1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO UNIVERSITÁRIO NORTE DO ESPÍRITO SANTO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO NA EDUCAÇÃO BÁSICA SCHAYANNY BÁRBARA DE LIMA BARCELOS REVISITANDO O ROMANTISMO A PARTIR DA ESCRITA FEMININA E NEGRA DE MARIA FIRMINA DOS REIS SÃO MATEUS 2023 2 SCHAYANNY BÁRBARA DE LIMA BARCELOS REVISITANDO O ROMANTISMO A PARTIR DA ESCRITA FEMININA E NEGRA DE MARIA FIRMINA DOS REIS Projeto de Mestrado Acadêmico em Ensino na Educação Básica apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Ensino na Educação Básica do Centro Universitário Norte do Espírito Santo da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ensino na Educação Básica. Orientadora: Profª Drª Eliane Gonçalves da Costa. SÃO MATEUS 2023 3 SCHAYANNY BÁRBARA DE LIMA BARCELOS REVISITANDO O ROMANTISMO A PARTIR DA ESCRITA FEMININA E NEGRA DE MARIA FIRMINA DOS REIS Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ensino na Educação Básica da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ensino na Educação Básica. Aprovada em 30 de junho de 2023. 4 5 AGRADECIMENTOS Toda a minha gratidão a Deus por essa vitória. Eu pedi força para resolver as coisas que eu pudesse e sabedoria lidar com aquelas que não estivessem ao meu alcance, e todas as vezes Ele me respondeu, por isso eu sou grata. À minha mãe, Rosangela Peres de Lima, a mulher mais forte e inspiradora que eu conheço. Obrigada por me manter em seus pensamentos e orações. A sua força é a minha força e eu sou feita de todo o amor que você me deu. Ao meu noivo, Sherman Pereira Rodrigues, que esteve ao meu lado comemorando cada conquista como se fosse dele e secou cada uma das lágrimas derramadas nos dias mais difíceis. Obrigada por cuidar de mim até quando eu digo que não precisa. À minha irmã, Jéssica dos Anjos Lima da Silva, que me inspira enquanto mulher e me faz querer ser a melhor irmã mais velha para ela sempre. À minha sogra Maria Aparecida Pereira Rodrigues, meu sogro Paulo Roberto Rodrigues e minha cunhada Lorraine Pereira Rodrigues, que são pura torcida e acolhimento. Vocês não têm meu sangue, mas tem todo o meu coração. À família que eu escolhi, meus amigos que estiveram do meu lado durante esse período em que conviver comigo incluía meus dias de mal humor e cansaço. Adyla Pimenta Calegari, Luana Peres Marques França, Maikon Antônio de Souza França e Ravena dos Santos Rodrigues. À Eliane Gonçalves da Costa, minha orientadora tão querida, que sempre com cuidado e maestria me conduziu e me orientou pelos melhores caminhos. Obrigada por tanto. À minha companheira de mestrado, Valquíria Santos, que esteve ao meu lado durante essa caminhada compartilhando os dias bons e os ruins. Por fim, sou grata a Schayanny adolescente, que um dia teve como maior sonho fazer faculdade. Obrigada por ter acreditado que a educação era o melhor caminho. Ela é. “Além de um ato de conhecimento, a educação é também um ato político. É por isso que não há pedagogia neutra.” 6 RESUMO Esta pesquisa investiga a escrita de autoria negra e feminina no fim do século XIX a partir do romance “Úrsula” de Maria Firmina dos Reis, o primeiro romance escrito por uma mulher e o primeiro romance abolicionista brasileiro, a partir do qual propõe revisitar a escola literária do Romantismo e inserir a discussão para as relações étnico- raciais na literatura, bem como a sua presença no ensino de literatura na segunda série do Ensino Médio. O Romance de Maria Firmina dos Reis possui grande importância histórica e literária, principalmente pela sua temática abolicionista, o que contribui para discussões sobre raça garantidas pela Lei 10.639/03. Para observar a recepção deste romance pelos estudantes da segunda série do Ensino Médio da EEEFM “Ilda Ferreira da Fonseca Martins”, foram realizadas rodas de leitura e discussão da obra, assim como oficinas literárias para que as características da narrativa e dos personagens pudessem ser discutidas. Utilizou-se como referencial teórico o trabalho de Antonio Candido (2000) a fim de entender a formação da Literatura brasileira, bem como investigar a ausência de Maria Firmina dos Reis no cânone literário brasileiro. Ademais, foi feito um estudo da crítica do Romance “Úrsula” para compreender a importância desta obra. Então, a partir da proposta de letramento literário de Cosson (2006), estruturaram-se oficinas literárias para levar o romance para a sala de aula. Os resultados apontam que é possível introduzir o romance de Maria Firmina dos Reis no ensino do Romantismo no Ensino Médio a fim trazer novos olhares para este momento literário a partir dos personagens negros, assim como é possível usar o romance “Úrsula” para compreender e discutir questões de raça da atualidade. Palavras-chave: Escrita feminina, literatura brasileira, Romantismo, Educação. 7 ABSTRACT This research investigates the writing of black female authorship at the end of the 19th century from the novel “Úrsula” by Maria Firmina dos Reis, the first novel written by a woman and the first Brazilian abolitionist novel, from which it proposes to revisit the literary school of Romanticism and insert discussion of ethnic-racial relations in literature, along with their presence in teaching literature in the second year of high school. The Romance by Maria Firmina dos Reis has great historical and literary importance, mainly due to its abolitionist theme which contributes to discussions about race maintained by Law 10.639/03. In order to observe the reception of this novel by EEEFM “Ilda Ferreira da Fonseca Martins” students of the second grade of High School, reading circles and discussion of the work were conducted, as well as literary workshops so that the characteristics of the narrative and of the characters began to be adressed to. The work of Antonio Candido (2000) was used as a theoretical reference in order to understand the formation of Brazilian Literature, as well as to investigate the absence of Maria Firmina dos Reis in the Brazilian literary canon. In addition, a study of the criticism of the novel “Úrsula” was made to understand the importance of this work. So, based upon Cosson's (2006) literary literacy proposal, we structured literary workshops to bring the novel to the classroom. The results indicate that it is possible to introduce the novel by Maria Firmina dos Reis in the teaching of Romanticism in High School in with the purpose of bringing new perspectives to this literary moment from the black characters, as well as it is possible to use the novel “Úrsula” to understand and discuss issues related to race nowadays. Keywords: Female writing, Brazilian literature, Romanticism, Education. 8 LISTA DE IMAGENS Imagem 1 – Mapa com os limites territoriais de São Gabriel da Palha-ES .............13 Imagem 2 – População residente por cor ou raça ...................................................14 Imagem 3 – Hábitos de ler livros ...............................................................................96 Imagem 4 – O quanto gostam de ler livros ...............................................................97 Imagem 5 – Preferência de leitura ...........................................................................97 Imagem 6 – Acesso à biblioteca na escola .................................................................98 Imagem 7 – Hábito de comprar livros .........................................................................98 Imagem 8 – Consideram importante ter acesso a livros na escola ............................99 Imagem 9 – Preta Susana ........................................................................................105 Imagem 10 – Túlio ...................................................................................................106 Imagem 11 - Antero .................................................................................................107 Imagem 12 – Fanfic Tancredo e Úrsula ...................................................................109 Imagem 13 – Fanfic Tudo pelo amor .......................................................................110 Imagem 14 – Fanfic Túlio o grande herói ................................................................112 Imagem 15 – Fanfic A mudança de Túlio ..................................................................113 Imagem 16 – Fanfic O final feliz de Antero ................................................................114 Imagem 17 – Fanfic O fim de Antero .......................................................................115 Imagem 18 – Fanfic Antero – Caos/Flor***...............................................................117 Imagem 19 – Taxa de assassinato cresce para negros e cai para brancos..............122 Imagem 20 – Negros representam 70% do grupo abaixo da linha da pobreza .........122 Imagem 21 – 63% das mulheres negras já passaram por situações de discriminação em processos seletivos ............................................................................................123 Imagem 22 – Negros representam 78% de pessoas mortas por arma de fogo no Brasil ..................................................................................................................................123 Imagem 23 – 71,7% dos jovens fora da escola são negros, e apenas 27,3% destes são brancos .............................................................................................................124 Imagem 24 – Mural produzido pela turma 2ª M02 e afixado no refeitório da escola .124 9 LISTA DE SIGLAS CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior DCN Diretrizes Curriculares Nacionais DCNEM Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio EM Ensino Médio ERER Educação paras as Relações Étnico-Raciais INEP Instituto Nacional e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação MEC Ministério da Educação e da Cultura PNE Plano Nacional de Educação PCN Parâmetros Curriculares Nacionais PCNEM Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio SEDU Secretaria Estadual de Educação 10 SUMÁRIO CONSIDERAÇÕES INICIAIS .................................................................................... 12 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 16 1 LITERATURA BRASILEIRA EM FORMAÇÃO: O ROMANTISMO ...................... 22 1.1 O GÊNERO ROMANCE ...................................................................................... 29 1.2 A FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA ................................................. 34 2 A LITERATURA BRASILEIRA E A AUSÊNCIA DA ESCRITA FEMINA .............. 41 2.1 A FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA: ALGUNS SEQUESTROS ....... 43 2.2 SE O BARROCO FOI SEQUESTRADO, A ESCRITA FEMININA TAMBÉM ...... 53 2.3 UMA MARANHENSE .......................................................................................... 63 3 MARIA FIRMINA DOS REIS E A CRÍTICA DE ÚRSULA ..................................... 69 3.1 A ESCRITA ABOLICIONISTA DE MARIA FIRMINA DOS REIS ......................... 71 3.2. A CRÍTICA AO ROMANCE ÚRSULA ................................................................. 80 4 MARIA FIRMINA DOS REIS E O ENSINO DE LITERATURA BRASILEIRA NO ENSINO MÉDIO ........................................................................................................ 83 4.1 A PRESENÇA DE MARIA FIRMINA DOS REIS NO ENSINO MÉDIO ............... 84 4.2 REPENSANDO O ENSINO DO ROMANTISMO A PARTIR DE ÚRSULA .......... 88 5 A INTRODUÇÃO DA ESCRITA FEMININA NA SALA DE AULA: AS IMPRESSÕES DOS ESTUDANTES ................................................................................................. 91 5.1 O ROMANCE ÚRSULA E AS OFICINAS LITERÁRIAS ...................................... 