jovens (Boyer 2004; Bobo et al. 2005; Bryner et al. 2006). Estudos in vitro sugerem que o mecanismo principal de ação do DMO é o bloqueio do receptor NMDA (Church 1990; Church et al. 1994), similar ao mecanismo da fenciclidina (Morris et al. 2005; Newell et al. 2007) e da ketamina (Sinner e Graf 2008). Esses estudos são consistentes com estudos sobre ligantes, os quais mostram que o DMO inibe a ligação da fenciclidina nas membranas sinápticas em cerébros de roedores (Murray e Leid 1984). Para o DMO, o pico de concentração no plasma ocorre após 2 horas da administração oral (Silvasti et al. 1987; Schadel et al. 1995), e as doses utilizadas nesta pesquisa são suficientes para induzir proeminentes efeitos no SNC (Ziemann et al. 1998; Liebetanz et al. 2002; Nitsche et al. 2003b; Monte-Silva et al. 2013). 41 2. OBJETIVOS 42 2.1 Objetivo Geral O objetivo foi elucidar o mecanismo pelo qual a ativação de receptores nicotínicos altera a neuroplasticidade em seres humanos, especialmente no que diz respeito aos mecanismos dependentes do cálcio e a interação com o sistema glutamatérgico. 2.2 Objetivos Específicos Verificar se a redução do influxo de cálcio provocada pelo DMO restituiria o aumento da excitabilidade induzida pela ETCC, suprimida pela nicotina. Verificar os efeitos da estimulação transcraniana por corrente contínua anódica, indutora de plasticidade LTP não focal, sob os efeitos da administração prévia de nicotina e do dextrometorfano, assim como pela combinação dessas substâncias. Verificar se o bloqueio de receptores NMDA em diferentes graus teria efeitos não lineares sobre a plasticidade induzida pela ETCC anódica: pequenas e médias dosagens de DMO deveriam restabelecer a plasticidade facilitadora sob nicotina, devido a uma diminuição gradual do influxo de cálcio, enquanto que alta dosagem de DMO deveria suprimir a plasticidade. 43 3. MATERIAIS E MÉTODOS 44 3.1 Sujeitos Treze voluntários saudáveis (5 masculinos / 8 femininos) com idade média de 26,4 ± 4,0 (DP) anos foram recrutados. Nenhum deles havia fumado tabaco por pelo menos 3 anos antes do estudo ou estava fazendo uso de qualquer tipo de medicação. Todos os selecionados eram destros de acordo com Edinburgh handedness inventory (Oldfield 1971). Indivíduos que tivessem algum metal no cérebro ou crânio (lascas, fragmentos, pinos, etc.), história de epilepsia, desordem neuropsiquiátrica, traumatismo craniano grave ou gravidez foram excluídos. Todos os voluntários assinaram documento consentindo a participação. Os experimentos foram aprovados pelo comitê de ética da Universidade de Goettingen e estava em conformidade com a Declaração de Helsinki. 3.2 ETCC Foi utilizado um estimulador de corrente contínua movido a bateria (Schneider Electronics, Gleichen, Alemanha), com uma potência máxima de 2 mA. A ETCC foi administrada através de eletrodos cobertos por esponjas embebidas em solução salina (7 X 5 cm = 35 cm2). Um eletrodo (anodo) foi posicionado na região representativa do córtex motor do músculo abdutor do dedo mínimo direito (MADM), o outro eletrodo (catodo) acima da órbita direita. Todos os sujeitos receberam 1 mA de estimulação anódica durante 13 minutos (ETCC anódica), o que induz alterações na excitabilidade do córtex motor com durabilidade de aproximadamente 60 min após o término da estimulação (Nitsche e Paulus 2001; Nitsche et al. 2003a), combinado com nicotina, dextrometorfano ou o respectivo placebo em diferentes sessões experimentais. 3.3 Monitoramento da Excitabilidade do Córtex Motor Potenciais Motores Evocados (MEPs) induzidos por Estimulação magnética transcraniana (EMT) foram registrados para medir as mudanças de excitabilidade da 45 área motora cortical representacional do MADM direito. EMT de pulso simples foi conduzida por um estimulador magnético 200 Magstim (Magstim Company, Whitland, Dyfed, Reino Unido) a uma frequência de 0,25 Hz, com uma bobina em forma de oito (diâmetro de enrolamento de 70 mm, campo magnético máximo, 2,2 T). A bobina foi apoiada de forma tangencial com o couro cabeludo em um ângulo de 45° em relação ao plano sagital com o cabo da bobina apontando lateralmente. A posição ótima foi definida