UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO UNIVERSITÁRIO NORTE DO ESPÍRITO SANTO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENSINO NA EDUCAÇÃO BÁSICA ELISANDRA BRIZOLLA DE OLIVEIRA A INTERDISCIPLINARIDADE NA PERSPECTIVA DE INTEGRAR AS DISCIPLINAS DA ÁREA DE CIÊNCIAS DA NATUREZA E MATEMÁTICA São Mateus 2016 ELISANDRA BRIZOLLA DE OLIVEIRA A INTERDISCIPLINARIDADE NA PERSPECTIVA DE INTEGRAR AS DISCIPLINAS DA ÁREA DE CIÊNCIAS DA NATUREZA E MATEMÁTICA Dissertação apresentado ao Programa de Pós Graduação em Ensino na Educação Básica da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ensino na Educação Básica. Orientador: Prof. Dr. Franklin Noel dos Santos São Mateus 2016 ELISANDRA BRIZOLLA DE OLIVEIRA Aos meus amores...Elis, minha filha, Biágio, meu companheiro. Elizabete, Everson, Eliéti e Régis, minha família... meus alicerces. Aos educadores e educadoras na esperança que o conteúdo colabore com o crescimento pessoal e profissional. A Deus, por me iluminar nesta caminhada e pelo privilégio de vivenciar essa experiência. Ao meu companheiro Biágio, pelo apoio, incentivo, força, compreensão e colaboração em todos os momentos desta caminhada. Obrigada por ser essa pessoa especial, por entender minha ausência em muitos momentos, por ser meu fiel companheiro e amigo de todas as horas, não medindo esforços em me auxiliar sempre que necessário. Te agradeço, meu amor, por ajudar a fazer do meu sonho o nosso sonho! À minha amada filha Elis, amor incondicional. Sua existência torna os dias muito mais alegres e cheios de vida. A minha mãe Elizabete, que não tenho palavras para expressar a gratidão pelo seu empenho para que eu pudesse buscar a formação profissional. Pelo valor que dá à educação, incentivo, apoio e estímulo constante aos estudos em todas as fases da minha vida, mesmo aquelas em que me encontrava distante sempre esteve torcendo e orando por mim. Aos meus irmãos Everson, Eliéti e Régis, minhas cunhadas Débora e Fernanda, meus sobrinhos Evelyn, Davi, Eduardo e Elisa, pelo carinho, apoio e incentivo e por acreditarem na busca dos meus sonhos, apesar da distância, sempre estiveram presentes vibrando com minhas conquistas. Aos meus avós Serafin e Nelcy, pelo carinho, pela referência e por acreditar no meu potencial. A minha sogra Glorinha, por ser referência como mulher e educadora. Ao meu cunhado Roberto, por disponibilizar seu tempo e contribuir com uma leitura crítica do texto. A minha amiga Nailde, que se colocou no lugar de Mãe assumindo minha pequena Elis durante minha ausência. Ao professor Dr. Franklin Noel dos Santos, pela amizade, atenção, tranquilidade e compreensão com que conduziu a orientação deste trabalho e suas importantes contribuições para minha formação acadêmica e pessoal. Obrigada por tudo! Posso afirmar que não tive somente um orientador, mas encontrei um amigo!!! Aos professores do PGEEB pelos momentos de reflexão oportunizados durante as aulas, em especial aos professores Gustavo, Andréia, Marcos e Marcelo, por contribuírem na etapa de Qualificação do Mestrado. À Coordenação e funcionários do PGEEB, pela atenção e disponibilidade dispensada durante o decorrer do Curso. Aos colegas de Mestrado da turma de 2014, pela oportunidade de discussões, reflexões e aprendizagens. De forma muito especial, agradeço aos queridos colegas/amigos José Aparecido (Zeca), Geovane e à Héryca pela amizade construída, pelo incentivo e apoio em todos os momentos, pela parceria nas idas e vindas durante todo esse período. Thiago que muito contribuiu na organização do trabalho, Cristiano e Jonas pela amizade, pelas muitas discussões e aprendizagens enriquecedoras, pelos momentos de descontração e alegrias compartilhadas. Aos demais amigos e familiares, pelo apoio e incentivo durante esta caminhada e que se alegraram com minha conquista profissional e pessoal. Aos colegas de profissão e amigos da Escola Nossa Senhora de Lourdes, que contribuíram direta ou indiretamente na pesquisa. À SEDU, por garantir o direito à Licença. A FAPES (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo), por subsidiar minha pesquisa e participação em eventos. Ao Grupo GEPI (Grupo de Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade), na pessoa da Professora Ivani Fazenda, pela oportunidade de participar do momento de formação que contribuiu muito para fortalecer minhas convicções, além de conhecer a professora Dirce que se dispôs a contribuir com a pesquisa e a Professora Hermínia, pela atenção atribuída. Enfim, cheguei ao final desta etapa, um pouco cansada, mas feliz e realizada. Dei espaço às minhas inquietações e aos meus sonhos, tendo a oportunidade de socializar com os educadores uma proposta que sugere uma caminhada reflexiva e crítica, que pretende o diálogo entre os pares, que busca na realidade a contextualização e o sentido para os conceitos escolares e, acima de tudo, acreditando na força da parceria e negociação que a interdisciplinaridade nos congrega... Afinal... o que é a vida, senão realizar sonhos? INTERDISCIPLINARIDADE Não há definição Não há palavra Não há conceito... Há percepção Intuição Sabedoria nascente... Mergulhar fundo na realidade Além dos conceitos Das palavras Da estrita racionalidade... Perceber a Unidade do Saber O sentido do movimento A perenidade das transformações E o despertar da consciência no instante presente... Tentar definir tal instante Situá-lo no papel Escrevendo-o É fazer poesia... É soltar-se no espaço infinito Na dança cósmica Na relatividade do tempo e do espaço No querer a unidade... Então nasce a interdisciplinaridade... Na profunda busca de si mesmo No situar, amorosamente, a energia única do Saber. Para aqueles que buscam... Ruy Cezar do Espírito Santo RESUMO Com a globalização, tem-se acentuado os avanços da Ciência e também das tecnologias. Temos vivenciado um período de intensas transformações cognitivas, perceptivas e culturais e neste contexto a escola é convocada a participar destas mudanças por ser considerada lugar de privilégio para a transformação dos seres humanos em processo de formação. Neste contexto, a interdisciplinaridade vem sendo discutida no Brasil há alguns anos, tanto na literatura, em documentos oficiais, bem como em estudos e pesquisas em geral, ligados à educação. Na medida em que os conceitos sobre a interdisciplinaridade se inserem e se consolidam no campo acadêmico, passam a assumir novos significados, agregando forças para as propostas de formação integral, contextualizada e interdisciplinar. Todavia, esse movimento com vista à ruptura dos saberes fragmentados não acontece deslocado da sociedade, pois possibilita às instituições de ensino ir além da organização e do ensino curricular disciplinar e seus processos educativos e potenciar uma formação integral e contextualizada, inspirada nos pressupostos da interdisciplinaridade. A busca pela superação desta fragmentação se dá por meio da integração entre as diferentes disciplinas ou áreas do conhecimento, se configura como movimento de interação interdisciplinar e podem ser potencializadas pelo diálogo, negociação e parceria. Conquanto, estas compreensões e definições que permeiam a proposta de integração dos saberes por meio da interdisciplinaridade permanecem polissêmicas e o seu desenvolvimento na prática enfrenta dificuldades no campo educativo. Do mesmo modo as discussões sobre Currículo no campo educacional brasileiro, têm conquistado lugar de destaque, podendo ser visualizada pela quantidade de diretrizes, normatizações e reformulações em todas as modalidades do ensino. Essa pesquisa objetivou sistematizar elementos teóricos e metodológicos que permitam desenvolver a interdisciplinaridade entre a proposta curricular de Biologia do Estado do Espírito Santo e as disciplinas de Ciências da Natureza e Matemática e investigar os desafios da integração na percepção dos professores e estudantes. Privilegiou-se a abordagem qualitativa e a análise do discurso, por meio de questionário aplicado a quinze professores da área de ciências da natureza e a cento e vinte estudantes das diferentes modalidades de curso e turnos de trabalho, ofertadas em uma escola estadual do Município de Pinheiros/ES. Os resultados da investigação sugerem carência de formação por parte dos docentes sobre a interdisciplinaridade, assim como dos documentos legais que fundamentam essa prática. Os desafios apontados pelos professores para a efetivação de uma prática na perspectiva da interdisciplinaridade vão desde a rotatividade dos professores, passando pela falta de tempo para planejar coletivamente em vista da carga horária de efetivo trabalho e sinalizando a perda de autonomia da escola em criar, planejar e executar o currículo escolar em detrimento da implementação de um currículo único em toda a rede estadual, o qual não considera a realidade. A investigação contribuiu ainda para evidenciar a concepção que os professores têm a respeito da integração curricular na perspectiva da interdisciplinaridade Entre os estudantes fica evidenciado que a proposta de trabalho por áreas do conhecimento é desconhecido. Em síntese, defendemos que a interdisciplinaridade deve ser construída coletivamente entre os pares, que envolve a articulação entre as diferentes áreas do conhecimento, no sentido de buscar uma visão mais integrada e contextualizada de sociedade e ser humano e que a escola, por meio do currículo integrado, possa exercer seu papel na formação. Palavras-chave: Interdisciplinaridade. Ciências da Natureza. Currículo integrado. ABSTRACT With globalization, the advance of science and technology has been accented. We have experienced a period of intense cognitive, perceptual and cultural transformations and in this context the school is called upon to participate in these changes, in reason to be a privileged place for the transformation of human beings in formation. In this context, interdisciplinarity has been discussed in Brazil for some years in literature, in official documents, as well as studies and researches in general, linked to education. In so far as the interdisciplinarity concepts are inserted and consolidated in the academic field, they assume new meanings, adding strength to the proposal of a contextualized and interdisciplinary integral formation. However, this movement in order to break the fragmented knowledge does not happen displaced from society, as it allows educational institutions to go beyond the organization and disciplinary curricular education and their educational processes and potentiate an contextualized integral formation, inspired by the assumptions of interdisciplinarity. The quest for overcoming this fragmentation occurs through the integration between different subjects or knowledge areas, and it is configured as interdisciplinary interaction movement and may be potentized by dialogue, negotiation and partnership. Notwithstanding, these understandings and definitions that underlie the proposed integration through interdisciplinary knowledge remain polysemic and its development in practice faces difficulties in the educational field. Likewise discussions about Curriculum in the Brazilian educational field have conquered pride of place, being able to be visualized by the amount of guidelines, norms and reformulations in all modalities of teaching. This research aimed to systematize theoretical and methodological elements that allow to develop interdisciplinarity between Biology curriculum proposal from the state of Espírito Santo and the Science of Nature subjects and Mathematics and to investigate the challenges of integration in the perception of teachers and students. Emphasis is placed on qualitative approach and discourse analysis, through a questionnaire applied to fifteen teachers in the field of the natural sciences and the one hundred and twenty students of different modalities of courses and working shifts, offered at a state school in the city of Pinheiros/ES. The investigation results suggest lack of training from the teachers about interdisciplinarity, as well as the legal documents that underlie this practice. The challenges pointed by teachers for the effectuation of a practice in the perspective of interdisciplinarity go through teachers turnover, lack of time to collectively planning in view of the effective work schedule that signalizes the loss of school autonomy to create, plan and execute the school curriculum in detriment of the implementation of a single curriculum throughout the state public, which does not consider the reality. The investigation has also contributed to evidence the conception that teachers have about the curriculum integration in the perspective of interdisciplinarity. Among the students it is evident that the proposed work by Knowledge Areas is unknown. In summary, we defend that interdisciplinarity should be built collectively among peers that involve articulation between different areas of knowledge, in order to seek a more integrated and contextualized vision of society and the human being, and that the school, through the integrated curriculum, can play its role in the formation. Keywords: Interdisciplinary. Natural Sciences. Integrated curriculum. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Os professores da Área de Ciências da Natureza e Matemática participantes da pesquisa ........................................................................................ 118 Gráfico 2 - Desafios do planejamento coletivo na visão dos professores da Área de Ciências da Natureza e Matemática ........................................................................ 141 LISTA DE QUADRO Quadro 1 - Distribuição dos professores quanto ao turno e turma de atuação ....... 119 Quadro 2 - Representativo dos estudantes participantes da pesquisa nos turnos matutino, vespertino e noturno ................................................................................ 124 Quadro 3 - Perfil dos professores entrevistados da Área de Ciências da Natureza e Matemática .............................................................................................................. 127 Quadro 4 - A busca individual pela interdisciplinaridade e o interesse dos professores em trabalhar com essa proposta ......................................................... 169 Quadro 5 - Síntese das respostas dos estudantes por turma e turno sobre o gosto em estudar na escola. ............................................................................................. 178 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Tempo de exercício do magistério dos professores pesquisados. ......... 129 Tabela 2.- A compreensão dos estudantes sobre o significado de integração ....... 180 Tabela 3 - A percepção dos estudantes sobre de integração das áreas. ................ 181 Tabela 4 - A percepção dos estudantes sobre trabalho integrado entre as Áreas, disciplinas, professores e em quais momentos. ...................................................... 183 Tabela 5 - A contribuição da integração das disciplinas na Área de Ciências da Natureza e Matemática, na formação de acordo com os estudantes. ..................... 186 Tabela 6 - Entendimento entre os estudantes sobre interdisciplinaridade .............. 188 LISTA DE SIGLAS CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior CBC - Conteúdos Básico Comum CBEE-ES - Currículo Básico da Escola Estadual do Espírito Santo CEB - Conselho Nacional de Educação CNE - Câmara de Educação Básica DCN - Diretrizes Curriculares Nacionais DCNEM - Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio DOEES - Diário Oficial do Estado do Espírito Santo EJA - Educação de Jovens e Adultos EM - Ensino Médio EMI - Ensino Médio Integrado FAPES - Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo GEPI - Grupo de Estudos e Pesquisa em Interdisciplinaridade LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC - Ministério da Educação MEC/ USAID - United States Agency for International Development OCNEM - Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio PADCT - Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico PAEBES - Programa de Avaliação da Educação Básica do Espírito Santo PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais PCN+ - Parâmetros Curriculares Nacionais PCNs - Parâmetros Curriculares Nacionais PCN+EM Parâmetros Curriculares Nacionais Ensino Médio PCNEM - Parâmetros Curriculares Nacionais Ensino Médio PNEM - Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio PPP - Projeto Político Pedagógico ProEMI Programa Ensino Médio Inovador SEDU - Secretaria de Estado da Educação SPEC - Subprograma Educação para a Ciência Sumário APRESENTAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA .......................................... 17 CAPÍTULO 1 ............................................................................................................. 27 1.1 ABORDAGEM SOBRE A ORIGEM DA FRAGMENTAÇÃO DO CONHECIMENTO ................................................................................................. 28 1.2 BREVE HISTÓRICO DOS PROCESSOS E AS MUDANÇAS NO ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL E A COMPREENSÃO DE INTERDISCIPLINARIDADE PRESENTE EM DOCUMENTOS OFICIAIS. ......................................................... 31 1.3 INTERDISCIPLINARIDADE EM DOCUMENTOS OFICIAIS ........................... 39 CAPÍTULO 2 ............................................................................................................. 57 2.1 INTERDISCIPLINARIDADE: BREVE HISTÓRICO DE ORIGEM PRESSUPOSTOS E DEFINIÇÕES ....................................................................... 60 2.2 A INTERDISCIPLINARIDADE E A RELAÇÃO DE TERMOS PRÓXIMOS: DISCIPLINARIDADE, MULTIDISCIPLINARIDADE, PLURIDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE ................................................................................. 63 2.3 PERSPECTIVAS DE INTERDISCIPLINARIDADE DEFENDIDAS POR ALGUNS AUTORES. ............................................................................................. 67 CAPÍTULO 3 ............................................................................................................. 86 3.1 CURRÍCULO: DEFINIÇÕES, SIGNIFICADOS, INTENSÕES E DESAFIOS ... 87 3.2 PONTUANDO ALGUMAS DEFINIÇÕES QUE ENVOLVEM A TEMÁTICA DO CURRÍCULO ......................................................................................................... 91 3.2 CURRÍCULO: DIFERENTES TEORIAS .......................................................... 98 3.2.1 Teoria tradicional do Currículo .................................................................. 99 3.2.2 Teoria Crítica e pós critica do Currículo .................................................. 100 3.3 CURRÍCULO INTEGRADO E INTERDISCIPLINARIDADE ........................... 102 3.4 APRESENTAÇÃO TEÓRICA DO CURRÍCULO BÁSICO DA ESCOLA ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO (CBEE-ES) ................................................. 106 CAPÍTULO 4 ........................................................................................................... 113 4.1 A ESCOLHA DA METODOLOGIA ................................................................. 114 4.2 DESCRIÇÃO DO CAMPO E DOS SUJEITOS DA PESQUISA ..................... 116 4.2.1 Caracterização do Corpo Docente e Técnico Pedagógico ...................... 117 4.2.2 Os caminhos da Pesquisa ....................................................................... 118 CAPÍTULO 5 ........................................................................................................... 126 5.1 RESULTADOS DA PRIMEIRA ETAPA DO QUESTIONÁRIO COM OS PROFESSORES ................................................................................................. 127 5.2 COMPREENSÃO DOS PROFESSORES QUANTO À PERSPECTIVA TEÓRICA DA INTERDISCIPLINARIDADE .......................................................... 133 5.3 PRÁTICA E VIVÊNCIA DA INTERDISCIPLINARIDADE ............................... 136 5.4 ANÁLISE DO DISCURSO DOS PROFESSORES DURANTE A INTERVENÇÃO “A INTEGRAÇÃO CURRICULAR DA ÁREA DE CIÊNCIAS DA NATUREZA E MATEMÁTICA NA PERSPECTIVA DA INTERDISCIPLINARIDADE” ............................................................................................................................. 147 5.4.1 Bloco 1: Apresentação da compreensão dos professores sobre interdisciplinaridade e os desafios apontados no 1º Questionário ................... 148 5.4.2 Bloco 2: Interdisciplinaridade à guisa de síntese e sua influência nos Documentos Oficiais que regem a educação básica; ...................................... 150 5.4.3 Bloco 3: A interdisciplinaridade e a relação com os termos próximos (disci, multi, pluri e transdisciplinaridade) ................................................................... 151 5.4.4 Bloco 4: A interdisciplinaridade o Currículo Integrado e o Planejamento Coletivo ............................................................................................................ 152 5.5 ANÁLISES DO DISCURSO DOS PROFESSORES NA SEGUNDA ETAPA DO QUESTIONÁRIO ................................................................................................. 154 5.5.1 Importância atribuída ao Ensino Interdisciplinar ou ensino integrado ..... 155 5.5.2 A necessidade da interdisciplinaridade no ensino e o posicionamento do professor diante do ensino disciplinar e interdisciplinar ................................... 158 5.5.3 A proposta interdisciplinar vivenciada pela Escola por meio do CBC Estadual e a integração das áreas ................................................................... 160 5.6 ANÁLISES DOS DADOS CONCERNENTES AOS ALUNOS ........................ 177 6 TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ..................................................... 191 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 200 APÊNDICES ............................................................................................................ 211 17 APRESENTAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA A educação tem por princípio possibilitar aos educandos a tomada de consciência da realidade por meio de uma formação crítica, o que é indispensável para o exercício da cidadania. Neste contexto a educação, no sentido de dar respostas ao conjunto de suas missões, segundo Delors et al. (1998), deve se constituir como um processo contínuo de cada ser humano do aprender a conhecer, aprender a fazer e aprender a viver em sociedade e sendo capaz de refletir e intervir sobre sua realidade. Nesta perspectiva a educação científica vem se constituindo como indispensável no processo de escolarização (KRASILCHIK, 2000), sobretudo diante das exigências da sociedade contemporânea. No entanto, ao abordar o ensino de Ciências no Brasil, é possível perceber a influência de questões políticas, econômicas e sociais, assim como alguns aspectos históricos pertinentes de cada época, que interferiram nas mudanças curriculares para o ensino, de Ciências, como apontam os estudos de Krasilchik (1987; 1988; 1992; 2000) e Gurgel (1995; 2002). No que tange ao histórico do ensino de Ciências no Brasil, nem sempre houve uma expressiva preocupação com a educação científica, levando em consideração que as disciplinas de Ciências naturais não figuravam nos currículos escolares, somente sendo obrigatórias nas séries finais do primeiro grau após a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1961, todavia, Ciências, passa a ter caráter obrigatório em todas as séries do ensino fundamental a partir de 1971, com a Lei n°. 