91 5.2 ANÁLISE DAS OFICINAS LITERÁRIAS E AS IMPRESSÕES DOS ESTUDANTES .................................................................................................................................. 96 5.2.1 Questionário sobre os hábitos de leitura dos estudantes ................................. 96 5.2.2 Apresentando Maria Firmina dos Reis ........................................................... 101 5.2.3 História compartilhada .................................................................................... 102 5.2.4 Perfis de personagens .................................................................................... 104 5.2.5 Reinventando finais ........................................................................................ 108 11 5.2.6 Tu! Tu livre? ................................................................................................... 121 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 125 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 127 APÊNDICES ......................................................................................................... 1311 APÊNDICE A .......................................................................................................... 132 APÊNDICE B .......................................................................................................... 134 ANEXOS ................................................................................................................. 135 ANEXO A ................................................................................................................ 137 ANEXO B ................................................................................................................ 141 ANEXO C ................................................................................................................ 143 ANEXO D ................................................................................................................ 144 12 CONSIDERAÇÕES INICIAIS O trabalho do professor é naturalmente investigativo, pois recorrentemente a sala de aula leva à lugares ainda desconhecidos. Por mais que o docente tenha planejado minuciosamente a sua aula e conheça todos os detalhes do que está ensinando, a experiência em cada turma é única e ali novos contornos do conteúdo da aula surgirão e, muitas vezes, levarão o professor de volta ao estudo. Ao ensinar as características, principais autores e obras do Romantismo brasileiro ao longo dos cinco anos em que atuo na Educação Básica, mais especificamente na segunda série do Ensino Médio (EM), novas questões surgiam em cada turma em que eu entrava e foi uma dessas que me trouxe a esta pesquisa. Em 2020, pouco antes da pausa no ensino presencial devido à pandemia do Covid- 19, ao explicar os principais aspectos do Romantismo brasileiro a uma turma, fui questionada sobre por que só estudamos autores homens na escola. A aluna que me fez essa pergunta, desde a sua entrada no EM havia estudado o Trovadorismo e o Classicismo português, o Quinhentismo, o Barroco e o Arcadismo brasileiro, e de acordo com o material escolar, só nomes masculinos estavam presentes nesses momentos literários. Então, mais uma vez só a autoria masculina aparecia na aula de literatura quando eu falava à turma sobre o Romantismo. Ao longo da minha própria formação, quando se falava em primeira autoria feminina na literatura brasileira era o nome de Rachel de Queiroz que surgia. E então, a pergunta que foi colocada em mim pela aluna da segunda série me levou novamente ao ciclo de estudar para ensinar que cabe a todo professor. E foi neste momento que me encontrei com a escrita de Maria Firmina dos Reis, que foi autora do primeiro romance abolicionista brasileiro, escrito e publicado no Maranhão no auge do Romantismo no Brasil. Além disso, a principal obra desta maranhense, o romance Úrsula, possui grande importância histórica por seu viés abolicionista e pela existência de personagens negros, que pela primeira vez na literatura brasileira, contribuem para a trama ao mesmo tempo que questionam sua condição de cativo. 13 Depois de conhecer a autora e a sua obra, a pergunta constante do porquê não ensinamos Maria Firmina nas escolas me trouxe à essa investigação. Principalmente por que a inserção do romance Úrsula no ensino do Romantismo concorda com a Lei 10.639/03 que incentiva o ensino da história e cultura afro-brasileira nas aulas de Literatura. Pensando nisso, nossa pesquisa se deu em São Gabriel da Palha uma cidade emancipada em 14 de maio de 1963. A população de cerca de 29.781 pessoas, de acordo com o censo de 2010, conta com a economia alicerçada na cafeicultura e na confecção de roupas, uma vez que a cidade é o terceiro maior produtor de café e o terceiro maior polo de confecção de roupas do Espírito Santo. O município possui uma área de 434.887 Km² e é localizado no norte do estado. Imagem 1 – Mapa com os limites territoriais de São Gabriel da Palha-ES. Fonte: http://www.ijsn.es.gov.br/mapas/ Conforme dito anteriormente, a população estimada para a cidade de São Gabriel da Palha pelo censo realizado em 2010 contava com de cerca de 29.781 pessoas, no entanto a população estimada em 2022 é de 34.198 habitantes. Referindo-se à raça da população, a quantidade de pessoas em São Gabriel da Palha que se auto declaram pardas ou negras, quando somadas, é superior à quantidade dos que se declaram brancos, no entanto a diferença numérica é muito pequena. De acordo com as informações coletadas no censo demográfico pelo IBGE, os dados por nós 14 convertidos percentualmente mostram que 49,51% do gabrielenses se auto declaram brancos, 3,57% pretos, 46,62% pardos, 0,23% amarelos e 0,05% indígenas. Esses dados nos mostram que esta é uma cidade diversa quanto à raça. Imagem 2 - População de residente por cor ou raça Fonte: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/1379#resultado A escola escolhida para a pesquisa foi a EEEFM “Ilda Ferreira da Fonseca Martin”, uma escola urbana de ensino regular, que conforme apontam os dados do censo escolar, em 2021 contou com 1.293 matrículas dividida em três turnos (matutino, vespertino e noturno) e três modalidades de ensino (Ensino Fundamental – anos finais, Ensino Médio e Educação de jovens e adultos). A turma na qual foi realizada a pesquisa foi a 2ª M02, uma das duas turmas de segunda série do turno matutino da escola. Apesar de trabalhar na instituição desde 2019, eu não conhecia pessoalmente os estudantes desta turma, pois a única vez que lecionei nesta turma foi de modo remoto em uma disciplina eletiva de produção textual no ano anterior. No entanto, desde o início do ano letivo de 2021 estes estudantes me chamaram a atenção devido a sua proatividade nas atividades que realizamos dentro ou fora da sala de aula. Na aplicação da primeira oficina, haviam nessa turma 28 matrículas, no entanto a partir da segunda oficina, após uma transferência, a turma contou com 27 matriculas. Ademais, duas estudantes não participavam presencialmente das aulas por questões médicas. Então, participaram da pesquisa 25 estudantes que, assim como a população total de São Gabriel da Palha eram diversos no quesito raça, no entanto Tabela 1079 – Pessoas com 5 anos ou mais de idade, total e as alfabetizadas, por cor ou raça, segundo a situação de domicilio e a idade Variável – Pessoas de 5 anos ou mais de idade (Pessoas) Idade – Total Ano - 2010 Alfabetização - Total Brasil, Unidade da Federação e Município Situação do domicílio Cor ou raça Total Branca Preta Amarela Parda Indígena Sem Declar ação Brasil Total 176.959.641 84.350.460 13.862.003 1.964.332 76.059.695 716.768 6.383 Urbana 149.624.656 74.389.864 11.891.156 1.703.548 61.339.554 295.425 5.109 Rural 27.334.985 9.960.596 1.970.847 260.784 14.720.141 421.343 1.274 Espírito Santo Total 3.270.511 1.377.308 281.318 20.521 1.582.754 8.584 26 Urbana 2.727.966 1.113.584 241.922 18.290 1.348.031 6.113 26 Rural 542.545 263.724 39.396 2.231 234.723 2.471 - São Gabriel da Palha (ES) Total 29.781 14.746 1.065 71 13.884 15 - Urbana 22.691 10.638 913 60 11.071 9 - Rural 7.090 4.108 152 11 2.813 6 - Fonte IBGE – Censo Demográfico Notas 1 – Dados do Universo 15 majoritariamente pardos e pretos quando somados entre si. De acordo com a auto declaração feita no ato da matrícula, na 2ª M02 havia 10 estudantes brancos (40%), 12 pardos (48%), 1 preto (4%) e 2 estudantes não quiseram se auto declarar (8%). Cabe mencionar ainda que dos estudantes participantes na pesquisa 16 são do sexo feminino (64%) e 9 do sexo masculino (36%). Na sala de aula, a pesquisa se desenvolveu a partir de oficinas literárias. Nestas atividades, os estudantes puderam entrar em contato com o romance escrito e publicado por Maria Firmina dos Reis em 1856 e, a partir disso, foram desenvolvidas discussões relacionadas com a a temática abolicionista da obra. Nas oficinas literárias, os alunos também tiveram a oportunidade de, a partir de uma escrita criativa de fanfics, expandir o universo criado por Maria Firmina dos Reis ao criar novas narrativas atreladas à obra original. Além disso, com base no contexto racial sobre o qual o romance Úrsula é construído foi possível criar junto aos estudantes uma discussão sobre o preconceito racial que ainda hoje se faz muito presente na sociedade brasileira. E, devido a isso, a discussão que Maria Firmina dos Reis trouxe no século XIX sobre a diferença feita entre as pessoas pela cor da pele, foi o alicerce da oficina que discutia a desigualdade racial que ainda é uma de nossas mazelas sociais. Sendo assim, este trabalho se divide em duas partes igualmente importantes. Primeiramente a pesquisa bibliográfica, que buscou investigar como se forma a literatura brasileira e, portanto, entender como a escrita feminina de Maria Firmina dos Reis, assim como tantas outras escritas femininas, foi mantida fora do cânone. E em seguida, uma pesquisa participante na qual as oficinas literárias realizadas na sala de aula puderam contribuir para constatar como o romance desta maranhense pode ser um importante instrumento para discutir questões raciais, sejam elas atuais ou do período escravista em que a obra foi escrita. 16 INTRODUÇÃO É inerente ao ser humano o desejo de conhecer e aprender. Também é essência humana buscar uma fuga da realidade a partir de algo que lhe proporcione entretenimento. A leitura e a literatura contribuem para estes dois processos, pois ao mesmo tempo que pode ser fonte de aprendizado e conhecimento também pode ser um instrumento de fuga da realidade a partir dos diversos mundos que as páginas de um livro podem proporcionar. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada por inúmeras nações do mundo em 1948 a fim de proteger e garantir a dignidade da pessoa, estabelece no 27º artigo o direito ao acesso às artes “Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes[...] (ONU, 1948). O que denota que ter acesso a cultura, a arte e, neste caso, a literatura, é indispensável para uma vida digna. Nesse sentido, cabe mencionar a discussão trazida por Candido (2004) sobre o acesso à literatura como um direito humano. Já que este para o autor, este é um bem incompreensível, ou seja, um bem sem o qual não é possível viver. Para Candido (2004a, p. 176 ) a literatura, de uma maneira ampla, pode ser entendida como qualquer estágio de confabulação, seja ele ouvir uma música, ver uma novela, compartilhar um conto oral ou ler um livro. Sendo assim, não é possível que uma pessoa tenha uma vida plena sem que entre em algum estado de fabulação em algum momento do seu dia. Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites ninguém é capaz de passar as vinte e quatro horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. (CANDIDO, 2004a, 176/177) Por essa razão, todas as pessoas devem ter o direito de acessar a literatura, em uma das suas amplas faces, garantido por sua nação. Uma vez que a literatura educa, ensina e, além disso, proporciona entretenimento, a escola deve contribuir na garantia deste direito que pode ser compreendido no artigo 27º da Declaração dos Direitos humanos. 