como o local onde a estimulação resultou consistentemente em maiores MEPs. A eletromiografia de superfície foi gravada a partir do MADM direito com eletrodos de Ag-AgCl em uma montagem ventre-tendão. Os sinais foram amplificados e filtrados com uma constante de tempo de 10 ms e um filtro canal-baixo de 2,5 kHz, então digitalizados com uma taxa de analógico para digital de 5 kHz e retransmitida para um computador do laboratório usando o software Signal e hardware CED 1401 (Cambridge Electronic Design). A intensidade foi ajustada para induzir, em média, MEPs de 1 mV de amplitude pico-a-pico e foi mantida constante para todas as medidas pós-ETCC. 3.4 Intervenção Farmacológica Adesivos transdérmicos contendo nicotina (Nicorette Depotpflaster, Pfizer, com capacidade de liberação de 15 mg de nicotina em aproximadamente 16 h) ou contendo placebo foram aplicados em todos os indivíduos em combinação com DMO ou cápsulas de placebo antes da aplicação da ETCC anódica. Essa dose de nicotina têm demonstrado afetar a cognição (Min et al. 2001; Myers et al. 2004; Poltavski e Petros 2005) e assim ser suficiente para influenciar as funções do SNC (Thirugnanasambandam et al. 2011; Grundey et al. 2012a, 2013, 2015). O adesivo foi aplicado 6 h antes da estimulação, sendo esse o tempo aproximado para que a nicotina atinja o pico da concentração plasmática sanguínea (Nørregaard et al. 1992) e mantido no paciente até o final do segundo dia de experimento. A fim de evitar ou amenizar possíveis efeitos colaterais, os participantes foram instruídos a tomar domperidona 20 mg, um antagonista periférico de receptor dopaminérgico D2 (Barone JA 1999), com efeitos antieméticos, em caso de necessidade. Esse 46 medicamento não exerce qualquer efeito sobre a excitabilidade cortical motora (Thirugnanasambandam et al. 2011; Grundey et al. 2013). O dextrometorfano foi administrado em doses de 50, 100, ou 150 mg em diferentes sessões experimentais, com a função de bloqueio de receptores NMDA (Wong et al. 1988; Tortella et al. 1989; Franklin e Murray 1992; Netzer et al. 1993), atingindo pico de concetração plasmática após 2 horas de sua administração por via oral (Silvasti et al. 1987; Schadel et al. 1995). 3.5 Análise Estatística O tamanho da amostra para este estudo foi planejado para um tamanho de efeito moderado, dada a hipótese de que o DMO inibe o efeito da NIC sobre a plasticidade facilitatória induzida pela ETCC. Assim, assumindo um tamanho de efeito de 0,4, considerando análise de variância de medidas repetidas (ANOVA), com interação intra e entre indivíduos como principal teste estatístico com um poder de 80% de probabilidade de dois lados de um erro tipo I de 5%, um mínimo de 12 indivíduos seria necessário; entretanto, com a finalidade de prevenção em caso de desistência, nós aumentamos a amostra estimada em 10%, resultando assim em 13 indivíduos. As médias das 25 amplitudes dos MEPs registradas para as linhas de base 1 e 2 e em cada ponto de tempo foram calculadas para todos os indivíduos. As médias das amplitudes dos MEPs, após as ETCC anódicas de cada indivíduo foram normalizadas para as respectivas médias das amplitudes dos MEPs (quociente de amplitudes pós- versus pré intervenção de MEP) da linha de base individual (linha de base 2). Então, essas amplitudes normalizadas foram reunidas e organizadas por sessões, calculando a média final entre os indivíduos para cada condição e tempo. ANOVA de medidas repetidas foi realizada nos dados normalizados. A amplitude do MEP foi a variável dependente incluindo todos os pontos de tempo até a tarde seguinte após a ETCC. Nicotina (NIC/PLC), dextrometorfano (50, 100, 150 mg DMO/PLC) e os tempos foram incluídos como intra-fatores dos indivíduos. 