5.692 (BRASIL, 1998, p.19). Nesse período o ensino de Ciências, visava à preparação de jovens cientistas através da transmissão de conteúdos e descrição dos fenômenos naturais sem fazer a relação com o contexto econômico, político, social, assim como suas implicações práticas na realidade (KRASILCHIK, 1987; DOMINGUES, 2000). A qualidade do ensino de Cências estava atrelada àquantidade de conteúdos conceituais, sem nenhuma preocupação com a aprendizagem contextualizada e significativa (MESQUITA, 2010; KRASILCHIK, 1987). Tais características 18 perduraram até o início do século XX, quando, por influência da Escola Nova, surgiram questionamentos nos direcionamentos do ensino e nos propósitos da educação brasileira, de acordo com Mesquita (2010). O ensino de Ciências deve contribuir para o desenvolvimento do pensamento lógico, capacidade de observação, comunicação e reflexão, por essas razões, consideramos o Ensino de Ciências de grande importância como área interdisciplinar, que integra campos relevantes dos saberes, pois, possibilita romper com a tendência fragmentada e desarticulada do conhecimento, em vistas de favorecer a formação integral e contextualizada, conforme defendido por Fracalanza, Amaral e Gouveia (1986), Brandi e Gurgel (2002). Brandi e Gurgel (2002, p. 113) afirmam que “[...] as Ciências, naquilo que têm de mais relevante, como a possibilidade de exploração e compreensão do meio social e natural poderão contribuir para a inserção da criança à cultura científica”. Nessa integração entre os diferentes saberes se constitui a interdisciplinaridade, que, segundo Fazenda (2011), é um movimento que possibilita o diálogo entre os seres humanos e os saberes, permitindo uma nova visão de mundo e tomada de consciência. Morin (2005) complementa que a divisão disciplinar das Ciências acarreta no “enclausuramento ou fragmentação do saber”. A interdisciplinaridade no âmbito escolar vem sendo sugerida, por alguns estudiosos em educação (JAPIASSÚ,1976; MORIN, 2004; 2005; MALDANER; ZANON, 2004; HERNÁNDEZ, 1998; SANTOMÉ 1998; FAZENDA , 2010; 2011; 2013; 2014) como alternativa teórica e metodológica a superar o ensino fragmentado, sendo capaz de potencializar um maior significado aos conteúdos escolares e contribuir para uma formação mais ampla, que prepare para a vida, como sugerem as Diretrizes Nacionais para a Educação (BRASIL, 2000b, p.8). Japiassú (1976), caracteriza-a pela intensidade de trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas em um mesmo projeto de pesquisa para interpretar as situações de aprendizagem. O autor entende que trabalhar a interdisciplinaridade não significa negar as especialidades e a objetividade de cada Área do Conhecimento, mas opor-se à concepção de que o conhecimento se desenvolve em campos fechados em si mesmos. 19 A pesquisadora Ivani Fazenda corrobora com as ideias de Japiassú (1976), principalmente em relação à problemática da fragmentação do conhecimento exposta pelo autor. Em suas pesquisas a autora defende a interdisciplinaridade como “fazer pedagógico de ação e parceria” onde a prática da interdisciplinaridade decorre da integração entre as disciplinas, na medida em que favorece novas formas de aproximação e leitura da realidade, permitindo que o conhecimento produzido ultrapasse os limites disciplinares. Para que essa integração aconteça, Fazenda entende que depende essencialmente de uma atitude, de uma mudança de postura do sujeito em relação ao conhecimento ficando evidente a ênfase dada ao indivíduo para que promova uma transformação no seu conhecimento (FAZENDA, 1979; 2011; 2013; 2014). A integração das Áreas, ou das disciplinas, refere-se ao aspecto formal da interdisciplinaridade e, segundo Fazenda (2011), é a condição de efetivação, isto não significa suprimir especialidades e objetividade de cada ciência, mas, é na interação ativa entre os diferentes saberes e na construção coletiva de um novo conhecimento que a prática interdisciplinar acontece, de modo que “a ciência nunca teria sido ciência se não tivesse sido transdisciplinar” (MORIM, p.136, 2005). No campo educacional as disciplinas têm se fechado e não se comunicam, impedindo a percepção da unidade que existe entre os fenômenos, conforme as inferências de Morim (2005). Neste sentido, torna-se imprescindível a elaboração de uma prática interdisciplinar que proporcione aos sujeitos ganhos no campo pessoal e coletivo, uma vez que interagem com diversos atores e com o meio para a construção de novos saberes. Pensar a interdisciplinaridade enquanto processo de integração entre várias disciplinas e nos diferentes campos de conhecimento é, uma tarefa que demanda esforço coletivo, para romper com a herança fragmentada do conhecimento que pode estar atrelada a formação do docente. Entretanto, essa integração não pode ser pensada apenas no campo dos conteúdos ou métodos, pois, “corre-se o risco de deturpar a ideia primeira da interdisciplinaridade, que é a formação global” (FAZENDA, 2011, p.11). 20 Santomé (1998, p.66) descreve a interdisciplinaridade não apenas como uma “proposta teórica ou necessidade teórica”, mas como uma ação “prática” que se aperfeiçoa à medida que são “realizadas experiências de trabalho em equipe”. O autor defende que o ensino pautado na interdisciplinaridade tem poder estruturador, porque possibilita a contextualização da realidade através dos conteúdos e estabelece relação entre as disciplinas. O currículo escolar, quando organizado em disciplinas isoladas, conduz o estudante ao acúmulo de informações que pouco farão sentido para a sua vida, uma vez que a demanda profissional é tão variada que se torna impossível incorporar todas as informação e processá-la. Da forma como estão organizados, os currículos não preparam para prosseguir carreiras em estudos superiores, tão pouco para o mercado de trabalho (FAZENDA, 2013; HERNÁNDEZ, 2007). Neste contexto, faz-se necessário compreender o ambiente escolar como um espaço de estudo, de atividades culturais, recreativas, de disciplina e responsabilidade em que o “currículo interdisciplinar deve ser fundado nos princípios da formação integral dos sujeitos, visando superar o academicismo e o ativismo, estabelecendo o equilíbrio entre estas dimensões” (MACHADO, 2005, p.113). Estes aspectos são relevantes para que a construção da proposta curricular venha atender a realidade que a instituição escolar está inserida. Machado (2005, p.112,113) defende o currículo escolar como instrumento de socialização cultural, devendo assegurar a articulação dos fatores intelectual, técnico e estético, indispensáveis à formação integral. A interdisciplinaridade e a contextualização do conhecimento devem ser os eixos organizadores dos currículos, sobretudo, aos que identificamos como currículo integrado (BEANE, 2003). Conectar e integrar os diferentes conhecimentos e suas aplicações devem guiar a construção pedagógica da escola e fazer parte da proposta de todo professor, pois a interdisciplinaridade não acontece de forma isolada, mas na relação com os outros. O currículo estruturado em Áreas de Conhecimento possibilita o ensino interdisciplinar, porém exige do professor uma formação do mesmo tipo. A 21 proposta de integração das Áreas no currículo desafia o âmbito escolar, considerando o estilo predominantemente individualista dos docentes e a herança da forma fragmentada da organização do currículo e da formação docente (SACRISTÁN, 2000, p.78; MALDANER; ZANON, 2004, p. 47). O Brasil, de acordo com Romão (2008), vem empenhando-se em promover reformas na área educacional, na perspectiva de atender às necessidades impostas pela sociedade globalizada de novas formas de produção e trabalho. Estas reformas curriculares educacionais são empreendidas a partir da aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei nº. 9.394/96, na perspectiva do Ensino Médio trabalhar uma formação que prepara o jovem para a vida. Neste sentido, a escola é convocada a incorporar a aprendizagem por competências, orientando a formação de pessoas mais aptas para assimilar mudanças e serem mais autônomas, respeitando as diferenças. Uma educação contextualizada é o principal elemento promotor de tomada de consciência da realidade, dos sujeitos, da sua inter-relação com o meio em vista da valorização da cultura e da transformação social (TAVARES, 2009; (ARAÚJO; KLEIN, 2006). Não se trata simplesmente de contextualizar os conhecimentos científicos à realidade social, tendo em vista que ciência, trabalho e cultura são dimensões da vida humana, sendo necessário que estejam integradas ao currículo escolar. Quaisquer que sejam as formas de organizar o currículo escolar, estas devem ser interpretadas como um conjunto de decisões, intenções e relações construídas socialmente em dado contexto histórico, envolvendo os conflitos e as aproximações de vários segmentos sociais (GOODSON, 1995). A elaboração do currículo tem sido reduzida a uma técnica, o que segundo Apple (1989, p.33) seria “despolitizar a educação, e isso reduziria a escola a uma instituição para reproduzir as desigualdades sociais”. A escola não deve estar organizada apenas para transmitir conhecimentos, mas que possam preparar os estudantes a participar criticamente. Martins (2006) assegura que a educação escolar é uma educação descontextualizada e colonizadora, que tem a função de integrar esta diversidade às suas narrativas hegemônicas segundo Apple (1989), “com o 22 objetivo de manter e reproduzir as condições necessárias para recriar as desigualdades sociais, pois a escola não ficará imune às influências ideológicas dominantes” (p. 30-31). Souza (2005, p. 78) destaca que os conteúdos escolares, quando desconsideram as experiências e a pluralidade cultural dos sujeitos, são obsoletos e sem significado para alunos e alunas. há “um distanciamento entre o que se discute na escola e as experiências vivenciadas pelos educandos”, o que “aumenta o abismo entre escola e os alunos” (p. 78), entre o que se ensina e o que se aprende. Tradicionalmente, o Ensino de Ciências foi norteado pela concepção de progresso, e orientado para assimilação e transmissão do conhecimento científico. Todavia, o acúmulo de conhecimento científico sem a interpretação dos fenômenos e a contextualização com o meio provoca o distanciamento dos conceitos científicos escolares do meio sociocultural, tornando esse ensino meramente mecânico e sem sentido, para superar tais desafios faz-se necessário repensar estratégias e metodologias didáticas que possibilitem ao jovem pensar criticamente e refletir sobre o contexto social. Alguns estudos apresentam como o Ensino de Ciências evolui lentamente no sistema educacional brasileiro. Dentre eles Fazenda (2002) e Pozo e Crespo (2009) apontam para a necessidade de se abrir discussões e focar no ensino de Ciências envolvendo temáticas que estão em ascensão no meio social. Nesta perspectiva o Estado do Espírito Santo, em 2010, propôs o Novo Currículo Estadual, organizado em Áreas do Conhecimento, tendo como referência as propostas da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), de 1996, que reconhece a necessidade de atualização e reformulação da educação brasileira, tanto para impulsionar uma democratização social e cultural, como para responder a desafios impostos por processos globais. O Novo Ensino Médio, conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais Ensino Médio (PCN+EM) deixa de ser, portanto, “simplesmente preparatório para o ensino superior ou estritamente profissionalizante, para assumir necessariamente a responsabilidade de completar a educação básica” (BRASIL, 23 2000b, p.8). Isso, “significa preparar para a vida, qualificar para a cidadania e capacitar para o aprendizado permanente, em eventual prosseguimento dos estudos ou diretamente no mundo do trabalho” (p.8). A Área Ciências da Natureza e Matemática, foco desta pesquisa, compõe-se de disciplinas que carregam a cultura científica e tecnológica que como toda cultura humana, é resultado e instrumento da evolução social e econômica, na atualidade e ao longo da história (BRASIL, 2000b). Os componentes curriculares desta Área têm em comum a investigação da natureza e dos desenvolvimentos tecnológicos, compartilham linguagens para a representação e sistematização do conhecimento de fenômenos ou processos naturais e tecnológicos (BRASIL, 2000a). Conforme as orientações dos PCNEM, a finalidade da biologia, como ciência no âmbito escolar, é contribuir para a compreensão dos conceitos biológicos e interpretações dos fenômenos, pois reúne algumas das respostas às indagações que vêm sendo formuladas pelo ser humano ao longo de sua história para compreender a origem, a reprodução, a evolução da vida em toda sua diversidade de organização e interação. O novo documento curricular proposto pela Secretaria da Educação (SEDU), em consonância com os documentos oficiais propostos pelo Ministério da Educação (MEC), (Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio (DCNEM), Parâmetros Curriculares Nacionais Ensino Médio (PCNEM), Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+)) sinaliza a necessidade de trabalhar o ensino de modo interdisciplinar na Educação Básica, de modo a minimizar o tradicional ensino fragmentado. Também é solicitado aos professores que atuam na educação básica o desenvolvimento de suas atividades docentes na perspectiva da interdisciplinaridade, visto que o Currículo Básico Comum (CBC) estadual está organizado por áreas do conhecimento, além do mais a Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo (SEDU), determina por meio da Portaria, que seja cumprido o planejamento coletivo por área de conhecimento representando 1/3 da carga horária, por estes professores. 