17 Para Cosson (2020) dentro da escola a literatura deve ser tratada como um legado que deve ser passado entre as gerações de estudantes, e essa visão de literatura como um legado “confere aos textos literários um lugar proeminente na formação escolar, sobretudo no horizonte da educação humanística” (COSSON, 2020, p.23). E por essa razão é função da escola, como guardiã deste tesouro “guardar, organizar, reverenciar e transmitir” (COSSON, 2020, p. 29). Sobre esse aspecto, Antonio Cândido (2004a) também fala que a literatura pode contribuir para essa educação humanística. De acordo com Candido: Por isso é que nas nossas sociedades a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.” (CANDIDO, 2004a, p.175) E por esta razão é que a literatura está presente no currículo do Ensino Médio, pois é um meio fundamental de ensino. Ademais, a literatura é um instrumento que pode ser usado para a discussão social, começando dentro da escola, uma vez que as temáticas sociais trazidas nas obras literárias contribuem para o ensino. De acordo com Candido (2004a, p. 175) a literatura abre espaço para que o diálogo possa acontecer. Ao pensar na divulgação e no incentivo à literatura, principalmente no que se trata da escola, é importante lembrar qual é o espaço que a Literatura afro-brasileira ocupa nesta discussão. Por esta razão, cabe discutir também como a Lei 10.639/03, que altera a Lei 9.394/96 para incluir a obrigatoriedade de trazer a cultura e história afro- brasileira para o espaço escolar, também pode ser pensada no incentivo à literatura afro-brasileira. De acordo com o Art. 26-A da Lei 10.639/03: Art. 26-A Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro- Brasileira. § 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil. 18 § 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. (BRASIL, 2003) Ao levar em consideração o segundo inciso do artigo 26-A, é possível perceber a importância da Literatura para a implementação da história e cultura afro-brasileira nas escolas. E por este motivo é necessário pensar em como isso tem sido feito nas escolas desde a sanção da Lei. Relacionado a isso, cabe destacar o Programa Nacional da Biblioteca Escolar (PNBE) que até 2014 se destinava a incluir nas bibliotecas das escolas públicas brasileiras obras que referenciavam a diversidade, inclusão e cidadania. Por esta razão, a Literatura tornou-se um importante instrumento para tratar as questões relacionadas às relações étnico-raciais. Como anteriormente citado, Cândido (2004) defende a Literatura como um importante método de ensino e de análise de mundo, por esta razão é que ela é tão presente nos currículos escolares. A literatura tem o poder de instruir, ensinar, advertir e levantar importantes questões sociais. A respeito destes dois lados da literatura, convém lembrar que ela não é uma experiência inofensiva, mas uma aventura que pode causar problemas psíquicos e morais, como acontece com a própria vida, do qual é a imagem e transfiguração. Isto não significa que ela tem um papel formador de personalidade, mas não segundo as convenções; seria antes segundo a força indiscriminada e poderosa da própria realidade. (CANDIDO, p.175-176, 2004a) Sendo assim, é possível perceber o poder que a literatura tem de proporcionar o crescimento do pensamento crítico nos estudantes. Por esta razão, é importante usá- la a literatura como veículo para a discussão da inclusão e da diversidade na escola, indo de encontro com os objetivos estabelecidos pela Lei 10.639/03. Neste sentido, cabe à escola apresentar obras escritas por pessoas negras e que falem sobre a cultura afro-brasileira, para que assim a discussão em torno destas obras possa criar um relacionamento entre os estudantes e a história e cultura afro- brasileira. Neste sentido, vale lembrar da obra de Maria Firmina dos Reis, que foi a autora do primeiro romance abolicionista brasileiro. Em “Úrsula”, Maria Firmina traz um retrato do Brasil escravista e patriarcal do século XIX. Além de apresentar um enredo tipicamente romântico, a autora constrói um marco das dores do povo africano e afro- brasileiro que vivia no Maranhão naquele período. 19 É possível entender que este romance de Maria Firmina dos Reis pode ser um importante instrumento para discutir a história e cultura afro-brasileira conforme propõe a Lei 10.639/03. Contudo, esta obra ainda não é contemplada pelo currículo do Ensino Médio, assim como tantas outras que tratam de questões que se mostram cada vez mais importantes para a formação dos estudantes da Educação Básica. E isso se dá, principalmente, por que a escrita de Maria Firmina dos Reis não é contemplada pelo cânone literário brasileiro. Importantes historiografias literárias, como a Formação da Literatura Brasileira de Antônio Candido, não contemplam a obra de muitas escritoras do século XIX, dentre elas, Maria Firmina dos Reis. Candido (2000b, p.24) fala sobre a diferença entre sistema literário e manifestações literárias. Então, em uma visão diacrônica, que leva em consideração as contribuições de uma obra no período em que foi publicada, entende que uma obra é relevante caso tenha contribuído para a continuidade do sistema literário. Neste sentido, há uma tradição que uma obra deve seguir para ser considerada literatura e, para Candido (2000b, p. 24), não há literatura sem esta tradição. Enquanto isso, quando não há uma representação de um sistema, mesmo que não desconsidere o valor individual da obra, Candido (2000b, p.24) a intende como uma manifestação literária. Ou seja, uma obra isolada que não contribui com o cânone. No entanto, muitas escritas femininas não puderam contribuir com o cânone no período em que surgiram. No início do século XIX, durante o período do Romantismo brasileiro, o papel reservado à mulher era o de esposa, mãe e cuidadora do lar. No Brasil, a literatura era um ambiente pensado e construído por homens e a presença feminina nas obras estava reservada ao arquétipo da donzela dos romances ou das musas divinais que inspiravam as poesias. Apesar de ser um grande público consumidor de literatura nesse período, sobretudo da prosa, as publicações femininas não eram bem vindas. Por esta razão, quando uma mulher publicava havia a necessidade de preservar sua identidade com um pseudônimo, como fez Maria Firmina dos Reis. Firmina assinou seu romance de estreia como “Uma maranhense”, observado, assim, os preceitos da invisibilidade feminina que regiam a etiqueta literária do período. Seguindo essa regra, logo de início ela se desculpava da insolência de se tornar autora, relacionando um sem-número de falhas e defeitos que existiam em sua obra. (MACHADO, 2018, p.17-18) 20 Neste contexto, Maria Firmina dos Reis, uma mulher maranhense, negra e professora de primeiras letras escreve e publica o romance romântico Úrsula em 1856 sob o pseudônimo “uma maranhense”, no qual abre diversas discussões indiretas sobre a vulnerabilidade e submissão da mulher do século XIX e sobre a crueldade da escravidão, que neste período ainda se fazia vigente no Brasil. Portanto, Úrsula se mostra uma importante interpretação tanto da real condição da mulher naquele período, tendo em vista que foi escrito por uma mulher, quanto da condição das pessoas negras escravizadas no país, levando em consideração que a própria autora era uma pessoa negra, que mesmo não sendo escravizada trazia de suas convivências a real dor que a escravidão podia proporcionar. Por essa razão, o romance de Maria Firmina dos Reis se destaca, não somente por ser o primeiro romance abolicionista brasileiro e um dos primeiros romances a ser escrito por uma mulher neste país, mas também pelo modo único como lança o seu olhar para o negro escravizado no Brasil naquele século. Devido a isso, o romance de Maria Firmina dos Reis cabe na sala de aula como um importante aliado no ensino do Romantismo, bem como um representante da literatura afro-brasileira que se propõe a discutir a condição do negro escravizado no século XIX, contribuindo, desta forma, na efetivação da Lei 10.639/03 que garante a inclusão de obras afro-brasileiras no ensino de literatura no Ensino Médio. Buscando tratar das questões expostas, iremos analisar neste estudo o romance de Maria Firmina dos Reis: Úrsula (2018). E, a fim de entender as razões que afastam esta obra do cânone, também será analisada a Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido (2000), na qual o autor apresenta a sua visão diacrônica do processo formativo da literatura. Como contraponto é trazida o questionamento de Haroldo de Campos à fomação da literatura brasileira proposta por Candido, uma vez que Haroldo de Campos na publicação A arte no horizonte do provável (1969) entende a necessidade do olhar sincrônico para a literatura. A pesquisa também contou com a análise bibliográfica da vida e obra de Maria Firmina dos Reis, que contou com os estudos de Zahide Lupinacci Muzart em Escritoras Brasileiras do século XIX (2000) e do prefácio escrito para Úrsula por Maria Helena Pereira Toledo Machado (2018). 21 No âmbito prático da pesquisa, foram realizadas as oficinas literárias em uma turma da segunda série do Ensino Médio, nas quais os estudantes tiveram contato com o romance de Maria Firmina a fim de analisa-lo e expor pensamentos a respeito da temática racial presente na obra que puderam ser discutidos com a turma. De acordo com a metodologia de letramento literário proposta por Cosson (2014). A partir das oficinas, foi possível desenvolver a escrita criativa de fanfics do romance Úrsula. Uma vez que a fanfic é um gênero textual muito comum no ambiente virtual que tem como objetivo criar novos contornos e novos finais dentro do universo de uma obra literária já existente, os estudantes tiveram então, a liberdade de criar novas ramificações do romance. Diante do exposto, o trabalho desenvolvido com os estudantes a partir do estudo e análise do romance de Maria Firmina dos Reis pode contribuir para o aprendizado de novos elementos relacionados ao Romantismo, bem como pode proporcionar o acesso dos estudantes à literatura afro-brasileira, conforme garante a Lei 10.639/03. Portanto, esta pesquisa tem como objetivo geral investigar a escrita de autoria negra e feminina no fim do século XIX a partir do romance Úrsula de Maria Firmina dos Reis, propondo revisitar o Romantismo brasileiro e inserir a discussão para as relações étnico-raciais no ensino de literatura no Ensino Médio. Para alcançar tal feito, foram construídos caminhos a partir dos seguintes objetivos específicos: analisar a produção literária de Maria Firmina dos Reis, investigar os motivos que apagam a produção desta autora do cânone literário, buscar a presença de Maria Firmina na escola a partir da análise dos principais livros didáticos da segunda série do EM, propor um novo olhar para o Romantismo brasileiro a partir da desta escrita feminina, introduzir o romance Úrsula na sala de aula para que os estudantes possam analisá-lo e discutir as questões raciais por ele proposta e usar este romance como base para o desenvolvimento de oficinas literárias que proporcionem a investigação, o protagonismo dos estudantes e a escrita criativa. Para alcançar os objetivos acima mencionados, foi feito um diálogo com Antônio Candido(2000b), Haroldo de Campos (1969) e Cosson (2006). Os quais deram 22 suporte para o entendimento do ensino de literatura no Ensino Médio, bem como para as discussões para as relações étnico-raciais. Esta pesquisa se configura como participante e de cunho qualitativo, uma vez que foi dado o