47 Adicionalmente, a homocedasticidade foi avaliada pelo teste de esfericidade de Mauchly, aplicando-se a correção de Greenhouse-Geisser sempre que necessária. Para comparar os efeitos principais da nicotina e diferentes dosagens de DMO sobre a plasticidade, as médias dos MEPs para os primeiros 30 minutos após a estimulação foram calculadas para cada indivíduo por sessão experimental e normalizados à linha de base 2. Em seguida, esses valores médios dos MEPs para cada condição de dosagem foram comparados com a respectiva condição placebo por ANOVA de uma via, seguido por teste post hoc LSD. Para verificar se houve alterações nas amplitudes dos MEPs induzidas pelas drogas e a porcentagem máxima de saída do estimulador TMS (% MSO) para adquirir a amplitude do MEP da linha de base de 1 mV, bem como para a identidade das amplitudes dos MEPs e % MSO entre as condições de medicação, esses valores foram comparados antes (linha de base 1 = Lb1) e após a administração das drogas (linha de base 2 = Lb2), e entre Lb1 e Lb2 nos grupos de medicamentos. Uma análise de variância foi realizada para os valores de amplitude dos MEPs e % MSO para as linhas de base 1 e 2, e condições de medicação intraindivíduos. Condicionados aos resultados significativos detectados pela ANOVA, testes t de Student (amostras pareadas, bicaudal, p < 0,05, não corrigido para comparações múltiplas) foram realizados para comparar as amplitudes dos MEPs antes e depois das estimulações cerebrais em cada condição e entre as condições das drogas para cada ponto de tempo, bem como para as intensidades dos MEPs entre diferentes condições de medicações dentro de um determinado intervalo de tempo. Um valor de p < 0,05 foi considerado significativo para todas as análises estatísticas. Todos os resultados são apresentados na forma de média e erro padrão da média (SEM). 48 3.6 Procedimento Experimental Inicialmente os indivíduos foram acomodados confortavelmente em uma cadeira com encosto para os braços e a cabeça (Fig. 7). Eletrodos eletromiográficos foram colocados no MADM direito como descrito anteriormente. Então a EMT foi aplicada sobre a área representacional esquerda do MADM direito para determinar a área com os MEPs consistentemente maiores, a qual foi marcada com uma caneta a prova d’água. A intensidade da EMT foi ajustada para obter amplitudes pico-a-pico com média de 1 mV. Em seguida, 25 MEPs foram registrados para a determinação da primeira linha de base. Após o registro da linha de base, o adesivo de nicotina ou de placebo foi colocado na parte superior do braço esquerdo e lá permaneceu até o final do experimento (Fig. 7). Figura 7. Fotografias representativas dos procedimentos. (A) sujeito acomodado confortavelmente em uma cadeira com encosto para os braços e a cabeça e com os eletrodos eletromiográficos colocados no MADM direito. (B) adesivo de nicotina/placebo aderido na parte superior do braço esquerdo. (C) aplicação da ETCC anódica; o aparelho para aplicação da ETCC, bem como da EMT podem ser vistos atrás à direita na foto. Quatro horas após a aplicação do adesivo, o dextrometorfano, em uma das doses já mencionadas ou placebo foi administrado. Seis horas após a aplicação dos adesivos, novamente 25 MEPs foram gravados e, se necessário, a intensidade da EMT foi ajustada para 1 mV (linha de base 2). Após esse procedimento, a ETCC anódica foi aplicada, seguida por imediata gravação de pelo menos 25 MEPs nos tempos de 0, 5, 10, 15, 20, 25, 30, 60, 90 e 120 minutos. Além disso pós-medições 49 também foram conduzidas na noite do experimento (NE), na manhã (MDSE) e tarde (TDSE) do dia seguinte ao experimento. As sessões foram realizadas em ordem aleatória, e um intervalo entre as sessões de pelo menos uma semana era obrigatório para evitar interferências. Todos os participantes receberam ETCC anódica sob apenas nicotina, apenas dextrometorfano, placebo apenas, e combinações de dextrometorfano e nicotina (Fig. 8). Isso resultou em 8 sessões por indivíduo. 50 Figura 8. Curso do experimento: após ajuste da intensidade da EMT para provocar amplitudes de MEPS de 1 mV (S1mV), 25 MEPs foram registrados nessa intensidade de estímulo e a média das amplitudes dos MEPS foi calculada (Lb1). Em seguida o adesivo de NIC ou PLC foi aderido na parte superior do braço esquerdo. 4 h após a aplicação do adesivo, DMO em uma das dosagens de 0 (placebo), 50, 100 ou 150 mg foi administrado. 