24 Sob as discussões abordadas, o problema de investigação que se busca responder no decorrer deste estudo é: Como efetivar a interdisciplinaridade como práxis para uma equipe de professores de Ciências da Natureza e Matemática na ótica do currículo multidisciplinar? As questões que norteiam a investigação e o desenvolvimento da pesquisa são: Quais são as contribuições dos referenciais teóricos e documentos oficiais no que diz respeito à interdisciplinaridade no ensino de Ciências da Natureza e Matemática? O que as pesquisas em Educação em Ciências têm mostrado acerca da interdisciplinaridade na formação inicial de professores? Como os professores, que desenvolvem sua prática docente através do currículo por área, neste caso, Ciências da Natureza e Matemática, compreendem o que vem a ser um trabalho interdisciplinar? Quais os desafios em trabalhar de forma interdisciplinar o currículo da área de Ciências da Natureza e Matemática? Quais as possibilidades para o desenvolvimento da interdisciplinaridade no Currículo Estadual do Espírito Santo? O presente estudo teve como objetivo geral sistematizar elementos teóricos e metodológicos que permitam desenvolver a interdisciplinaridade entre a proposta curricular de Biologia do Estado do Espírito Santo e as disciplinas de Ciências da Natureza e Matemática. Os objetivos específicos desta pesquisa foram:  Identificar a compreensão dos professores da área das Ciências da Natureza e Matemática, em uma escola estadual do Município de Pinheiros, suas concepções sobre interdisciplinaridade e currículo integrado;  Apresentar os fundamentos e princípios da interdisciplinaridade presentes em documentos oficiais propostos pelo MEC e pela SEDU, assim como definições propostas por autores de referência relacionados ao Ensino de Ciências da Natureza (Biologia);  Analisar e avaliar com os professores da rede estadual a aplicabilidade das orientações do PCNEM no que refere a superação do ensino fragmentado disciplinar, comparando com o CBC estadual para a área de Ciências da Natureza e Matemática; 25  Diagnosticar a percepção dos alunos quanto à interdisciplinaridade no cotidiano escolar;  Identificar e compreender possíveis obstáculos e limitações para uma prática interdisciplinar do currículo da área de Ciências da Natureza e Matemática;  Identificar pressupostos interdisciplinares presentes no discurso dos entrevistados e apontar outras possibilidades para alcançar a interdisciplinaridade no Currículo de Ciências da Natureza e Matemática. Para atender aos objetivos propostos, o trabalho estrutura-se da seguinte forma: a) breve histórico sobre o ensino de Ciências no Brasil; b) estudo das principais perspectivas de interdisciplinaridade presentes em documentos oficiais elaborados pelo MEC e na literatura; c) revisão bibliográfica sobre a interdisciplinaridade e currículo interdisciplinar de Ciências da Natureza e Matemática, d) realização de pesquisa investigativa com professores e estudantes da rede estadual de ensino, sobre os aspectos da interdisciplinaridade no cotidiano escolar, e) análise comparativa dos discursos, buscando elementos que contribuam com a pesquisa. O texto apresenta a seguinte estrutura: No Capítulo 1 apresentam-se uma introdução sobre a fragmentação do conhecimento e a disciplinarização, além de discussões sobre o processo e as mudanças no ensino de Ciências no Brasil. Além disso, explicita-se a compreensão de interdisciplinaridade presente em documentos oficiais: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) Nº 9.394 (BRASIL, 1996); PCN da área de Ciências Naturais do Ensino Fundamental (BRASIL, 1998a; 1998b; 1998c); DCNEM (BRASIL, 1998d); PCNEM (BRASIL, 2000a; 2000b), PCN+ (BRASIL, 2002a) e Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNEM) (BRASIL, 2006) da área de Ciências da Natureza, Matemática do Ensino Médio, a Resolução Nº 2, que define as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio de 30 de janeiro de 2012 como também o Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio (PNEM), 2013; No Capítulo 2 será exposto as principais perspectivas de interdisciplinaridade, pressupostos e definições sob o diálogo de alguns autores. O Capítulo 3 contará com um estudo sobre currículo integrado e as discussões 26 sobre essa temática defendidas por alguns autores presentes na literatura, como Beane (2003), Hernández (1998), Santomé (1998), Neto (1999), Sacristán (2000), Goodson (1995), Hernández; Ventura (1998). A metodologia desta pesquisa será abordada no Capítulo 4, na qual será apresentada a descrição do campo e dos sujeitos envolvidos, assim como a análise do discurso dos entrevistados, a partir das ideias de Orlandi (2005). No Capítulo 5 serão apresentado os resultados encontrados e as discussões sobre o tema que contribuem para o enriquecimento e subsídios para pesquisa. Nas Considerações Finais apontam-se possibilidades para o desenvolvimento da interdisciplinaridade na efetivação de um currículo integrado para a área de Ciências da Natureza da escola estadual que propusemos pesquisar. 27 CAPÍTULO 1 A EVOLUÇÃO DO ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL SEGUNDO AS NORMATIVAS OFICIAIS E A INTERDISCIPLINARIDADE NA PERSPECTIVA DE SUPERAÇÃO DO ENSINO FRAGMENTADO 28 1.1 ABORDAGEM SOBRE A ORIGEM DA FRAGMENTAÇÃO DO CONHECIMENTO Ao olharmos o histórico da origem das Ciências, nos parece genuinamente disciplinar, mas segundo Morin, (2009, p.107-108), “muitas disciplinas surgiram da união de outras, assim também como muitas elaborações importantes da história da Ciência se deram pela interação entre pesquisadores de diferentes áreas do saber”. Frequentemente na literatura encontramos a origem da fragmentação do conhecimento como sendo cartesiana, em especial após a publicação da obra de Descartes, Discurso do Método (1996). Embora não seja consenso a origem da fragmentação, as conclusões de Descartes acabaram influenciando, pois defendia a ideia que estudar as partes de uma situação complexa facilitaria sua resolução. Fato é que, sendo influenciado ou não pelo pensamento cartesiano, o século XIX foi marcado pela especialização das Ciências, e se acentuou com a industrialização e consequentemente a divisão de trabalho resultantes da expansão econômica e tecnológica. A realidade e necessidade de mão de obra especializada que se destacava no século XX acabam por refletir no ensino escolar disciplinar que se consolidava naquele período, principalmente nas universidades e nos avanços das pesquisas científicas (MORAES (2000); SANTOMÉ (1998); MORIN (2005)). Morin (2009, p.105) ressalta que as disciplinas surgiram da necessidade de organizar o conhecimento, em resposta à diversidade das áreas que as ciências abrangem, entretanto a “hiperespecialização impede de ver o global”, na qual “os desenvolvimentos disciplinares das ciências não só trouxeram a divisão do trabalho, mas também os inconvenientes da superespecialização, do confinamento e do despedaçamento do saber” (p.15). Santomé (1998, p. 55) ressalta que uma disciplina “ é uma maneira de organizar e delimitar um território de trabalho, de concentrar a pesquisa e as experiências dentro de um determinado ângulo de visão”, desta a forma cada disciplina nos 29 possibilita uma imagem particular da realidade nos impondo uma forma fragmentada de pensar. A compartimentalização do saber restringindo as disciplinas podem ocasionar conhecimentos restritos e específicos focalizados apenas em uma área e de acordo com Lück, (1994) e Santomé (1998), essa compartimentalização pode ser visualizada nas escolas, por meio do seu currículo organizado em disciplinas específicas, na qual se evidencia um distanciamento entre as temáticas abordadas em sala de aula e a realidade vivida pelos educandos, o que segundo Santomé (1998, p.104), acaba por gerar a “incompreensão daquilo que é estudado à força”, pois a “fragmentação dificulta a compreensão do que foi estudado-memorizado” os alunos “não refletem sobre suas experiências cotidianas e a irresponsabilidade dos aprendizes”, por não se sentirem parte do processo de formação, portanto sem pertença ou capazes de mudá-lo. A fragmentação do conhecimento científico, no âmbito educacional, manifesta-se na separação das disciplinas no currículo escolar, na qual, muitas vezes, até mesmo dentro da mesma área de conhecimento são apresentados de maneira desvinculada e desconexa, proporcionando danos para a formação conforme as arguições de Gerhard e Rocha Filho (2012), pois não fazem sentido no cotidiano dos educandos. As consequências da fragmentação dos saberes de acordo com Hernandéz (1998), Santomé (1998) e Gerhard e Rocha Filho (2012) vão desde a perda de sentido da escola na vida dos jovens, até a negação por parte dos estudantes de algumas disciplinas, em especial as disciplinas científicas, sinalizando que os estudantes não conseguem perceber a unidade que existe entre os fenômenos e os conteúdos trabalhados nas diferentes áreas do conhecimento. Tais situações foram apontadas por Santomé (1998) ao referir-se a fragmentação do conhecimento escolar, “em geral, poucos estudantes são capazes de vislumbrar algo que permita unir ou integrar os conteúdos ou o trabalho das diferentes disciplinas.” (p. 25), e isto tende a se agravar pelo modo que o conhecimento científico é tratado na escola por meio do currículo. Na mesma lógica de pensamento, Cachapuz, Praia e Jorge, afirmam que 30 [...] o caráter acadêmico e não experimental que marca em grau variável os currículos de Ciências e o seu ensino (nos ensinos básico e secundário) é, porventura, o maior responsável pelo desinteresse dos jovens alunos por estudos de Ciências. A Ciência que se legitima nos currículos está desligada do mundo a que, necessariamente, diz respeito (2004, p. 368). As preocupações levantadas pelos autores são reais no dia a dia das escolas, e esta realidade complexa de isolamento e fragmentação do conhecimento compromete a formação integral, crítica e contextualizada, já que as dificuldades geradas pelo currículo disciplinar tendem a aumentar, pois, de acordo com Lavaqui e Batista, [...] em qualquer nível educacional, a coerência do planejamento curricular não se mostra perceptível aos alunos e, muitas vezes, nem mesmo aos professores, tornando difícil qualquer forma de integração entre os conteúdos das diferentes disciplinas.” (2007, p. 408). Neste contexto, exigem-se modificações no sistema educacional que vão desde a formação do professor até a organização curricular, na compreensão de que o planejamento curricular deve contemplar de forma clara a interdisciplinaridade como ferramenta que possibilite o entendimento das relações entre as disciplinas. Evidentemente, que as disciplinas são plenamente justificáveis, desde que preservem e reconheçam a existência das ligações entre elas, mesmo que cada uma tenha linguagem e metodologia própria, está na interação entre os diferentes saberes a possibilidade de ressignificação dos conceitos (MORIN, (2009); AUTH et al. (2004). Na perspectiva de minimizar os efeitos da fragmentação do conhecimento do ensino disciplinar, na formação crítica e emancipatória dos jovens, a prática da interdisciplinaridade propõe um ensino que permita a visão global do mundo, na qual a contextualização e a integração de conhecimentos são alicerces que norteiam a prática docente. 