protagonismo à recepção dos estudantes para a obra literária Úrsula (1856) de Maria Firmina dos Reis, bem como os diálogos e produções que foram proporcionados a partir deste romance. Na pesquisa participante sempre importa conhecer para formar pessoas populares motivadas a transformar os cenários sociais de suas próprias vidas e destinos, e não apenas para resolverem alguns problemas locais restritos e isolados, ainda que o propósito mais imediato da ação social associada à pesquisa participante seja local e específico. A ideia de que somente se conhece o que se transforma é inúmeras vezes evocada até hoje (BRANDÃO, 2007, p.7). O envolvimento como professora e pesquisadora possibilitou a observação das ações da pesquisa no cotidiano escolar. A presença do pesquisador não desaparece, no entanto contribui na construção do conhecimento e desenvolvimento da pesquisa. De acordo com Brandão (1999, p.43) a metodologia que procura incentivar o desenvolvimento autônomo (autoconfiante) a partir das bases e uma relativa independência do exterior”. A partir disso, o estudante em parceria com o pesquisador, contribui para o conhecimento produzido na pesquisa. A metodologia da pesquisa participante se deu por meio das oficinas literárias realizadas pela turma com base na proposta de letramento literário de Rildo Cosson (2004), na qual os estudantes puderam, a partir da escrita criativa, leitura e diálogo, contribuir com as suas percepções acerca do texto literário. Em um primeiro momento foram feitas conversas com os estudantes sobre quem foi Maria Firmina dos Reis e sobre a importância da sua obra como uma literatura abolicionista. Em seguida, foi entre aos estudantes cópias do romance Úrsula para que pudessem fazer a leitura, para isso os estudantes tiveram cerca de 30 dias. No momento seguinte, em uma roda os estudantes puderam compartilhar a leitura do romance com toda a turma. A seguir, os estudantes puderam entender o perfil dos personagens negros da obra, tanto em seus aspectos físicos, quanto psicológicos. A partir da percepção dos estudantes dos personagens é possível perceber se os mesmos conseguem chegar ao entendimento do viés abolicionista de Úrsula. 23 A partir do conceito da fanfic, que é uma escrita criativa feita pelo leitor a partir de uma obra literária já existente, foi pensada a oficina “Reinventando Finais”, na qual os estudantes puderam criar novos finais, ou seja, fanfics, do romance Úrsula. Na próxima fase, foi trazido para uma roda de leitura o capítulo “Preta Susana”, que narra a trajetória da africana livre que foi subjugada pela escravidão. A fim de responder as questões desta pesquisa e refletir sobre a temática apresentada, este trabalho se divide em quatro capítulos. O capítulo, intitulado “A formação da Literatura brasileira: o Romantismo” buscou entender como se deu o processo de formação da literatura brasileira, com um olhar especial para o Romantismo. Ao entender que no processo de formação do cânone literário brasileiro a escrita feminina do século XIX é recorrentemente excluída, o segundo capítulo chamado de “A Literatura Brasileira e a ausência da escrita feminina” discute a ausência da mulher na historiografia literária ao mesmo tempo que apresenta Maria Firmina dos Reis e sua importante escrita. Nesse sentido, o terceiro capítulo, “Maria Firmina dos Reis e a crítica de Úrsula” investiga a visão da crítica a respeito do romance Úrsula, tanto na época de sua escrita como atualmente. A partir do olhar da crítica atual para este romance, foi possível compreender a importância da obra. Uma vez que foi entendida a importância do romance Úrsula, no quarto capítulo “Maria Firmina dos Reis e o ensino de Literatura Brasileira no Ensino Médio”, buscamos propor novas características à escola literária em questão, para que as discussões trazidas pela obra de Maria Firmina tenham relevância no contexto geral do movimento. Foi pensado também em como a presença do romance Úrsula na escola se relaciona com as propostas da Lei 10.639/03. Por fim, no quinto capítulo, “Introdução de Úrsula na sala de aula: as impressões dos estudantes” realizamos oficinas literárias de leitura e interpretação da obra pelos estudantes para que houvesse a discussão sobre gênero e raça que o romance Úrsula oportuniza. As oficinas também contaram com produções como a escrita criativa de fanfics a fim de proporcionar o protagonismo estudantil. 24 1 LITERATURA BRASILEIRA EM FORMAÇÃO: O ROMANTISMO Surgido no século XIX em meio a grandes movimentações que prometiam um novo mundo, como a revolução francesa e a ascensão da burguesia na Europa, no Brasil o Romantismo culmina na busca pela criação de uma literatura que de fato representasse este país. Anteriormente, o Arcadismo buscara um aprimoramento estético a fim introduzir à produção literária brasileira o rebuscamento europeu. No entanto, as produções árcades, apesar de empenhadas, ainda apresentam a temática relacionada aos clássicos da Europa, por isso este período literário também é chamado de neoclassicismo. Em contrapartida, o Romantismo, mesmo com sua origem europeia, quando trazido ao Brasil contará com temáticas nacionais e, por essa razão, é considerado o primeiro momento literário, de fato, brasileiro. De acordo com Candido (2000b, p.11) “graças ao Romantismo a nossa literatura pode se adequar ao presente”. Citando Paul Valéry, Bosi (2017, p. 95) fala que “seria necessário ter perdido todo espírito de rigor para querer definir o Romantismo” e, de fato, definir o Romantismo seria uma tarefa ingrata, mas cabe analisá-lo a fim de compreender as suas nuances. O século XIX foi um período de grandes mudanças políticas, sociais e culturais para o Brasil. No início deste século, de acordo com Candido (2004b, p.7) o Brasil era uma colônia portuguesa atrasada, e Portugal, por sua vez, também era uma nação atrasada quando comparada às demais nações europeias. Não havia Universidades, nem tipografias, o que fazia da imprensa quase inexistente no Brasil. O país carecia de bibliotecas ou centros culturais como teatros. Mas, de acordo com Candido, ainda assim os brasileiros presavam pela apreciação cultural de que dispunham, como foi o caso dos Árcades. No Brasil não havia universidades, nem tipografias, nem periódicos. Além da primaria, a instrução limitava à formação de clérigos e ao nível que hoje chamamos de secundário, as bibliotecas eram poucas e limitadas a conventos, o teatro era paupérrimo, e muito fraco o intercâmbio entre os núcleos povoados do país, sendo dificílima a entrada de livros. (CANDIDO, 2004b, P.8) É com a chegada da família real portuguesa para o Brasil em 1808, entretanto, que grandes mudanças culturais começam a acontecer no país, entre elas a permissão para a instalação de tipografias, que concederam a impressão dos primeiros livros. A criação de uma grande biblioteca pública, a qual contava com diversos livros 25 estrangeiros e o surgimento da impressa marcado pela criação do primeiro jornal o Correio brasiliense. De acordo com Candido, “do ponto de vista cultural, a presença do governo português no Brasil foi um marco histórico transformador, a partir do Rio de Janeiro, que se tornou definitivamente o centro do país e foco de irradiação intelectual e artística” (CANDIDO, 2004b, p.10) Um outro fato importante que marca o início do século, e que muda os rumos políticos, sociais e culturais do Brasil é a proclamação da independência em 1822, que Candido (2004) descreve da seguinte forma: De fato, tornando-se sede da Monarquia o Brasil não apenas teve a sua unidade garantida, mas começou a viver um processo de independência virtual, tornando-se efetiva em 1822 depois que o soberano voltou a Lisboa por exigência dos seus súditos portugueses. Em 1816 o país fora elevado à categoria de Reino Unido e, em 1821, ao se retirar, o Rei d. João VI (que sucedera à mãe, morta em 1816) deixou como regente o filho mais velho, herdeiro do trono, aconselhando-o que caso a independência se tornasse inevitável ele próprio a fizesse e governasse o Brasil. Foi o que fez o príncipe, proclamando a separação e sendo aclamado Imperador sob o nome de Pedro I, numa solução conciliatória que permitiu às classes dominantes manter a posição e vantagens, sem resolver os problemas das classes dominadas, o maior dos quais era a escravidão dos negros, abolida apenas em 1889. (CANDIDO, 2004b, p. 10) Este fato específico influenciou diretamente o Romantismo brasileiro, principalmente a primeira geração que traz como uma missão a exaltação da pátria e a criação de uma literatura, que assim como o Brasil, também seja independente de Portugal. No entanto, antes de falar sobre como a literatura nacionalista romântica do Brasil se formou, é necessário entender como o romantismo chega a este país. Havia em Paris, no início deste mesmo século, um grupo de jovens homens brasileiros que tinha saído de seu país natal para estudar, pois como falado anteriormente, no Brasil não havia universidades, portanto era comum que rapazes de posses fossem para a Europa concluir seus estudos. Este grupo, que estava em Paris, liderado por Domingos José Gonçalves de Magalhães e composto também por Manuel de Araújo Porto Alegre, Francisco de Sales Torres Homem, João Manuel Pereira da Silva e Cândido de Azeredo Coutinho foi responsável pela criação e publicação da revista Niterói, Revista Brasiliense de Ciências,d Letras e Artes, em 1936 e de acordo com Candido (2000b, p. 13) o líder desses jovens, Magalhães, tinha a “intenção de definir uma literatura nova no Brasil, que fosse no plano da arte o que fora a Independência na vida política e social.”(CANDIDO, 2000b, p.13) 26 Esta publicação contava com estudos relacionados à música, química, direito, astronomia e, é claro, literatura. De acordo com Candido (2000b, p. 14) “os estudos críticos de Magalhães e Pereira da Silva estabeleceram o ponto de partida para a teoria do Nacionalismo literário”. Ademais, Gonçalves de Magalhães, já se perguntava se o Brasil poderia ter uma poesia própria. E então, no segundo volume da revista Niterói, encontra-se o que seria, de acordo com Candido (2000b, p.14), o primeiro poema romântico da literatura brasileira: Encontra-se no número 2 da mesma revista, numa pequena nota de Porto- Alegre à sua “Voz da Natureza”, talvez o primeiro poema decididamente romântico publicado em nossa literatura, pequena e singela nota, onde entusiasta de Garrett encerra todas as aspirações da nova escola e definia a sua separação da literatura anterior. (CANDIDO, 2000b, p.14) Aliado ao sentimento de renovação da literatura brasileira, e uma busca por algo que se afastasse do colonizador, as primeiras criações do romantismo brasileiro obtiveram morada segura no momento político pelo qual o país passava, já que por aqui crescia o sentimento de rejeição a tudo que vinha da Europa, principalmente de Portugal. Enquanto isso, o sentimento nacionalista estava em uma constante crescente. A publicação do livro Suspiros Poéticos e Saudades, em 1836 por Gonçalves de Magalhães marca o início factual do Romantismo no Brasil. Bosi fala sobre a importância histórica desta publicação: A relevância histórica reside no fato de Magalhães não ter operado sozinho como imitador de Lamartine e Mazoli, mas ter produzido junto a um grupo, visando a uma reforma da literatura brasileira. Fundando em Paris a Niterói, revista brasiliense (1836) com seus amigos Porto Alegre, Sales Torres Homem e Pereira da Silva, o autor de Suspiros Poéticos promoveu de modo sistemático os seus ideais românticos (nacionalismo mais religiosidade) e o repúdio aos padrões clássicos externos, no caso o emprego da mitologia pagã. (BOSI, 2017, p. 103) O Romantismo brasileiro é tradicionalmente dividido em três momentos, chamados de gerações. A primeira, chamada de geração