6 horas após a aplicação do adesivo, novamente 25 MEPs foram registrados em uma intensidade de estímulo ajustada para a linha de base e as amplitudes dos MEPs foram calculadas (Lb2). Em seguida ETCC anódica foi aplicada, seguida por imediato registro de pelo menos 25 MEPs nos tempos de 0, 5, 10, 15, 20, 25, 30, 60, 90 e 120 minutos, bem como na noite do experimento (NE), na manhã (MDSE) e tarde (TDSE) do dia seguinte ao experimento. 51 4. RESULTADOS 52 4.1 Características das Amostras e Análises Gerais 4 horas após a aplicação do adesivo contendo nicotina, 3 indivíduos apresentaram náusea moderada e 2 indivíduos vomitaram. 6 horas após a aplicação de nicotina com administração de 150 mg de dextrometorfano 5 indivíduos apresentaram náusea moderada. Todos os indivíduos foram instruídos a tomar 20 mg de domperidona em caso de necessidade. Nenhum efeito colateral foi reportado para as doses de 50 e 100 mg de dextrometorfano. Os demais participantes foram tolerantes às drogas. Comparando os valores da linhas de base 1 e 2 houve significância para o fator tempo, utilizando-se ANOVA para a intensidade da EMT [F(1,12) = 5,28, p = 0,04]. Isso foi causado por uma significativa diferença entre a linha de base 1 e 2 para a condição NIC/DMO150 (Tabela 1). Nehuma outra diferença entre os valores das linhas de base foi identificado. A ANOVA revelou principais efeitos significativos para o fator tempo [F(13,143) = 4,511; p < 0,0001] e interação de 3 vias entre NIC, doses de DMO e tempo [F(39,429) = 1,716; p < 0,01]. 53 Amplitudes dos MEPs e a intensidade da estimulação antes e após a administração das drogas Parâmetro da EMT Medicação Linha de base 1 Linha de base 2 MEP PLC/PLC 0,91 ± 0,04 0,92 ± 0,04 %MSO 59,69 ± 2,13 61,00 ± 2,29 MEP PLC/DMO50 0,94 ± 0,05 0,97 ± 0,03 %MSO 63,38 ± 3,17 62,77 ± 3,26 MEP PLC/DMO100 0,93 ± 0,05 1,04 ± 0,06 %MSO 62,23 ± 2,74 60,46 ± 3,34 MEP PLC/DMO150 0,96 ± 0,03 1,04 ± 0,03 %MSO 64,15 ± 3,40 63,08 ± 3,29 MEP NIC/PLC 0,96 ± 0,03 0,96 ± 0,03 %MSO 63,00 ± 3,55 62,92 ± 3,76 MEP NIC/DMO50 0,88 ± 0,04 0,99 ± 0,03 %MSO 63,15 ± 3,81 61,92 ± 3,28 MEP NIC/DMO100 0,99 ± 0,03 0,98 ± 0,03 %MSO 63,54 ± 3,41 63,31 ± 3,39 MEP NIC/DMO150 0,95 ± 0,03 0,95 ± 0,04 %MSO 64,77 ± 2,94 60,69 ± 3,01** Tabela 1. Médias das amplitudes dos MEPs ± SEM e as médias das intensidades de estimulação (porcentagem máxima de saída do estimulador, %MSO) ± SEM das linhas de base 1 e 2. A intensidade da EMT foi ajustada para provocar MEPs com amplitude de 1 mV (Lb1). A segunda linha de base (Lb2) foi registrada 6 horas após a aplicação do adesivo para determinar o impacto das drogas na excitabilidade cortical. ** p < 0,01 quando comparado com a linha de base 1 (ANOVA de medidas repetidas). 4.2 Efeito do DMO na Plasticidade Induzida pela ETCC Como revelado pelo teste post-hoc t de student, nas condições de medicação placebo os MEPs foram significantemente (p < 0,05) aumentados por até 30 min após a ETCC anódica, quando comparados com os respectivos valores das linhas de base. Com a dose de 50 mg de DMO, os MEPs obtidos não foram diferentes daqueles obtidos com medicação placebo por até 90 min após a ETCC. Com a dose de 100 mg de DMO, a análise post-hoc mostrou que as amplitudes dos MEPs não foram diferentes dos valores das linhas de base para nenhum tempo, mas foram diferentes significativamente da medicação placebo imediatamente após a ETCC (p < 0,01), 10 min (p < 0,05), 20 min (p < 0,05) e 30 min após a ETCC (p < 0,05). As 54 amplitudes dos MEPs obtidas para a maior dose de DMO também não diferiram dos valores da linha de base para até a última medida no dia da estimulação, e foram significantemente alteradas quando comparadas com a respectiva medicação placebo no intervalo de 25 min (p < 0,05) (Fig. 9). 