31 1.2 BREVE HISTÓRICO DOS PROCESSOS E AS MUDANÇAS NO ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL E A COMPREENSÃO DE INTERDISCIPLINARIDADE PRESENTE EM DOCUMENTOS OFICIAIS. Rever a história do ensino de Ciências no Brasil, as mudanças e transformações perpassadas desde a promulgação da Lei 4.024/61 nos permite compreender e analisar os processos de transformações tanto no currículo escolar, em especial o de Ciências, como também compreender o papel atribuído a disciplinas científicas na formação dos jovens. Os registros anteriores a esse período, segundo Krasilchik (1987) refletem a situação do ocidente após a segunda Guerra Mundial, com a expansão da indústria, desenvolvimento tecnológico e científico, que influenciaram de forma direta o currículo escolar. O ensino de Ciências no Brasil, não foi diferente, esteve atrelado às mudanças políticas, econômicas e sociais de cada época. Isto se evidencia ao pesquisar a Normativas Educacionais, na qual não havia uma expressiva preocupação com a educação científica, tendo em vista que as disciplinas que compõem as ciências naturais não figuravam na educação escolar, somente a partir de 1961, com a promulgação de Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as aulas de Ciências passam a ser ministradas nas últimas séries do curso ginasial. Com a publicação da Lei 4.024 – Diretrizes e Bases da Educação, de 21 de dezembro de 1961, segundo os estudos de Krasilchik (2000), o ensino de ciências ganha amplitude no currículo escolar, passando a figurar desde o 1º ano do ginásio, neste mesmo período houve um aumento da carga horário para as disciplinas que compõem a Ciências Naturais; Física, Química e Biologia. Tais disciplinas passam a exercer um caráter investigativo pautadas no método científico que possibilita preparar o jovem para posicionar criticamente e tomar decisões diante de informações e dados. Krasilchik (1987, p.7) ressalta que “o ensino de ciências era, como hoje, teórico, livresco, memorístico, estimulando a passividade”. A finalidade dos currículos escolares estava para a formação de “uma elite que deveria ser melhor instruída a partir dos primeiros passos da escolarização” na qual a maioria das atividades 32 “objetivava transmitir informações e de uma forma mais eficiente da simples exposição ou leitura de texto”. Nessa época, de um modo geral, a importância era dada ao produto da Ciência visando à preparação do futuro cientista. A principal função do ensino era a “transmissão” e descrição de informações (conceitos, fenômenos, objetos) sem discutir a relação da Ciência com o contexto econômico, político, social e suas aplicações práticas e tecnológicas. Ou seja, a Ciência era apresentada como neutra e a qualidade do ensino centrava-se na quantidade de conteúdos conceituais transmitidos, não havia muita preocupação com o processo de construção do conhecimento segundo, Krasilchik (1987) e Domingues (2000). Um fato marcante que influenciou o sistema educacional brasileiro, neste período, segundo Krasilchik (1987), foi o Período da Ditadura Militar em 1964. A necessidade de mão de obra qualificada alavancou as modificações no ensino de Ciências. Verifica-se uma interferência direta dos Estados Unidos na política educacional brasileira, o que na concepção de Gadotti, camuflava a ideologia desenvolvimentista direcionando o ensino de Ciências para o aperfeiçoamento do sistema industrial e econômico capitalista. [...] Por trás dessa concepção da educação escondia-se a ideologia desenvolvimentista, visando o aperfeiçoamento do sistema industrial e econômico capitalista. A periferia deveria adaptar-se aos comandos dos centros hegemônicos do capitalismo. As raízes desse modelo de educação – que é o nosso – são puramente econômicos. Dentro dessa concepção de educação, os países periféricos, e, portanto dependentes, estão atrasados porque são carentes de tecnologia e não porque são dependentes. Ora, essa carência pode ser suprida através de uma reforma do sistema escolar, voltada para o treinamento, o adestramento do estudante, tornando-o um dócil servidor do sistema econômico (GADOTTI, 1978; p 8-9). Krasilchik (1987), reporta que as imposições do período da ditadura militar de 1964 impulsionaram as mudanças no papel da escola que deixa de lado a busca pela formação cidadã para enfatizar a formação do trabalhador, considerado importante ferramenta, mão de obra qualificada, para a continuidade e desenvolvimento econômico do país. No Brasil, a necessidade de preparação dos alunos mais aptos era defendida em nome da demanda de investigadores para impulsionar o progresso da ciência e tecnologia nacionais das quais dependia o país em processo de industrialização [...] (KRASILCHIK, 2000, p. 86). 33 Após o Período da Ditadura Militar de 64, as mudanças políticas pesaram sobre os currículos escolares, que por sua vez passam a incluir mais um objetivo para o ensino de Ciências, incluir a vivência do método científico, necessário à formação do indivíduo, não apenas à formação de futuros cientistas. Tal situação, de acordo com Krasilchik (1987, p.10), “começa a discorrer sobre a democratização do ensino para o homem comum, que até o momento se sujeitava apenas ao produto da Ciência e da tecnologia”, permitindo acesso também ao conhecimento que permitem a resolução de problemas, não como especialista, mas, como indivíduo capaz de exercer qualquer atividade no contexto social. Neste contexto a proposta da democratização visava articulação entre o processo intelectual e a investigação científica, pois, o que se destacava até o momento era a observação para a constatação de fatos e o manuseio de equipamentos. Em vista disso, a proposta de democratização do ensino, por meio do currículo, valorizava a participação dos educandos no processo de formação, na qual [...] a participação do aluno na elaboração de hipóteses, identificação de problemas, análise de variáveis, planificação de experimentos e aplicação dos resultados obtidos. [...] O objetivo do processo passa a ser o homem comum, que precisa tomar decisões, que deve resolver problemas, e que o fará melhor se tiver a oportunidade de pensar lógica e racionalmente (KRASILCHIK, 1987, p. 10). Com o suposto discurso de uma educação voltada para a vida, educação científica voltava-se para a formação de mão de obra qualificada na expectativa de suprir a necessidade emergente do mercado, ou seja, a industrialização e modernização. Tal situação se evidencia com a publicação da Lei 5.692/71, com a obrigatoriedade do ensino de ciências nas oito séries do primeiro grau, chamadas naquele período por Ginásio (BRASIL, 1998, p.19), em especial, segundo Chassot e Oliveira (1998, p. 35) após o acordo firmado entre o MEC/ USAID (United States Agency for International Development) em 1966, no qual definia a formação técnica profissional como sendo ideal para a educação brasileira. Com a promulgação da Lei 5.692/71, as modificações educacionais ficam explicitas no cenário nacional, consequentemente as propostas de reforma para 34 o ensino de Ciências, na qual conforme KRASILCHIK (2000), as disciplinas científicas foram comprometidas, descaracterizando sua função epistemológica curricular, passando a assumir um caráter técnico, profissionalizante. A autora enfatiza que as escolas privadas se mantiveram no propósito preparatório para a continuidade dos estudos e o sistema público precisou se reajustar abandonar as pretensões surrealistas do sistema capital, que era preparar os educandos para o mercado de trabalho. A partir de meados dos anos 1980 e durante a década de 1990, o ensino de Ciências passou a contrapor as metodologias ativas e a incorporar o discurso da formação do cidadão crítico, consciente e participativo. As propostas educacionais ressaltavam a necessidade de fomentar nos estudantes a capacidade de pensar criticamente refletido sobre sua realidade e se posicionar diante de fatos, além de questionarem as relações existentes entre a ciência, a tecnologia, a sociedade e o meio ambiente e a se apropriarem de conhecimentos de relevância científica, social e cultural (DELIZOICOV e ANGOTTI, 1990). Este período o ensino de Ciências no país apresentou-se contraditório, conforme infere Krasilchik (1987, p.19); Chassot e Oliveira (1998, p. 37), pois, embora os documentos oficiais (LDB/1971) valorizassem as disciplinas científicas, o período de ensino a elas disponibilizado fora reduzido por força de um currículo de viés tecnicista, fortemente impregnado por um caráter profissionalizante. Apesar de os currículos ressaltarem o ensino de Ciências na perspectiva da aquisição de conhecimentos contextualizados e a vivência do método científico, continuou a ser descritivo fragmentado e teórico na maioria das escolas brasileiras. Esse processo de redemocratização do ensino no Brasil exigiu dos órgãos oficiais vinculados a Educação, Ciência e Tecnologia uma preocupação quanto ao ensino de Ciências que fora instituído nas escolas, conforme os estudos de Krasilchik (1987) e em 1983 a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior) cria o SPEC (Subprograma Educação para a Ciência), ligado ao PADCT (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para a melhoria do ensino de ciências e matemática, tendo como meta superar o modelo tradicional das práticas pedagógicas do ensino de 35 Ciências e Matemática, caracterizadas por uma abordagem fragmentada do conhecimento, memorização e descontextualização do saber científico. Dentro dessa perspectiva, de melhorar a qualidade do ensino de Ciências, Krasilchik (1987) sugere aspectos importantes a serem considerados, como: [...] identificar, treinar e apoiar lideranças, aperfeiçoar a formação de professores e promover a busca de soluções locais para a melhoria do ensino e estimular a pesquisa e implementação de novas metodologias (KRASILCHIK, 1987, p. 25). Gurgel corrobora com Ibid. (1987) e acrescenta que as ações propostas pelo SPEC: [...] não somente estimularam a comunidade acadêmica a organizar-se em torno das questões próprias e particulares do processo de ensino aprendizagem dessas Ciências, como a fez enfrentar, ao menos, três grandes desafios: ressignificar nossos cursos de formação inicial e continuada de professores, rever a relação entre Universidades e escola básica e buscar maior articulação nacional e internacional entre nossos pesquisadores e docentes com seus pares nessas áreas (GURGEL, 2002, p. 264). Os aspectos levantados anteriormente de redemocratização, além de influenciar os órgãos oficiais ligados à educação, também refletem nas normativas educacionais, que sob a alegação de não ter sido considerado as diferenças das classes sociais, provenientes da sociedade capitalista, as particularidades da realidade brasileira, propõem uma aproximação entre escola e sociedade, com questões que relacionaram o meio ambiente e a qualidade de vida ao conhecimento científico, por meio da Nova Diretriz Educacional a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, nº 9.394/1996. A presente Normativa Educacional, (LDB, nº 9.394/1996), foi criada com a finalidade de garantir a formação integral dos estudantes abrangendo a formação para a cidadania, reconhecendo os desafios em promover uma educação que de fato prepare e oriente o