Indianista ou Nacionalista, a segunda, chamada de geração Mal-do-século e a terceira, chamada de geração Condoreira. A primeira geração do Romantismo brasileiro que conta como marco inicial a publicação já mencionada de Gonçalves de Magalhães é chamada de Indianista ou Nacionalista devido às suas principais temáticas: o nacionalismo, a religiosidade e o indianismo. Como dito anteriormente, a constante exaltação da pátria presente neste primeiro ponto do romantismo brasileiro acontece devido ao momento que o país vivia, já que a independência política de Portugal inspira também uma independência artística que já era almejada pelos brasileiros. De acordo com Candido: 27 Um elemento importante nos anos 1820 e 1830 foi o desejo da autonomia literária, tornando mais vivo depois da Independência. Então, o Romantismo apareceu aos poucos com o caminho favorável à expressão própria da nação recém-fundada, pois fornecia concepções e modelos que permitiam afirmar o particularismo e, portanto, a identidade, em oposição à Metrópole, identificada como tradição clássica. Assim surgiu algo novo: a noção de que no Brasil havia uma produção literária com características próprias, que agora seria definida e descrita como justificativa de reivindicação de autonomia espiritual. (CANDIDO, 2004b, p.19) Aliada ao nacionalismo estava a religião, que contribuía com a aversão às temáticas pagãs da literatura clássica. De acordo com Candido (2000b, p. 17) todos os poetas românticos traziam um viés religioso para sua obra, embora os da primeira geração apresentassem esta temática mais abertamente. Gonçalves de Magalhães ainda na revista Niterói publica o ensaio Filosofia e Religião em que traz a religião com o seu papel indispensável na literatura¹. No entanto, de acordo com Candido, foi a religião como um lugar de afetividade que se tornou característica da primeira geração de românticos brasileiros: Mas foi a segunda modalidade que dominou: religião concebida como posição afetiva, abertura da sensibilidade para o mundo e as coisas através de um espiritualismo mais ou menos indefinido que é propriamente a religiosidade, tão característica do Romantismo e já encontrada por nós no 1º volume. Assim a vemos tanto num meticuloso devoto, como Magalhães, quanto num céptico irreverente, como Bernardo Guimarães. O espiritualismo era um pressuposto da escola, e todos pagavam seu tributo. (CANDIDO, 2000b, p. 17) Entretanto, nenhuma das características do Romantismo é tão expressiva quanto o indianismo, que rompeu a bolha da poesia e se tornou ponto alto da prosa romântica. A narrativa centrada num personagem indígena não aparece pela primeira vez no Romantismo, muito antes dos românticos, Santa Rita Durão trazia à luz a epopeia O Caramuru e Basílio da Gama com o Uraguai também expandia esta temática². No entanto, é no Romantismo, principalmente pela grande popularidade da prosa, que o indianismo ganha o gosto popular e, portanto, marca esta escola literária. Nesse sentido, Candido (2004b, p.19) cita Ferdinand Denis que estudou por muito tempo a relação do Brasil com sua literatura, e então criou a teoria de que este país deveria ter uma literatura peculiar devido à sua “fisionomia geográfica, étnica, social e histórica” (CANDIDO, 2004b, p.19) e que para isso seria necessário “concentrar-se na descrição de sua natureza e costumes, dando realce ao índio, o habitante primitivo e por isso mais autêntico”, segundo Denis (apud CANDIDO, 2004b, p.20). 1 Gonçalves de Magalhães “Filosofia e religião” reproduzido em Ospúsculos Históricos e Literários, págs.273-304. Apud CANDIDO, 2000, p.17. 2 O Caramuru publicado em 1781 e O Uraguai publicado em 1769. 28 Contudo, o índio do Romantismo brasileiro não condiz com a real população indígena do século XIX. Candido (2000b, p. 19) fala sobre como coube à Gonçalves de Magalhães os primeiros passos para a criação do arquétipo indígena que seria visto na literatura romântica, que tinha um “lado do cavalheiro medieval”, que de acordo com Candido (2000b, p.19) era uma visão deformada pela imaginação do autor, que por sua vez “conferiu ao Romantismo”. De acordo com Cândido, quanto ao índio: O indianismo dos românticos, porém, preocupou-se sobremaneira em equipará-lo qualitativamente ao conquistador, realçando ou inventando aspectos do seu comportamento que pudessem fazê-lo ombrear com este – no cavalheirismo, na generosidade, na poesia. (CANDIDO, 2000b, p.19) Para estes românticos, o culto a um herói nacional ligado ao passado histórico do Brasil era uma maneira de reafirmar este lugar como uma pátria independente. Contudo, ainda o faziam criando histórias e personagens, mesmo com a destreza e habilidade em meio a natureza similares a dos indígenas brasileiros, que ainda na maior parte de suas características era à “maneira da Idade Média”. De acordo com Cândido: A altivez, o culto da vindita, a destreza bélica, a generosidade, encontravam algumas ressonâncias nos costumes aborígenes, como os descreveram cronistas nem sempre capazes de observar fora dos padrões europeus e, sobretudo, como quiseram deliberadamente ver escritores animados do desejo patriótico de chancelar a independência política do país com o brilho de uma grandeza heroica especificamente brasileira. Deste modo, o indianismo serviu não apenas como passado mítico e lendário (à maneira da tradição folclórica dos germanos, celtas ou escandinavos), mas como passado histórico, à maneira da Idade Média. Lenda e história fundiram-se na poesia de Gonçalves Dias e mais ainda no romance de Alencar, pelo esforço de suscitar um mundo poético digno do europeu. (CANDIDO, 2000b, p. 20) Sendo assim, esta visão do índio heroico, cavalheiresco e gentil permeou muitas obras do romantismo brasileiro, sendo ele a principal representação desta nação na literatura, tanto na poesia quanto na prosa. Nesse sentido, cabe mencionar a prosa romântica que é o ponto de virada da literatura brasileira. É claro que a poesia romântica foi muito expressiva e importante para dar início a este momento literário no Brasil. No entanto, é na prosa que o Romantismo brasileiro vai se destacar, e isso principalmente pela difusão e popularidade do gênero literário romance, que aproveitou o crescimento da tipografia e o nascimento da impressa para tornar acessível a escrita em prosa. 29 1.1 O GÊNERO ROMANCE Com cerca de duas mil obras publicadas no século XVIII na Inglaterra, o Romance se tornou um gênero textual em ascensão por ganhar o gosto popular. Estima-se que até o fim do século XIX, a quantidade de publicações deste gênero superou até mesmo as publicações religiosas. Consolidado na Inglaterra, o romance chega a França no século XVIII e foi amplamente difundido pela criação das bibliotecas circulantes. Como dito anteriormente, antes da chegada da família real portuguesa ao Brasil, o país carecia de acesso à cultura. Nesse sentido, somente após 1808 com a criação de biblioteca aos moldes europeus no Rio de Janeiro, bem como a criação da impressa régia, foi possível que os romances ganhassem algum lugar na cultura brasileira. Em primeiro plano, diversos romances traduzidos do francês começaram a ganhar o gosto popular do brasileiro, que ainda tinha a sua apreciação literária centrada em pequenos contos e novelas. Nesse sentido, Candido (2000b, p.107) apresenta alguns números que comprovam o volume de traduções de romances ingleses e franceses que aconteceram no século XVIII no Brasil. Estes dados podem evidenciar a apreciação dos brasileiros pelo gênero: Estudando o problema da propriedade literária, J. M. Vaz Pinto Coelho foi levado a pesquisar o folhetins, chegando a estabelecer uma lista, que considera “certamente muito incompleta”, de 74 romances traduzidos e publicados desta forma, entre 1830 e 1854. Admitindo que tenha escapado à sua investigação mais ou menos um terço, suponhamos que o número seja 100, o que dá uma média de quatro romances anuais. É interessante verificar que a maioria aparece no ano de 1839, decaindo o ritmo a partir de 1847. Entre 1838 (aparecimento das novelas de Pereira da Silva) e 1845 (aparecimento d’O Moço Loiro) estão situadas 50 dos 74 da lista de Pinto Coelho, ou seja, dois terços, em pouco menos de um terço de período investigado (7 anos sobre 24). (CANDIDO, 2000b, p. 107) Ainda de acordo com Candido (2000b, p.107) a apreciação dos romances pelos brasileiros acontece assim que o gênero é trazido e traduzido para ser amplamente difundido. E este apreço pela narrativa longa traduzida do inglês ou do francês cresce nas primeiras décadas, e um dos fatores que pode ter contribuído foi o crescimento da imprensa, já que muitos desses folhetins eram publicados nos jornais. No entanto, Candido (2000b, p.107) observa que a partir da publicação de romances brasileiros, o índice de procura por traduções começa a decair, o que revela que a produção brasileira começa a tomar seu lugar. Entretanto, o autor ressalta a 30 dificuldade que os escritores brasileiros enfrentavam por ser pouco valorizados no ramo editorial, devido às facilidades financeiras de traduzir e publicar um romance estrangeiro. Sobre isso Candido pontua que “pelo século afora o romance estrangeiro, traduzido sem pagamento de direitos autorais, foi concorrente do nacional, chegando- se a dizer que prejudicava o seu desenvolvimento, desestimulando nossos escritores” (CANDIDO, 2000b, P.107). Apesar de prejudicar o ganho financeiro de muitos escritores brasileiros do início do século, esta cultura de tradução das obras francesas e inglesas contribuiu com a criação do hábito de ler romance pelo público brasileiro. Ademais, muitos escritores foram incentivados a produzir folhetins regionais a partir da percepção da apreciação do público por este gênero. Dentre estes, o já citado grupo responsável pela criação da Niterói: revista brasiliense, deu seu apoio a produção de romances brasileiros apesar, conforme afirma Candido (2000, p. 106), de estarem “ainda presos ao fascínio dos gêneros tradicionais, renovados ou não, a que dedicam muito maior afinco: epopeia, tragédia, lírica”(CANDIDO, 2000b, p.106). E então, em 1844 A moreninha de Joaquim Manoel Macedo abre caminho para a publicação de romances brasileiros, trazendo um enredo que fala sobre o amor inocente e as adversidades que podem levar dificuldades ao amor. De acordo com Cândido, as primeiras obras de Macedo, A Moreninha e Moço Loiro de 1845, são “apreciáveis pela coerência e execução, fundindo tendências anteriores esboçadas e dando exemplo dos rumos que nosso romance seguiria, isto é, a tentativa de inserir os problemas humanos num ambiente social descrito com fidelidade” (CANDIDO, 2000b, p. 105). Dois fatores contribuíram muito para que o romance se tornasse tão popular no Brasil e, portanto, muito influente, de acordo com Candido (2000b, p. 98). O primeiro foi o crescimento do número de leitores e a participação mais consistente dos cidadãos na cultura, isso aliado ao crescimento da imprensa que fazia com que as obras fossem de fácil acesso. O segundo fator foi o senso de missão histórica que o romantismo tinha. Segundo Candido: Em segundo lugar, mencionemos a vocação histórica e sociológica do Romantismo. Estimulando o interesse pelo comportamento humano, 31 considerado em função do meio e das relações sociais. Ora, o estudo das sucessões históricas e dos grupos sociais, da rica diversificação estrutural de uma sociedade em crise, não cabia de modo algum na tragédia ou no poema: foi a seara própria do romance, que dele se alimentou, alimentando ao mesmo tempo o espírito histórico do século. (CANDIDO, 2000b, p. 98) Nesse sentido, o Romance ainda é um importante aliado na discussão social, histórica e cultural que não podia ser aprofundada em outros gêneros literários já presentes na literatura brasileira. E por esta razão, ganhou