55 Figura 9. Efeitos do DMO, um antagonista de receptor NMDA, sobre a plasticidade facilitatória induzida pela ETCC. A: Os gráficos mostram os valores das amplitudes dos MEPs das linhas de base normalizadas no eixo Y, plotados em diferentes intervalos de tempo, após ETCC anódica e sob administração de placebo ou DMO de 50, 100 ou 150 mg, registrados até a tarde do dia seguinte ao da estimulação. Nos casos em que se administrou placebo a ETCC anódica induziu uma elevação significante da excitabilidade por até 30 min após a estimulação, a qual foi anulada por 100 e 150 mg de DMO. A dose de 50 mg de DMO não afetou a plasticidade induzida pela ETCC. B: Gráfico com destaque para o efeito da dose de 100 mg de DMO, que apresentou o efeito mais significante. Os símbolos preenchidos indicam desvios estatisticamente significantes das amplitudes dos MEPs pós-estimulatórios quando comparados com os respectivos valores das linhas de base, bem como * indicam diferenças significantes entre placebo e a dose de 100 mg de DMO e + indicam diferenças significantes entre placebo e a dose de 150 mg de DMO para os mesmos intervalos de tempo. (Teste t de Student bicaudal e com amostra pareada, p < 0,05). As barras de erro indicam erro padrão da média. 56 4.3 O Impacto da Nicotina na Plasticidade Induzida pela ETCC sob Influência do DMO Sob administração de nicotina sem DMO, o teste t de Student mostrou que a excitabilidade induzida pela ETCC foi anulada. Entretanto, quando combinada com 100 mg de DMO, a plasticidade facilitatória foi restabelecida. MEPs foram significantemente aumentados por 25 min após ETCC anódica quando comparados com os valores da respectiva linha de base. Os MEPs obtidos sob essa combinação de drogas foram diferentes dos obtidos com nicotina sem administração de DMO nos intervalos de 10 (p < 0,01), 15 (p < 0,01) e 20 min após a ETCC (p < 0,05). MEPs obtidos após administração de nicotina combinada com a menor dose de DMO não divergiram daqueles obtidos para a linha de base ou daqueles obtidos da administração de apenas nicotina em nenhum intervalo de tempo. Com relação à maior dose de DMO combinada com nicotina, os MEPs foram diferentes dos valores das respectivas linhas de base e dos valores obtidos sob apenas administração de nicotina em um único intervalo de tempo (Fig. 10). 57 Figura 10. Efeito da nicotina e sua interação com diferentes doses de DMO sobre a neuroplasticidade induzida pela ETCC. A: Os gráficos mostram as linhas de base normalizadas das amplitudes dos MEPs no eixo Y, plotados em diferentes intervalos de tempo após a ETCC anódica sob administração de NIC, doses de 50, 100 ou 150 mg de DMO ou PLC até a tarde do dia seguinte ao da estimulação. Sob administração de NIC/PLC o aumento da excitabilidade induzido pela ETCC foi anulada. Sob NIC/DMO 100 mg, a plasticidade facilitatória foi restabelecida e os MEPs foram significativamente aumentados por 25 min após a ETCC anódica, quando comparados com os respectivos valores das linhas de base. Os MEPS obtidos após administração de NIC/DMO nas doses de 50 e 150 mg de DMO não foram significantemente diferentes da respectiva linha de base, bem como também em relação à administração de NIC/PLC considerando-se todos os intervalos de tempo. B: Gráfico com destaque para o efeito da dose de 100 mg de DMO, que apresentou o efeito mais significante. Os símbolos preenchidos indicam desvios estatisticamente significantes das amplitudes dos MEPs pós-estimulatórios quando comparados com os respectivos valores das linhas de base, bem como * indicam diferenças significantes entre as condições de NIC/PLC e NIC/DMO100 e + indicam diferenças significantes entre as condições de NIC/PLC e NIC/DMO150 para os mesmos intervalos de tempo. (Teste t de Student bicaudal e com amostra pareada, p < 0,05). As barras de erro indicam erro padrão da média. 58 4.4 Comparação entre a Nicotina e Diferentes Doses de DMO até 30 min Após a ETCC Anódica Para as médias calculadas para os primeiros 30 min, a ANOVA revelou efeitos significativos para a interação de 2 vias entre NIC e as doses de DMO [F(3,36) = 4,222; p < 0,05]. O teste t de Student mostrou que a dose média de DMO restabeleceu o efeito da plasticidade facilitatória induzida pela ETCC de forma mais significante e que sob administração de apenas nicotina esse efeito foi abolido (p < 0,01). As doses de 50 e 150 mg de DMO não mostraram esse efeito inibitório. Sob medicação placebo, as doses de 100 e 150 mg de DMO aboliram de forma significativa o aumento da excitabilidade induzida pela ETCC (p < 0,05) (Fig. 11). 