jovem para sua integração ao mundo do trabalho. As diferentes propostas reconhecem hoje que os mais variados valores humanos não são alheios ao aprendizado científico e que a Ciência deve ser apreendida em suas relações com a Tecnologia e com as demais questões sociais e ambientais. As novas teorias de ensino, mesmo as que possam ser amplamente debatidas entre educadores especialistas e pesquisadores, continuam longe de ser uma presença efetiva em grande parte de nossa educação fundamental. Propostas 36 inovadoras têm trazido renovação de conteúdos e métodos, mas é preciso reconhecer que poucos alcançam a maior parte das salas de aula onde, na realidade, persistem velhas práticas (BRASIL, 1998, p.21). No ensino médio assume a função de consolidação dos conhecimentos, a preparação para o trabalho e o exercício da cidadania, estabelecendo no parágrafo 2° do seu artigo 1°, “que a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social”, além de possibilitar a formação básica do cidadão e exige o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo, a compreensão do ambiente material e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade. Em suma, a Lei estabelece que o ensino de Nível Médio integre, na mesma modalidade, habilidades e competências de forma articulada, uma educação equilibrada tanto para a formação quanto para o exercício da cidadania. Apesar da LDB (1996), afirmar a relevância da Ciência, a educação científica não é contemplada desde educação infantil nestes documentos, mesmo que considere o desenvolvimento nos aspectos físico, afetivo, intelectual e social não há menção da educação científica na infância. No entanto no Parecer do Conselho Nacional de Educação em consonância com a Câmara de Educação Básica – CNE/CEB n° 7/2010 reafirma a necessidade de superar o distanciamento entre as tecnologias de informação e as escolas tendo em vista que: [...] o conhecimento científico, nos tempos atuais, exige da escola o exercício da compreensão, valorização da ciência e da tecnologia desde a infância e ao longo de toda a vida em busca da ampliação do conhecimento científico: uma das condições para exercício da cidadania [...], grifo nosso (2010, p.21). Todo esse discurso em favor da valorização das opiniões a respeito dos destinos da ciência influenciaram as propostas de mudanças nos currículos escolares que passam a enfatizar a aquisição, a compreensão e a obtenção de informações relacionadas às questões políticas e sociais além da contextualização com a realidade, revelando a contradição entre a sociedade e a comunidade científica. Assim a relação entre a cidadania e o ensino de Ciências passa a envolver novas facetas que precisam ser consideradas quando da preparação de currículos e programas escolares, e propostas de formação de professores (KRASILCHIK, 1988, p. 56). 37 Considerando o cenário nacional a educação, verifica-se que o ensino de ciências tem influenciado as mudanças na legislação educacional, os quais atendem aos interesses e prioridades para a educação escolar considerando diferentes contextos. Além disso, estas mudanças e proposições para o ensino de ciências são frutos das investigações e estudos de educadores e pesquisadores que visam à qualidade da educação brasileira. Batista, Neto e Valverde (2008) reportam sobre o ensino de Ciências no Brasil, ressaltando que a prática educativa vem, “de maneira lamentável assumindo uma postura cientificista”, ou seja, não há uma relação com os saberes relacionados em sala de aula com a realidade dos educandos. Uma prática de ensino cientificista, coloca a ciência acima da cultura dos estudantes (COBERN,1994), ou seja, apenas os saberes científicos são considerados, sobrepondo quaisquer concepções que circule no ambiente da sala de aula. Por outro lado quando se contextualiza o ensino a cultura e a ciência, os conhecimentos científicos escolares se harmonizam com a realidade cultural dos estudantes e os conteúdos escolares passam a fazer significado na vida dos jovens. Para Cobern (1994) o fato dos estudantes pertencerem a “universos socioculturais” distintos da ciência faz com que os conceitos sejam utilizados apenas para avaliações e logo sendo “descartados”, pois são incompatíveis com a realidade e visão de mundo desses jovens. Essa preocupação com um ensino cientificista, também é levantada pelo MEC no qual orienta que: [...] É importante que se supere a postura “cientificista” que levou durante muito tempo a considerar-se ensino de Ciências como sinônimo da descrição de seu instrumental teórico ou experimental, divorciado da reflexão sobre o significado ético dos conteúdos desenvolvidos no interior da Ciência e suas relações com o mundo do trabalho. Durante os últimos séculos, o ser humano foi considerado o centro do Universo. O homem acreditou que a natureza estava à sua disposição. Apropriou-se de seus processos, alterou seus ciclos, redefiniu seus espaços. Hoje, quando se depara com uma crise ambiental que coloca em risco a vida do planeta, inclusive a humana, o ensino de Ciências Naturais pode contribuir para uma reconstrução da relação homem-natureza em outros termos. O conhecimento sobre como a natureza se comporta e a vida se processa contribui para o aluno se posicionar com fundamentos acerca de questões polêmicas e orientar suas ações de forma mais consciente. (MEC, 1997, p. 22). 38 Nesta perspectiva, para formar cidadãos críticos, capazes, precisamos considerar que a escola tem papel fundamental, pois, o ensino deve contribuir para que os estudantes aprendam a utilizar os conhecimentos científicos escolares na tomada de decisões com vistas à melhoria da qualidade de vida da comunidade. Evidentemente, que é da “escola a competência de propiciar o acesso ao conhecimento científico, pelo menos na sua forma mais sistematizada” (SCHOROEDER, 2013, p.13). O referido autor acrescenta que “as aulas de Ciências ou de Biologia são espaços promissores para o desenvolvimento de uma educação científica das crianças e dos jovens de uma forma muito mais completa e significativa”. Tal inferência corrobora com as definições feitas por Chassot (2001, p. 38), na qual considera a alfabetização como “conjunto de conhecimentos que facilitaria aos homens e mulheres fazerem leitura do mundo em que vivem”, ou seja, o ensino de ciências pode, conforme Krasilchik (1987) e Schroeder (2013), ir além as suas especificidades em termos conceituais e estabelecer correlações com os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais, ampliando a compreensão dos estudantes sobre os problemas do cotidiano, por meio da contextualização. O ensino de ciências atrelado às tecnologias de informação pode contribuir com a população na compreensão de diferentes contextos e na complexidade da realidade dinâmica, possibilitando a tomada de decisões como também no discernimento de fatos ou fenômenos. Deste modo, “o conhecimento científico se transforma em instrumento, com vistas à resolução de problemas do cotidiano”, podendo “contribuir para a formação de um cidadão mais consciente e comprometido com questões que são vitais para a sociedade” (SCHROEDER, 2013; CHASSOT, 2003). É notória a existência da preocupação, por questões que perpassam desde a formação do professor até a prática reflexiva entre a comunidade acadêmica e neste contexto muito se tem discutido no campo educacional sobre os aspectos e pressupostos da interdisciplinaridade como forma de minimizar ou até mesmo superar a fragmentação, a linearidade e a descontextualização do conhecimento escolar. 39 Diante disso, a fim de refletir sobre as mudanças no ensino de Ciências, e a compreensão dos aspectos da integração curricular, na perspectiva de superação do ensino fragmentado, apresentamos a seguir um estudo sobre os fundamentos e princípios da interdisciplinaridade presente em alguns documentos oficiais do MEC. 1.3 INTERDISCIPLINARIDADE EM DOCUMENTOS OFICIAIS O movimento da interdisciplinaridade surgiu na Europa, principalmente na França e na Itália, em meados de década de 1960, coincidência ou não no mesmo período em que os movimentos estudantis reivindicavam pela criação de um novo estatuto Universidade e Escola, (FAZENDA, 1994, p.18). Tal movimento parece inicialmente tentar esclarecer as propostas educacionais que começam a surgir na época, na qual algumas universidades, que juntamente com seus docentes buscavam superar a educação que evidenciava uma excessiva especialização, sendo reconhecida como um movimento de oposição ao sistema capitalista (IBID, 1994, p.19). A interdisciplinaridade, segundo Fazenda (1994), chegou ao Brasil no final da década de 1960 e início da década de 1970, com o propósito contribuir na superação da fragmentação dos conhecimentos ocorrida em função da revolução industrial e a necessidade de mão de obra especializada. Entretanto, a autora ressalta que a interdisciplinaridade encontrava-se carregada de modismos, uma palavra nova a ser explorada no cenário educacional, além da excessiva preocupação quanto à terminologia. Hilton Japiassu (1976) foi um dos pioneiros em defesa da temática, nos quais apresentava questionamentos a respeito de seus conceitos e refletindo sobre as estratégias interdisciplinares da época. Esse posicionamento atribuiu ao autor às primeiras produções significativas no Brasil Nesse sentido, tentaremos apresentar as principais motivações desse empreendimento, bem como as justificações que poderão ser invocadas em seu favor. Tudo isso, no contexto de uma epistemologia das ciências humanas, às voltas coma suas “crises” e com seus impasses metodológicos. A resolução dessas crises coincide pelo menos em parte, com os objetivos a que se propõe o método interdisciplinar. (JAPIASSU, 1976, p.53): 40 Assim, antes mesmo de se fazer presente em documentos educacionais oficiais, a interdisciplinaridade começou a ser discutida por estudiosos da área que refletiam sobre a qualidade do ensino e os desafios de um ensino descontextualizado e disciplinar. A interdisciplinaridade se apresenta no cenário educacional, como um grande desafio a ser assumido pelos educadores que pretendem a superação de uma prática fragmentada de ensino e aprendizagem, que em muitas vezes, sob uma concepção “bancária de educação”, que prevalecem à mera “transmissão e recepção de conhecimentos” (FREIRE,1987). Os aspectos e pressupostos da interdisciplinaridade têm influenciado as Normativas Educacionais Nacionais. As primeiras discussões sobre a temática são registradas no final da década de 60 e início da década de 70, mesmo que de forma implícita, com finalidade de superar a fragmentação dos conhecimentos ocorrida em decorrência da revolução industrial, que visava o ensino apenas como preparatório para suprir a carência de trabalho especializado. Assim, são vários os debates em torno da questão da interdisciplinaridade no contexto educacional, principalmente na Educação Básica, no sentido de integrar as disciplinas e de contextualizar os conteúdos de ensino (AUGUSTO e CALDEIRA, 2007). Ou seja, de repensar a organização curricular disciplinar e avançar em direção a propostas interdisciplinares contextualizadas conforme as orientações contidas em Brasil,( 2000a; 2000b; 2002a; 2002b). Dentre as normativas educacionais, a interdisciplinaridade passa a ser discutida na elaboração da LDBEN Nº 5.692 (BRASIL, 1971), conquanto, sua presença no cenário educacional brasileiro intensificou-se, especialmente, a partir da promulgação da LDBEN Nº 9.394 (BRASIL, 1996), das DCNEM (BRASIL, 1998 d), Parâmetros Curriculares Nacionais, elaborados para serem trabalhados no Ensino Fundamental e Médio em todo o país, os PCN (BRASIL, 1998a; 1998b), os PCNEM (BRASIL, 2000a; 2000b), os PCN+ (BRASIL, 2002a), nas orientações e mudanças propostas para o Ensino Médio OCNEM (BRASIL, 2006), além de direcionar a formação de professores da Educação Básica através das DCN (BRASIL, 2002b). 