o gosto popular rapidamente. O público leitor de romances no Brasil era composto por moças e rapazes de classe média em busca de entretenimento, que, conforme aponta Bosi (2017, p.135) não percebia ou se importava com o grau da escrita: O romance romântico brasileiro dirigia-se a um publico mais restrito que o atual: eram moços e moças provindo das classes altas, e, excepcionalmente, médias; eram os profissionais liberais da corte ou dispersos pelas provinciais: era, enfim, um tipo de leitor à procura de entretenimento, que não percebia muito bem a diferença e grau entre um Macedo e um Alencar urbano. Para esses devoradores de folhetins franceses, divulgados em massa a partir de 1830/40, uma trama rica de acidentes bastava como pedra de toque do bom romance. À medida que os nossos narradores iam aclimando à paisagem e ao meio nacional os esquemas de surpresa e de fim feliz dos modelos europeus, o mesmo público acrescia ao prazer da urdidura e do reconhecimento ou da autoidealização (BOSI, 2017, p. 135) Desse modo, esses leitores brasileiros podiam ter acesso a uma realidade parecida com a sua, ao mesmo tempo em que podiam assumir o lugar do herói ou da heroína, fugindo, por meio do entretenimento proporcionado pela leitura, da sua realidade para uma realidade similar, pois ainda se tratava dos costumes e da sociedade brasileira. Principalmente nos romances urbanos em que os grandes centros urbanos e os costumes da sociedade das grandes cidades eram pano de fundo para a história. As diferentes temáticas dos romances românticos podem ter contribuído também para este apreço popular, tendo em vista que a gama de temas proporcionava ao leitor a escolha bem como a diversificação na leitura, como uma contradição à sua vida monótona. Segundo Bosi: A fusão de um pedestre e miúdo cotidiano (cimentado pela filosofia do bom senso) com o exótico, o misterioso, o heroico, define bem o arco das tensões de uma sociedade estável, cujo ritmo vegetativo não lhe consentia projeto histórico ou modos de fuga além do ofertado por alguns tipos de ficção: a passadista e colonial (O Guarani, As Minas de Prata, de Alencar; As Mulheres de Mantilha, O Rio do Quarto, de Macedo; Mauricio, O Bandido do Rio das Mortes, de Bernardo Guimarães...); a indianista (Iracema, Ubirajara, de Alencar; O índio Afonso, de Bernardo) a sertaneja (O Sertanejo, O Gaúcho, de Alencar; O Garimpeiro, de Bernardo; Inocência, de Tunay; O Cabeleira, O Matuto, de Fraklin Távora...). Ou trazendo o leitor de volta para o dia a dia das convenções, como em largos trechos de Macedo ou do Alencar 32 fluminenses, centrados nos costumes da burguesia, e no saboroso documento do Rio joanino que são as Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio. (BOSI, 2017, p. 135-136) Esta diversidade de temas divide os romances românticos brasileiros em três temáticas principais: o Romance urbano, o Romance indianista e Romance sertanejo. Todas os temas, como é possível observar pelo apanhado feito acima por Afredo Bosi, foram amplamente exploradas pelos escritores brasileiros. José de Alencar, o principal autor da prosa romântica, escreve nas três temáticas, o que denota a sua versatilidade como escritor. Candido (2000b, p. 201) fala que é possível que haja pelo menos três “Alencares” devido a sua pluralidade na escrita. O José de Alencar dos rapazes, com seus romances heroicos e cheio de aventuras, o Alencar das mocinhas, com histórias graciosas e trágicas e, por fim, o Alencar dos adultos que traz em sua obra um apreço pelas relações humanas. Mais importantes, todavia, do que os ambientes, são as relações humanas que estuda em função deles. Como em quase todo romancista de certa envergadura, há em Alencar um sociólogo implícito. Na maioria dos seus livros, o movimento narrativo ganha força graças aos problemas de desnivelamento nas posições sociais, que vão afetar a própria afetividade dos personagens. (CANDIDO, 2000b, p. 204) Bosi (2017, p.146) destaca que “o escritor que idealizara heróis míticos no coração da floresta é o mesmo que saber recortar figuras gentis de donzelas e mancebos nos salões da Corte e nos passeios da Tijuca”. Por essa razão, a obra de Alencar é diversa e de grande relevância para o cânone brasileiro. Cabe discutir, portanto, a sua obra indianista, uma vez que este autor é o mais expressivo deste momento da literatura do Brasil, e o indianismo se destaca como grande característica do Romantismo brasileiro. São três os romances indianistas de Jose de Alencar: O Guarani de 1857, Iracema de 1865 e Ubirajara de 1874. Nas três obras o escritor traz o ideal do bom selvagem construído para o Romantismo, como foi mencionado anteriormente. Neste arquétipo incluía-se a beleza física e a beleza de espírito, aliada à coragem, à força interior e a gentileza inspiradas nos cavaleiros medievais. Tanto Perí, o personagem principal de O Guarani, quanto Iracema recebem a descrição que deixa clara a sua beleza física, a sua agilidade, força, coragem, bondade e, acima de tudo, a sua comunhão com a natureza. 33 Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa de graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da Jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. (ALENCAR, 1991, p. 12-13) Iracema, em sua descrição como “virgem dos lábios de mel” denota os valores cristãos aos quais as jovens moças estavam presas e, portanto, a heroína deveria corresponder, a virgindade. Em contraponto, a índia também apresenta certa sensualidade que muitas vezes está presente na mulher do romantismo, ao ser descrito o possível gosto dos seus lábios. Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um índio na flor da idade. Uma simples túnica de algodão, a que os indígenas chamavam aimará, apertada à cintura por uma faixa de penas escarlates, caía-lhe dos ombros até ao meio da perna, e desenhava o talhe delgado e esbelto como um junco selvagem. Sobre a alvura diáfana do algodão, a sua pele, cor do cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte; a pupila negra, móbil, cintilante; a boca forte, mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a beleza inculta da graça, da força e da inteligência. Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, à qual se prendiam do lado esquerdo duas plumas matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinham rogar com as pontas negras o pescoço flexível. (ALENCAR, 1996, p.14) A descrição de Peri, deixa claro que nos aspectos físicos o índio pode ser considerado belo, forte e ágil. E a coragem do personagem é comprovada mais a frente neste romance quando o índio enfrenta corpo a corpo uma onça que desejava atacá-lo. Entretanto, na sua devoção por Cecília, a moça branca por quem Peri se apaixona, é que será possível encontrar o tom cavalheiresco do qual fala Candido: — Peri! disse ela. O índio apareceu à entrada da cabana; correu alegre, mas tímido e submisso. Cecília sentou-se num banco de relva; e a muito custo conseguiu tomar um arzinho de severidade, que de vez em quando quase traia-se por um sorriso teimoso que lhe queria fugir dos lábios. Fitou um momento no índio os seus grandes olhos azuis com uma expressão de doce repreensão; depois disse-lhe em um tom mais de queixa do que de rigor: — Estou muito zangada com Peri! O semblante do selvagem anuviou-se. — Tu, senhora, zangada com Peri! Por quê? 34 — Porque Peri é mau e ingrato; em vez de ficar perto de sua senhora, vai caçar em risco de morrer! disse a moça ressentida. — Ceci desejou ver uma onça viva! — Então não posso gracejar? Basta que eu deseje uma coisa para que tu corras atrás dela como um louco? — Quando Ceci acha bonita uma flor, Peri não vai buscar? perguntou o índio. — Vai, sim. — Quando Ceci ouve cantar o sofrer, Peri não o vai procurar? — Que tem isso? — Pois Ceci desejou ver uma onça, Peri a foi buscar. (ALENCAR, 1996, p.14) Neste trecho é possível perceber o respeito e a submissão que o índio tem com Cecília, assim como é clara a devoção do herói que uma vez que percebe um desejo da dama, coloca-se em prontidão para saná-lo. Neste sentido, o cavalheirismo do personagem fica evidente e comprova a afirmação de Antônio Candido de que este índio não representava o verdadeiro habitante nativo do Brasil, mas uma personificação do ideal romântico na figura indígena. Conforme pontua Candido: Assim, o espirito cavaleiresco é enxertado no bugre, a ética e a cortesia do gentil-homem são trazidas para interpretar o seu comportamento. A distinção pode parecer especiosa, mas o seu fundamento se encontra na atitude claramente diversa de um Basílio da Gama e de um José de Alencar. (CANDIDO, 2000b, p. 21) Outro ideal trazido por Alencar em seus romances indianista é a formação do povo brasileiro a partir da junção do povo indígena com o homem branco, visão essa que pode ser comprovada pelo enlace amoroso destes dois principais romances indianistas que foram comentados. Essa visão idealizada de Alencar, além de não condizer com a realidade, pois mostra uma junção idealizada a partir do amor e do consentimento de ambas as partes, também exclui uma parcela das pessoas que viviam no Brasil no século XIX: as pessoas negras, livres ou escravizadas. Em alguns estados brasileiros a população negra ou mestiça chegava a quase metade da quantidade total. No entanto, na literatura, principalmente nesses romances de Alencar que fazem uma alusão à formação do povo brasileiro, enquanto o índio é romantizado e tem suas características físicas adaptadas para agradar o leitor, o negro é excluído. Por essa razão, cabe entender a formação da literatura brasileira a fim de compreender as presenças e as ausências. 35 1.2 A FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA Antonio Candido (2000b, p. 10) fala que em comparação às grandes, a literatura brasileira é pobre e fraca, e isso se dá por ser jovem e por ser considerada uma ramificação da Literatura Portuguesa, que por sua vez surge a partir das europeias. Contudo o autor salienta que o brasileiro deve conhecer e amar sua literatura, pois é ela que o representa. Ninguém, além de nós, poderá dar vida a essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes em que os homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimação penosa da cultura europeia, procuravam estilizar para nós, seus descendentes, os sentimentos que experimentavam, as observações que faziam, - dos quais se formaram os nossos. (CANDIDO, 2000b, p.10) Cabe pensar então, sobre o que é literatura. De acordo com Cosson (2020, p.20) É considerada literatura o texto que apresenta relevância para a formação, seja pelo seu caráter educativo ou pelas discussões que pode proporcionar. O autor fala ainda que: A literatura é um corpo de obras dadas pela tradição, o que equivale a dizer que são textos que pertencem a um passado valorizado como referencia para o presente em termos de idioma e escrita. (COSSON, 2020, p.20) Na obra Formação da Literatura Brasileira (2000b, p.25) Antonio Candido apresenta a diferença entre literatura e manifestações literárias. Para o autor quando a atividade do escritor está em um sistema que integra determinados denominadores e pertence a uma continuidade literária que contribui para as próximas gerações de escritores é considerada literatura: Estes denominadores são, além das características internas (língua, temas, imagens), certos elementos de natureza social e psíquica, embora literariamente organizados, que se manifestam historicamente e fazem da literatura aspecto orgânico da civilização. Entre eles se distinguem: a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral, uma linguagem, traduzida em estilos) que liga uns aos outros. O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter- humana, a literatura, que aparece sobre este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade. (CANDIDO, 2000b, p.23) Neste sentido, há uma tradição que uma obra deve seguir para ser considerada literatura e, para Candido (2000b), não há literatura sem esta tradição. Enquanto isso, quando não há uma representação de um sistema, mesmo que não desconsidere o 36 valor individual da obra, Candido (2000b) a entende como uma manifestação literária. Ou seja, uma obra isolada que não contribui com o cânone. Neste sentido cabe analisar como se constrói a formação da literatura brasileira de acordo com Antônio Candido. O autor divide sua obra em dois volumes, sendo que o primeiro traça um panorama da literatura brasileira entre 1750 e 1783 e o segundo entre 1836 e 1880. No prefácio da primeira edição o autor expõe que cada literatura deve ser estudada de acordo com suas particularidades e que a literatura brasileira, por se jovem e por ter sido gerada a partir da literatura portuguesa, não deve ser estudada como as demais, (CANDIDO, 2000a, p.9). Por esta razão, Candido (2000a) fala, ainda no prefácio, sobre a necessidade de equilibrar ao mesmo tempo o valor e a função da obra quando se estuda a literatura sob a perspectiva histórica, para assim não valorizar ou desvalorizar indevidamente as obras. A dificuldade está em equilibrar os dois aspectos, sem valorizar indevidamente autores desprovidos de eficácia estética, nem menosprezar os que desempenham papel apreciável, mesmo quando esteticamente secundário. Outra dificuldade é conseguir a medida exata para fazer sentir até que ponto a nossa literatura, nos momentos estudados, constitui um universo capaz de justificar o interesse do leitor – não devendo o crítico subestimá-la sem superestimá-la.