59 Figura 11. Impacto da NIC e diferentes dosagens de DMO na plasticidade facilitatória induzida pela ETCC anódica para os MEPs obtidos até o intervalo de tempo de 30 min após a estimulação. A plasticidade facilitatória é seletivamente restabelecida pela dose de 100 mg de DMO sob administração de nicotina. Sob administração de NIC a plasticidade facilitatória induzida pela ETCC é abolida. As doses de 100 e 150 mg de DMO aboliram a plasticidade facilitatória induzida pela ETCC quando administradas com placebo. Cada coluna representa a média das linhas de base dos MEPs normalizados ± SEM até 30 min após a estimulação. * indicam diferenças significantes entre as condições de PLC/DMO e PLC/PLC ou NIC/DMO e NIC/PLC. (Teste t de Student, bicaudal e com amostra pareada, p < 0,05). 60 5. DISCUSSÃO 61 Os resultados deste estudo mostram uma relevante interação entre a ativação do receptor nicotínico e a plasticidade glutamatérgica controlada por alterações do influxo celular de cálcio. A nicotina inibiu a plasticidade do tipo LTP induzida pela ETCC anódica, provavelmente por causar sobrefluxo de cálcio celular. A redução do influxo de cálcio pelo bloqueador de receptor NMDA restabeleceu a plasticidade de forma dose-dependente. Esses resultados aprimoram a nossa compreensão dos efeitos neuromodulatórios da nicotina sobre a plasticidade glutamatérgica. Tomando-se em conta que a LTP é uma base fisiológica fundamental do aprendizado e da formação da memória, isso poderia explicar, pelo menos parcialmente os efeitos heterogêneos da nicotina sobre os processos cognitivos. Quando levadas em conta as administrações de nicotina e DMO 150 mg separadamente, os resultados são idênticos aos obtidos em estudos prévios, nos quais foram explorados os impactos dessas drogas sobre a plasticidade induzida pela ETCC (Liebetanz et al. 2002; Nitsche 2003b; Kuo et al. 2007; Thirugnanasambandam et al. 2011; Grundey et al. 2012a, 2012b, 2013). De acordo com a hipótese de focalidade da acetilcolina, a plasticidade facilitatória não focal gerada pela ETCC foi abolida sob administração do inibidor da colinesterase rivastigmina (Kuo et al. 2007). Esses efeitos parecem ser controlados principalmente por receptores nicotínicos, já que em não-fumantes a nicotina igualmente inibiu os efeitos não-focais da ETCC anódica e prolongou os efeitos da indução da plasticidade focal (Thirugnanasambandam et al. 2011; Grundey et al. 2012a, 2012b, 2013). Além disso, esses efeitos dependem dos receptores nicotinicos com propriedades de canal de cálcio, uma vez que a vareniclina, um agonista parcial de alta afinidade para α4β2 e agonista para α7 tiveram efeitos comparáveis sobre plasticidade induzida pela ETCC e PAS (Batsikadze et al. 2014). Já em relação ao dextrometorfano, vários autores observaram que a administração prévia dessa substância, com o consequente bloqueio de recepetores NMDA, suprimiu os efeitos pós-estimulação das ETCC anódica ou catódica (Liebetanz et al. 2002; Nitsche et al. 2003b). Com relação às comparações das linhas de base entre as drogas administradas, sobre o efeito significante mostrado para a intensidade da EMT na condição NIC/DMO150 pode-se especular ter sido causada por efeitos colaterais, entretanto, 62 não deve afetar relevantemente os resultados, já que os MEPs foram idênticos às outras condições de medicação após o ajuste da linha de base. Mecanismo de Ação Proposto Receptores de acetilcolina nicotínicos são amplamente expressos no sistema nervoso central e são conhecidos por estarem envolvidos em várias funções cognitivas complexas, tais como a atenção, a aprendizagem, a consolidação da memória, despertar e percepção sensorial (Levin et al. 1992; Albuquerque et al. 2009). No cérebro, os subtipos de nAChR predominantemente funcionais são os α7 homoméricos e os α4β2 heteroméricos (Alkondon e Albuquerque 2004; Machaalani et al. 2010). Ambos os receptores aumentam os níveis de cálcio intracelular quando ativados, servindo como canais de cálcio pré e pós-sinápticos (Burnashev 1998; Dajas-Bailador e Wonnacott 2004). Vários estudos têm mostrado que os nAChRs α7 podem modular a liberação de diversos neurotransmissores, incluindo glutamato, GABA, dopamina e noradrenalina, portanto, têm o potencial para participar numa série de funções neurológicas (Alkondon et al. 1997, 1999; Summers et al. 1997; Li et al. 1998; Schilstrom