41 Na intensão de identificar e conhecer a respeito dos fundamentos e princípios da interdisciplinaridade presente em algumas normativas oficiais, nos propomos estudar a LDBEN Nº 9.394, as DCNEM, nos PCNEM, nos PCN+ e nas OCNEM da área de Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Observamos que todos estes documentos, tanto os de orientação quanto os de normatização estão pautados princípio do direito universal à educação para todos, o que acarretou em diversas mudanças em relação à LDBEN Nº 4.024 (BRASIL, 1961) e LDBEN Nº 5.692 (BRASIL, 1971). Dentre as mudanças promovidas pela LDBEN Nº 9.394 destacamos a reformulação do Ensino Médio, que passa a integrar uma etapa da Educação Básica; regulamentada em 1998 pelas Diretrizes do Conselho Nacional de Educação e sugerida pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. O novo ensino médio, nos termos da lei, de sua regulamentação, deixa de ser, portanto, simplesmente preparatório para o ensino superior ou estritamente profissionalizante, para assumir necessariamente a responsabilidade de completar a educação básica. No que tange à interdisciplinaridade, a LDBEN Nº 9.394 não a menciona explicitamente, contudo sinaliza alguns aspectos indicativos no que diz respeito à organização do currículo para a Educação Básica que pressupõe a interdisciplinaridade e podem indicar a criação de áreas do conhecimento e a integração entre elas. Art. 26º. Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela. § 1º. Os currículos a que se refere o caput devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil (BRASIL, 1996, p. 11, grifo nosso). Quanto à perspectiva interdisciplinar, os PCN (BRASIL, 1998a; 1998b; 1998c) sinalizam que, para superar a abordagem fragmentada do ensino de Ciências, o trabalho a partir de temas relacionados ao convívio social, “[...] dão contexto aos conteúdos e permitem uma abordagem das disciplinas científicas de modo inter- 42 relacionado, buscando se a interdisciplinaridade possível dentro da área de Ciências Naturais”, grifo nosso, (BRASIL, 1998b, p. 27). A interdisciplinaridade é apresentada nas DCNEM, conforme Brasil, (1998d) como proposta de fundamentação teórica-metodológica em vista da reestruturar os currículos do Ensino Médio, possibilitando desta forma, maior liberdade para a escola na seleção e organização dos conteúdos, como também uma metodologia a ser adotada para a prática docente É possível perceber, nesta revisão, que com a aprovação da LDBEN 9.394 /1996) e a publicação dos PCN e dos PCNEM (BRASIL, 1998a; 1998b; 1998c; 2000), fica garantido maior flexibilização dos conteúdos e organização dos currículos escolares, de modo que as escolas possam adequar seus currículos as peculiaridades locais, no sentido de minimizar a fragmentação, pertinentes um currículo disciplinar. O Ministério da Educação em 1998 apresenta para a comunidade escolar, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), colocando a disposição das escolas uma proposta de reorganização curricular coerente com as Diretrizes Educacionais, presentes na Lei n° 9. 394/96, sem pretensões normativas, porém agregado de princípios norteadores para a educação brasileira, na qual, vislumbrava possibilidades de melhoria na aprendizagem imbuídas de princípios da contextualização e interdisciplinaridade. Os PCNs se configuram como importante marco nas reflexões sobre a prática pedagógica e orientam o trabalho docente por meio de temáticas tradicionalmente vinculadas ao ensino de ciências como: meio ambiente, saúde, orientação sexual, consideradas “temas transversais”, que facilitam a integração entre os diferentes conhecimentos escolares na perspectiva de uma prática interdisciplinar. Entretanto, Chassot e Oliveira (1998, p.50) salientam que mesmo sendo uma recomendação dos PCNs que tais temáticas sejam trabalhadas de forma integrada nas diferentes disciplinas, “na prática ainda verifica-se que a responsabilidade do seu ensino recai basicamente nas disciplinas científicas, principalmente biologia”. 43 As Diretrizes para o Ensino Médio, DCNEM, foram aprovadas com base Resolução Nº 3 de 26 de junho de 1998 da Câmara Educação Básica, contemplando um conjunto de definições, princípios e fundamentos em vistas de orientar as escolas na organização curricular, assim como nas suas propostas pedagógicas de forma a garantir a integração com o contexto social, as DCNEM são de caráter obrigatório (BRASIL, 1998d), contrariando os PCN que apresentam caráter sugestivo. Nas DCNEM (BRASIL,1998d), a interdisciplinaridade é discutida com mais ênfase, na qual entre outras disposições, determinam que os currículos do Ensino Médio sejam organizados em áreas de conhecimento, cujas áreas sejam estruturadas pelos princípios pedagógicos da interdisciplinaridade, da contextualização, da diversidade, da identidade e da autonomia. Enfatizam no Art. 8 que, no cumprimento da interdisciplinaridade, as escolas devem considerar que: [...] I – a interdisciplinaridade, nas suas mais variadas formas, partirá do princípio de que todo conhecimento mantém um diálogo permanente com outros conhecimentos, que pode ser de questionamento, de negação, de complementação, de ampliação, de iluminação de aspectos não distinguidos; II – o ensino deve ir além da descrição e procurar constituir nos alunos a capacidade de analisar, explicar, prever e intervir, objetivos que são mais facilmente alcançáveis se as disciplinas, integradas em áreas de conhecimento, puderem contribuir, cada uma com sua especificidade, para o estudo comum de problemas concretos, ou para o desenvolvimento de projetos de investigação e/ou de ação; III – as disciplinas escolares são recortes das áreas de conhecimentos que representam, carregam sempre um grau de arbitrariedade e não esgotam isoladamente a realidade dos fatos físicos e sociais, devendo buscar entre si interações que permitam aos alunos a compreensão mais ampla da realidade; IV – a aprendizagem é decisiva para o desenvolvimento dos alunos, e por esta razão as disciplinas devem ser didaticamente solidárias, para atingir esse objetivo, de modo que disciplinas diferentes estimulem competências comuns, e cada disciplina contribua para a constituição de diferentes capacidades, sendo indispensável buscar a complementaridade entre as disciplinas a fim de facilitar aos alunos um desenvolvimento intelectual, social e afetivo mais completo e integrado; V – a característica do ensino escolar, tal como indicada no inciso anterior, amplia significativamente a responsabilidade da escola para a constituição de identidades que integram conhecimentos, competências 44 e valores que permitam o exercício pleno da cidadania e a inserção flexível no mundo do trabalho (BRASIL, 1998d, p. 3-4). Seguida da aprovação das DCNEM, o MEC apresenta para a comunidade escolar os PCNEM, sem pretensão normativa (BRASIL, 2000a, p. 4 - 6) e com objetivo de auxiliar professores de Ensino Médio a refletir sobre a prática educativa, a reforma curricular, além de estabelecer um diálogo com os demais educadores que atuam na escola. Nas DCNEM/98 a interdisciplinaridade é apresentada com maior ênfase, destacando que “deve ir além da mera justaposição de disciplinas” e que “poderá ser uma prática pedagógica e didática adequada aos objetivos do Ensino Médio”, que a interdisciplinaridade se configura pela “interação e negociações recíprocas entre as disciplinas” e que esta supõe um “eixo integrador e que deve partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos”, (BRASIL, 1999, p.88). Para o MEC, os documentos servirão de estímulo e apoio à reflexão sobre a prática diária do professor, o planejamento das aulas como também no desenvolvimento do currículo escolar, na qual a organização por áreas de conhecimento tem como finalidade de promover a integração entre os conteúdos numa perspectiva de interdisciplinaridade e contextualização (BRASIL, 1999, p.18). A reformulação do ensino médio procurou atender a uma reconhecida necessidade de atualização da educação brasileira, por estas razões os PCN do Ensino Médio (PCNEM) foram organizados com base em três áreas do conhecimento — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias — e não por disciplinas como nos PCN do Ensino Fundamental (BRASIL, 1998a; 1998b; 1998c). [...] partindo de princípios definidos na LDB, o Ministério da Educação, num trabalho conjunto com educadores de todo o País, chegou a um novo perfil para o currículo, apoiado em competências básicas para a inserção de nossos jovens na vida adulta. [...] Estes Parâmetros cumprem o duplo papel de difundir os princípios da reforma curricular e orientar o professor, na busca de novas abordagens e metodologias (BRASIL, 2000a, p. 4). 45 A interdisciplinaridade também se faz presentes nas orientações contidas na Resolução CNE/CP nº 01, 2002, p.31 (grifo nosso). Art. 6º, inciso III, acerca do que será considerado na construção do projeto pedagógico dos cursos de formação de professores “as competências referentes ao domínio dos conteúdos a serem socializados aos seus significados em diferentes contextos e sua articulação interdisciplinar”. • Art.11, inciso III, acerca dos critérios de organização da matriz curricular, expressas em eixos, onde há dimensões a serem contempladas como “o eixo articulador entre disciplinaridade e interdisciplinaridade”. • Art.13 “Em tempo e espaço curricular específico, a dimensão prática transcenderá o estágio e terá como finalidade promover a articulação das diferentes práticas, numa perspectiva interdisciplinar”. • Art.14, parágrafo 1º, acerca da flexibilidade necessária às instituições na construção de projetos inovadores integrados aos eixos articuladores das Diretrizes “A flexibilidade abrangerá as dimensões teóricas e práticas de interdisciplinaridade, dos conhecimentos a serem ensinados, dos que fundamentam a ação pedagógica, da formação comum e específica”. O Novo Ensino Médio, vislumbrado pelas Normativas Educacionais, deixa de ser, portanto simplesmente preparatório para o ensino superior ou estritamente profissionalizante, para assumir necessariamente a responsabilidade de completar a educação básica, isso significa preparar para a vida, qualificar para a cidadania e capacitar para o aprendizado permanente, em eventual prosseguimento dos estudos ou diretamente no mundo do trabalho (BRASIL, 2000a; 2000b). [...] A intenção de completar a formação geral do estudante nessa fase implica, entretanto, uma ação articulada, no interior de cada área e no conjunto das áreas. Essa ação articulada não é compatível com um trabalho solitário, definido independentemente no interior de cada disciplina, como acontecia no antigo ensino de segundo grau – no qual se pressupunha outra etapa formativa na qual os saberes se interligariam e, eventualmente, ganhariam sentido. Agora, a articulação e o sentido dos conhecimentos devem ser garantidos já no ensino médio [...] (BRASIL 2000a, p.9). A interdisciplinaridade aparece nos PCNEM articulada à contextualização e ao desenvolvimento de habilidades e competências que são facilitadas por meio da integração entre os diferentes conhecimentos das áreas e entre as áreas, na intencionalidade de dar significado ao conhecimento escolar. 