(CANDIDO, 2000a, p.9) É importante observar que Candido entende a necessidade da análise da literatura que é capaz de interessar o leitor e expõe que essas é uma das dificuldades do crítico ao fazer um levantamento histórico de uma literatura. Por esta razão, a literatura se faz necessária na formação escolar, pois o estudo da literatura contribui tanto para a formação linguística do estudante, como para a reflexão. Cosson (2020, p. 24-25) fala que na escola a literatura tem dois objetivos, ensinar a língua e formar moralmente. Enquanto o texto literário pode ser usado com exemplo de como a Língua Portuguesa deve ser usado, tendo em vista que sua composição gramatical e estilística pode ser reproduzida pelo aluno, por outro, enquanto leitura, o estudo da literatura pode trazer uma formação moral. Sendo assim, a literatura recebe um pedestal de tesouro, e por esta razão é incorporada no sistema educacional: 37 Essa visão da literatura, como um tesouro ou um legado a ser recebido e incorporado para a edificação moral e linguística do aluno, confere aos textos literários um lugar proeminente na formação escolar, sobretudo no horizonte da educação humanística. Não é sem razão, portanto, que ainda hoje alimente ondas nostálgicas no ensino da literatura e campanhas de defesa dos clássicos como fontes inesgotáveis dos valores intrínsecos do ser humano, uma vez que a leitura dos clássicos conduziria a uma melhor e mais compreensão da humanidade.(COSSON, 2020, p.23) Se os clássicos é que estão presentes na escola e contribuem para a formação do estudante – em especial o do ensino médio, tendo em vista que é nesta fase do aprendizado escolar que a pessoa tem maior contato com a literatura – cabe pensar em quais são os clássicos e o que os define desta maneira. Diversos autores fazem um panorama da história da literatura brasileira, e por esta razão, são muitas as visões do que deve ser considerada literatura brasileira. Além de que há interpretações diferentes sobre o momento em que de fato a escrita no Brasil contribuiu para o início do cânone. Em uma enumeração cronológica se destacam as obras História da literatura brasileira de Silvio Romero de 1888 que reúne biografias e apresenta as obras e textos e, desta forma, centra a atenção maior no autor e não na obra. E, de acordo com SANTOS (2015, p. 11) devido ao cientificismo, a historiografia literária feita por Romero atravessa o biologismo e entende a literatura brasileira a partir da raça. História da Literatura brasileira de José Veríssimo de 1916, segue a influência de Romero ao mesmo tempo que aprimora a técnica na avaliação das obras. Na historiografia de José Verissímo há também a busca pelo nacionalismo no Cânone. MARTINS (1957 p.5 APUD.PEREIRA, 2019, p. 15) fala que José Veríssimo estava dominado pelo ideal de uma literatura brasileira que fosse, antes de tudo, uma grande literatura. Enquanto isso, A pequena história da literatura brasileira de Ronald de Carvalho de 1919 divide a historiografia literária brasileira em três partes, sendo a primeira sobre o período de formação que vai de 1500 a 1750, a segunda que analisa o período entendido como o Arcadismo brasileiro e que por esta razão é chamada de “Período de Transformação” e a última parte que traz o “Período autônomo” que se desenvolve a partir do Romantismo e Naturalismo. De acordo com o próprio autor, sua obra "destinado a vulgarizar, nos seus delineamentos, a fisionomia da nossa literatura" (Carvalho,1922, p. 254 APUD BOTELHO, 2011, p.137) 38 Em 1959 Antonio Candido publica Formação da literatura brasileira, e já no prefácio da primeira edição o autor fala sobre como as historiografias literárias de Romero, Veríssimo e Carvalho citadas anteriormente, contribuíram para que pudesse escrever a sua. Primeiro, a História da Literatura Brasileira, de Silvio Romero, cuja lombada vermelha, na edição Guarnier de 1902, foi bem cedo uma de minhas fascinações na estante paterna, tendo sido dos livros que mais consultei entre os dez e quinze anos, à busca de excertos, dados biográficos e saborosos julgamentos do autor. Nele estão, provavelmente, as raízes do meu interesse pelas letras. Li também muito a Pequena História, de Ronald De Carvalho, pelos tempos do ginásio, reproduzindo-a abundantemente em provas e exames, de tal modo que estava impregnado de suas páginas. Só mais tarde, já sem paixão de neófito, li a História, de José Veríssimo, provavelmente a melhor e, ainda hoje, mais viva de quantas se escreveram. (CANDIDO, 2000a, p. 11) Candido fala ainda que sua formação como está fortemente ligada à influência que sofreu de Romero, Veríssimo e Carvalho no período em que estava suas “impressões básicas”. Todas as historiografias citadas tem como objetivo indicar a forma com a qual foi moldada a literatura brasileira. E, para isso, constroem uma análise sobre os autores e obras que produziram ao longo da história literária do Brasil. Contudo, estes autores, muitas vezes, divergem sobre o início da literatura que pode ser considerada definitivamente brasileira e das obras que a compõem. Por esta razão existe, neste trabalho, o questionamento sobre o que define o cânone literário brasileiro e quem decide quais obras pertencem e quais são mantidas fora. Na obra Formação da Literatura Brasileira (2000b, p.25), como dito anteriormente, Antonio Candido apresenta a diferença entre literatura e manifestações literárias. Por isso é que existe uma tradição que uma obra deve seguir para ser considerada literatura. Neste sentido, cabe analisar como se constrói a formação da literatura brasileira de acordo com Antônio Candido. Ainda no prefácio, Candido (2000a) também fala na dificuldade que os escritores brasileiros possuíram ao longo do tempo para produzir literatura que pudesse ser considerada de qualidade sem ter como precedente os grandes clássicos literários que as literaturas europeias possuem. Como dito anteriormente, o autor entende que a literatura brasileira é um braço da literatura portuguesa, que por sua vez é um braço das grandes literaturas produzidas na Europa. 39 E então, Candido pontua que os grandes escritores europeus não precisavam sair de seus países ou ler outra literatura para buscar novas inspirações. Enquanto isso, ao estudar a história da literatura brasileira é comum perceber que os grandes escritores do país, por muito tempo, buscavam conhecimento na Europa para reproduzir em terras brasileiras. Há literaturas de que o homem não precisa sair para receber cultura ou enriquecer a sensibilidade; outras, que só pode ocupar uma parte da sua vida de leitor, sob a pena de lhe restringirem irremediavelmente o horizonte. Assim podemos imaginar um francês, um italiano, um inglês, um alemão, mesmo um russo e um espanhol, que só conheçam os autores da sua terra e, não obstante, encontrem neles o suficiente para elaborar a visão das coisas, experimentando as mais altas emoções literárias. (CANDIDO, 2000a, p.9) A partir disso, Antonio Candido reúne nos dois volumes de A formação da literatura brasileira uma análise sobre os momentos de desenvolvimento da literatura brasileira, que se concentra entre o Arcadismo, movimento literário que se inicia no século XVIII, e o Romantismo brasileiro, que se destaca no século XIX. Além disso, há o estudo das obras literárias que compõem estas escolas literárias, bem como a investigação do estilo e produção dos principais escritores de cada período. Uma questão a ser levantada, contudo, está presente na apresentação das principais obras e autores que Antonio Candido faz em A formação da literatura brasileira, especificamente o volume dois. Assim como seus antecessores, na historiografia literária de Candido, os autores e obras analisados são exclusivamente homens. Mesmo que já houvessem obras publicadas por mulheres, sobretudo no período do Romantismo brasileiro. Sendo assim, há a necessidade de se pensar sobre as razões pelas quais as mulheres que escreveram durante o período da formação da literatura brasileira não são mencionadas nas principais historiografias literárias. A historiadora Zahidé Lupinacci Muzart, em uma força tarefa com pesquisadoras de todo o Brasil, reúne na antologia Escritoras Brasileira do Século XIX publicada em 1999, a biografia e os escritos de diversas mulheres que desafiaram a condição social que as excluía da produção literária e escreveram, muitas até publicaram, no século XIX. E então, sobre a ausência das mulheres nas historiografias literárias brasileiras, MUZART (2000, p.18) fala que isso se dá pela maioria masculina na crítica literária: Apesar de desnecessário, é sempre bom lembrar que, no Brasil, a literatura feminina somente começa a ser visível – e até festejada – no primeiro quartel 40 do século XX. Ainda que singulares e produtivas, nossas escritoras de antes, sobretudo as do século XIX, foram sistematicamente excluídas do cânone literário, que, é claro, era forjado unicamente pela crítica e pela historiografia masculina. (MUZART, 2000, p.18) A autora deixa claro que as escritoras eram produtivas e eram “presença constante, principalmente nos periódicos do século XIX, tanto nos dirigidos por homens quanto nos inúmeros criados e mantidos por elas próprias” (MUZART, 2000, p.18). E que devido a isso, a definição de obra literária de Candido citada anteriormente, cabe a muitas das mulheres que escreveram e publicaram no século XIX. Contudo, elas ainda são mantidas fora do cânone. Por estes apontamentos, cabe pensar nas razões pelas quais as mulheres não estão presentes nas historiografias literárias brasileiras, sobretudo na Formação da Literatura Brasileira de Antonio Candido. 