et al. 1998; Maggi et al. 2001; Huang et al. 2010). Neste estudo, a hipótese principal foi a de que a administração de nicotina seguida de ETCC anódica iria aumentar a concentração de cálcio em um nível tal que ultrapassaria a janela de concentração para a indução da LTP (Grundey et al. 2012a, 2012b; Thirugnanasambandam et al. 2012). Para testar essa hipótese, nós bloqueamos o influxo de cálcio com um bloqueador de receptor NMDA. Como esperado, a administração de 100 mg de DMO restabeleceu a plasticidade facilitatória da ETCC anódica que se encontrava suprimida pela administração prévia da nicotina, sugerindo que o decréscimo do influxo de cálcio causado pelo dextrometorfano nessa dose foi suficiente para reduzir a concentração de cálcio a um nível capaz de induzir LTP. 63 A administração de 50 mg de DMO em conjunto com nicotina, entretanto, não foi capaz de restabelecer a plasticidade facilitatória gerada pela ETCC, provavelmente por uma insuficiente redução do influxo de cálcio nessa dosagem, o que está de acordo com a ausência de efeitos na plasticidade induzida pela ETCC quando a menor dose de DMO foi administrada sozinha. A dosagem de 150 mg de DMO foi utilizada em 2002, por Liebetanz et al., combinada com ETCC anódica e catódica, e, em ambos os casos, inibiu os efeitos pós-estimulação, concluindo-se que em altas doses essa substância bloqueava canais de Na+ e Ca2+. Já em 2003, Nitsche et al. utilizando a mesma dose, observaram o mesmo resultado, confirmando a importância do receptor NMDA em relação à plasticidade induzida pela ETCC. Por fim, em 2013, Monte-Silva et al. observaram que a dose de 150 mg de DMO foi capaz de inibir a plasticidade facilitatória prolongada, induzida pela ETCC anódica aplicada de forma repetida, mesmo quando a droga foi administrada horas após o término das estimulações. Portanto, o DMO em altas doses já é conhecido por inibir a plasticidade gerada pela ETCC, independente da ativação dos receptores nicotínicos (Liebetanz et al. 2002; Nitsche et al. 2003b; Monte-Silva et al. 2013), assim como também mostrado neste estudo. É provável que essa dose bloqueie receptores NMDA, inibindo o influxo de cálcio em um nível tal, que não possa ser compensado pelo influxo de cálcio causado pela nicotina. Esses mecanismos sugeridos poderiam explicar o efeito de aumento da relação “sinal-ruído”, provocado pela nicotina em relação à plasticidade do tipo LTP. O ruído sináptico refere-se ao bombardeio constante de atividade sináptica em neurônios. Isto ocorre rotineiramente em uma célula, quando potenciais são produzidos sem a estimulação nervosa de um potencial de ação, e são devido à natureza inerentemente aleatória das sinapses. Já o sinal refere-se à uma ativação da atividade sináptica além do ruído sináptico, geralmente ocorrendo de forma organizada (Dideriksen et al. 2012). A ativação de redes corticais ruidosas pela nicotina irá, provavelmente, resultar em maior influxo de cálcio quando comparada com condições relativamente não-ruidosas, nas quais um número mais limitado de neurônios é ativado com duração menor. Portanto, os padrões de atividade cortical ruidosos podem ser mais propensos a sobrefluxo de cálcio e, portanto, à conversão de plasticidade do tipo LTP. Essa explicação hipotética deve ser explorada mais diretamente em estudos futuros. 64 Estes mecanismos fisiológicos também podem explicar, pelo menos parcialmente, os efeitos da nicotina na cognição. Além dos efeitos positivos sobre vários processos cognitivos, nenhum efeito ou efeitos negativos também foram descritos (Levin 2002; Kumari et al. 2003; Jacobsen et al. 2005; Swan et al. 2007; Grundey et al. 2015). Este resultado, pelo menos parcialmente heterogêneo da nicotina, pode ser explicado pelos seus efeitos fisiológicos não-lineares, ou seja, o efeito é relacionado com a dose (Grundey et al. 2015). Além disso, o impacto da nicotina na fisiologia e nos processos cognitivos é dependente da condição do indivíduo. Ao contrário do que vimos quanto aos efeitos da nicotina em pessoas não fumantes neste estudo, e que já foi observado em outros estudos anteriormente, em fumantes, durante a abstinência de