46 Tínhamos um ensino descontextualizado, compartimentalizado e baseado no acúmulo de informações. Ao contrário disso, buscamos dar significado ao conhecimento escolar, mediante a contextualização; evitar a compartimentalização, mediante a interdisciplinaridade; e incentivar o raciocínio e a capacidade de aprender (BRASIL, 2000a, p. 4). Os documentos orientam ainda, quanto à escolha dos assuntos a serem abordados na organização curricular por área de conhecimento como na possibilidade da integração das diferentes áreas. Os assuntos devem ser propostos e tratados desde uma compreensão global, articulando as competências que serão desenvolvidas em cada disciplina e no conjunto de disciplinas, em cada área e no conjunto das áreas. Mesmo dentro de cada disciplina, uma perspectiva mais abrangente pode transbordar os limites disciplinares (BRASIL, 2000b, p. 9) Estes documentos propõem a interdisciplinaridade como instrumento de interconexões entre as disciplinas, sem anular ou sobrepor, mas favorecer uma “[...] abordagem relacional, em que se propõe que, por meio da prática escolar, sejam estabelecidas interconexões e passagens entre os conhecimentos através de relações de complementaridade, convergência ou divergência” (BRASIL, 2000a, p. 21). Dando continuidade a investigação sobre os pressupostos teóricos contidos nos PCNEM, observamos que a interdisciplinaridade pode ser compreendia como uma prática que possibilita o diálogo, que estabelece conexões entre os diferentes saberes e disciplinas, além da contextualização da realidade. A interdisciplinaridade deve ir além da mera justaposição de disciplinas e, ao mesmo tempo, evitar a diluição delas em generalidades. De fato, será principalmente na possibilidade de relacionar as disciplinas em atividades, ou projetos de estudo, pesquisa e ação, que a interdisciplinaridade poderá ser uma prática pedagógica e didática adequada aos objetivos do Ensino Médio. [...] A interdisciplinaridade também está envolvida quando os sujeitos que conhecem, ensinam e aprendem sentem necessidade de procedimentos que, numa única visão disciplinar, podem parecer heterodoxos, mas fazem sentido quando chamados a dar conta de temas complexos (BRASIL, 2000a, p. 75). O que se evidencia, no entanto, é que a interdisciplinaridade recomendada nos PCNEM (BRASIL, 2000a; 2000b) não nega o conhecimento disciplinar, tão pouco pretende anular ou desmerecer o conhecimento específico de cada 47 disciplina e não se baseia na mera justaposição dos saberes que possam vir a simplificar o conhecimento escolar. [...] A interdisciplinaridade não dilui as disciplinas, ao contrário, mantém sua individualidade. Mas integra as disciplinas a partir da compreensão das múltiplas causas ou fatores que intervêm sobre a realidade e trabalha todas as linguagens necessárias para a constituição de conhecimentos, comunicação e negociação de significados e registro sistemático de resultados (BRASIL, 2000a, p. 76). Ao contrário, os documentos sugerem que o currículo do Ensino Médio seja organizado de modo que se desenvolvam conhecimentos de forma contextualizada e que os conceitos científicos faça sentido e possibilite uma aprendizagem significativa (MOREIRA, 2012) e conteúdos escolares sejam: “[...] práticos, contextualizados, que respondam às necessidades da vida contemporânea, e o desenvolvimento de conhecimentos mais amplos e abstratos, que correspondam a uma cultura geral e a uma visão de mundo” (BRASIL, 2000b, p. 6). Outro ponto relevante presente nos PCNEM se refere à interdisciplinaridade ir além da simples integração de conteúdos, mas deve partir de uma necessidade, jamais por uma determinação de Lei ou imposição arbitrária. [...] supõe um eixo integrador, que pode ser o objeto de conhecimento, um projeto de investigação, um plano de intervenção. Nesse sentido, ela deve partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários (BRASIL, 2000ª, p. 76, grifo nosso). Na intensão de complementar os PCNEM, em 2002, o MEC publica os PCN+ do Ensino Médio. O presente documento contém as orientações educacionais complementares aos PCNEM e, igual a estes, subdividem-se em três áreas: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias (BRASIL, 2002a). E como propósito dessa pesquisa, verificamos como a interdisciplinaridade se apresenta neste documento. Os PCN+EM tem claro o propósito de contribuir para a efetivação das reformas educacionais propostas pela LDBEN Nº 9.394 (BRASIL, 1996) e pelas DCNEM (BRASIL, 1998d), além disso detalham as intensões contidas, em especial, nos 48 PCNEM (BRASIL, 2000a; 2000b), pois se configuram como orientações complementares. Dentre os objetivos propostos pelos PCN+ do Ensino Médio, podemos inferir que o principal é auxiliar a organização do trabalho da escola, na organização curricular nas áreas de conhecimento. Para que isso possa consolidar-se, o documento menciona que: [...] a articulação das competências gerais que se deseja promover com os conhecimentos disciplinares é apresentar um conjunto de sugestões de práticas educativas e de organização dos currículos que, coerente com tal articulação, estabelece temas estruturadores (BRASIL, 2002a, p. 7). Da mesma forma que os PCNEM (BRASIL, 2000a; 2000b), os PCN+ buscam reforçar a nova identidade do Ensino Médio, como etapa final da Educação Básica, deliberada pela LDBEN Nº 9.394 (BRASIL, 1996) e pelas DCNEM (BRASIL, 1998d). Destacam que a organização da aprendizagem nessa nova compreensão do Ensino Médio e da Educação Básica não deve ser feita isoladamente. Evidenciamos neste estudo, que tanto os PCNEM quanto as orientações complementares contidas nos PCN+EM destacam uma estreita relação entre a contextualização e a articulação dos conhecimentos escolares. Coma a provação do Decreto nº 5.154/2004 (BRASIL, 2004) que regulamenta os artigos 36 a 41 da Lei 9.394/96, destaca a integração dos saberes de forma iminente e desafia os educadores, independente de sua formação, organizar as propostas curriculares seguindo os pressupostos da integração. Ainda reportando sobre o ensino interdisciplinar presentes em documentos oficiais, abordamos também as Orientações Curriculares para o Ensino Médio (OCNEM), publicadas no ano de 2006. As OCNEM (BRASIL, 2006) referem-se ao conjunto de orientações curriculares elaboradas para contribuir com o diálogo entre professor e escola acerca da prática docente, procurando garantir a articulação entre as áreas do conhecimento. Conforme o documento citado, a proposição das Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio (DCNEM) não foi suficiente para definir uma nova organização para o Ensino Médio, de modo a estabelecer lacunas entre Ensino Médio 49 idealizado pelas DCNEM e o ensino real praticado efetivamente nas escolas, que “terminaram por parecer inatingíveis e impraticáveis”. Como descrito nas OCNEM à proposta foi desenvolvida a partir da necessidade evidenciada em encontros e debates com os gestores das Secretarias Estaduais de Educação e aqueles que, nas Universidades, vêm pesquisando e discutindo questões relativas ao ensino das diferentes disciplinas. A demanda, segundo o documento, era pela retomada da discussão dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, não apenas aprofundar os pontos que careciam de esclarecimentos, mas de apontar e desenvolver indicativos que pudessem “oferecer alternativas didáticas pedagógicas para a organização do trabalho docente, a fim de atender às necessidades e às expectativas das escolas e dos professores na estruturação do currículo para o ensino médio” (BRASIL, 2006, p. 8). O MEC instituiu grupos de trabalho coordenados por especialistas de diferentes áreas, com o objetivo de analisar os PCNEM e PCN+. A partir das análises e apontamentos mencionados pelo grupo, foram propostos encaminhamentos para elaboração e publicação das OCNEM em 2006, as quais buscam explicar melhor as intencionalidades dos documentos anteriores e contribuir para mudanças na prática docente. As OCNEM, em linhas gerais, seguem a estrutura dos PCNEM e PCN+ (BRASIL, 2000a; 2000b; 2002a). Ou seja, são constituídas por volumes, permanecendo a divisão das três áreas de conhecimento: Linguagem, Códigos e suas Tecnologias; Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias; e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Com relação à perspectiva interdisciplinar, as OCNEM destacam que a interdisciplinaridade não acontece somente por “força da lei ou pela vontade do professor, do diretor ou do coordenador pedagógico” (BRASIL, 2006, p. 37), em vista disso, apontam ações que devem ser seguidas para que seja efetiva a participação dos docentes na implementação curricular que vise a interdisciplinaridade. [...] A interdisciplinaridade só é possível em um ambiente de colaboração entre os professores, o que exige conhecimento, confiança e entrosamento da equipe, e, ainda, tempo disponível para que isso aconteça. Daí a importância do projeto pedagógico da escola, que deve prever tempo, espaço e horários de atividades dos professores para 50 que um programa de interdisciplinaridade possa ocorrer. Não se deve, também, esperar que a interdisciplinaridade aflore por si só, sem que haja um movimento para isso e independentemente do contexto das disciplinas. Cada disciplina possui características e assuntos que lhe permitirão conexões com outras disciplinas com maior ou menor facilidade. (IBID, 2006, p. 37) Pelas orientações contidas nas OCNEM, se evidencia a importância da participação efetiva dos professores nas discussões acerca das reestruturações curriculares para o desenvolvimento da interdisciplinaridade no processo de ensino-aprendizagem, além de apontar para a necessidade de articulação entre as diferentes disciplinas dentro de uma mesma área, ou entre as diferentes áreas do conhecimento. Ou seja, os próprios documentos governamentais informam que a interdisciplinaridade só é possível em um ambiente de colaboração entre os professores. Exige conhecimento, confiança e entrosamento na equipe. As OCNEM destacam que para desenvolver a interdisciplinaridade nas escolas faz-se necessário que os professores sejam agentes da reconstrução curricular, sendo imprescindível a criação de espaços de planejamento coletivo, de estudos e discussões que incluam as orientações curriculares nacionais como diretrizes a serem trabalhadas no âmbito local das escolas, além disso, [...] A interdisciplinaridade supõe um projeto político pedagógico de escola bem articulado com a parceria dos gestores, sendo essencial estabelecerem relações que envolvam saberes diversificados, os dos alunos e os das disciplinas, não como mera justaposição, propiciando um conhecimento do fenômeno na sua complexidade. Reafirma-se que, no âmbito da escola, é necessário proporcionar tempo para encontros sistemáticos de professores por áreas de estudo, que contribuam para avaliar ações disciplinares e interdisciplinares, bem como para projetar novas ações, o que potencializa práticas de trabalho coletivo sobre contextos vivenciais, ou temas sociais. Sem os encontros periódicos, tais práticas tendem a permanecer como episódios isolados, sem romper com a fragmentação e a linearidade da organização curricular (BRASIL, 2006, p. 133). Tendo como base as orientações das OCNEM (BRASIL, 2006, p. 38), é possível inferir que a interdisciplinaridade, pode se estabelecer no contexto escolar sem imposição de Lei, “todavia carece de intervenção política pública educacional, tanto para a organização curricular quanto para a formação de professores”, além do mais deve ser buscado o diálogo entre os conhecimentos existentes 51 entre as distintas disciplinas que compõem a área de conhecimento para que sejam possibilitadas novas aprendizagens e ressignificação de conceitos. Dentro das abordagens contidas nas OCNEM, está o alerta para que a interdisciplinaridade não seja confundida como oposição às disciplinas, ou reduzida a um trabalho ou projeto coletivo, “sabe-se que cada disciplina científica possui enfoques particulares, recortes dessa natureza que conduzem a uma organização de saberes padronizados passíveis de serem comunicados”. Nesta perspectiva, conforme o documento oficial, “a interdisciplinaridade não significa a busca de uma unificação de saberes”, pois considera que isso “seria negar aspectos históricos e epistemológicos da constituição desse conhecimento e refutar as características particulares das áreas como a Física, a Química e a Biologia” (IDEM, 2006 p. 51). As OCNEM de um modo geral, no que se refere à prática interdisciplinar, evidencia a necessidade da participação de todos os agentes escolares e a dialogicidade entre os diferentes conhecimentos por meio dos conteúdos escolares. As orientações ainda sinalizam que as modificações na prática docente dependem da participação dos professores em suas áreas de ensino, de modo que a i