41 2 A LITERATURA BRASILEIRA E A AUSÊNCIA DA ESCRITA FEMININA Os primeiros registros de escrita no Brasil acontecem logo após o seu descobrimento em 1500. Entretanto, o nascimento dos textos literários tem início apenas um século depois com a poesia barroca de Gregório de Matos Guerra. Por esta razão, em comparação com outras, principalmente as europeias, a literatura brasileira é recente. Ensinar literatura nas escolas e apresentar os clássicos para os estudantes é o que mantém viva esta arte, e é o que perpetua o amor que Candido (2000a) defende que o brasileiro deve ter pelo seu passado literário. Sendo assim, no processo de divulgação de literatura às novas gerações, a escola continua sendo a protagonista. Cabe pensar então sobre o que é literatura. De acordo com Cosson (2020) é considerada literatura o texto que apresenta relevância para a formação, seja pelo seu caráter educativo ou pelas discussões que pode proporcionar. O autor fala ainda que: A literatura é um corpo de obras dadas pela tradição, o que equivale a dizer que são textos que pertencem a um passado valorizado como referência para o presente em termos de idioma e escrita. (COSSON, 2020, p.20) Por esta razão a literatura se faz necessária na formação escolar, pois o seu estudo contribui tanto para a formação linguística do estudante, como para a reflexão. Cosson (2020) fala que na escola a literatura tem dois objetivos, ensinar a língua e formar moralmente. Enquanto o texto literário pode ser usado como exemplo de como a Língua Portuguesa deve ser usada, tendo em vista que sua composição gramatical e estilística pode ser reproduzida pelo aluno. Por outro lado, enquanto leitura, o estudo da literatura pode trazer uma formação moral. Sendo assim, esta arte recebe um pedestal de tesouro, e por esta razão é incorporada no sistema educacional: Essa visão da literatura, como um tesouro ou um legado a ser recebido e incorporado para a edificação moral e linguística do aluno, confere aos textos literários um lugar proeminente na formação escolar, sobretudo no horizonte da educação humanística. Não é sem razão, portanto, que ainda hoje alimente ondas nostálgicas no ensino da literatura e campanhas de defesa dos clássicos como fontes inesgotáveis dos valores intrínsecos do ser humano, uma vez que a leitura dos clássicos conduziria a uma melhor e mais compreensão da humanidade.(COSSON, 2020, p.23) Se os clássicos é que estão presentes na escola e contribuem para a formação do estudante – em especial o do ensino médio, tendo em vista que é nesta fase do aprendizado escolar que a pessoa tem maior contato com a literatura – cabe pensar em quais são os clássicos e o que os define desta maneira. 42 Historiografias como a formação da literatura brasileira de Antonio Candido, que possuem uma visão diacrônica da formação do cânone, pautam as obras literárias que aparecem na escola. Contudo, existem questionamentos sobre o que este autor manteve fora do seu levantamento sobre a literatura brasileira. É importante lembrar que Formação da Literatura Brasileira (2000b, p.25) Antonio Candido, o autor explica a diferença entre literatura e manifestações literárias. Para o autor quando a atividade do escritor está em um sistema que integra determinados denominadores e pertence a uma continuidade literária que contribui para as próximas gerações de escritores é considerada literatura (CANDIDO, 2000b, p.23). Sendo assim, a tradição deve ser seguida. Vale ressaltar que a obra de Cândido não considera o Barroco e consequentemente a escrita de Gregório de Matos Guerra, autor de extensa produção, e define sua obra como “Manifestação literária” e que, portanto, não contribui para o cânone. Sendo assim, cabe investigar os motivos pelos quais a obra de Guerra não é considerada por Antonio Candido, quando diversos outros críticos literários a consideram parte importante da literatura brasileira, para entender se há alguma relação desta exclusão com a exclusão da escrita feminina na análise da literatura do século XIX feita pelo autor. Portanto, é necessário analisar o que não foi entendido como literatura e como manifestação literária por Antonio Candido na sua formação da literatura, a fim de compreender o que está presente na historiografia construída por este crítico literário a partir da sua visão diacrônica, e então, analisar como isso se reflete na Escola. 43 2.1 A FORMAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA: ALGUNS SEQUESTROS A formação da literatura brasileira, publicada por Antonio Candido em 1959, busca justificar o modo como se construiu o sistema literário no Brasil. Como vimos anteriormente, a perspectiva diacrônica da obra de Candido norteia até os dias de hoje o modo como a literatura, nas aulas de Língua Portuguesa, é ensinada na escola. Inicialmente é necessário retomar que para Candido (2000b, p. 24) só deve ser considerada dentro do sistema literário a obra que, naquele período em que estava inserida, contribuiu para o movimento. Ao considerar que a literatura brasileira é jovem e que por muito tempo não havia um grande círculo literário no país, é possível entender que muitos escritores brasileiros, durante alguns séculos, criaram de forma isolada. Candido não descarta o valor destas criações, contudo não entende estas obras como parte integrante do sistema. Entende, no entanto, como manifestações literárias, ou seja, produções isoladas que não estão inseridas dentro do contexto do sistema literário vigente, por não contribuírem - no período da sua criação – para a continuidade literária. No prefácio do volume 1 da obra Formação da literatura brasileira, o crítico literário exemplifica o que seriam estas manifestações literárias a partir da obra de Gregório de Matos Guerra, também conhecido pela alcunha de “Boca do inferno”. Gregório viveu e produziu poemas – em sua maioria sonetos – líricos, satíricos e religiosos em Salvador no século XVII, durante o período conhecido como Barroco. É importante deixar claro que Candido não considera a obra de Guerra irrelevante, no entanto, pontua que por mais que tenha permanecido na tradição baiana, em uma perspectiva histórica, não existiu no contexto literário brasileiro até o fim do século XIX quando foi redescoberta em meio ao Romantismo. Com efeito, embora tenha permanecido na tradição local da Bahia, ele não existiu literariamente (em perspectiva histórica) até o Romantismo, quando foi redescoberto, sobretudo graças a Varnhagen; e só depois de 1882 e da edição de Vale Cabral pode ser devidamente avaliado. Antes disso, não influiu, não contribuiu par formar o nosso sistema literário, e tão obscuro permaneceu sob seus manuscritos que Barbosa Machado, o minucioso erudito da Biblioteca Lusitana (1741-1758), ignora-o completamente, embira registre quando João de Brito e Lima pode alcançar. (CANDIDO, 2000b, p.24) 44 Neste sentido, para Candido (2000b), como a obra de Gregório de Matos Guerra não contribuiu ativamente no período em que foi escrita, e, portanto, não serviu de referência para os poetas Árcades que vieram a seguir, de modo que não esteve presente na formação contínua do sistema literário, deve ser considerada apenas uma manifestação literária. E é essa perspectiva que os irmãos Campos (1969) entendem como diacronia e, a partir disso, abre diversas discussões sobre como essa visão pode excluir ou sequestrar algumas importantes produções. É interessante, portanto, entender a visão de Campos (1969) sobre sincronia e diacronia no campo literário. Na publicação A arte no horizonte do provável de 1969, Haroldo de Campos apresenta alguns ensaios em que discute a visão diacrônica e a visão sincrônica na construção de uma historiografia literária. Para CAMPOS (1969, p. 205) a perspectiva diacrônica se apresenta como um critério histórico, a fim de acumular fatos e seus desdobramentos no eixo do tempo, um estudo documentário. Ou seja, os críticos literários que enxergam a literatura brasileira de forma diacrônica, tendem a organizá-la de maneira documental, conforme estava presente – e se estava presente para o sistema literário – no período em que foram produzidas e publicadas. E por isso, Campos (1969) entende que muita literatura que foi produzida no Brasil não recebe o valor devido, por ficar de fora de importante historiografias literárias. Para isso, Campos (1969) fala sobre como os críticos que possuem uma visão diacrônica estão presos a um modelo que valoriza apenas as obras e os autores que já estão presentes no cânone, enquanto mantém-se “cegos” diante das revisões e tentativas de reversão da ordem constituída por modelos tradicionais como o da História da Literatura Brasileira de 1888 de Silvio Romero: O crítico diacrônico aceita a “média” evolutiva da tradição, o gráfico já historicizado que esta lhe subministra quanto à posição relativa dos escritores nos vários períodos. E olha com olho cético (p”olho da Medusa” dos guardiões do cemitério, de que fala Sartre...) as revisões e outras tentativas de eversão da ordem constituída, a frente das quais se põem, geralmente não críticos, mas criadores. Daí por que, com tanta assiduidade, as Histórias da Literatura e Antologias sejam tributárias de estereótipos encarnecidos, seus planetários de papel impresso se rejam por estrelas fixas, e os veredictos literários, uma vez emitidos pelo primeiro historiador de tomo (o caso de Silvio Romero entre nós), passem tão mansamente julgados. (CAMPOS, 1969, p.206-207) 45 Por outro lado, há a perspectiva sincrônica que Haroldo de Campos (1969) também chama de Critério estético-criativo, por colocar em local de destaque a obra e analisar os aspectos inovadores tanto no contexto em que foi produzida quanto a partir de um olhar atual. Para isso, Campos (1969) fala sobre a poética sincrônica, que consiste no olhar crítico sobre uma obra, a fim de ressaltar o valor da sua produção tanto para o período em que foi produzida, quanto para o momento atual. E, desta forma, o crítico estará atualizando a obra. Campos (1969, p.207) cita Roman Jakobson para conceitualizar ainda melhor esta perspectiva: Roman Jakobson fornece os subsídios para a elaboração desse conceito, quando escreve: “A descrição sincrônica considera não apenas a produção literária de um período dado, mas também aquela parte da tradição literária que, para o período em questão permanece viva ou foi revivida(...). A escolha de clássicos e sua reinterpretação à luz de uma nova tendência é um dos problemas essenciais dos estudos literários sincrônicos” (JAKOBSON, 1968 APUD CAMPOS, 1969, p.207) Portanto, mesmo que não tenha recebido destaque no período em que foi produzida ou publicada, a partir de um olhar sincrônico, uma obra pode ser revivida, reanalisada e integrada ao sistema literário. É importante salientar também, que a partir do olhar da sincronia no campo da literatura, uma obra produzida em um outro período pode ser vista a partir de questões atuais, tornando-se relevante para discussões que não se faziam possíveis no momento em que foram produzidas. Sobre isso, Campos (1969) cita Eliot: “Necessitamos de um olhar capaz de ver o passado em seu lugar e suas definidas diferenças em relação ao presente e, no entanto, tão cheio de vida que deverá parecer tão presente para nós como o próprio presente. Eis o olho criativo.” (ELIOT, Apud CAMPOS, 1969, p. 2014) No entanto, Campos (1969, p.214) não invalida a perspectiva diacrônica, e enfatiza a sua importância como um trabalho de levantamento e demarcação do terreno. O crítico entende a Sincronia e a Diacronia em uma relação dialética em que a poética sincrônica retifica o que foi julgado pela poética diacrônica. E então Campos explica que esta relação dialética entre sincronia/diacronia se faz em pelo menos dois níveis: A escolha de uma perspectiva sincrônica é, antes de mais nada, uma disposição metodológica, a maneira de privilegiar, para efeitos práticos, um 46 ponto de vista estrutural. Em sua transposição literária, o par sincronia/diacronia está em relação dialética em pelo menos dois níveis: a) a operação sincrônica se realiza contra um pano de fundo diacrônico, isto é, incide sobre dados levantados pela visada histórica, dando-lhes relevo crítico- estético atual; b) a partir de cortes sincrônicos sucessivo é possível fazer-se um traçado diacrônico renova