nicotina, a plasticidade do tipo LTP não é induzida pela ETCC ou PAS, mas foi restituída quando a própria nicotina foi administrada (Grundey et al. 2012a). Da mesma forma os fumantes apresentaram redução de desempenho em uma tarefa de memória de trabalho quando em abstinência de nicotina em comparação a não-fumantes, prejuízo este que foi, recuperado seletivamente por uma nova administração de nicotina (Grundey et al. 2015). Uma vez que os receptores nicotinicos ionotrópicos que permitem influxo de cálcio são dessensibilizados em fumantes, esses resultados podem ser explicados pela redução do influxo de cálcio sob a retirada da nicotina, sendo restabelecido pelo consumo novamente da droga, pois volta a aumentar o influxo celular de cálcio. Por outro lado, em não-fumantes, a concentração de cálcio máxima "ideal" sem a administração de nicotina irá impedir uma melhoria adicional por essa substância. Este mecanismo dependente da condição também pode ser relevante para os efeitos da nicotina em doenças neuropsiquiátricas, em que o sistema colinérgico é hipo-ativo, como na doença de Alzheimer. Aqui, a ativação dos receptores nicotínicos pode ser capaz de restituir esses respectivos processos (Wilson et al. 1995; White e Levin 1999). Os resultados do presente estudo sugerem, além disso, que a administração da nicotina pode ter que ser ajustada para resultar em efeitos ótimos, uma vez que 65 ambos, concentração muito alta ou muito baixa de cálcio intracelular, irão provavelmente comprometer a plasticidade. Algumas limitações deste estudo devem ser levadas em conta. O adesivo de nicotina foi administrado em uma única dose, portanto, não foi possível determinar um efeito dependente da dose de nicotina na plasticidade, mas que já foi mostrado para outros neuromoduladores, como a dopamina (Monte-Silva et al. 2010; Fresnoza et al. 2014). Outra limitação é que nós não investigamos as funções cognitivas em nossos participantes, a fim de compará-los diretamente com os resultados neurofisiológicos, o que nos permitiria explorar consequências funcionais dos respectivos efeitos (Gotti e Clementi 2004). No entanto, isso teria resultado em um número excessivo de sessões para cada participante. Em síntese, este estudo demonstra que o efeito modulatório da nicotina sobre a plasticidade do tipo LTP, induzida pela ETCC, depende de influxo de cálcio e ativação de receptores NMDA. Os resultados ainda sugerem que existe uma quantidade crítica de cálcio intracelular (influxo) necessária para a indução de LTP pela ETCC. O aumento do influxo de cálcio causado pela ativação dos NMDARs resulta em excesso de cálcio intracelular. Esse excesso reduz ou elimina os já citados efeitos modulatórios em indivíduos saudáveis e não-fumantes, como comprovado pelo reaparecimento da plasticidade do tipo LTP após a redução do influxo de cálcio, a qual aconteceu pelo bloqueio do receptor NMDA. Por conseguinte, esse efeito de restabelecimento da plasticidade depende da quantidade do bloqueador do receptor NMDA, uma vez que uma inibição demasiadamente baixa não resultará em suficiente redução do influxo de cálcio, e inibição demasiadamente grande irá reduzir o influxo de cálcio a um grau que não irá mais induzir LTP. 66 6. CONCLUSÕES 67  A nicotina suprimiu a plasticidade do tipo LTP induzida pela ETCC anódica;  A supressão, pela nicotina, da plasticidade induzida pela ETCC anódica, foi revertida de forma dose-dependente pelo dextrometorfano, um antagonista de receptores NMDA;  Como a plasticidade do tipo LTP é dependente da ativação de receptores NMDA e, subsequentemente, do consequente influxo de cálcio, os resultados deste estudo são bastante sugestivos de um efeito da nicotina sobre a plasticidade via modulação da concentração de cálcio intracelular. Estes mecanismos podem ser relevantes para os processos cognitivos e comportamentais relacionados à plasticidade. 68 7. REFERÊNCIAS 69 Accornero N, Voti P, La Riccia M, Gregori B. 2006. Visual evoked potentialsmodulation during direct current cortical polarization. Exp Brain Res. Albuquerque EX, Pereira EFR, Alkondon M, Rogers SW. 2009. Mammalian nicotinic acetylcholine receptors: from struc